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I Encontro Nacional de Revistas Literárias
por Augusto Sales

Promovido pela organização da VII Bienal do Ceará, o 1º Encontro Nacional de Revistas Literárias, realizado entre os dias 19 e 21, reuniu na cidade de Fortaleza editores e colaboradores de diversas revistas literárias brasileiras. Para compor as mesas de debates foram convidados representantes de publicações de todas as regiões do país, não se fazendo distinção entre revistas eletrônicas e impressas. “O papel das publicações literárias na internet não deve ser subestimado. Se os suplementos literários encartados nos grandes jornais são colocados debaixo da porta de um número limitado de assinantes todo final de semana, as revistas online são um rico acervo, de fácil acesso, ao alcance de qualquer um e que não conhece fronteiras, já que podem ser lidas com ajuda de um computador por qualquer pessoa em qualquer lugar do globo terrestre.” – ressalta Cláudio Portella, um dos idealizadores do encontro ao lado de Carlos Emílio C. Lima e Nilto Maciel, editor da revista Literatura, em circulação há cerca de 15 anos.

Um dos principais temas explorados no encontro foi a discussão sobre as diferenças entre as chamadas “publicações literárias” e as “publicações sobre livros”. As primeiras teriam uma pauta mais flexível, voltando-se muitas vezes à apresentação de novos autores e dar voz a tópicos importantes que muitas vezes não tem muito ibope no contexto de jornalismo diário ou comercial. A The Paris Review seria talvez o melhor exemplo de revista literária. Na direção oposta, o suplemento de livros do New York Times uma grande publicação sobre livros. Seguindo esta linha de pensamento, no Brasil temos como modelo de revistas literárias: Paralelos;, o Suplemento de Minas Gerais e a revista Ficções (publicado pela editora 7 Letras). Como exemplo de publicações sobre livros: a revista Entrelivros e o suplemento Prosa & Verso. Esta definição, segundo os debatedores, é crucial no entendimento do papel desenvolvido por cada veículo, já que são bastante diferentes entre si. Se de um lado as publicações sobre livros têm uma preocupação mercadológica, esta já não é tão importante para as revistas literárias, que buscam em primeiro lugar a difusão da boa literatura e incentivo à leitura, não importando seu potencial comercial, modismos e o mercado editorial. “O lado comercial das publicações sobre livros fica evidente quando, de repente, o leitor se depara com dois diferentes suplementos de livros dando cobertura de um mesmo determinado autor ou livro num único final de semana. Isso quando, não raro, este mesmo autor ou livro ganha também uma resenha ou matéria em um das grandes revistas semanais de variedades” – explica Carlos Emílio. “Isso só pode ter uma origem mercadológica, e nem estamos falando de jabá, como acontece na indústria musical, mas de uma infeliz congruência de interesses comerciais destes veículos que tem que publicar o que está na moda ou em evidência no mercado ou que vão dar audiência, não importando a qualidade ou relevância para a literatura em si” – complementa a jornalista Adriana Mourisco, presente ao debate.

Apesar destas diferenças os organizadores do evento pretendem, para os encontros futuros, convidar também representantes das publicações sobre livros e revistas literárias ligadas às universidades.

O grande embate, e que ganhou contornos ideológicos e quase-religiosos, foi a discussão em torno do tema ‘o fim do livro’. Pipol, um dos editores da revista online Cronópios, que julioverniamente crê num futuro próximo onde os livros no formato que conhecemos serão peças de museus, foi o centro de debates acalorados que quase saíram em quebra-pau. “Pensamos com uma cabeça analógica. As gerações futuras estarão familiarizadas com uma realidade mais fluida, que engatinha no hoje cyberspaço. Estes já nascerão preparados para o fim do livro” – completa.

Outros assuntos discutidos e que se destacaram gerando propostas que podem ser levadas em conta no contexto das revistas literárias foram: o desafio da distribuição no Brasil – um país de dimensões continentais –, as diferenças econômicas e culturais regionais – que dificultam o intercâmbio entre os diversos estados –, a dificuldade de financiamento para projetos literários não propriamente comerciais e a falta de políticas nacionais efetivas para incentivo à leitura e ao livro – que produz, não só uma nação de iletrados, mas também estimula o analfabetismo funcional (aquela situação em que o sujeito sabe ler, mas apresenta dificuldade para interpretar o que está lendo, sendo incapaz de exercer julgamento sobre o texto).

Propostas, umas bem inusitadas e nem por isso menos interessantes, também surgiram no encontro. Alguns convidados sugeriram que se fosse escrito um manifesto das revistas literárias ao final do evento, um manifesto que denunciaria as mazelas da leitura e do estrangulamento da cultura do livro no Brasil. Uma proposta que deve ganhar força nos próximos meses é a formação de uma rede de contatos das revistas literárias e publicações sobre livros para troca de informações, discussão e sugestão de pautas e ajuda mútua. “Esta rede, se evoluir, pode gerar uma espécie de associação das publicações sobre literatura” – profetiza José Inácio Vieira de Mello, editor da revista de arte, crítica e literatura ‘Iararana’, um nome de revista que volta e meia travava a língua de um ou outro participante que tentava dizê-lo rápido.

A mais divertida das propostas surgidas, e que levou a platéia ao delírio, foi a defesa de um projeto de doação de livros usados para porteiros de edifícios e outros profissionais que passam o dia sentados e com razoável tempo para ler, profissionais estes que muitas vezes fica de dedos cruzados, prestando atenção na vida alheira e ouvindo seus rádios AM. Discutido internamente, os editores de Paralelos estudam iniciar pelo Rio de Janeiro este projeto de levar os livros às portarias. “Até o final do ano teremos um plano de distribuição de livros de segunda-mão para porteiros, principalmente títulos de fácil digestão. Não vamos distribuir ‘Ulisses’ de Joyce, obviamente” – explica o carioca Mariel Reis.

A mediação ficou por conta dos organizadores Cláudio Portella, Carlos Emílio e Nilto Maciel; este último presenteando a audiência com uma participação brilhante na condução de debates acalorados, enriquecendo as discussões com considerações sempre bem pontuadas e intervenções que exploravam, com grande propriedade, as questões levantadas pela audiência e pelos debatedores convidados.


AUGUSTO SALES



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:: agosto 29, 2006 12:36 PM


AUGUSTO Sales é boa praça, não ganha a vida como escritor, não fuma e - parafraseando Paulo Mendes Campos - nunca tentou suicídio. É co-autor de "Paralelos; 17 contos da nova literatura" (Agir, 2004) e "Prosas Cariocas" (Casa da Palavra, 2004).

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