Trechos da Biografia, por Cassiano Viana e Susan Blum. Exclusivo para Paralelos.
Certa madrugada, Carol despertou e Julio não estava na cama. O encontrou desmaiado no chão, um mar de sangue, os olhos fechados, a barba vermelha. Em poucos minutos, uma ambulância o levara para o hospital.
“Passei dias infernais com todo tipo de tubos e sondas; deram-me mais de trinta litros de sangue (isso, para alguém que freqüenta a vampirologia, não é lá tão ruim, pois não creio que Drácula tenha bebido o sangue de trinta pessoas diferentes em cinco dias, isso dito com todo meu respeito ao Conde), daí passei para um quarto menos penoso, onde pouco a pouco fui saindo do inferno, ao longo de três semanas. Agora termino de repor-me em casa de amigos, e ainda é preciso fazer controles e passar uma vez ou outra pelo hospital; sinto que já deixei todo perigo para trás”.
Apenas Carol e os médicos sabiam que aquilo era mais que uma simples hemorragia produzida por um consumo excessivo de aspirinas. O diagnóstico do hematologista foi categórico: Cortázar padecia de leucemia mielóide crônica.
Começava assim, o lento caminho até o fim.
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De volta a Paris, em dezembro de 1981, foi finalmente estabelecido o casamento Cortázar-Dunlop. “Depois de quase quatro anos vivendo juntos e de havermos passado por todas as provas que isso supõe em muitos planos, estamos seguros de nosso carinho e me sinto muito feliz de normalizar uma situação que algum dia será útil para o destino de Carol”, escreve Julio para sua mãe.
Apesar de aproximar-se dos sessenta e oito anos, o espírito infantil de Cortázar não se apagava. Em algumas tardes se trancava em seu ateliê para brincar e armar móbiles, outras vezes aparecia disfarçado com os caninos vampirescos e as unhas pintadas de negro. Corria então atrás de Carol por toda a casa e não se contentava até que a tinha em seus braços e podia morder-lhe o pescoço.
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A brincadeira mais extravagante chegou em maio de 1982, quando junto a Carol organizou uma viagem cujo único objetivo era o de escrever um livro sobre a experiência. Estabelecendo uma série de regras e rotinas, a proposta era embarcar em um treiller-caminhonete que haviam comprado e fazer a viagem Paris-Marselha através da Autopista do Sul, parando todos os dias em um dos estacionamentos, num total de setenta. Parariam para escrever, desenhar, ler ou simplesmente dormir um pouco debaixo de alguma árvore, tentando perceber, naqueles lugares, o que geralmente passa despercebido para o turista comum.
As regras do jogo consistiam em que em nenhum momento poderiam sair da autopista, de modo que alguns amigos lhe levariam provisões e outros estariam preparados com antecipação para qualquer imprevisto.
Em uma dessas paradas, escreveu a um amigo: “Já passamos por dez parkings e do décimo te escrevo. A moral é alta, a saúde também. Na maioria dos casos encontramos lugares secretos no fundo dos bosques que os outros turistas, sempre convencionais, parecem temer, pois que ficam amontoados próximos dos banheiros e dos cestos de lixo, ansiosos em devorar seus malditos sanduíches, soltar cinco minutos os pequenos e os cachorros (que, eles sim, vem nos visitar-nos como cúmplices furtivos e cordiais) e igual aos caminhões e os autocars, lançar-se de novo na autopista como leucócitos em uma veia”.
A idéia do casal era que o resultado da viagem fosse um livro em colaboração onde se parodiasse as velhas estórias de viagens ao pólo ou à África, satirizando o ar científico dessas publicações e recolhendo material para futuros contos. A viagem durou trinta e três dias. Chegaram a Marselha cansados, porém satisfeitos. Nenhum dos dois sabia que o que havia começado como um jogo idealizado por um amor apaixonado e criativo, teria após algum tempo o significado de uma despedida.
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Poucas semanas antes de completar os dois meses previstos para a estadia [na Nicarágua], Carol começou a sentir uma dor forte nos ossos que os obrigaram a trocar de planos. Stéphan [filho de Carol] retornou ao Canadá e o casal viajou imediatamente para Paris. No Hospital St. Louis descobriram que um vírus estava afetando a produção de glóbulos brancos e plaquetas de Carol, que foi internada e assim teve iniciou um longo tratamento que se estendeu durante setenta dias.
Essas semanas de tristeza consumiram Cortázar. O tempo transcorria e não se evidenciava nenhuma melhora. Os médicos propuseram um transplante de medula. Os amigos de Cortázar, Aurora, que estava ao seu lado, e ele mesmo se ofereceram como doadores, mas os médicos não conseguiam encontrar compatibilidade.
