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Cenas de um velório
por Joaquim Vaz de Carmo

Ronald Chevalier, Roniquito.

Não me ocorre nenhuma figura do Rio na década de 7o que tenha sido personagem de tantas histórias quanta o Roniquito.
Era, por assim dizer, uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hide carioca, em versão atualizada e menos trágica. Sóbrio era um gentleman, profissional brilhante. Bêbado, só abatendo a tiros. E, durante anos, viveu quase que diariamente ambos os personagens.

Quer porque, com sua incrível acuidade, botava a dedo diretamente na ferida, quer porque ficava horas e horas martelando a mesma coisa na cabeça dos outros, ele conseguia levar à loucura pessoas de uma calma franciscana, que acabavam partindo para a porrada. Porrada física, mesmo. E com isso, o Roniquito foi o cara que mais apanhou no Rio de Janeiro. Era praticamente todas as noites.

Fernando Amaral, por exemplo, era um santo.

Fotógrafo e diretor de cinema, era conhecido como Soneca, tamanha sua fleugma. Pois bem, numa noite no Antonio's começou a tocar Vivaldi. Aí, o Roniquito se vir a para o Fernando, dizendo:

- Fernando, eu acho que todo cara que gosta de Vivaldi e faz análise é viado.

Aí, o Fernando cometeu a surpreendente asneira de responder:

- Eu nunca disse que gostava de Vivaldi. Além do que, não faço mais análise. Já fiz, há anos.

Foi esse o seu erro. Deu corda ao assunto. Aí o Roniquito começou a delirar:

- Pois é, já fez. Eu acho um absurdo, Fernando, você ir para um analista para esrniuçar detalhes sórdidos da sua vida. Como aquelas meias que você fazia atrás da estátua do general Osório, no ponto final do bonde 14.
Se a Fernando não respondesse, possivelmente o assunto morreria. Mas ele argumentou ...
- Mas Roniquito, eu nem morava em Ipanema!

O Antonio's é pequeno. Qualquer elevação de voz faz com que as circunstantes participem do assunto. E, para a crescente constrangimento do tímido Fernando Amaral, o Roniquito denunciava aos berros:

- Meia, Fernando Amaral! Meia!

E, é claro, depois de não sei quantas meias o Fernando não agüentou e enfiou a mão no Roniquito.

As histórias do Roniquito dariam um livro.

Todo mundo que freqüentou razoavelmente a noite carioca foi testemunha de alguma ou várias. A que eu acho a mais engraçada e doida se passou na capela do cemitério São João Batista.

Zequinha Estelita morreu num desastre de automóvel, que mergulhou na Lagoa, na fatídica Curva do Calombo.

A noticia alcançou grande parte dos seus amigos pelos bares da cidade. Assim, um grande contingente que acorreu ao velório já estava triscado. E, óbvio, o mais bêbado era o Roniquito.
No meio daquela consternação geral, o Roniquito se afasta do grupo que velava o Zequinha e entra numa outra capela. Detém-se diante do caixão, examina detidamente o defunto e da seu veredito.

- Esse defunto de vocês é uma merda. o nosso é muito mais bonito.

Esse foi o único episódio onde o Roniquito foi vitima de espancamento coletivo.


JOAQUIM VAZ DE CARVALHO


(In “Dr. Roni e Mr. Quito”, de Scarlet Moon de Chevalier, Ediouro, 2006)



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:: janeiro 22, 2007 06:17 PM



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