
[Colin Farrell e Salma Hayek em "Pergunte ao pó"]
Com a chegada nas próximas semanas de "Pergunte ao pó" ("Ask the dust", EUA, 2006) aos cinemas brasileiros deve crescer o interesse por Arturo Bandini, personagem central da trama.
O filme é baseado no clássico da literatura homônimo escrito por John Fante, e mostra a paixão do aspirante a escritor Bandini (Colin Farrell) pela garçonete mexicana Camilla (Salma Hayek). Enquanto ela sonha em arrumar um bom-partido para largar a vida dura, ele vive num quarto de hotel barato sonhando com a vida de escritor.
Bandini está presente não só em "Pergunte ao pó", mas também nos volumes "Espere a primavera, Bandini", "Sonhos de Bunker Hill" e "O caminho de Los Angeles". O espectador curioso pode procurar nas livrarias estes títulos antes ao depois de ver o filme.
O leitor atento vai perceber entretanto que o Arturo Bandini de "O Caminho de Los Angeles" não é, em definitivo, nem o mesmo Arturo de "Espere a Primavera, Bandini", nem de "Pergunte ao Pó" por mais que - e isto me ocorre só um tanto agora - possa se aproximar, talvez (e ainda assim com muita boa vontade de nossa parte) e tão somente do Bandini de "Sonhos de Bunker Hill".
Não obstante a liberdade artística na criação e modificação deste seu alter ego, o mínimo que esperava de John Fante, ao ler este livro, é que com ele o autor seguisse o mesmo caminho que vinha traçando sobre a vida de Bandini. Por se situar em uma fase cronologica intermediária a "Espere a Primavera" e "Pergunte ao Pó", me parecia ser a fascinante possibilidade de saber de que maneira mesmo este anti-herói se insuflou pelo desejo de ser escritor, já que isto não é dito em "Espere a Primavera, Bandini", onde temos Arturo em uma fase muito jovem de sua vida, uma criança, cuja maior preocupação é com a miséria da família e cujos únicos sonhos perpassam uma carreira como jogador de beisebol. De modo que temos um salto daí para o "Pergunte ao Pó", onde ele já trata de se estabelecer em sua profissão.
O que deveria nos trazer este ínterim, este período nebuloso entre as duas fases, na verdade apresenta um delirado e enlouquecido protagonista, um Bandini que além de não se assemelhar em nenhum momento ao Bandini que conhecemos anteriormente (até por que está edição da José Olympio saiu mais recentemente), realmente é um outro Bandini - até a sua constituição familiar é diferente: os dois irmãos mais novos citados nos outros livros não existem e nunca parecem ter existido, e surge uma irmã chamada Mona, a quem nunca se fez referência nos livros anteriores.
O Bandini de "O caminho de Los Angeles", embora mais velho que em "Espere a Primavera, Bandini", é um personagem infinitamente mais imaturo, um Bandini perverso, inconseqüente e fútil ao extremo, com delírios enlouquecidos - um completo idiota violento com sua família, agressivo gratuitamente e sem claras pretensões de vida. Tudo o que lhe apraz é perturbar sua irmã e sua mãe, duas mulheres muito religiosas, e vociferar contra Deus e contra todos, perambulando sem rumo e passando por empregos desprezíveis até se enfiar numa asquerosa fábrica de enlatados de peixes. Este Arturo Bandini lê Nietzche e sai repetindo termos que considera pomposos, pretendendo humilhar intelectualmente sua irmã que não se importa com seus achaques até o momento em que Bandini a perturba, bem como a sua mãe, o que acontece a todo momento.
A justificativa que encontro para esta diferenciação tamanha é por este se tratar do primeiro romance de Fante, no entanto só publicado anos mais tarde, quando suas obras anteriores já tinham vindo a público. O que me leva a crer que Fante não somente reinventou seu personagem mais importante desde a sua narrativa de infância, como também não se deu ao trabalho de incluir este na cronologia dos seus livros anteriores.

O caminho de Los Angeles
John Fante
José Olympio Editores
208 páginas
R$ 31,00
ALESSANDRO GARCIA
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:: abril 23, 2006 11:12 AM