paralelos.org
» ARQUIVO

Destaques

-   Meu Deus-Tornado
por João Filho

-   Amor
por Nelson de Oliveira

-   Minicontos do desconforto (xi-xx)
por André Machado

-   O Baile
por Jorge Cardoso

-   O óbvio ululante e eu
por Márvio dos Anjos

-   Pro Beleléu
por André Sant'Anna

-   ET de Cozinha
por Indigo

-   Iemanjá, alcatrão e areia no Posto 6
por Augusto Sales

-   Graves e poros
por Cecilia Giannetti

» ARQUIVO ATUAL



O cinema vai à literatura
por Mauro Rosso

(e a literatura se vale do cinema)

Independentemente de festas e festivais , o cinema sempre é objeto do foco, das luzes, sempre presente no imaginário e no real cotidiano de praticamente todas as pessoas no mundo. Excelente oportunidade para examinar as relações entre cinema e literatura.

“Cinema e Literatura, criações do imaginário, parceiros na construção da cultura, na era do domínio da imagem visual dividem ainda o desejo comum: fornecer o alimento indispensável à sobrevivência da fantasia, da inteligência, da crítica. E prazer.” (Beatriz Resende, PACC/UFRJ)


Eventos como a mostra que se iniciou esta semana no Sesc Santana (*) são excelentes por permitir uma reflexão sobre a sempre vigente relação literatura-cinema, com suas interseções, confluências... e divergências. Poucas formas artísticas estabelecem entre si tantas relações de sentido mútuo, ainda que sujeitas a entreveros e embates, acusações de “infidelidade autoral”, polêmicas sobre liberdades de criação, etc. -- até porque são diferenciadas as linguagens e distintos os respectivos códigos e modos de funcionamento : narrativa literária e narrativa fílmica distinguem-se e na maioria dos casos contrastam- se; são sempre difíceis as transposições de uma para o outro, pois as características intrínsecas do texto literário -- originalidades, subjetividades, entrelinhas, elaboramentos -- por princípio não encontram a mesma expressão na narrativa cinematográfica.

A par das diferenças, porém,entre a página e a tela há laços estreitos -- em forma de ‘mão e contra-mão’ : a página contém palavras que acionarão os sentidos e se transformam na mente do leitor em imagens; a tela abriga imagens em movimento que serão decodificadas pelo expectador por meio de palavras. Entre a literatura e o cinema, há um parentesco originário, diálogo que se acentuou sobremaneira após a intermediação dos processos tecnológicos. Assim, a enorme e expressiva influência da literatura sobre o cinema tem sua contrapartida, por meio de um ‘cinema interior ou mental’ sobre a literatura e as artes em geral, mesmo em uma época precedente ao advento dos artefatos técnicos.

Optando pela modalidade narrativa, o cinema roubou da literatura parte significativa da tarefa de contar histórias, tornando-se, de início, um fiel substituto do folhetim romântico. E, apesar de experimentações mais ousadas, como a "Avant-Garde" francesa da década de 1920, ou o surrealismo cinematográfico, que buscaram fugir dessa linha, a narratividade continua a ser o traço hegemônico da cinematografia.

Daí, adaptar para o cinema ou para a televisão — meios reconhecidamente ligados à cultura de massa — obras de autores como Shakeaspeare, Dostoiévski, Tolstói, Balzac, Flaubert, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, para citar apenas alguns nomes de relevo no panorama universal e nacional — equivale a trazer para as mídias o prestígio da grande arte ou, no dizer de alguns, tornar a arte erudita acessível ao grande público. Mas a adaptação de obras literárias para o cinema e, posteriormente para a televisão — meios que privilegiam a linha narrativa — também não se tem feito sem conflitos, pois as adaptações resultam sempre em empreendimentos insatisfatórios.

