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Futebol : “paixões e ódios”, desde sempre
por Mauro Rosso

O futebol, todos sabemos, surgiu no limiar do século XX no Rio de Janeiro como “uma grande novidade” , mas por ser esporte de origem inglesa logo cairia no gosto das rodas elegantes da cidade ( que na época cultivavam quase que exclusivamente o remo ) — e de imediato, por suas próprias características , despertaria paixões acirradas, não apenas entre torcedores e admiradores dos clubes então formados ( Payssandu Cricket Club, Fluminense Foot-Ball Club, The Bangu Athletic Club, etc ).

Justamente por ter vindo da “Old Albion” (assim era chamada a Inglaterra, ‘ na intimidade’, pelas elites ) , em seus primeiros anos na cidade o futebol teve um caráter restrito, praticado preponderantemente por jovens ricos e bem-nascidos — mas já no final da década de 1910 alcançava uma popularidade nunca vista. João do Rio foi o primeiro cronista a detectar a importância do jogo para a cidade , assinando com o pseudônimo de José Antonio José (um de seus ‘disfarces’ jornalísticos : com esse nome, escreveu por exemplo Memórias de um rato de hotel) uma crônica intitulada “Pall Mall Rio – Foot-ball” em O Paiz de 4 de setembro de 1916, onde vaticinava :“Tenho assistido a meetings colossais em diversos países, mergulhei no povo de diversos países, nessas grandes festas da saúde, da força e do ar. Mas absolutamente nunca eu vi o fogo , o entusiasmo, a ebriez da multidão assim .”

Na esteira de João do Rio, impressionados com a avassaladora popularidade do futebol, os intelectuais, e notadamente os escritores, se entregaram à tentação e ao desafio de interpretá-lo — e dentre eles um logo se notabilizou como o maior dos adeptos, o mais vibrante entusiasta do novo esporte, tornando-se em pouco tempo grande ideólogo do jogo, mergulhando obstinadamente na defesa apaixonada das vantagens de sua disseminação: Coelho Neto. A atração que o futebol logo exerceu sobre ele manifestou-se já em seu romance Esfinge, publicado em 1908 por Lello & Irmãos, do Porto, em que o personagem James Marian, um inglês hóspede da pensão de miss Barkley, tinha o hábito de “aos domingos, sair cedo com seu material de tênis e com roupa para o foot-ball”. E o futebol passaria a ser, a partir daí, tema omnipresente não só nas crônicas e discursos mas também -- e principalmente -- na vida pessoal de Coelho Neto.

Sócio do Fluminense, entregou-se cada vez mais à paixão -- pelo esporte e pelo clube. Tanta que, em sua casa, assegura Humberto de Campos em Diário secreto, vol. I (edições O Cruzeiro, 1954), falava-se à mesa “muito de esporte e pouco de literatura” ; tamanha paixão que chegava a assistir , no mesmo dia, quatro jogos diferentes do Fluminense, pois tinha filhos jogando em cada uma das categorias que o clube disputava ; tamanha, que o levou a liderar a primeira invasão de campo do futebol carioca, inconformado com o juiz que marcara um pênalti a favor do Flamengo num movimentado Fla-Flu no campo da rua Paissandu, e que acabou provocando a anulação do jogo .

Tamanha paixão que em 1915 escreveu a letra do primeiro hino do Fluminense [“O Fluminense é um crisol / onde apuramos a energia / ao pleno ar, ao claro sol / lutando em justas de alegria / o nosso esforço se congraça / em torno do ideal viril / de avigorar a nossa raça / do nosso Brasil ...]¬¬¬¬, onde fica evidente e bem mais nítida a campanha que ele começava a mover a favor do futebol, verdadeira fonte de energia a ser colocada a serviço do ideal nobre de regeneração da raça brasileira, “um meio de criar uma ‘nova raça’ contra uma malfadada herança cultural”. Vale observar que literatos outros, como Afrânio Peixoto -- para quem o futebol estaria “reformando, senão refazendo o caráter do Brasil ” (em “A educação nacional”, no livro Poeira de estrada, ed. Francisco Alves, 1918) -- Olavo Bilac,contagiados pelo entusiasmo e a vibração dos escritos de Coelho Neto, também entregaram-se à difusão desses ideais de culto ao corpo e defesa acalorada do esporte como ‘fator de regeneração racial’ .

