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Pequeno Burguês
por Cláudio Portella

Graças a Deus que eu não sou um pequeno burguês. Obrigado senhor, por me botar no mundo, bem no alto do morro. Nasci incolor e cheirando a samba, a bala perdida, a pó. Hoje, se tenho um diploma e um anel é por conta da reza forte de minha mãezinha, Dona Ziná. Parteira do Vidigal, do morro do Vidigal.

Nasci e me criei ouvindo samba. Meu pai, Seu Madureira, era compositor da ala dos compositores da Portela, velha guarda. Seu Madureira uma vez emplacou um samba com o qual a escola foi campeã. Uma vez só. Mas campeã! Portela campeã do carnaval de mil novecentos e... mil novecentos e... nem me lembro mais, eu nem era nascido.

Meu pai, Seu Madureira, morreu de bala perdida. Voltava do barracão da escola e, na volta, se viu bem no meio da guerra civil: polícia e traficante. Uma bala perdida veio e levou o compositor do samba enredo campeão de mil novecentos e... Hoje eu sei que nenhuma bala é perdida quando atingi um alvo.

Graças a Deus eu ter nascido mestiço, cheirando a bala perdida. Um moleque filho de compositor e parteira. Nascido bem no alto do morro. Vendo o Rio de Janeiro, o Redentor. Nosso barraco tinha a vista para o Cristo Redentor. A lembrança mais linda que tenho gravada até hoje nas retinas. É só fechar os olhos e lá está ele, nosso Pai, de braços abertos sobre a Guanabara.

Hoje sou antropólogo, professor da UFRJ. E me pergunto de quem é o Rio afinal? Do pequeno burguês, viciado em cocaína, nascido em Copacabana? Ou de um moleque feito eu que fornecia esse pequeno burguês? É isso mesmo! Fui traficante até me tornar professor universitário.

Precisava me vestir. O samba de meu pai nunca deu camisa a ninguém. Nem a ele mesmo, que só tinha dois pares de camisas. Pensando melhor, nem a Noel Rosa. Lembram: “com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?”.

Fui traficante, mas nunca viciado. Acho que isso e a reza forte de Dona Ziná, foram o que me fizeram chegar aonde cheguei.


Sou antropólogo, ex-traficante, e volto a perguntar: de quem é o Rio afinal? Dá dondoca que passeia no calçadão de Copacabana? Ou do garoto da periferia, de cima do morro, que num delírio, provocado pelas drogas, dialogou com a estátua de Drummond?

Carlos Augusto, um garoto feito eu, meu melhor amigo, morto por uma overdose da droga que me deu camisa e me ajudou a ser doutor. Nunca esquecerei aquela cena. Carlos Augusto sonhava em ser escritor, poeta feito Drummond, e, no mesmo dia de sua morte, eu estava com ele naquela tarde, ele e a estátua do poeta dialogaram por horas a fio.

De quem é o Rio afinal? Creio que o Rio é um país sem dono, uma terra de ninguém, uma cidade tombada pertencente ao patrimônio mundial. Tanto é do pequeno burguês viciado, como da dondoca que exagera nos “ss”, como do poeta Drummond, do poeta Carlos Augusto e desse negro que vos fala, que graças ter nascido juntinho, ali pertinho do Redentor, não nasceu um pequeno burguês.


CLAUDIO PORTELLA

Cláudio Portella é escritor. Nasceu em Fortaleza em 1972. Autor de Bingo!(Editora Palavra em Mutação, Porto/Portugal, 2003). Organizador do livro Os Melhores Poemas de Patativa do Assaré (Global Editora, São Paulo/SP, 2006). Seus trabalhos estão traduzidos em vários idiomas. O escritor é publicado em incontáveis revistas, jornais, suplementos, revistas eletrônicas, sites e blogs. Contato: clautella@ig.com.br



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:: janeiro 22, 2007 06:36 PM


CLÁUDIO Portella, nasceu em Fortaleza, em 1972. Co-edita a revista "Arraia PajéUrbe". Possui trabalhos em importantes revistas e jornais do Brasil e do exterior. "Uma partida de xadrez", faz parte do seu livro de contos, "Predileções em carma vivo", ainda inédito. O conto que dá título ao livro, ganhou em 2002, o primeiro lugar num concurso de contos da UBENY(União Brasileira de Escritores de Nova York).

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