O nariz humano é capaz de detectar até dez mil odores diferentes. As células do cérebro, uma vez destruídas, jamais se recuperam; o tecido capilar que recobre a narina, ao contrário, se regenera em caso de perda, o que garante a perpetuação do sentido do olfato. Se não fosse por isso, o próprio ato de respirar impediria que um ser humano comum ainda pudesse perceber perfumes diferentes por volta dos trinta anos.
Graças a Deus!
Porque eu já tinha por volta dos trinta anos e foi assim que eu a encontrei. Pelo cheiro. No meio de tantos outros vários cheiros, as essências se encontrando e se despedindo no meio de um bloco de carnaval, sangue suor e cerveja misturado a perfumes baratos e lança perfume, tudo isso torrado e moído no chão de asfalto da Vieira Souto num domingo de carnaval, e eu colado a um poste sem saber bem para onde me virar, sem saber se o melhor era ir para casa ou ficar, porque a Isabel ainda me doía o peito inteiro e eu sabia que estar ali no meio da banda era arrumar encrenca, confusão, eu me sabia triste e abusável, e quantas não são as mulheres que procuram um pouco de abuso num domingo de carnaval em Ipanema, quantas não matariam o primogênito para ter um pouco de confusão?
Não me lembro o preciso momento em que algo na esquina moveu minha atenção para fora do meu próprio umbigo e eu decidi olhar, esquecido da possibilidade de escolha entre ir e ficar (mal sabia eu que essa seria minha última possibilidade de escolha, que daquele dia até hoje eu não conseguiria optar por uma rua ou por outra, que escolher um vinho em um restaurante me levava horas, que eu sequer planejava o banho porque o momento vinha impiedoso, e eu simplesmente me levantava e ia, sem sequer conhecer o verbo optar, optar por não tomar mais banho, não mais comer ou dormir ou respirar, eu simplesmente fazia a coisa toda no automático, acordar comer respirar comer tomar banho e dormir, e assim se ia meu dia e minha semana e meu mês, repleto de uma falta de opções). Mas algo ocorreu naquele instante em que meu joelho se dobrara e eu pensara em me encaminhar de volta para a Sá Ferreira; um acidente qualquer, um pára-quedista caindo na orla, um assalto, um naufrágio. Alguma confusão encorpou na esquina com a Farme e eu acabei ficando para saber o que era. Estiquei o pescoço, os músculos rangendo com o esforço, espremi os olhos sob o sol e desvendei umas vinte cabeças que surfavam as tantas outras, sumindo e reaparecendo como que em movimento circular, e a briga estava ficando feia e eu resolvi que era hora mesmo de ir para casa, era hora de tomar um banho, abrir um vinho dentro do ar condicionado, quem sabe ouvir um pouco de jazz, dar uma olhada em um filme, dormir. E circundei o tal poste pela esquerda e rumei para mais perto do túnel, os cheiros todos do bloco, os cachorro-quentes das barracas, a borracha dos pneus estacionados queimando, o barulho da banda sendo levado pelo vapor da calçada até minhas narinas, e enquanto isso eu sequer percebia que tinha algo, tinha algo bem atrás no meu cérebro que ia marchando nariz adentro até alcançar meu peito, e eu sequer me dei conta de que, da mesma forma que aquela havia sido minha última escolha, aqueles seriam meus últimos aromas se não levarmos em conta o perfume dela.
Até agora.