No futebol, Coelho Neto via “enormes vantagens sociais” ¬¬, ajudando a criar uma sociedade na qual os homens, qual os esportistas, fossem adestrados pelo exercício físico, criando um tempo de paz e de harmonia e abrindo o peito para valores nobres de confraternização e integração social”. E os jogadores do Fluminense, para ele, assumiam a feição de verdadeiros missionários de uma causa nobre : propagando os princípios da disciplina e da solidariedade, os atletas dariam ao país grande exemplo, ajudando a consolidar o potencial transformador do futebol .Gerando harmonia e solidariedade entre os homens, controlando seus impulsos e moldando seus corpos e suas mentes na construção de um ideal de pátria, o futebol seria a força propulsora de uma nação forte e vigorosa e os jogadores representantes dessa nova nação que se erguia dos campos.

Mas teriam de enfrentar, do outro lado, a acirrada oposição de ninguém menos do que Lima Barreto, de pronto alinhada entre “os tantos inimigos que pela imprensa o combatem” e que logo passou a fazer do futebol um de seus temas prediletos nas páginas da imprensa carioca.

Com espaço e reconhecimento já assegurados nos círculos literários , com três romances e uma infinidade de crônicas, Lima inaugurou seus ataques em 15 de agosto de 1918 no artigo “Sobre o Foot-ball” no jornal Brás Cubas :

“Diabo ! A cousa é assim tão séria ? Pois um divertimento é capaz de inspirar um período tão gravemente apaixonado a um escritor ?
(...) Reatei a leitura, dizendo cá com os meus botões : isto é exceção, pois não acredito que um jogo de bola e sobretudo jogado com os pés, seja capaz de inspirar paixões e ódios. Mas , não senhor ! A cousa era a sério e o narrador da partida, mais adiante, já falava em armas ...
Não conheço os antecedentes da questão ; não quero mesmo conhecê-los ; mas não vá acontecer que simples disputas de um inocente divertimento causem tamanhas desinteligências entre as partes que venham a envolver os neutros ou mesmo os indiferentes, como eu, que sou carioca, mas não entendo nada de foot-ball .“

Lima atentava, desde o princípio, para a força social do jogo: longe de ser um mero passatempo sem sentido, era capaz de inspirar “paixões e ódios” — e o futebol adquiria para ele uma seriedade ímpar, que o obrigaria como ‘crítico de costumes’ a dedicar-se profundamente ao novo fenômeno. Transformando-se no paladino do combate ao jogo de bola, Lima elegeria justamente Coelho Neto como o principal adversário. Iniciou-se então um acirrado confronto pelas páginas da imprensa carioca , logo depois de mais um empolgante discurso de Neto, por ocasião da inauguração da piscina do Fluminense em 1919 — discurso que para Lima parecia um verdadeiro pecado, manifestado na crônica “Histrião ou literato” , na Revista Contemporânea, de 15 de fevereiro de 1919 :



“ O senhor Neto esqueceu-se da dignidade do seu nome, da grandeza da sua missão de homem de letras, para ir discursar em semelhante futilidade..
Os literatos, os grandes, sempre souberam morrer de fome, mas não rebaixaram a sua arte para simples prazer dos ricos. Os que sabiam alguma coisa de letras e tal faziam, eram os histriões; e estes nunca se sentaram nas sociedades sábias .“