Não se pode negar que , principalmente em seu período clássico, o cinema tenha procurado na aproximação com a literatura uma forma de legitimar-se. E além das freqüentes adaptações de obras literárias para a tela, tornou-se prática corrente, em particular naquele período, a contratação de escritores como roteiristas. Assim é que, em Hollywood, notáveis escritores como Scott Fritzgerald, Aldous Huxley, Gore Vidal, William Faulkner, James Age e Nathanael West, dentre outros, tornaram-se os contadores de muitas histórias que comoveram o grande público e garantiram o sucesso de vários empreendimentos. Saber se tais roteiros traziam a marca da criação literária já é uma outra questão, que talvez possa ser analisada a partir da postura de alguns desses escritores-roteiristas. Faulkner, por exemplo, não fazia segredo sobre a natureza de sua atividade em Hollywood: "Faço apenas o que me dizem para fazer; é um emprego, e pronto."

***

Por outro lado e em outra vertente, ao praticarem exercícios literários, cineastas e roteiristas via de regra imprimem a suas narrativas muito mais o teor, o timbre, o ritmo, o timing fílmico -- e menos literário. E além disso,mesmo que sua estória e trama seja de ação,de movimento, costumam lidar com o onírico, o sonho , e com o psicológico -- que é, sabemos, elemento recorrente ao extremo no cinema, do expressionismo alemão a Stroheim, de Bergman a Buñuel, de Resnais a Godard. Não poderia ser de outra forma, pois são eles antes e acima de tudo pessoas do cinema.

Quase sempre nesses exercícios literários:

> a narrativa se faz em quadros, planos (longos , médios, curtos) e fotogramas , como num filme -- e qual angulações e diferentes tomadas, utilizam mudanças de foco narrativo [ de resto, recurso também comum e genericamente usado na literatura);

> a narração geralmente corre veloz, fatos se dão e são relatados quase que a galope , denota-se certo açodamento : só que no cinema a ação é rápida e a passagem de tempo ‘invisível’ para o espectador -- mas não o é para um leitor; nos escritos de cineastas, de uma seqüência chega-se a outra sem intermediações, nem explicações , contando com a imaginação do leitor;

> na maioria dos casos,os personagens são desenhados superficialmente, sem o esmero e detalhamento descritivo comum à literatura -- mas como no cinema, um retratar rápido e sumário (já que o espectador vê) como se o leitor os estivesse vendo em imagem, numa tela de cinema ou de tv, e não delineando-os na imaginação; os personagens são moldados, agem e comportam-se como atores, que são vistos na tela, prontos, sem necessitar de muita elaboração;

> assim também com as situações, fatos e com a própria ação : mesmo as reflexões e indagações que por exemplo um narrador faça, a respeito da natureza e do comportamento de personagens;

> como que a analisá-los, aparecem como que anotações geralmente feitas em meio ou à margem do texto de roteiro cinematográfico.

Ora, em literatura tudo há de ser elaborado de acordo com os métodos próprios e intrínsecos à escrita ficcional. Na maioria das vezes, o texto literário de gente do cinema carece, em sua construção, de uma ‘personalidade’ própria, ficando a meio-caminho entre o cinematográfico e o literário : entre altos e baixos, persegue uma certa ilusão de fusão de formas, meios e linguagens..

“O romance , na verdade, sempre foi uma forma literária propensa ao diálogo com outras linguagens”,ensina o professor Flávio Carneiro, da UERJ, autor de "Da matriz ao beco e depois: o cruzamento da literatura com outras formas artísticas" tomou um novo rumo, na década de 1980, com a produção de obras que “ incorporam ao universo romanesco a linguagem do cinema, da televisão”.
[Aliás, a literatura ficcional, brasileira e mesmo a estrangeira, nesse particular, exibe modernamente (ou ‘pós-modernamente’) um certo açodamento no trato das matérias tramática e narrativa; Italo Calvino vaticina: “a ficção futura tende a investir na rapidez; a narrativa é um cavalo”, tentando explicar uma atual preferência do ‘grande público’(ou ‘leitor comum’) -- esta entidade abstrata que parece cada vez mais balizar e orientar o setor editorial -- por obras que “carreguem o leitor a galope”. A velocidade do relato, a maneira avoada como se atravessa os acontecimentos -- manifestação de uma certa ‘sedução do cinema’, intensa hoje em dia -- caracterizam boa parte da produção literária do momento, resultando na adoção, entre outras nefastas consequências, de uma linguagem utilitária, pobre, desprovida de criatividade. De modo geral, a pressa, o açodamento, a atenção dispersa, a concentração inexistente no trato da matéria literária estabelecem um jogo leviano com o que se pensa equivocadamente ser ‘contemporâneo’ -- e criativo, bom, de qualidade. Não , não é.]