A questão do acidente em nada ajudou minha descoberta, não diretamente, mas se não tivesse havido um acidente eu teria ido para casa segundos mais cedo, e não a teria encontrado. Não foi perto da Farme que a encontrei, como posso ter insinuado a um leitor mais ansioso. Não foi sequer no circuito da orla mas enfiado no meio de Ipanema, quando já cansado do calor fevereiro no Rio, detestando carnaval e esperando lavar toda aquela folia da minha pele, entrei em uma livraria procurando um ar condicionado que contrastasse com o mormaço que carregava o samba, eu queria era um jazz bem solto, algo que me levasse talvez de volta à Orleans com Isabel, uma coisa mais bayou que cajun, eu queria fugir do Rio naquele instante, e por isso sacudi a poeira carioca das minhas costas e entrei na livraria, o ar ríspido me acariciando a pele quente, e me encaminhei direto para a sessão dos cds de jazz me sentindo um pouco rei um pouco príncipe, que na minha cabeça ninguém mais estaria ali, nenhum corpo estaria escondendo parte da estante dos meus olhos, eu achei quando entrava na livraria que eu seria a única viva alma a buscar jazz no carnaval do Rio (que em nada se assemelha ao do French Quarter, Isabela um dia disse) e por isso me encaminhei para a sessão de jazz com um andar meio posudo, sentindo orgulho da minha exclusão voluntária, como se isso me validasse diante de todos os medos da vida, um cara que ousava pedir jazz em pleno carnaval não podia ter medo de mais nada, nada o assustaria, era a ousadia em pessoa e que coragem, que cara e que coragem! eu pensava enquanto subia as escadas.
E, mesmo ao vê-la, achei ainda que eu era o cara impiedoso e cruel que tinha sido por segundos ao subir as escadas, porque as costas dela eram estreitas e mal tapavam três fileiras de cds, e ao invés de achar que eu já estava perdido quando vi os pequenos fios loiros que adornavam-lhe a nuca eu ainda tive tempo de ficar um pouco irritado, quem era a estranha que adentrava meu castelo vestindo um short e uma camiseta azul marinho, o que ela estava fazendo ali e por quê ninguém ainda a tinha retirado mesmo que a força?, eu me lembro de ter tido esses pensamentos enquanto me encaminhava e me postava atrás dela, os cabelos curtos em desalinho que mais tarde eu conheceria não ser resultado de travesseiro mas das mãos dela que são aceleradas, eu me postei em urah atrás da estranha, meu peito já meio estufado e a barriga encolhida, que naquele momento eu era rei e príncipe herdeiro, e ela estava no meu território e aquela invasão me incomodou muito, seria fácil enxotá-la, e era isso que eu iria fazer, eu iria enxotá-la dali, demorar o tempo que eu quisesse escolhendo um cd de jazz, marchar para o caixa e deixar a livraria carregando a pequena sacola preta e rumar para casa esquecido do incidente e todo o reino iria sorrir porque a ordem estava restaurada. E eu ainda pensava em tudo isso quando a porra da tecnologia me traiu, e uma lufada de vento vindo do ar condicionado acariciou a parte de trás do pescoço dela e ergueu a mão em concha oferecendo aquele perfume às minhas narinas, e eu precisei de ar no mesmo instante, traído pela porra da tecnologia, da física, da biologia, e achei que eu sentiria incólume aquele perfume pela primeira vez e continuaria minha jornada para esquecer Isabel.
E tudo seria fácil assim se não fosse o perfume dela, só dela, e se eu não o tivesse aspirado com mais força do que eu podia, e ela não tivesse se virado ao som do meu movimento e me fitado com espanto daqueles olhos azul carbono, e se naquele momento eu não estivesse completamente vendido, e ela não tivesse sorrido ao ouvir o martelo da compra, e eu não a tivesse beijado ali mesmo uns quinze minutos depois, sabendo-lhe as preferências musicais mas não o nome, a minha mão segurando-a pela nuca e aquele perfume que ficou na minha pele desde então e é ainda tudo o que sinto, mesmo agora, quase um ano e cinco encontros depois e todo um oceano de esquecimento do resto, de jazz e de Isabel e de cajun e bayou, e ontem ela me disse que está indo embora, vai morar em Paris com umas amigas, e aqui estou eu novamente, e mais uma vez é carnaval, mas este ano eu sequer vou ir ver a Banda de Ipanema porque há muitos meses eu já perdi a habilidade de sentir o cheiro de mar.
BARBARA LIMA
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:: fevereiro 11, 2007 02:49 PM