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Dos usos e abandonos da literatura
por Antônio Dutra

A maioria dos escritores acaba não sendo lembrada, isto é fato. Seja porque sua obra acaba tendo pouco a ver com as questões que a sociedade apresenta no nebuloso futuro, obviamente posterior à obra, seja porque o texto é de pequena monta, sem a “profundidade”, análise, vigor e beleza próprios de uma grande obra literária, ou ainda, por pura injustiça, como mostra, por exemplo, a recuperação ao longo do tempo de um Gregório de Matos. Entretanto, quando um autor consegue que sua literatura tenha uma sobrevivência mais ou menos perene, não é garantia que sua obra seja devidamente apreciada pelo “grande público” (desculpe, é força do hábito...). Sem querer entrar nessa discussão longa e por vezes redundante de culpados ou não, os escritores acabam reconhecidos por uma ou duas obras que parecem ser o ápice de todo seu esforço de criação. O que gera um conhecimento incompleto de um autor.
É o caso de Lima Barreto, por vezes enquadrado na categoria de mulato, como se isso fosse categoria explicativa (só pra lembrar, Pushkin, Castro Alves e Alexandre Dumas não estavam muito longe de também serem mestiços), cuja obra mais conhecida é Triste Fim de Policarpo Quaresma.

Da imensa produção literária do escritor carioca, Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá parece ficar à sombra injustamente. Bem recebido quando publicado em 1919, ganhou uma segunda impressão nesse mesmo ano com a indicação: menção honrosa, Academia Brasileira de Letras. Na quarta edição do livro (1943), Paulo Rónai explica bem ao dizer que a troca de idéias e impressões entre Augusto Machado de vinte anos e Gonzaga de Sá sexagenário não constitui propriamente um enredo. Não nos moldes tradicionais. Aliás, mais forte que a crítica a uma aristocracia postiça ou a demonstração do caráter voltaireano de Gonzaga de Sá no centro do texto está a cidade do Rio de Janeiro. Não ouso muito em dizer que, entre nós, foi o primeiro autor a usar como que uma tomada panorâmica na escrita:

Esse examear de colinas, esse salpicar de morros e o espinhaço da serra da Tijuca, com os seus contrafortes, cheios de vários nomes, dão à cidade a fisionomia de muitas cidades que se ligam por estreitas passagens. A city, o núcleo do nosso glorioso Rio de Janeiro, comunica-se com Botafogo, Catete, Real-Grandeza, Gávea e Jardim Botânico, tão somente pela estreita vereda que se aperta entre o mar e Santa Teresa.

Depois de se deter sobre o crescimento da cidade de modo espontâneo e os meios de comunicação entre bairros, o narrador arremata:

Mas, se a sua topografia criou essas dificuldades, deu à nossa cidade essa moldura de poesia, de sonho e de grandeza. É o bastante! (1943, p.57-59)

Acompanhado os passos dos dois personagens, vamos aprendendo a ver esta vida comum da cidade do início do século XX, de quem vai beber uma cerveja e depois pega o bonde para casa. No romance, Gonzaga mora nos arredores da Rua Bento Lisboa, no Catete.

Certamente, a precisão descritiva deve muito a Balzac, de quem Lima Barreto era leitor. Naquele escritor francês muito se inspiraria o Nouveau Roman, nos anos 50 do século passado, também chamado de Escola do olhar, cujos maiores representantes foram Nathalie Sarraute, Claude Simon, Michel Butor, Robbe-Grillet entre outros. O Nouveau Roman deve ao romance balzaquiano não pela valorização do enredo ou precisão de diálogos, mas a interrogação diante daquilo que é visto, por extensão, a realidade, o mundo sensorial, o homem.

Nesse aspecto sempre me pareceu natural ver em Vida e Morte de M. J. de Gonzaga de Sá um romance arrojado, desses riscos que ninguém parece querer mais correr. Talvez seja mais fácil admirar o monumental Triste Fim de Policarpo Quaresma, com seus momentos irônicos, satíricos. Apesar disso, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá é uma declaração de amor ao Rio, quase um Marc Ferrez escritor, uma pequena obra-prima; é um livro que talvez não deva agradar a todos, mas qual livro deveria?

ANTONIO DUTRA



| comentários (0)

:: fevereiro 11, 2007 02:29 PM


ANTÔNIO Dutra, vascaíno, é professor de história e prepara um livro de poesia enquanto ouve Miles Davis.

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