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Pode subir
por Fernando Masini

Saí da rodoviária e peguei um circular para cruzar o centro e chegar ao Jardim Botânico. Tinha uma única missão na capital fluminense: entrevistar o maior documentarista brasileiro. Nada em mãos, nenhum encontro agendado ou intermédio de conhecidos. Sabia apenas que ele estaria no Rio no fim de semana. Carregava na minha mochila o endereço de seu apartamento e o telefone do escritório. Antes de partir de São Paulo, escutei do meu chefe: “o cara é meio arredio, não vai ser fácil”. Era um aviso.

Não seria uma entrevista corriqueira. Além de tarefa encomendada, era a chance de bater papo sobre os filmes que me despertaram para a realidade do país; dos trabalhos mais honestos realizados por um artista brasileiro. Nem gastei muito tempo colhendo informações sobre sua vida, sabia muita coisa de antemão, só anotei no pedaço de folha sulfite algumas datas relevantes. O maior temor era colocá-lo na frente da câmera, justamente o homem que conhecia todas as artimanhas na hora de sabatinar alguém.

Antes de procurar um hotel, resolvi fazer uma ronda a pé pela região onde ele morava e verificar o endereço que tinha registrado no meu bloquinho. Saltei do ônibus e tive de caminhar um bocado. Gostei do que vi, as árvores frondosas sombreando meu caminho e os primeiros botecos com cadeiras espalhadas nas calçadas. Muito chope na mesa e pouco terno nas pessoas. Comi ali mesmo, arroz com bife acebolado, um montinho de farofa no canto do prato e uma cerveja.

Lavei o rosto no banheiro e percebi que minhas pernas suavam debaixo da calça jeans. Saí do bar com a mochila pendurada nas costas. Senti meu corpo mole e fiquei com preguiça de voltar a caminhar. Parei numa pracinha cortada por um córrego e sentei-me no banco de cimento. Mesmo sabendo que não encontraria meu entrevistado assim de primeira, ensaiei frases para eventualmente combinar um horário e local onde pudéssemos conversar.

Apertei o interfone e aguardei. Vi que o porteiro saía de uma porta no saguão de entrada do prédio e dirigia-se para a cabine de vidro fumê. “Pois não?”. Apresentei-me e perguntei pelo entrevistado. O homem com sotaque nordestino demorou a dizer o número do apartamento e falou logo que o senhor Coutinho passava manhãs e tardes no escritório. Agradeci e voltei para a pracinha. Fiquei satisfeito de pelo menos saber que minhas informações estavam corretas.

Após sondar hotéis em Copacabana e Ipanema, me dei conta de que minhas economias para a viagem seriam insuficientes. Teria de optar por uma diária mais em conta. Fiquei zanzando feito barata tonta pela cidade. Ora pegava informações com taxistas, ora perguntava para pedestres apressados e camelôs. Andei perdido debaixo do sol, minhas costas encharcadas e os joelhos moídos de tanto dobrar. Poucas informações oferecidas nas ruas eram certeiras e a maioria fazia eu andar em círculo por becos desconhecidos.

Atravessei os Arcos da Lapa e finalmente encontrei três hotéis aparentemente com preços razoáveis, dois de esquina. Acertei os detalhes, preenchi uma ficha e subi as escadas. Joguei meu corpo no colchão coberto por um lençol branco manchado. Dormi de roupa.

Acordei com uma conversa invadindo a janela entreaberta do meu quarto. Levantei sem saber onde estava. As vozes eram de dois homens jogando cartas no barzinho em frente ao hotel. Agora de noite, a paisagem transformara-se, os neons borrados nas paredes, as luzes dos bordéis acesas e as prostitutas perambulando lá embaixo, as saias curtíssimas e os peitos estufados. A rua ordinária do fim de tarde ganhara vida. Vibrava lasciva. Debrucei-me no parapeito e fiquei inspecionando os detalhes. A mistura de sons e luzes fez-me lembrar da Rua Augusta. A mesma transformação acontecia ali, só que no lugar dos jovens roqueiros figuravam rodas de samba.

Liguei duas vezes para o entrevistado, ninguém atendeu. Deixei recados explicando que estava no Rio e que gostaria de marcar uma entrevista. Depois desci para comer alguma coisa e voltei cedo para dormir.