Tudo isso propicia um exercício de reflexão e indagação: as incursões de cineastas e de profissionais de tv na literatura podem ser bem resolvidas e bem sucedidas? O caso é que um diretor de cinema ou de tv quando vai à literatura leva com ele uma bagagem da linguagem imagética -- o ritmo, o corte abrupto, o esperar pronto entendimento do leitor, qual um espectador -- e assim comete pecados e pecadilhos marcantes (veja-se por exemplo Patrícia Melo, que de roteirista de tv impõe em seus livros uma narrativa toda cinematográfica, e ainda recebe elogios orquestrados da mídia... ). Ao contrário, um escritor que vai para o cinema -- como roteirista, quase sempre -- o faz melhor, sabe adaptar, mostra-se mais seguro, os resultados são melhores: caso de Rubem Fonseca, dos exemplos clássicos dos escritores norte-americanos com Hollywood, e ainda de Jean Louis Carrière, Dalton Trumbo no cinema europeu.

Sob essa perspectiva, é comum cineastas em incursões literárias atuarem numa espécie de contramão, na via inversa do terreno do relacionamento -- ou do embate -- literatura/cinema ; os questionamentos sobre “apropriação de obras literárias por cineastas“, ao realizar filmes, ganha outro contorno, de sinal trocado : no caso, um cineasta não pega um livro e faz um filme (e vale lembrar que para Autran Dourado “ não existe livro filmado, existe filme baseado em livro” ), mas escreve um livro com elementos e ‘cacoetes’ de filme. Sai de seu habitat original e vem para outro, mas utilizando o mesmíssimo instrumental, na vã tentativa de sintetizar o mimetismo palavra-imagem.

Desejariam cineastas e roteiristas, ao escreverem uma obra literária, responder a Stanley Kubrick -- para quem “ tudo que pode ser escrito e pensado pode ser filmado” -- provando que ‘tudo que pode ser filmado poderia ser escrito?’...


MAURO ROSSO

Mauro Rosso é ensaísta e escritor

N.E. (*) A mostra do Sesc Santana exibe nesta semana seis filmes baseados em livros e discute a relação entre literatura e cinema. Vide nota do jornal Folha de São Paulo.


(da Folha de São Paulo, terça-feira, 18 de abril de 2006)


Ciclo vê relação entre cinema e literatura

DA REPORTAGEM LOCAL

De hoje ao dia 30 de maio, o Sesc Santana realiza o ciclo "Letras, Imagens e Sons", com seis filmes nacionais recentes que foram inspirados em obras literárias.

Sempre às 19h das terças-feiras e com entrada gratuita, a mostra, com exibição em película, começa com o longa "Uma Vida em Segredo" (2002), de Suzana Amaral. Adaptado do romance homônimo de 1964 do mineiro Autran Dourado, o filme retrata a vida da jovem interiorana Biela (Sabrina Greve), que, após a morte dos pais, herda várias terras e sai do campo para morar na cidade com o primo. Nesse ambiente, a moça terá que se adaptar a uma nova vida social.
Entre os filmes, estão ainda produções conhecidas no exterior, como "Cidade de Deus" (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund, baseado no livro de Paulo Lins, e sucessos de crítica, como "Lavoura Arcaica" (2001), de Luiz Fernando Carvalho, inspirado na obra de Raduan Nassar.



| comentários (0)

:: abril 23, 2006 10:40 AM


MAURO Rosso é autor do livro São Paulo 450 anos: a cidade literária, a sair pela editora Expressão e Cultura.

Home Literatura & afins Crème de la Crème Feira Livre Modo de usar Cadastro Busca Contato