- O senhor vai levar esta arca?
Olho para a cômoda no canto da sala, uma espécie de étager de madeira escura que não combina com o piso claro do apartamento novo. A pergunta da mudança ecoa na minha cabeça permanecendo sem resposta. Enquanto percorremos o apartamento o rapaz anota cada item que vamos ou não levar. A mesa da sala definitivamente fica, decidimos. O armário do quarto também. Incrível como hoje, quando as transportadoras são chamadas de empresas de logística, é muito mais cômodo fazer mudar de uma casa para outra.
O rapaz continua a narrar detalhadamente o processo de empacotamento de cada móvel, livros, roupas etc. Sua voz vai sumindo... Vejo o garoto deixando o ‘outro lado’ do Méier, uma casa de telhas francesas de barro, para um apartamento próximo à Dias da Cruz, artéria que corta o tradicional subúrbio carioca onde vivi parte da minha infância. De lá já morei ou passei temporada em lugares como Tijuca, Botafogo e Leme no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Londres e Nova York.
It's easier to leave than to be left behind. Discordo de Michael Stipe. Destas localidades carrego pedaços de lembranças do que fui, das pessoas que convivi e das coisas que testemunhei. Esta existência fragmentada geograficamente perfaz o todo do que hoje sou. “Não seria o escritor que sou sem os anos que vivi na Europa” – expôs há alguns dias o escritor peruano Vargas Llosa. De fato a condição de esquartejado em referências contribui para o sujeito se tornar mais flexível em relação aos outros e em relação às condições do meio que está inserido. Por outro lado, pode torná-lo desassossegado, itinerante, viciado na mudança, inquieto.
Já ouvi dizer que as pessoas são o que comem. Pode ser. Entretanto somos muito mais o resultado das nossas experiências e do que vemos. Inevitavelmente morar em um só lugar a vida toda, a mesma rua, a mesma circunvizinhança, o mesmo círculo de amigos, as mesmas influências, é muito mais seguro e menos doloroso do que a partida, o trauma da adaptação e os riscos que o novo sempre representa.
Distraído e encharcado de melancolia, a bílis negra, e ao mesmo tempo ansioso pelos dias que estão por vir no apartamento novo em Larajeiras, bairro que acolhe o escritor Sérgio Sant’Anna, não percebo o rapaz da mudança insistir:
- E a arca, senhor, ela vai ou não vai?
AUGUSTO SALES
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:: julho 9, 2006 04:09 PM