Apesar de sua força de vontade e as esperanças que mantiveram até o último dia, em 2 de novembro de 1982, Carol “se foi como um fiozinho entre os dedos. (...) Se foi docemente, como era ela, e eu estive ao seu lado até o fim, os dois apenas na sala do hospital onde passou dois meses, onde tudo resultou inútil. Até o final esteve segura de que melhoraria, e eu também, mas nos últimos dias somente ela, por sorte, conservou sua esperança que eu havia perdido depois de falar com os médicos. De nenhuma maneira o dei a entender, a acompanhei como se nada tivesse mudado, e nas últimas horas consegui que já ninguém entrasse para molestá-la e fiquei ao seu lado, cuidando, até que o ultimo calmante que lhe haviam dado foi adormecendo-a pouco a pouco”, escreve Cortázar em uma carta.
Luis Tomasello construiu a tumba no cemitério de Montparnasse, Julio Silva desenhou a escultura que a adorna: um círculo sobre outro, flores ou talvez cronópios subindo uma escada.
Frente a ela, deprimido, cansado, repentinamente velho, chorava um homem que padecia sem saber sua própria enfermidade. Um homem que, em sua solidão e com a dor de um amor perdido, intuía que o fim estava próximo.
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Aurora o visitava freqüentemente. Os amigos perambulavam pela casa tentando levantar-lhe o ânimo. Conversavam sobre jazz, sobre lutas de boxe e de tempos em tempos lhe narravam algum episódio fantástico ou lhe asseguravam: haviam visto um vampiro. Julio se interessava um pouco; mas tudo tinha jeito de despedida. Abatido e triste, Cortázar redigiu um testamento onde todos seus bens e metade dos direitos autorais, ficavam para Aurora Bernárdez.
“Inútil te dizer que tenho a intenção de viver tudo o que possa – disse numa carta -. Mas se vive melhor quando se tem as coisas e as camisas bem arrumadas”.
Para um homem que havia vivido a literatura como uma presença tangível, despedir-se dela foi uma das primeiras contas saldadas.
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A proximidade da morte não emperrou as atividade de um homem que, ainda que resignado, estava decidido a aproveitar até o último minuto de vida. De volta a Paris, enquanto preparava Salvo el crepúsculo (1993), onde reunia todas as poesias que havia escrito e que seriam publicadas de forma póstuma, se ocupava de terminar o livro que havia começado a escrever com Carol a partir da viagem pela Autopista do Sul. Ainda em que cada parágrafo sentia desgarrar-se pela recordação do sorriso de Carol, escrever era uma forma de sentir-se próximo dela.
Os Autonautas da cosmopista (1984), cujos direitos também foram cedidos ao povo nicaragüense, é um texto divertido e irônico. Carol e Julio, autodenominados no livro “la Osita” e “el Lobo”, haviam começado a escrevê-lo juntos antes da viagem para a Nicarágua, antes do fim. Ficou ao Lobo ficar em casa e terminar, sozinho, a brincadeira:
“Leitor, talvez já o saiba: Julio, o lobo, termina e organiza sozinho este livro que foi vivido e escrito pela Ursinha e por ele, como um pianista toca uma sonata, as mãos unidas em uma só busca de ritmo e melodia. Assim que terminamos a expedição, voltamos à nossa vida militante e partimos uma vez mais para a Nicarágua onde havia e há tanto por fazer. (...) Ali a Ursinha começou a enfraquecer, vítima de um mal que acreditávamos passageiro, porque nela a vontade de viver era mais forte que todos os prognósticos, e eu compartilhava de sua coragem como sempre compartilhei de sua luz, de seu sorriso, de sua apaixonada vivência do sol, do mar e da esperança de um futuro mais bonito. Voltamos a Paris cheios de planos: terminar juntos o livro, doar seus direitos autorais ao povo nicaragüense, viver, viver ainda mais intensamente. Seguiu-se dois meses que os amigos nos encheram de carinho, dois meses em que rodeamos a Ursinha de ternura e em que ela nos deu cada dia esse valor que nos ia abandonando. A vi empreender sua viagem solitária, onde eu não poderia acompanhá-la, e no dia 2 de novembro, ela me foi por entre as mãos como um fiozinho de água, sem aceitar que os demônios disseram a última palavra, ela que tanto os havia desafiado e combatido nessas páginas. A ela devo, como devo o melhor de meus últimos anos, terminar sozinho este relato. Bem sei, Ursinha, que terias feito o mesmo se ao final fosse eu a te preceder na partida, e que tua mão escreve, junto com a minha, estas últimas palavras, nas quais a dor não é, nem nunca será mais forte que a vida que me ensinastes a viver como acaso temos chegado a mostrá-lo nessa aventura que chega aqui a seu final, mas segue, segue em nosso dragão, segue para sempre, em nossa autopista”. (Post scriptum de Los autonautas de la cosmopista)
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Até fins de 1983 a saúde de Cortázar seguia piorando. Ao avanço da leucemia se juntavam as complicações intestinais e problemas de pele. Esperançoso com um tratamento intensivo, Julio se internou durante vários dias em um hospital de Paris, mas não conseguiu superar nenhum dos sintomas. Aurora o acompanhou durante todo o tratamento e logo se instalou em seu apartamento, preparando refeições para que recuperasse o peso que havia perdido no transcurso do último ano, e se preocupando em dar a ele seus medicamentos. Mas nada podia lhe tirar a tristeza, ainda que a companhia de Aurora fosse de grande ajuda, uma amizade que havia sobrevivido ao final do casamento e ao tempo.
