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Cenas cariocas
por Tiago Velasco

Cena I – Ipanema

Vinha só de sunga e chinelo.

Desde que se aposentou, fez das manhãs ensolaradas na praia, rotina. Caminhava relaxado depois das partidas de vôlei com os amigos. As poucas centenas de metros da orla até sua casa serviam de passarela às morenas, negras e louras em seus biquínis pequeníssimos a caminhar com sensual despojamento. Sorria. Sorria aos jovens malabaristas de sinais, que, mesmo com vida sofrida, se divertem com as bolinhas coloridas a subir e descer, obedientes que são aos movimentos rápidos dos bracinhos habilidosos.

Ali, na esquina da Joana Angélica com Visconde de Pirajá, ele se sentia mais em Ipanema do que em qualquer outra esquina do bairro. Talvez pela tranqüilidade dos livreiros ao redor da Nsa. Sra. da Paz, ou, quem sabe, pelas velhinhas ao depositar suas promessas ao lado da igreja. Não sabia o motivo, mas não esquentava a cabeça. Para refrescar, o mate geladíssimo da Padaria Ipanema. Desde que o doutor proibiu o açúcar por causa da diabetes, não abusava mais dos sorvetes mirabolantes da Chaika. Uma pena.

Seguia em direção à Lagoa para ver a capivara antes do anoitecer; os pedalinhos e seus casais de namorados; a turma forte e sincronizada que dava suas remadas aos gritos do timoneiro. E as bicicletas passavam zunindo, os jovens faziam cooper e os cachorros pareciam sorrir com seus cocos na boca. O engarrafamento até o Rebouças, que podia ser visto pelas luzes dos faróis que começavam a se acender, avisava que era hora de voltar para casa.

Ia só de sunga e chinelo.

***

Cena 2 – Laranjeiras

Passou correndo pela barraca multicolorida de pimenta. Atrás dele, um rapaz já com uma certa idade e ar de poucos amigos. Cruzou o caminhão que serve como venda de pescados frescos. O moço mal humorado ganhava a companhia de outros não menos furiosos. O moleque fugia aos brados de “pega ladrão” mas não esquentava a cabeça. Avançava pela General Glicério e, à sombra das copas das árvores, sorria tão feliz que nem parecia que uma pequena multidão estava prestes a aplicar-lhe uma surra. Descalço, veloz e sem camisa, o garoto ziguezagueava entre os feirantes naquele sábado de março.

De tão ligeiro, não viu a hora que puseram a perna para tropeçar. Em centésimos de segundo, estatelava-se no chão. Por um momento, o sorriso largo ficou miúdo. “Vou te dar uma coça para aprender a não roubar mais as minhas rosas”, ameaçou o florista. Imediatamente, os músicos que batem ponto no chorinho da praça emendaram à melodia os seguintes versos: “Não maltrate o garoto, não/ ó, seu moço da flor/ o menino é gente-boa/ e
só rouba por amor...”.

Percebendo o momento de comoção, o rapazote arregalou os olhos brilhantes e, de um pulo, pôs-se em pé. Esboçou os passos de uma dança, mas, prudente, tratou de chegar logo na casa dela. Precisava urgentemente entregar a rosa à sua amada.

***

Cena 3 – Botafogo

Dona Mariana ficava sentada na sacada de sua antiga casa em uma rua arborizada de Botafogo. Olhava de soslaio para Dr. Ivo Pitanguy, fingindo não perceber que outros a desejavam. Um desses rapazes, um jovem rico, morador de uma luxuosa casa no quarteirão seguinte, trovava versos para sua amada pontualmente às 17 horas. Seu nome? Eduardo, Eduardo Guinle. Mas a paixão era proibida: Dona Mariana tinha idade para ser sua mãe.
Edu, como os amigos o chamavam, era um excelente aluno do Colégio Santo Inácio, tradicional escola a poucos metros da casa de Mariana, na rua São Clemente. Às vezes, matava aula e declamava serenatas adolescentes até Guilhermina, sua irmã mais velha, ir buscá-lo:

- Deixe de fazer papel de bobo. Essa Dona nunca será sua!

Edu saía cabisbaixo, embora soubesse que no dia seguinte ali estaria novamente. Sua tristeza só diminuía quando encontrava Bambina, uma formosa dama que, por um punhado de notas, o faria esquecer de Mariana naquele dia.

