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O cheiro que antecipava o homem
por Flávio Izhaki

Antes de falar, fedia. Apareceu de alguma dobra no tempo, despertou de uma vala imunda falando como se o dom da palavra lhe tivesse sido apenas momentaneamente devolvido.

- É romance? - eu lia Isaac Bashevis Singer, como faço todos os dias indo de ônibus para o trabalho, trajeto longo, paisagem em decomposição a céu aberto, língua negra em forma de canal cruzando a cidade, de Botafogo a São Januário.

Fedia.

Não, respondi com breve tremor de cabeça, ainda sem coragem para olhá-lo.

- Palavra de Deus? - e de sua boca a podridão de mil livros reciclados em papel higiênico.

Tentando parecer natural, murmurei que eram contos e pela primeira vez olhei para a sua boca, apenas um dente escurecido pendendo das gengivas gastas, quase brancas. Vestia-se com etiqueta: camisa pólo amarela, calça social bege ...kichute.

Levantei os olhos; ele me encarava, sorrindo.
- Fiz Letras, e você?

O cheiro novamente.

Conversar seria impossível, mas respondi, automático.

- Jornalismo.

Ele sorriu. Ou manteve o sorriso esticado até o ponto em que as bochechas agüentavam segurar o rasgo no rosto, o dente canino vazando para fora da boca.

- Tenho muita experiência com comunicação de massa.

A vontade de rir.

- Leu Erico Verissimo?

- Leu Jorge Amado?

Tremeliquei a cabeça negativamente, ou pensei em fazê-lo.

Por sob os óculos fundo de garrafa ele tentava enxergar a capa do livro que eu segurava, engatilhar um novo assunto. Indiscretamente puxava o livro mais para o meu colo, tentando escondê-lo. Ele acompanhava o movimento, descaradamente, buscando vislumbrar o título, o autor, alguma coisa.

De uma hora para outra ele começou a se agitar no banco, apoiava a mão na cadeira da frente, olhava para os lados, para trás.

O grito:

- É baiano?

O susto.

Não falava mais comigo. Tinha levantado do meu banco e pulara para outro.

Ninguém em volta, o ônibus vazio.

- Tem cara de baiano.

Silêncio.

- Eu sou baiano.

E continuou:

- Carioca?

Fechei o livro, abri meu caderno e comecei a rabiscar algumas anotações; sobre ele, naturalmente.

Sem virar a cabeça, apenas com o rabo de olho, procurei pelo velho. Ainda sentado, mirava a janela, cabeça colada no vidro quente, a imagem de São Cristóvão passando em alta velocidade, nada, pouco para ver.

O cheiro.

- Tá escrevendo o que? -, ele voltara.

Terminei uma palavra que se espraiava entre duas linhas, difícil de equilibrar no marulhar do ônibus, me enchi de coragem para responder que era sobre ele que escrevia. Mas minha voz se perdeu, ele não estava mais ao meu lado, nem atrás, na frente, do lado de fora do ônibus.

Não estava. Nem seu cheiro.


FLÁVIO IZHAKI



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:: janeiro 22, 2007 06:30 PM


Flávio Izhaki é jornalista, 24 anos, e também pode ser encontrado no bohemias.blogspot.com

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