De novo no Jardim Botânico atrás do senhor Coutinho. “Ele não está”, o porteiro, agora outro, com o mesmo sotaque nordestino. Tentei outra saída. Perguntei se poderia conversar com alguém que pudesse transmitir o recado para ele. “Pode deixar que eu mesmo falo quando ele chegar”. Tudo bem, mas gostaria de deixar por escrito meu nome e telefone de contato. O porteiro, ainda desconfiado, resolveu acreditar na minha história e abriu o portão de grades de ferro. Sorri de satisfação. Deixei o bilhete na portaria e, ao sair, perguntei quando ele costumava voltar. “Lá pelas quatro”.

Era quase meio-dia. Teria que queimar tempo até tentar encontrá-lo no horário previsto pelo porteiro. Pela primeira vez, fiquei desanimado e sem a convicção de conseguir entrevistá-lo. Já pelejava há tempo um contato e não havia recebido qualquer retorno. Guardei gravador, caneta e bloco na mochila e fui caminhar na Lagoa Rodrigo de Freitas.

Quem sabe não encontraria cronistas ali. A alma desolada do Cony. Andei atento para enxergar o fascínio do caminho tão narrado por velhos românticos. Com os olhos duros e prontos para criticar o saudosismo piegas de certos sambistas.

Nos primeiros passos, encontrei um casal de velhinhos sentado no banco, com o jornal aberto, escondendo seus rostos. Tapando também a vista dos inúmeros quiosques que se seguiam ladeando o caminho de pequenas pedras. Na ciclovia, revezavam-se crianças em triciclos e homens de porte e roupa atlética suando satisfeitos de estarem em forma. De repente, uma paisagem monumental se abriu aos meus olhos. Era como “a máquina do mundo” de Drummond. Devagar, pétala por pétala. O contraste das montanhas e picos com prédios e moradias, os pedalinhos em forma de cisne circulando mansamente nas águas.

Percebi então como era fácil viver no Rio e porque essa terra era tablado inspirador de poesias doces. Caminhei por muito tempo sem me cansar da vista. Mesmo ela se repetindo por todos os cantos, morro após morro. Passei pelo clube Naval, por quadras poliesportivas e por garotos andando de esqueite e patinetes. Era sexta-feira, duas da tarde. O tempo passava sem eu me dar conta.

Retornei ao hotel, após ter passado mais uma vez no prédio do Jardim Botânico e ter recebido a mesma resposta: o seu Coutinho não está. Desconfiei do porteiro, mas não podia falar nada. Reclamar pouco adiantaria. Mesmo assim, retifiquei meu pedido da manhã: assim que o encontrasse, era para entregar meu recado em mãos.

O celular tocou enquanto eu tomava cerveja na praia de Copacabana. Voz de mulher. “Um momento que o Coutinho vai falar”, anunciou. Ele falou tudo muito rápido e diretamente, meio sem jeito e com desleixo. Acatei atento e perguntei qual seria o melhor horário para conversarmos. Acertamos os pormenores: sábado à noite, no apartamento dele. Desliguei o telefone e exibi uma satisfação clara no rosto. Pedi outra cerveja.

Permaneci calmo durante o resto do dia. Talvez o sol muito quente tenha me sugado a energia. Isso era ótimo, conseguia pensar melhor quando estava tranqüilo. Corrigi algumas informações no quarto do hotel. Ajeitei inúmeras vezes as fitas cassetes do gravador. Experimentei a tinta das canetas e anotei, por fim, algumas perguntas capitais.

O porteiro demorou no interfone até dizer: “pode subir, o seu Coutinho está esperando”. Agradeci e entrei afoito, subi dois lances de escada e peguei o elevador. Vestia uma camisa verde e uma calça marrom. Tinha a testa um pouco molhada. A porta abrindo-se e logo atrás um sujeito de camisa xadrez aberta na altura do peito, bermuda bege e chinelos com tiras de couro. O cabelo levemente despenteado. Era meu entrevistado. Foi muito cortês e chegou a pedir desculpas por não ter respondido antes, disse que costumava ter problemas com jornalistas.

Sentei-me do seu lado num sofá de couro preto. Quando fiz a primeira pergunta – sobre sua infância – Coutinho redargüiu desanimado: “Nossa, isso vai longe”. E foi mesmo. Conversamos durante uma hora e meia. Ele falou longamente sobre todos assuntos, apenas interrompidos por dois telefonemas da sua esposa. Deixei o prédio e fui jantar em um dos quiosques da Lagoa, com o gravador colado na orelha e o bloco de notas rabiscado sobre a mesa.


FERNANDO MASINI


Fernando Masini é jornalista e editor do Clube dos Cronistas Cotovelares (www.cotovelares.com).



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:: fevereiro 11, 2007 02:42 PM



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