E assim Edu levava a vida. Todo ano, no dia 19 de fevereiro, seu aniversário, ele fazia o mesmo pedido. Dona Mariana havia de ser dele. Mas, para falar a verdade, nem ele acreditava nisso, embora não confessasse a ninguém, nem a Arnaldo Quintela, seu grande amigo desde pequeno.

Um dia, ainda suado do futebol que jogava com os colegas no fundo do quintal do General Severiano, ouviu uma voz o chamar. Olhou para os lados, não viu ninguém. Continuou, havia de ser apenas a imaginação. Escutou novamente. Atrás daquela sombrinha, usando luvas que cobriam quase metade do braço, a doce e bela Dona Mariana:

- Me acompanharia em um café?

Sorriu de felicidade, mas com todo o respeito que merecia uma senhora com idade para ser sua mãe.

***

Cena IV – Lapa

Na Mem de Sá, um pouco depois dos Arcos da Lapa, entrei à direita na Rua do Lavradio. É o primeiro sábado do mês e a rua está fechada pela feira de antiguidades. Se não bastassem as portas abertas dos sobrados a exibir orgulhosamente séculos de bom gosto em cada centímetro de madeira dos móveis expostos nos antiquários do bairro, pessoas vendem de tudo em suas barracas ou em panos estendidos pelo chão: de gramofones a discos de vinis, passando por telefones antigos, times de botões da época do vovô e candelabros que reluzem à luz quente do sol.

Depois de frear meus impulsos consumistas, sentei em uma cambaleante cadeira de metal para comer uma feijoada regada à cerveja abaixo de zero, uma estupenda mistura que promove horas adoráveis de bate-papo com os amigos. A batida de limão servida antes da refeição afaga o estômago e o aquece para o feijão com paio, costela de porco e carne seca. A química, seja dos escravos ou dos portugueses (vai saber?), é tiro e queda: alimenta amizades calorosas e duradouras. Difícil mesmo é se levantar de lá e ir embora.

Mas resolvi poupar minhas energias, porque sabia que a Lapa, generosa como só ela, assim que as estrelas aparecessem, poderia me convidar para dançar aos passos de samba e chorinho nas inúmeras casas da região; ao ritmo das bases eletrônicas que servem de pano de fundo para MCs fazerem seus versos; ou, até mesmo, ao som distorcido de guitarras amplificadas no Circo Voador. Só vai depender da minha disposição.

***

Cena 5 – Leblon

Saí do trabalho. Sexta, véspera de feriado. Um engarrafamento monstro. Chego com uns amigos no Leblon para sentar num boteco e tomar uns chopinhos. O tráfego ruim não acabaria antes da quinta rodada. Botequim gostoso tem bolinhos saborosos e bebida congelando. Mesa de metal e banquinhos informalíssimos também contribuem para a sensação de cumplicidade velada. Sabe quando você está em um lugar onde não conhece ninguém mas se sente parte dele? Então, é a cumplicidade velada. Sem ela, os barzinhos do Leblon não seriam no Leblon.

Chicôôô. O garçom sorri um sorriso apressado. Em passos que derramam um pouco do chope na bandeja, ele põe sobre nossa mesa uma porção de bolinhos de bacalhau. O quitute estala ao toque do azeite e da pimenta. Delícia. Dar atenção ao estômago é fundamental para manter o bom humor das conversas de bar. Conversas que deveriam ser tombadas pelo seu valor de socialização. Todas as mesas estão cheias de pequenas confraternizações. Mesmo os solitários do balcão, vão ao boteco porque encontram no atendente, além de um ótimo fornecedor de chope, uma companhia para ouvir e falar.

Fomos embora do bar. Cada um toma o rumo mais fácil para a casa. No caminho até o ponto de ônibus, o bairro apresenta sua faceta interiorana: as pessoas se cumprimentando ao se cruzarem nas calçadas – muitas delas moram lá desde que nasceram –, o jornaleiro que conhece os clientes pelo nome e o vendedor de bolo de coco com aipim que circula com sua carrocinha. A simpatia do Leblon. Ah, o Leblon...


TIAGO VELASCO



| comentários (0)

:: fevereiro 11, 2007 02:45 PM



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