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Uma coleção de clichês...
por Ruy Castro

Uma coleção de clichês assola e mancha a imagem do carioca. Alguns deles são os de que o carioca não trabalha, passa o dia na praia e não pode ver uma esquina ou um botequim sem parar para conversar com alguém que acabou de conhecer e de quem já ficou íntimo. Outros clichês são os de que o carioca é incapaz de chegar na hora para um compromisso, que deixa tudo para o último minuto e sua idéia de marcar um encontro é dizer, "A gente se vê". Pois bem: é quase tudo verdade. Mas essas características, brandidas em tom de crítica pelos não-cariocas, têm uma explicação e são, em muitos casos, justificadas.

Primeiro, não é que o carioca trabalhe pouco. Ao contrário, o Rio é uma das cidades do Brasil onde mais se trabalha. Talvez seja aquela onde mais se trabalha, e não ria.

Segundo números do IBGE, o carioca trabalha 40h47min por semana, uma média invejável em qualquer grande cidade do mundo - confira com a da sua cidade. Ele apenas não tem culpa se lhe sobram 127h13min por semana para não trabalhar. E esse período, que os cidadãos de outros burgos dedicam a dormir ou a ver TV, o carioca aproveita para fazer coisas muito melhores, como ir à praia, dar um pulo ao botequim, jogar conversa fora, praticar algum esporte ou andar à toa na rua. Para isso, o Rio é tão rico de opções que cada hora de trabalho efetivamente cumprida deveria ser contada em dobro - porque, enquanto trabalha, o carioca está deixando de exercer tais opções.

Há também o cenário. Em outras cidades, pode ser um alívio passar o dia entre quatro paredes para não enxergar o que nos rodeia. Mas, no Rio, é um suplício ver-se encarcerado num escritório com vista para a baía de Guanabara ou para o oceano Atlântico - tem-se a sensação de que a vida esta lá fora e o expediente a ser cumprido em troca do salário e algo próximo da morte. Posso dizer isso porque passei anos trabalhando como redator na extinta revista Manchete, de frente para os ensolarados jardins de Burle Marx no parque do Flamengo, vendo ao longe os barcos que saíam da marina da Glória com jovens de quépi e moças de shortinho, rumo a aventuras que faziam supor sal, sexo e champanha. E com a tortura extra de, às vezes, ter de escrever títulos e legendas de fotos em reportagens sobre essas mesmas aventuras.

Donde se vê que a relação 40h47min semanais de trabalho vs. 127hl3min de lazer é, no Rio, de uma profunda sabedoria. Mas, para quem a está olhando de fora, é uma relação enganadora - porque, ao mesmo tempo em que não se vê o carioca trabalhando (oculto por elipse no interior de escritórios, órgãos oficiais e lojas comerciais), todo mundo pode ver o carioca não trabalhando. Ele não tem como não ser visto - porque quase todo o lazer no Rio é a céu aberto, sob as vistas do público, nas praias, nas praças, nos ca1çadões, nas centenas de bares com mesas na ca1çada ou nas biroscas de esquina. É um lazer que se dá na rua. E, como tal, barato ou gratuito, ao alcance de qualquer um.

Rua é a palavra-chave. O carioca tem uma longa intimidade com ela, e ela com ele. É na rua que ele se sente em casa. Isso se reflete até na literatura produzida aqui nos últimos 150 anos. Os principais ficcionistas do Rio - Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis, Lima Barreto, Marques Rebêlo, Nelson Rodrigues, Carlos Heitor Cony – sempre foram atentos observadores da ação na cidade. O Rio pode ter sido até o inventor de um gênero literário: a crônica, uma narrativa curta e só aparentemente trivial, feita para jornais e revistas, misturando realidade, ficção e comentário, e cujo cenário é quase sempre a rua (no mínimo, uma janela). O maior dos cronistas, Rubem Braga, gerou uma quantidade de grandes seguidores - Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Elsie Lessa, Jose Carlos Oliveira - e a tradição prossegue hoje com Aldir Blanc, Heloisa Seixas, Joaquim Ferreira dos Santos. Os cronistas são as antenas da cidade, os primeiros a perceber as mudanças do vento. São também os que imortalizam os cidadãos anônimos, mais densos e surpreendentes do que as figurinhas carimbadas. E esses cidadãos só se encontram nas ruas.

Exceto por certos lugares e horas a serem evitados por simples bom senso, o Rio convida a ser batido a pé. Ha. sempre algo para ver - pode ser a fascinante diversidade arquitetônica, a graça marota de sua fauna humana ou o interminável desfile de corpos femininos. É uma cidade tão receptiva a andar por ela que, pensando bem, não faz sentido marcar encontros formais em covis claustrofóbicos, nem essa obsessão primeiro-mundista por dia e hora sacramentados na agenda. Daí o "A gente se vê" - e se vê mesmo. Na rua, os encontros duram o que tem de durar: horas seguidas ou apenas alguns minutos, e ninguém se ofende quando o outro diz que precisa ir andando. Quanto ao fato de o carioca se sentir íntimo de alguém que acabou de conhecer, é porque ele é, por natureza, aberto, confiante, e que bom que seja assim. O contrário disso seria desgostar a priori, virar a cara ou desconfiar de qualquer pessoa à primeira vista, e viver com a alma envenenada.


RUY CASTRO


(In “Carnaval no Fogo” p. 59, Companhia das Letras, 2003)



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:: janeiro 22, 2007 06:21 PM



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