Vencidos os 21 degraus da escada-caracol que leva ao terraço da casa, encontro o que resta da minha família dentro da piscina pré-moldada de fibra de vidro. Mãe, tias e tios – todos nus. Sei desde criança: quando o verão atinge 40 graus no Rio de Janeiro, não há mais lei nesta casa de subúrbio. Um cão pincher de 30 centímetros e meio, e pêlo da exata tonalidade dos cabelos de minha tia, também está na água, nadando um pouco melhor que seus pobres parentes humanos. São todos inocentes, sou eu quem sinto culpa e constrangimento infinitos.
– Yafa é mais limpa que muita gente que eu conheço – garante a tia, a quem ninguém ousará contrariar. Nem mesmo passa pelas suas cabeças molhadas que o cão deva ser discriminado de qualquer maneira, limpo ou não. Consta que a cadela salvou duas crianças de morrerem asfixiadas durante uma festa junina nesta rua em 1987. Embora tios, primos e vizinhos atestem ser a mais absoluta verdade, ninguém sabe explicar direito como aconteceu o ato heróico da cachorra, nem mesmo que mudança extraordinária se deu em sua natureza para que se pusesse, de repente, disposta a ajudar crianças. Yafa não gosta de crianças. Yafa tentou me morder pela primeira vez quando eu tinha cinco anos de idade e desde então jamais parou de tentar. Yafa é o cão que guarda as portas do inferno, e um dia por acaso subiu à Terra, vindo parar no subúrbio. Um animal irascível e paranóico, de latido agudo, angustiado, com dentes afiados e uma indefectível verruga preta no traseiro esquerdo, que cresce conforme ela atravessa as décadas como soberana desta casa.
– Nada, Yafa! Nada pra mamãe ver!
– Tia, as roupas pro bazar.
– Olha só! Yafa! Yafa!
Yafa significa "bonita" em hebraico.
– A beleza da mamãe... pega a bolinha, pega! – E vareja a bolinha na direção das cadeiras de praia, empurrando a cachorra para fora da piscina. Yafa arfa e corre. – Bonita! Bonita!
Etc., etc., etc.
Olhando de cima, tenho a impressão de que a água parece capaz de puxar cada grande peito da minha mãe até o fundo da piscina. Posso ler o futuro dos meus peitos naqueles peitos, com clareza absurda, apesar da cor esverdeada do cloro. Por instinto, ajeito meu par dentro do sutiã. Talvez, quando chegar a minha hora de içá-los cirurgicamente, isso já seja tão barato quanto fazer as unhas.
Largo no chão duas malas cheias de roupas para o bazar do centro espírita. Então, só dá tempo de encher o pulmão antes de me atirar dentro d´água como uma bomba quando o tiroteio começa.
Abro os olhos ardendo no cloro, e o que resta da minha família, submersa, levanta as mãos e abana para mim, indicando que devo permanecer debaixo d´água. Pego ar e mergulho outra vez. Encaro o umbigo da minha mãe, emoldurado pelos seios enormes. Meu jeans pesa instantaneamente, a blusa branca fica transparente, os tênis ficam mais largos nos pés, como se quisessem me deixar e boiar acima de nós.
E as granadas vão boom boom-boom boom boom boom-boom, numa versão mais grave do coro feminino na música de Lou Reed, que Marky Mark sampleou em 1991 e um funk ressuscitou hoje, mais vulgar e poderoso. E nós, no bunker uterino de fibra de vidro, boom boom-boom boom boom boom-boom.
Amanhã dois garotos no ônibus a caminho do colégio público vão discutir se a coisa começou às onze da noite ou às onze e 15, com metralhadoras, parando às onze e meia para retornar à carga às três e ir até às quatro e quarenta, quatro e quarenta e cinco, com a invasão do Morro do Dendê pelo Batalhão Especial. Os garotos passarão a noite despertos, cronometrando, para competir no ônibus, no dia seguinte, a respeito de quem ficou mais tempo acordado que quem.
As quadrilhas debatem a posse de territórios fazendo voar argumentos sobre as casas da vizinhança, como antes as famílias do bairro se constrangiam mutuamente aos berros, brigando em aberto por causa de pouco dinheiro, uma bebedeira, um filho ilegítimo, traição, sandálias de dedo, domingo. Não que tenham parado com isso. Agora há o coro das pretas que vão boom boom-boom boom boom boom-boom e os encapuzados boom boom-boom boom boom boom-boom e a rua boom boom-boom boom boom-boom boom. E respiramos. Os movimentos para roubar oxigênio entre as balas e tornar a submergir são ágeis, carnes balançando e tudo.
Numa das subidas, percebo que o pincher aguarda o fim do tiroteio sob uma cadeira de praia que virara peneira. Não dou o alarme, precisamos descer rápido outra vez. Agora confiro de perto, debaixo d´água, o resultado da conversão tardia do meu tio ao judaísmo, realizada pouco antes de ele se casar: o quão dolorosa é uma circuncisão feita aos 30 e poucos anos?
Antes que eu veja mais alguma marca de família, tiros, granadas e dois helicópteros da Polícia Militar se calam. Estamos de novo na superfície. As casas de tijolos, que se multiplicam igual capim em torno das nossas, voltam a piscar acesas. As duas malas de tecido de jacquard com revestimento especial para evitar a retenção de líquidos estão perfuradas um bilhão de vezes, as roupas estraçalhadas. As mulheres do bazar do centro espírita ficarão decepcionadas, mas sem necessidade de culpar os santos. Afinal, minha família resta, inteira. Com exceção de Yafa.
A noite fica sossegada outra vez, cheia de mortos bem ali perto e de luzes nas janelas.
CECILIA GIANNETTI
| comentários (0)
:: fevereiro 11, 2007 02:35 PM