O corpo cansado, como quem estivera amarrado em infinitos feixes ou correias ligadas a pesos, invisíveis aos demais passageiros. O torpor ou fadiga fruto não do levantamento de peso, antes causado pelo abrir e sair de portas, o sol transplantado para o fundo de cada sala, que apesar das diferenças de dimensões, mantinham as indiferentes características de mesa e cadeiras e pessoas como uma pintura monocromática.
O cansaço era como um remédio mal digerido ou mal absorvido pelo organismo, diante dos infinitos nomes, numerados, repletos nos diários, gerados pela confusão, justaposição e mistura de rostos e consoantes, criando surpresa, dissonância ou horror, como Vasiguiton ou Ardson ou qualquer outra cópia incompleta de Richardson. Nomes gerados pela necessidade de perpetuação, sobrevivência e desejo que irrompe de mulheres e homens, novos, inconseqüentes e imberbes.
Exaurido, seguia como um outro Prometeu, sentado, desfrutando do ar condicionado, quase um lenitivo para quem deixava para trás de si a Ilha do Governador às onze horas da noite. Imaginando o dia seguinte como uma roda de hamster, caminhando rápido no mesmo lugar, enquanto observava as luzes que morriam na Estrada do Galeão, como se todo o comércio hibernasse num inverno imprevisto e noturno, para em seguida, enquanto recapitulava o dia e o esforço de decapitar jacobinos ali, expulsar holandeses acolá, constituir capitanias hereditárias mais adiante, pensando sem o brilho, calor e imprevisibilidade dos seres humanos, mas antes equações monocórdias, conjunção de ângulos revestidas de carne.
As luzes que provinham de Niterói e do Centro do Rio avistadas da praia do Galeão tornavam a vontade de estar em casa indescritível, pulsante, quase desesperador.
O rumor e cair das ondas, ir e vir, como borrões negros parecia acompanhar o ritmo do ônibus confortável e lento, que a custo dobrava para entrar na ponte velha com a mesma luz amarelada e suave do bairro da Glória, não sem antes parar no último ponto da Ilha para que o despachante pudesse conferir passageiros e passagens.
- Você viu, bem ali na frente, ele chegou ali e abriu a porta e foi na árvore.
- Sério, quando isso?Resmungou o motorista.
- Sério, agorinha mesmo, já chamaram os bombeiros, mas ainda nada, bem ali, quando você passar com o ônibus dá uma olhada ali – apontou o despachante para a esquerda que dá acesso à ponte. Em direção ao meio de árvores. – Pois é rapaz, até amanhã.
- Até amanhã.
O automóvel seguiu a passos de trator, enquanto seus olhos procuravam em meio às árvores, qualquer coisa de anômalo, uma marca física, topográfica, maior; para além do táxi estacionado de porta aberta. As janelas embaçadas pelo choque entre o frio e o calor externo, percorrendo até notar pendurado pelo pescoço, o rosto diluído no verde e escuridão e o cinto tornado um galho a mais, enquanto devido à luminosidade declinante fabricava a árvore inutilmente oxigênio.
- Um homem não tem o direito de fazer isso, comentou o condutor a outro passageiro, deixando ver no rosto essa mistura de vontade de autoconservação e trincar de certezas.
Passou ao lado, enquanto motorista e o outro passageiro discutiam com parcimônia sobre estar vivo. Observava as luzes da Penha, lembrando todo o trajeto até o Centro, relembrando, pensando quanto lhe faltava pra atravessar toda Linha Vermelha.
ANTONIO DUTRA
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:: fevereiro 11, 2007 02:27 PM