Lembro de uma conversa com um colega ainda no primeiro ano da faculdade de jornalismo. Ele dizia que havia optado por esse curso porque buscava uma faculdade para escritor. Faria jornalismo ou letras. A decepção pode vir com um ou outro. A escrita é burocrática, feita a partir de uma estrutura pré-definida e do comprometimento com a realidade – a imaginação aqui é uma intrusa. Na faculdade de letras, impera a teoria – por vezes capaz de sufocar o talento criativo.
Apesar disso, achava graça da idéia de uma faculdade para escritores. Afinal, um escritor não deveria se fazer sozinho, a partir de suas experiências e do contato com as palavras? Faz sentido um escritor profissional? E para escrever, será preciso um diploma de escritor? Por outro lado, se o cineasta, o artista plástico e o músico, por exemplo, vão à faculdade, por que não o escritor? Como se vê, o tema é controverso.
No Brasil começam a surgir os primeiros cursos de nível superior para escritores, frutos de uma demanda que se evidencia, por exemplo, pela multiplicação das oficinas literárias em todo o país. Primeiro foi o Curso de Formação de Escritor, criado pelo departamento de Letras da PUC-RJ, que está com aulas desde 2005.
Agora, a Universidade do Vale do Rio dos Sinos, com sede em São Leopoldo, RS, acaba de anunciar a criação do curso de Formação de Escritores e Agentes Literários, que terá dois anos e meio de duração. O curso conta com a parceria da Câmara Rio-grandense do Livro e da Academia Brasileira de Letras – a cada semestre, dois membros da Academia darão aulas na Unisinos. Entre os professores do curso estão escritores do calibre de João Gilberto Noll, Luiz Ruffato, Moacyr Scliar, Armindo Trevisan e Cíntia Moscovich. As inscrições acontecem entre 19 de maio e 21 de junho.
O poeta Fabrício Carpinejar, coordenador do curso, concedeu essa entrevista por e-mail e explica melhor a iniciativa.

Escritor se forma na escola?
Escritor se forma dentro de si, mas é na universidade que ele pode afiar sua escrita, conviver com a opinião crítica, discernir caminhos, desenvolver a sensibilidade. Não dependerá do juízo alheio e benevolente como um mendigo. Não viverá isolado e com a covardia dos inéditos na gaveta. Terá orientação para construir seu próprio estilo.
Por que agora começam a surgir cursos como esse?
Pelo amadurecimento e necessidade dos próprios escritores. O agente literário, por exemplo, é um elo fundamental para a saúde do mercado editorial. Até hoje não havia nenhuma universidade formando esse profissional. As editoras e os autores dependem do agente para prolongar e aperfeiçoar suas atividades.
Não há aí o risco de ocorrer uma pasteurização dos novos autores – que acabariam aderindo a métodos similares?
Acredito que uma oficina, com único autor, pode incorrer numa tendência de escrever. Mas não um curso com diferentes oficinas, escritores e visões de mundo.
Além da escrita criativa, nossa preocupação é combinar a criação com a leitura. Antonio Candido já notava a ausência psicológica do leitor como uma das dificuldades de nossa literatura. O curso prevê três programas de aprendizagem, que abordam a formação do público leitor. Práticas de linguagem e mídia, que é capacidade de entender os processos de leitura, de significação e de mídia; Leitura da Tradição, uma imersão nos clássicos e nas referências contemporâneas, e Leitura do Mundo, cruzamento de diferentes áreas para o conhecimento sensível da história. Os contadores de história serão trabalhados ao longo das aulas. Porque a leitura oral seduz para a leitura silenciosa. Um silêncio deve transportar muitas vozes antes de se começar a leitura. O livro é um teatro de mãos.
Fale sobre o processo seletivo.
Acontece em duas etapas. A primeira é o vestibular em 24/6, com redação diferenciada e cinco questões discursivas (quem tem mais de 25 anos, pode optar em fazer só a redação). A segunda etapa em 27/6 é um jogo literário, um processo lúdico para descobrir a criatividade, a coerência e o talento do candidato.
Que diploma terá o aluno formado por essa escola? Que funções pode ele exercer a partir daí?
Diploma de escritor e de agente literário. Poderá trabalhar nos mais diversos campos de atuação, como editoras, empresas de comunicação e de cultura, produtoras de materiais para o mundo digital, agências editoriais, órgãos públicos e privados interessados na cultura, além de poder atuar de forma autônoma, na criação de textos, na revisão, no copidesque, na formulação de projetos. Estará apto para atuar como organizador de livros, incluindo os didáticos dentro de sua especialidade. Receberá capacitação para empreender seu negócio ou trabalho autoral e para participar de projetos que envolvam serviços e produtos na área da literatura e da cultura.
É justificado o temor de uma restrição à atividade de escritor àqueles que freqüentarem o curso?
