Eu me chamo São Salvador. Este nome remete a lugares em Portugal, a um bairro em Belo Horizonte e a uma ilha das Bahamas. Diante disso, o que importa mesmo é que tenho idéias, penso e até formulo opiniões sobre religião. Meu esporte preferido é observar. Já perguntaram se esse exercício é fatigante, claro que não, esclareço. É olhando que nos aproximamos mais das pessoas, descobrimos uma amizade nova, a vagabundagem, um caso de amor, a malandragem ou mesmo uma história contada pela metade.
Quem me olha de longe pode pensar que não faço nada da vida, mas existo e isso dá trabalho. Olho com inteligência para os que passam. Especulo sobre suas profissões, desejos, pressas, crimes, desafetos, felicidades e tristezas. São os personagens do espetáculo da cidade.
Gostaria de estar mais próxima do Paço Imperial, onde o Rio de Janeiro nasceu. A questão é que sou uma rua discreta e calma. Chego até o cento e quinze, depois não sei mais. Não alcanço o centro, mas como o rio em busca mar, faço conexões com outras ruas que chegam lá. Escuto o que as pessoas falam dele.
Sou um ser vivo e móvel, não era esse o conceito de João do Rio sobre a rua? Reflito os que moram aqui, os que me confundem com outro endereço e os que passam despreocupados para ouvir a roda de samba no coreto da praça São Salvador. Gosto da simplicidade dos entregadores, em suas bicicletas, dos carteiros e porteiros, do contato com as ruas Martins Ribeiro, Esteves Jr. e Senador Corrêa. Mas tenho inveja da Marquês de Abrantes. Por que o Lamas está lá?
Aos sábados, religiosamente, o vendedor de abacaxi vende suas frutas. A gargalhada e as conversas altas jogadas ao vento dos que tomam chopp, na Adega da Praça e no bar Casa Brasil, anima as tardes. Essa gente alegre pauta assuntos numa lista sem fim.
As meninas passam. Crescem. Ficam mulheres com cheiro dos bairros e das ruas. O meu cheiro é orvalhado; o de Botafogo é a mistura de perfume e cigarro; o da Rua das Laranjeiras remete as folhas secas do outono; o Flamengo tem cheiro de rosas; o Cosme velho de terra banhada pela chuva. Também há homens com cheiro de rua. Antes identificavam os rapazes do largo do Machado pelo perfume que usavam, o “cabelo à americana, roupas amplas à inglesa, lencinho minúsculo no punho largo, bengala de volta, pretensões às línguas estrangeiras, calças dobradas como Eduardo VII e toda snobopolis do universo”. Esse mesmo tipo, hoje, usa All Star, cabelos à moda Edward Mãos de Tesoura, jeans surrado e camisetas básicas com estampas urbanas ou frases em inglês. Mas, há outros tipos por aqui, há os com jeito interiorano, que vão tomar suco na sorveteria Copa 74 e comprar pão na Padaria e Confeitaria São Salvador - os padeiros garantem ter o melhor pão da fronteira Flamengo-Laranjeiras. Sim, esqueci de dizer que, metade de mim pertence ao Flamengo e a outra metade a Laranjeiras. Os dois bairros me possuem.
Os transeuntes têm expressões próprias. Os moradores têm hábitos comuns, lêem os mesmo jornais, assistem aos mesmos filmes e se encontram na creperia da Travessa dos Tamoios, na Adega do Juca, no Devassa e até no Bar Getúlio, no Catete. É inevitável não reconhecer um morador da São Salvador.
Sou uma rua humana, a exemplo das que me cercam e das que se avizinham, abrigo os mendigos que dormem nos bancos de concreto cor de telha, na Praça Jose de Alencar. Há uma senhora que não enxerga muito bem. Ela arrasta todas as manhãs uma grande sacola com seus pertences, a cada semana, uma moça de vinte e poucos anos lhe dá uns trocados para um café.
À noite todas as janelas ficam acessas com o reflexo prateado das TVs. Depois de um dia de trabalho, os moradores carregam idéias particulares e intransferíveis; mudam o jeito de vestir e de andar. Escuto uns falarem mal de inimigos, confessarem mágoas, sorrir pelo simples fato de estar vivo; e, os que são da boemia, pisam trôpegos no asfalto guiados apenas pelo instinto em silêncio. Para se expor na rua é necessário coragem. Os que flanam não se incomodam com o vento que leva as palavras. Outros lamentam as promessas que desaparecem no ar: o convite feito para um café, o número de um telefone que não foi anotado, um endereço para visitar que alguém esqueceu de dar, a possibilidade de um jantar...
Os insones, diante da psicologia das construções, acedem cigarros no parapeito das janelas. Constroem a rua ideal sem precisar sair da janela nem mudar a própria vida.
Sou a São Salvador, rua carioca, substantivo feminino entre dois bairros. Nem sou estreita nem apinhada de gente. Sou a cidade com as cores das rosas, das gérberas e dos cravos vendidos, de terça a domingo, pelo florista que monta e desmonta sua banca na esquina com a Ipiranga. Para me decifrar não basta me localizar no mapa, é preciso ser íntimo do verbo flanar e saber que uma rua é tão perecível quanto as pessoas que nela deixaram seus registros.
ELIS GALVÃO
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:: fevereiro 11, 2007 02:37 PM