Cortázar, inconsolável, passava largas horas no cemitério. Sozinho, frente à tumba que um dia seria também a sua, arrumava o ramo de flores amarelas que Carol tanto gostava e se sentava junto a ela: “A morte me golpeou no que mais amava e não tenho sido capaz de levantar e devolver o golpe com o simples ato de voltar a viver. Há momentos em que a única realidade para mim é a tumba de Carol, onde vou ver passarem as nuvens e o tempo sem ânimo para mais nada”.
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Por duas vezes Julio precisou ser internado com urgência no Hospital Saint Lazare. Aurora o acompanhava e preparava a roupa para sua internação, Luis Tomasello o levava e o trazia de volta: “Se entro uma terceira vez, já não saio”, disse, no regresso a sua casa, após vários dias no hospital.
Em janeiro de 1984, Tomasello foi buscá-lo novamente. Julio o esperava sentado na poltrona. Estava calmo, com um gorro na cabeça e um sorriso no rosto: “Se esta luta for em sete rounds, a ganho; mas a doze, não creio”, lhe disse antes de levantar, caminhar até a porta e ficar alguns segundos parado, olhando para o quarto, provavelmente despedindo-se de seus livros.
Seguiu trabalhando no hospital. Com as últimas forças, se acomodava na cama do quarto e escrevia poemas para um livro de quadros de Tomasello. Havia pendurado as pinturas na parede. Eram negras e pareciam radiografias: “Cavalo negro dos pesadelos, machado do sacrifício, tinta da palavra escrita, pulmão que desenha, serigrafia da noite, Negro, o dez, roleta da morte, que se joga vivendo” (Negro el diez, 1984).
Quando podia, se erguia para olhar o relógio ou ia até janela. Da janela podia ver o pátio e mais adiante a grade que rodeava o hospital. Em seguida, dava meia volta e voltava aos poemas. Algumas semanas depois o livro estava terminado e Cortázar pediu a seu amigo que lhe trouxesse alguns exemplares. Autografou setenta livros, um atrás do outro. “Melhor fazermos isso tudo agora – disse – isso não é coisa que passe algo”.
Em 12 de fevereiro Cortázar murmurou um último desejo. Girou a cabaça em direção da janela e fechou lentamente os olhos. Perto da cama estavam Aurora e Tomasello; no ar, tal como havia pedido, tocava Mozart.
Foi sepultado dois dias depois, no cemitério de Montparnasse. Fazia frio e passava pouco de sol por entre as árvores. Um grupo de latino-americanos esperavam encolhidos, os olhos inchados, silêncio e lágrimas. Cortázar chegou em um modesto carro, seguido de dois velhos automóveis dirigidos por seus amigos. Baixaram o imenso ataúde de carvalho e o depositaram na tumba. Ali, debaixo de uma mesma lápide que desde então nunca deixou de estar acompanhada por um ramo de flores amarelas, descansam Carol Dunlop e Julio Florêncio Cortázar, enormíssimo cronópio.
CASSIANO VIANA & SUSAN BLUM
*Fruto de dois anos de trabalho, a biografia (ainda sem título definido), escrita por Cassiano Viana e Susan Blum, é baseada na pesquisa de entrevistas, correspondências, artigos, livros de ensaios e em biografias publicadas principalmente na Espanha e na Argentina (maior parte material inédito em língua portuguesa) sobre Julio Cortázar. A biografia, estruturada de forma lúdica como de O jogo da amarelinha e os álbuns-almanaques (Ultimo Round e A volta ao dia em oitenta mundos) – com depoimentos de outros autores, cronologia, lista de livros, discos e filmes recomendados e um dicionário cortazariano, já está sendo negociada com editoras e ao que parece sai mesmo no próximo ano. Os leitores de Cortázar no Brasil aguardam ansiosamente.
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:: agosto 28, 2006 07:55 PM