“...Sessenta e quatro dias sem vê-la. Abri a lista telefônica, A,B, C, cantinas, centros de línguas, cirurgiões- dentistas, companhias aéreas - e o Santo Cristo há muito não ia pra casa, e a Saudade começou a apertar, eu vou embora, eu vou ver Maria Lúcia, já está em tempo de a gente se casar - alô, que horas tem vôo hoje? À tarde, cinco horas tá bom. Fiquei na minha, só liguei dez minutos antes do embarque, olha, tô chegando, me espera lá? E ela ficou de um lado pro outro, roendo as unhas no Santos Dumont. Eu, lá em cima, botei a cara na janela quando o avião começou a baixar, Teresópolis, Niterói, a ponte e suas luzes amarelas, a Baía, as barquinhas cheias de alegria pra Paquetá, a Praça XV crescendo e ele lá, de braços abertos, esse samba é só porque, eu quis dizer pro cara ao lado não, eu não sou turista não, eu sou daqui, de Marechal Hermes, família do Engenho Novo, são quase trinta anos de palavrões no trânsito e olhos deliciados por ondas e bundas. Lembrei da torcida, Maracanã, domingo, quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro–negro, e eram praticamente as mesmas coisas, montanha e mar dividindo o espaço curto da minha lágrima. Não dá pra ficar longe, mesmo com todo o cocô e todo o óleo boiando na Guanabara, mesmo com o mundo parado no trânsito, com todo o cinismo da elite, com toda a autoridade podre, eu nasci pra viver nesse inferno, graças a Deus.
O avião pousava e do impacto contra a pista brotava aquela sempre sensação de que os freios não serão suficientes e cairemos todos no mar. Vôos atrasados, conexões, filas de espera, aquela voz suave que nos transporta pro outro lado de uma tela de cinema, flight eight one six now boarding – na pressa não nos damos conta de como é mágico esse ambiente de aeroporto. Eu pisava o chão, indeciso, como se não soubesse por onde ir, feito alguém inseguro por não saber ao certo onde está. E era justamente o contrário aquele certo estremecimento que amoleceu minhas pernas quando reconheci a paisagem tão minha cúmplice, testemunha de bons atos, malefícios, decisões, certezas, dúvidas. No meio de malas, carrinhos, gente esbarrando em mim – será que tudo ainda será capaz de me reconhecer ? – enxerguei, por trás do vidro, aqueles braços me acenando, capazes de invadir a pista e me pegar no avião, tamanha a ansiedade que só quem espera pode ter. É ela mesma, de longe, não cortou o cabelo, o vestido também parece um dos mesmos. De perto, o perfume de antes, o abraço longo bem na porta do saguão, o suficiente para empilhar atrás de nós seres apressados, querendo passar, querendo ir, voltar, chegar, e ela me despejando um boeing inteiro de beijos guardados durante todo esse tempo que o reencontro torna bem maior do que na verdade foi. Meu passado no saguão do aeroporto, intacto, assim como eu deixei.
A Presidente Vargas é uma reta pontilhada de sinais, cruzamentos e lembranças – Rio que não é rio: imagens – em cada sala desses prédios há um dízimo de uma existência, no caso a minha, irrecuperável, irrevogavelmente fotografia na memória. Acelero, ultrapasso um 484, Olaria - Copacabana, e ele despeja fumaça negra – Essa cidade me atravessa – ainda sei dirigir nessa selva – Cada coisa é demais e tantas – e é inevitável uma comparação, por menor que seja: na L2 Norte as pessoas conseguem voltar pra casa às seis da tarde. Confuso, tento explicar a mim mesmo, murmurando expressões sem fôlego – Essa cidade me atravessa – sem muita esperança de entender, na realidade não sei, parece que não encerrei nada por aqui, parece mais ainda que não comecei nada por lá, tá difícil trabalhar isso por dentro, sabe ?, aqui eu sei cada passo – ruas voando sobre ruas – chegar a qualquer bairro, qualquer beco obscuro descubro em meia hora e não tenho mais um endereço aqui, é louco isso, minha casa tá lá agora, onde nem sei bem se há uma padaria perto.