Não estaremos restringindo, o curso trata de justamente ampliar as possibilidades. Trataremos de cumprir as especificidades da escrita. Se o estudante é um médico e quer apenas escrever um livro técnico para sua área da melhor forma possível ou se ele é um advogado e gostaria de aperfeiçoar sua linguagem para uma obra jurídica, o curso abarca essas possibilidades. Ele deixará a sala de aula com mais do que queria ou precisava. O excedente é assegurar possibilidades de escolha, o excedente é ampliar as vivências.
O que a universidade ganha com a criação desses cursos?
Acho que a pergunta pode ser invertida: o que o aluno ganha? São cursos que exploram a inventividade, aguçam o espírito crítico, renovam a tradição e formalizam práticas e necessidades do mercado. A Unisinos está transformando vocações em profissões. Se alguém queria ser cineasta e pensava que não teria condições de sobreviver, agora tem uma universidade para ajudá-lo na decisão e habilitá-lo na área. Se um filho gostaria de ser escritor, não precisa mais discutir com os pais a sua sustentabilidade futura, encontrará no campus um jeito de convencer a família que nasceu para linguagem.
Quais os diferenciais desse curso em relação ao que já existe no Rio de Janeiro?
O curso da PUC-RJ é mais centrado no curso de Letras, montamos uma proposta que pudesse ser menos perfil de licenciatura e mais de criação. E a grande diferença é a formação de agentes literários. Um escritor que conhece os fundamentos e a atuação de um agente terá muito mais compreensão do seu próprio ofício. Um agente que conheça o universo autoral encontrará maior facilidade para trabalhar pelo livro.
O curso da Unisinos apresenta uma preocupação em orientar o escritor em relação ao mercado. Essa deve ser uma preocupação do escritor? Não haverá já escritores mais preocupados com o mercado que com o desenvolvimento de um bom trabalho?
O mercado não vai produzir os trabalhos, não é sua atribuição, a universidade vai mediar a formação de autores para o mercado, que é bem diferente. Nenhum escritor escreve para sua família, senão se contentaria com o diário. O que é mercadológico pode ser acadêmico, e vice-versa. Ou vão dizer que o escritor não está no mercado, ele não precisa vender livros? E o agente literário, não depende de clientes para estabelecer seu trabalho? Há uma idealização romântica que apenas distancia e isola as pessoas de sua arte e do convívio. A universidade qualificará autores. Mas ser escritor é uma decisão pessoal. Oferecemos a estrutura e técnicas possíveis para que ela construa sua identidade e estilo. Quem faz o curso de filosofia não sai filósofo, filósofo depende da elaboração de uma teoria particular e de uma visão de mundo. O mesmo acontece na literatura: escritor é merecimento e diferença. Um curso como o da Unisinos acaba com o isolamento e o alheamento, desenvolve oficinas e workshops com grandes escritores, promove o diálogo de diferentes frentes e pontos de vista. No mínimo, o aluno se torna um leitor qualificado e sensível. Vai pesar o mundo com seus olhos.
Quais são os modelos para a criação do curso?
As universidades americanas há muito tempo já contam com o desenvolvimento de escrita criativa.
Como funciona a estrutura curricular? Todos os alunos cursarão todos os módulos?
Sim, os cinco módulos acontecem simultaneamente e de modo complementar. Todos os alunos cursarão Práticas de Linguagem e Mídia, Escrita Criativa, Agenciamento, Leitura da Tradição e Leitura do Mundo ao longo de cinco semestres (2 anos e meio).
O Paulo Coelho, sendo um imortal da Academia Brasileira de Letras, será convidado a dar aulas no curso?
Por que não? Não é um curso excludente. Em sala de aula, teremos espaço para discutir o best-seller ou o livro didático. Cultura não se faz segregando, mas compreendendo fenômenos.
Como está a procura pelo curso? Quem são as pessoas que procuram o curso?
Dezenas de interessados enviam mensagens entusiasmadas com a possibilidade de cursar a prática de literatura, mesmo antes das inscrições iniciarem.
O que os candidatos podem esperar do curso?
Literatura não é como categorias de base de futebol, que revelam jogadores. Quero que os escritores, eles próprios, se revelem no curso, encontrem sua pontuação e respiração, seu jeito de falar as vivências, e ampliar modos de se perceber o cotidiano. Quero que os escritores não sintam fobia e medo de conseguir seu sustento, que não assinem mais contratos em branco, que aprendam seus direitos e deveres, que tenham uma responsabilidade com aquilo que desejam e escrevem, que se aproximem do leitor sem pensar que isso é auto-ajuda, que se aproximem do leitor para entender melhor quem são. Quero que os agentes literários sejam valorizados e possam ajudar tanto as editoras como os autores a crescer profissionalmente.
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:: julho 8, 2006 11:11 PM