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Meu raio verde
por Julio Cortázar

Tradução: Cassiano Viana


Porque O raio verde, novela pouco lida de meu mestre e xará, me contou aos nove anos que se olhássemos o pôr-do-sol em um horizonte marinho, se o céu é diáfano e se no último momento não atravessa uma vela de barco, uma revoada de pássaros ou uma nuvenzinha caprichosa, com o último segmento incandescente afundando-se na linha do azul veremos surgir um instantâneo e prodigioso raio verde.

Eu vivia muito longe do mar e o sol de minha infância se punha entre alambrados, casas de ladrilhos e salgueiros chorões. Subindo a louça de minha casa esperei ingenuamente o milagre do raio verde, e vi apenas fracas antenas de rádio; quando vinte anos depois comecei a cruzar o Atlântico e o Pacífico, muitos entardeceres me vieram espreitar algo que nunca de realizou ainda que as condições parecessem, impecáveis, e como ocorre na mal chamada maturidade, perdi a fé no raio verde e no visionário que me havia descrito e de alguma maneira prometido.

Ontem, do mirante do aqueduto Luis Salvador, olhei uma vez mais o sol afundar no mar. Um amigo mencionou o raio verde, e sofri antecipadamente pelas crianças presentes que o esperaram com a mesma ansiedade que eu o havia desejado em meu absurdo horizonte suburbano, agora seria pior, agora as condições estavam dadas e não haveria raio verde, os pais justificariam de qualquer maneira o fiasco tentando consolar aos pequenos; a vida – assim a chamam – marcaria outro ponto em seu caminho até o conformismo. Do sol ficava um último, frágil segmento alaranjado. O vimos desaparecer por trás da perfeita beira do mar, envolto no halo que ainda duraria alguns minutos. E então surgiu o raio verde, não era um raio sem um fulgor, uma faísca instantânea em um ponto como de fusão alquímica, de solução heracliteana de elementos. Era uma faísca intensamente verde, era um raio verde ainda que não fosse um raio, era um raio verde, era Julio Verne murmurando-me ao ouvido: “O viste enfim, grande tonto?”

Um poeta romântico escreveria isto melhor, don Gaspar ou Shelley. Eles viviam em um sonho diurno, e o realizavam em seus poemas. A flor azul de Novalis, a urna grega de John Keats, o perfil dos deuses de Holderlin. Meu raio verde se volta ao nada no mesmo instante que o digo; mas era ele, era tão verde, era enfim meu raio verde. De alguma maneira soube ontem, que muito do que defendo e que outros crêem quiméricos está aí em um horizonte de tempo futuro, e que outros olhos o verão também um dia.


JULIO CORTÁZAR



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:: agosto 28, 2006 07:31 PM



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