Lima Barreto acusava Coelho Neto de fazer “somente brindes de sobremesa para satisfação dos ricaços “e sustentava que a simpatia de Neto pelo futebol seria mero oportunismo, um meio de agradar às ricas famílias, vindo de “um homem que não entende sequer a alma de uma criada negra”. A partir daí, Lima aumentaria nos meses seguintes a quantidade e intensidade dos ataques, passando no entanto a por vezes valer-se de fina ironia , como nos artigos “Vantagens do foot-ball” e “ Uma partida de foot-ball”, escritos para a revista Careta, respectivamente de 19 de junho de 1919 e 4 de outubro de 1919. Dos artigos , agressivos ou irônicos, de Lima Barreto surge a imagem de um jogo brutal e sem sentido, totalmente diferente do elemento de regeneração social preconizado por Coelho Neto , para desespero da imprensa carioca, quase toda ela empenhada em prestigiar o futebol — com raríssimas exceções como, por exemplo, a do jornalista e escritor Carlos Sussekind de Mendonça, que incorporou-se à luta de Lima Barreto contra o futebol, que ele considerava entre outros aspectos “micróbio de corrupção e imbecilidade”, “estrangeirismo estéril e inútil”. Propunha sobretudo combater , de todas as formas, a “nefasta defesa do futebol” feita por intelectuais e escritores — rejeitando, inclusive, qualquer teoria de que “o esporte possa manter alguma relação com a razão e o intelecto” — e denunciar as “verdadeiras atrocidades,até dentro dos próprios clubs” promovidas pelo futebol : como Lima Barreto, enfatizava o “blefe de regeneração social” contido no futebol e os malefícios “físicos, sanitários,sociais e culturais” de sua disseminação “que só pode ser bocado de feitiçaria” em campos “onde se apinham centenas de ociosos assistindo inertes, a transpirar, os vinte e dois heróis de maxambona ou caixa pregos” .Em 1921, então editor do jornal A Época, do Rio de Janeiro, Sussekind de Mendonça teve seu livro O sport está deseducando a mocidade brasileira publicado (Empresa Brasil Editorial, Rio de Janeiro),com o subtítulo “dedicado a Lima Barreto”, hoje obra raríssima.Lima Barreto viria a publicamente agradecer e fazer comentários ao livro de Sussekind no artigo“Como resposta”,em Careta, a 8 de abril de 1922.

Ainda em 1919, crescente sua oposição ao futebol , Lima Barreto passa a contar com a solidariedade de outros adversários do jogo :junto com ele, o dr. Mário de Lima Valverde — quem, cerca de dois meses antes ,discorrera para Lima sobre os malefícios à saúde provocados pela prática de futebol — o jornalista Antonio Noronha Santos e o “homem de letras” Coelho Cavalcanti resolvem criar, em março de 1919, uma “Liga Contra o Futebol”, cuja constituição é discretamente anunciada em pequena nota na edição do Rio-Jornal de 12 de março.

As aludidas “verdadeiras atrocidades promovidas pelo futebol”, eram denunciadas por Lima Barreto — como na crônica intitulada “Divertimento?”, publicada na revista Careta em 04 de dezembro de 1920,em que destacava os inúmeros conflitos e constantes brigas ocorridos nos campos, com tumultos e batalhas entre torcidas diferentes, registradas nos jornais diários a cada segunda-feira, culminando com o tiroteio num jogo entre o Metropolitano e o São Paulo e Rio em 18 de dezembro de 1920 — como atestados de que, mais do que casos isolados, seriam “ o fim próprio e natural do jogo”, como sustenta no artigo “Uma conferência esportiva”, na revista Careta de 1 de janeiro de 1921.


Por trás da contestação estava muito mais do que uma questão literária ou mera contestação do papel de redenção social que Coelho Neto atribuía ao futebol: Lima via nele um fator de degeneração da cultura e da política nacional, pois patrocinava uma injusta e gritante diferenciação social e regional, como declarou em entrevista ao Rio-Jornal em 13 de março de 1919 :“ – Está aí, uma grande desvantagem social do nosso foot-ball. Nos dias em que, para maior felicidade dos homens, todos os pensadores procuram apagar essas diferenças acidentais entre eles, no intuito de obter um mútuo e profundo entendimento entre as várias partes da humanidade, o jogo do ponta-pé propaga sua separação e o governo o subvenciona .“

Lima criticava os “favores e favorezinhos “ que os clubes de futebol recebiam do governo para “criar distinções idiotas e anti-sociais entre os brasileiros , e longe de tal jogo contribuir para o congraçamento, para uma mais forte coesão moral entre as divisões políticas da União, separa-as” : segundo ele, os clubes de futebol seriam “portadores de uma pretensão absurda, de classe, de raça, etc “. Isso porque os defensores do futebol, ainda Coelho Neto à frente, sustentavam ser “um sport que só pode ser praticado por pessoas da mesma educação e cultivo “ (jornal Sports, de 6 de agosto de 1915 ) e reclamavam “que alguns jogadores não tinham o nível social de há uns anos atrás” (Jornal do Brasil, de 3 de maio de 1920 ).

