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69 facadas
por Julio Cesar Corrêa

O Waldir era um cara chato. Não um chato pequeno que nos faz lembrar um final de semana chuvoso. Nem um chato médio, tipo “dor de dente na hora do casamento”, mas sim um chato de enormes proporções, tipo “sofrer um acidente, engessar o corpo todo e ainda ter catapora depois”. Terrível! Era mesmo insuportável. Quase não ria, só andava de terno, só usava frases-feitas e isso sem falar no seu talento para falar coisas erradas nas horas erradas.

Não foi por outro motivo que sua mulher arranjou um amante. Waldir descobriu e a matou com sessenta e nove facadas. Só mesmo um assassino muuuuuito chato chegaria ao cúmulo de contar um a um os seus golpes. E mais: na delegacia ainda falou que havia conferido tudo depois. Ninguém merece!

Para os habitantes daquela pequena cidade, no interior de Minas, sua prisão foi um grande alívio. Mas como todo bom chato, Waldir não deu sossego assim tão fácil. Não! Pelo contrário, acabou se tornando famoso em todo o mundo, pois havia batido o sangrento recorde de “facadas aplicadas em uma única pessoa” e foi indicado para o Guiness Book.

De uma hora para outra, Waldir virou o assunto do momento. Foi entrevistado pelo Jô, foi capa da Veja, apareceu na Caras e foi até contratado por uma agência de publicidade para fazer o anúncio de uma faca inoxidável, onde aparecia dizendo: “Facas INOXIBEL, recomendada por quem entende do assunto”.Mas o comercial foi retirado às pressas do ar, pois, quando ele aparecia, os telespectadores desligavam seus aparelhos, pensando se tratar de propaganda eleitoral.

Quando já estava tudo pronto para a cerimônia da inclusão do nome do infeliz no livro, ocorreram dois fatos inesperados: primeiro veio a notícia de que um psicopata americano conhecido por canibal gay, havia matado o seu parceiro com 70 facadas, para depois comê-lo – no sentido degustativo, é claro! O prefeito – que já pensava na reeleição e queria tirar o máximo de proveito da fama que o caso estava dando à cidade -, foi quem mais ficou decepcionado.

- Esses ianques querem sempre estar na frente – esbravejou – eles nunca dão chance ao terceiro mundo. É um absurdo! O recorde é nosso, uai!

Mas como americano gosta de um escândalo, o canibal confessou que havia cometido o crime com a ajuda de alguns altos funcionários da Casa Branca, da CIA e do FBI, durante um ritual gay de magia cor-de-rosa. Resultado: para que o caso fosse abafado, o psicopata foi desclassificado e enviado para um presídio no Alasca.

Depois, um grupo de feministas ainda tentou ofuscar o brilho da festa com uma manifestação em repúdio à fama que Waldir estava conseguindo. Mas o movimento acabou fracassando, pois comerciantes ligados ao prefeito, se reuniram e decidiram promover, no mesmo dia, uma arrasadora liquidação de artigos de cama, mesa & banho em um magazine.

E finalmente, quando chegou a hora, lá estava o Waldir algemado, de terno e gravata e com sua cara de repartição pública, sobre o palanque armado na praça principal. O governador estava presente. Boa parte da imprensa nacional e internacional também. Tinha banda de música tocando no coreto, desfile de colegiais, políticos e duplas caipiras. O prefeito estava radiante, ao lado da primeira dama e iniciou um inflamado e tedioso discurso, onde não faltaram socos no ar, beicinhos e gestos emocionados.

- ...Não quero julgar as razões que levaram este pobre homem a cometer um crime tão bárbaro... – dizia, diante da platéia, que já via o culpado como um herói.

Os dois representantes do Guiness, louros, gorduchos e corados, suavam em bicas, mas se esforçavam para manter o sorriso diante de tanta chateação.

Enquanto isso, o corpo da vítima estendido sobre uma mesa, para que fosse feita a recontagem das facadas, pela comissão julgadora. E tudo foi transmitido pelo microfone por uma loura de maiô e saltos-altos.

- Vamos lá, todo mundo junto! E É UMA, DUAS, TRÊS...

Apesar do calor, das moscas e do mau cheiro, o povo acompanhava animado. Na 69a, houve até queima de fogos orientais e uma explosão de aplausos calorosos, enquanto a banda tocava o hino nacional.

Waldir, então, só teria que assinar o documento que formalizaria sua entrada no Guiness. Só isso. Mas como era chato, pediu a palavra para fazer alguns agradecimentos:

- Eu gostaria de dedicar esse momento, primeiramente, aos meus pais – aplausos – e também ao nosso excelentíssimo prefeito que foi o amante da minha mulher e sem o qual esta festa não teria sido possível. Obrigado.

Foi chato. Foi muito chato.//


JULIO CESAR CORRÊA

Julio Cesar Corrêa é autor de "A arte de odiar" e mantém o blog http://jccbalaperdida.blogspot.com/.



| comentários (0)

:: abril 23, 2006 12:09 AM



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