Atravesso bairros, dobro esquinas, cada caminho que revisito acresce alguém à vontade que tenho de encontrar tanta gente, pessoas que estão guardadas no excesso de bagagem do meu passado. E de cabeça planejo um roteiro afoito que me leve a percorrer o maior número possível de lugares no menor tempo disponível. Preciso ser visto para ser lembrado por quantas pessoas eu consiga nessas pouco mais de 72 horas urgentes, passar a limpo minha recente vida nova em breves minutos, cuidar para que as recordações não sejam mais interessantes do que as novidades.
No caminho vou listando na cabeça o que poderei dizer a cada um, o que é mais interessante; faço o resumo de um briefing, corto sentimentos e impressões desnecessárias, é preciso mais que nunca ser conciso para que eu fale de todo um mundo desconhecido sem abusar das palavras. E aí, cara, como vai, como tá lá, aquela cidade estranha, aquelas ruas esquisitas? Tá tudo bem, é ótimo, moro em tal quadra, trabalho em tal setor, estou feliz, preciso ser breve, mesmo que na verdade eu nem fale a verdade completa. Fica mais um pouco, vou mandar trazer uma pizza, o almoço tá saindo, pega mais uma cerveja, não posso, tenho que ser rápido, disfarçar essa vontade de ficar aqui ao menos por todos os dias da minha existência. Preciso ver todos, todos os que eu consiga, nesse espaço de tempo trem - bala que me leva às estações sem que as paradas sejam suficientes para um xixi, um café, um chiclete de saudade descolorido no chão, grudado na sola do sapato.
Companheira de viagem no trem - bala, ela me segue em cada breve estação do meu passado. Essa cidade me atravessa, Madureira, Cachambi, Tijuca, Laranjeiras, Ipanema, e nem sequer vi o mar, murmurei em um quase lamento quando o sinal abriu. Da próxima vez a gente vai, com mais calma, se existir, e ela considerou quase sem querer. Existir o quê? Próxima vez? Não, calma. Tudo bem, deixa o mar pra lá, ultimamente convivo com pessoas que não vêem o mar há quase quatro décadas, e me calei, fingindo desatenção à contrariedade que ela lutava para disfarçar.
Andaraí, Lins, Rio Comprido, Rebouças, Humaitá, pai, mãe, tia, tio e o amigo que eu, antes de ir, já não via há quase um ano, mas de quem eu não sentia tanta falta, porque eu o sabia ali ao lado, qualquer ônibus, qualquer tanque de gasolina na reserva me levaria até ele, mas aí eu fui e um ano virou século e medo de perder e ser esquecido. Tudo o que eu via do trem - bala ela via ao meu lado, calada, meio sorriso de nostalgia, querendo esconder a inquietude das horas que passavam e a faziam me perder em lentas gotas. Reencontrava as ausências que eram as minhas ausências, sentidas por mim, nunca por ela. E quando raro lhe caía o disfarce, escapava-lhe um olhar fugidio indagando se o trem – bala em algum momento passaria na estação de nós dois sozinhos.
E nossa estação veio, chegou depois de um dia inteiro percorrido nos trilhos da minha memória. Dormi de madrugada, metade forasteiro, metade nativo, agarrado a seus braços depois do amor contido e imaginado dois meses. Senti que havia sido apressado, cheio de saudade sim, mas com o desespero da distância, prazer retesado, com a certeza velada de que o tempo não parou como queríamos, de que as horas não foram vagarosas como merecíamos e de que o dia amanheceu mais cedo, nos acordando antes do costume, sem que ainda tivéssemos nos recuperado da exaustão dos amantes. Sentado na beira da cama, posição clássica, eu fazia um scout, aquelas monótonas estatísticas no intervalo das partidas. Números imagináveis me apontavam que nosso tempo de bola em jogo foi bem menor que o tempo de bola parada. Por isso a senti menos minha, muito mais da sorte, do destino, quando o avião levantou vôo e a Praça XV ficou pequenina outra vez...”
ANDRÉ GUISTI
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:: janeiro 22, 2007 06:44 PM