Porém, não eram apenas econômicas e sociais as distinções combatidas por Lima Barreto , mas também raciais, vedando aos negros participação nos grandes clubes de futebol : em 1921 quando o próprio presidente Epitácio Pessoa proíbe jogadores negros de fazerem parte do selecionado que ia à Argentina disputar um campeonato, Lima foi duro nas críticas , publicando no mesmo dia 1 de outubro de 1921 dois artigos — “O meu conselho” e “Bendito foot-ball” — no jornal A . B. C., onde afirma que “quando não havia foot-ball, a gente de cor podia ir representar o Brasil em qualquer parte” e aponta o caráter nocivo do futebol para o país.“ É o fardo do homem branco : surrar os negros, a fim de trabalharem para ele. O foot-ball não é assim : não surra, mas humilha, não explora, mas injuria e come as dízimas que os negros pagam .”

Vendo nos sócios dos grandes clubes os herdeiros dos antigos senhores de escravos, Lima enxerga no futebol “uma das formas de continuação da dominação exercida durante décadas pelo regime escravista, onde se troca a violência pela humilhação de quem paga impostos para sustentar, com subvenções oficiais, um jogo ao qual não tem acesso”, o futebol aparece nos textos de Lima Barreto como “ um poderoso instrumento de domínio utilizado por uma raça que se julga eleita por Deus graças às suas habilidades nos pés ; como a escravidão, sua única finalidade é criar uma separação idiota entre os brasileiros, perpetuando as desigualdades e continuando um passado de diferenciação e segregação” (artigo “O nosso esporte”, publicado no jornal A . B. C., de 26 de agosto de 1922 ).

Direta ou indiretamente, não há dúvida de que os literatos como Coelho Neto e Lima Barreto e suas polêmicas alimentavam um processo que anos depois faria do futebol , como o é hoje , uma verdadeira instituição nacional. A dinâmica da transformação do jogo em fenômeno nacional — com suas implicações sociológicas, políticas e culturais — no entanto, foi muito menos compreendida por Coelho Neto do que por Lima Barreto, que indignado com o fato de “indivíduos que não davam para nada “ serem transformados em verdadeiros “heróis nacionais”, refutava no último artigo escrito antes de morrer ( “O herói”, para a revista Careta de 18 de novembro de 1922 ) a lógica que fazia desses “pobres esforçados, que nada fazem para o benefício comum, injustas ‘glórias do Brasil’”.


O futebol continuou, ao longo do tempo, sua meteórica ascensão e disseminação entre todas as camadas e estratos, como ‘força esportiva’, ‘força social’, ‘força cultural’. Esporte mais popular, no Brasil e no mundo, seguiu sua trajetória sensibilizando escritores, artistas e intelectuais — de Graciliano Ramos, que o repudiava ("Futebol não pega, tenho certeza; estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho.", em 1919), a Orígenes Lessa e Fernando Sabino, por exemplo, que o inseriram em contos ; de Gilberto Freyre (entusiasta de primeira linha), a Mario Filho , a Anatol Rosenfeld,a Nelson Rodrigues; e de modo, forma e timbre muito especiais os modernistas de 22 e pós-22.

Prossegue o futebol,e assim será ad eternum, sempre provocando prazer e dor, polêmicas e alegrias,brigas, tumultos, conflitos, prazer,tristeza, paixões e ódios — nos campos, nos estádios, nos gramados, nas arquibancadas,nos terrenos baldios, nas várzeas, nos corações e mentes de todo o País.


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Mauro Rosso maurorosso@uol.com.br
jornalista e pesquisador de literatura brasileira, ensaísta e escritor ; autor de ‘trilogia Lima Barreto’ : "Lima Barreto e o futebol", "LB e a mulher", "LB e a política"; prepara uma edição crítica de “Contos de Lima Barreto”.
* este texto é inerente ao texto “Lima Barreto e o futebol”.



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:: julho 8, 2006 09:39 PM


MAURO Rosso é autor do livro São Paulo 450 anos: a cidade literária, a sair pela editora Expressão e Cultura.

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