paralelos.org
» ARQUIVO

Destaques

-   Meu Deus-Tornado
por João Filho

-   Amor
por Nelson de Oliveira

-   Minicontos do desconforto (xi-xx)
por André Machado

-   O Baile
por Jorge Cardoso

-   O óbvio ululante e eu
por Márvio dos Anjos

-   Pro Beleléu
por André Sant'Anna

-   ET de Cozinha
por Indigo

-   Iemanjá, alcatrão e areia no Posto 6
por Augusto Sales

-   Graves e poros
por Cecilia Giannetti

» ARQUIVO ATUAL



Um Rio que não era Rio
por Vivaldo Coaracy

“As páginas aqui reunidas, singelas crônicas do passado, são simples achegas, recordando aspectos das atividades quotidianas, do crescimento da Cidade, da vida da gente que a povoou e formou, de costumes e aparências que o tempo modificou e extinguiu. São apenas trechos esparsos das Memórias da Cidade.” (Vivaldo Coaracy, Paquetá, 1955)


A 1° de janeiro de 1502, chegava o primeiro explorador da costa à estreita barra de uma vasta baía. Pela extensão de água que via diante de si, julgou achar-se no estuário de um grande rio a que, de acordo com o sistema que vinha seguindo, deu o nome de RIO DE JANEIRO. E o nome se perpetuou.

Em época recente, alguns autores têm procurado negar o equivoco ou confusão do descobridor, afirmando que a designação "rio" era muitas vezes aplicada pelos antigos portugueses a enseadas ou braços de mar. Assim André Gonçalves teria usado a denominação com pleno conhecimento de que se achava numa baía. Esta opinião parece pouco sustentável. A suposição de que a baía de Guanabara era um estuário foi aceita por muitos anos. Ainda no mapa de Judocus Hondius, "Novus Brasiliae Typus", figura o longo e sinuoso curso do Rio de Janeiro com as origens em região hoje compreendida no território de Minas Gerais. Nem vale a possível confusão, também já aventada, com a expressão "ria" que, no português arcaico, indicava, segundo os dicionários, a foz ou embocadura dum rio.

Estas são, porém, questões de nonada. O que importa assinalar é que o Rio de Janeiro foi descoberto em 1o. de janeiro de 1502 pela primeira expedição que explorou a costa do Brasil sob o presumido comando de André Gonçalves.

Não terá o navegador percebido o seu equivoco por pouco se haver demorado no "rio" que descobrira. Já em 6 de janeiro batizava Angra dos Reis; no dia 20, a Ilha de São Sebastião, chegando no dia 22 ao porto que chamou de São Vicente, onomástico da data. Mas o resto da viagem, fantasiosamente descrito por Vespúcio, pouco interessa ao presente estudo.

Diante das noticias trazidas a Lisboa pela expedição em seu regresso, logo outra, melhor aparelhada, foi organizada sob o comando de Gonçalo Coelho, navegante experimentado que se distinguira em viagens na costa da África e mares da Índia. Trazia a frota de seis navios como um dos pilotos o mesmo Américo Vespúcio, escolhido naturalmente pelo conhecimento que já possuía dos mares e costa a percorrer. Documentos da época autorizam a suposição de que o objetivo da expedição seria correr a costa até o extremo sul, procurando passagem que permitisse atingir por novo caminho as regiões asiáticas de Malaca. Era o projeto que anos mais tarde realizaria Fernando de Magalhães.

Partiu a expedição de Lisboa em meados de 1503. Nos recifes do arquipélago de Fernão de Noronha naufragou a nau capitânia, passando o comandante da frota para outro dos navios. Em conseqüência de divergências com Gonçalo Coelho, separou-se Vespúcio com dois navios, dirigindo-se para a Baía de Todos os Santos de onde navegou para o sul até Cabo Frio onde fundou uma feitoria, nela deixando vinte e quatro homens e, com grande carregamento de pau-brasil, regressou a Lisboa onde anunciou que Gonçalo Coelho se perdera e provavelmente perecera, o que lhe parecia "justo castigo de seu orgulho". Grande teria sido a sua surpresa ao saber, três anos mais tarde, que o comandante que ele abandonara entrava no porto de Lisboa com os navios que lhe restavam.

Depois da deserção de Vespúcio, Gonçalo Coelho veio ter ao Rio de Janeiro onde se demorou tempo considerável, mais de dois anos, só regressando a Portugal em 1506. Foi ele, pois, o primeiro europeu a habitar demoradamente nas margens da Guanabara.

A ele é atribuída a construção da famosa Casa de Pedra junto à foz do Carioca, conjetura admissível. Não falta mesmo quem tenha associado a essa construção o nome indígena do rio. Cari-oca, casa do branco. Há, porém, outros significados plausíveis.

No Rio de Janeiro estabeleceu Gonçalo Coelho o seu quartel-general, de onde enviou expedições a explorar a costa meridional até além do rio da Prata, talvez até o litoral da Patagônia, sem encontrar a passagem procurada. Se a sua permanência foi tão longa como tudo leva a crer, não podia ele deixar de ter conhecimento da feitoria estabelecida ali perto, em Cabo Frio, pelo seu piloto desertor. Talvez mesmo tivesse entrado em contacto com os homens que Vespúcio ali deixara. Os documentos referentes a essa época são escassos e omissos. Já foi aventada a suposição de que, antes de regressar a Lisboa, teria Gonçalo Coelho deixado, na embocadura do Carioca, o núcleo de uma povoação posteriormente destruída pelos selvagens com o massacre dos seus moradores. Mera conjetura, mas plausível, embora nenhum documento a confirme.

Em tal caso, teria sido a Casa de Pedra o centro do suposto arraial. Construído por Gonçalo Coelho, ou por algum outro navegante que depois dele ao Rio de Janeiro haja aportado, talvez mesmo por Martim Afonso de Sousa trinta anos mais tarde, de qualquer forma foi ela a primeira construção permanente erguida às margens da Guanabara. Perdurou por longos anos, tendo servido de residência a Pedro Martins Namorado por ocasião da fundação da cidade. Destruída pelas ressacas e pelo desgaste do tempo, ainda em meados do século seguinte subsistiam seus vestígios ou ruínas, identificados quando pela primeira vez se pretendeu demarcar as terras municipais. Em época recente procurou-se localizar a sua situação presumível com auxílio dos documentos existentes. Um marco singelo, erguido no fundo da atual Travessa Umbelina, por iniciativa do escritor Gastão Penalva, assinala o resultado dessa pesquisa.


VIVALDO COARACY

(In "Memórias da Cidade do Rio de Janeiro" p. 302, Editora Itatiaia Limitada & Editora da Universidade de São Paulo, 1988)



| comentários (0)

:: janeiro 22, 2007 06:01 PM



Home Literatura & afins Crème de la Crème Feira Livre Modo de usar Cadastro Busca Contato