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Esquecimento
por Luciano Silva

Lima levantou-se as quinze para as dez. Foi ao banho. Voltou. Na mesa da cozinha procurou o jornal por entre uma chusma de papéis. Revirou daqui, olhou de lá, espremeu os olhos, mas só o encontrou minutos depois, junto ao pé da mesa. Uma dúvida atroz havia se apoderado dele à noite, impedindo-lhe o sono: teria confundido a grafia de cessão com a de secção? Não lembrava. De posse do periódico, foi direto para a coluna que levava a sua assinatura. Segunda linha do terceiro parágrafo: perfeito! Tudo estava em ordem. Com o jornal diante dos olhos pegou o bule e despejou uma gosma preta em um copo sujo. Sentou-se com o café em uma das mãos, o jornal na outra e põe-se a ler. Não foi a melhor matéria já escrita; todavia, não era a pior. Prometeu-se melhorar.

O sol, no ápice, torrava o asfalto indiferente. Na rua, as crianças anunciavam as festas de fim de ano.

Na casa, Lima procurava por uma meia. Iria exercer a rotina de encostado: perambular o Rio de Janeiro, esquecer-se das últimas semanas, dos réis em falta, das coisas ruidosas da vida; enfim, dos males que se lhe flagelavam o corpo e a alma. Talvez começasse o projeto Folclore Brasileiro, talvez não. No caminho decidiria, quando o resquício agonizante da paraty, ingerida á noite anterior, fosse substituído pelas primeiras cervejas do dia.

Em pé, abarcando os cômodos com o olhar, aguçando a audição, Lima procurou Evangelina, sua irmã. Não a encontrou e, feliz, ganhou o mundo às escondidas. Na volta, havendo bronca, daria suas desculpas. Ele é que não iria atormentar-se com o abafado do clima, colando-se ao mofo da casa.

Tomou a Major Mascarenhas, em Todos os Santos, seguiu à transversal. Pegou o trem. Sem destino, deixou-se ir. Entretanto, pouco antes da Central, sem anúncio de chegada, uma sensação estranha veio misturar-se em sua mente, preocupando-o: esquecia algo. Que era? Não sabia, mas o desconforto agarrava-se a ele indolente, fazendo-o refletir. Que era? Puxou pela a memória. Olhou de verruma as embotadas lembranças. Confundiu-se: secção ou cessão? Não lembrava.

Desceu. Cogitou passar pelo Campo de Santana, mas desistiu. Seguiria a pé, subindo a General Câmara. À altura da Rua do Ouvidor, lembranças da época em que morava na pensão da Dona Augusta vieram à tona. Mais adiante, na Rua dos Andradas, caiu seu olhar sobre um casal que passeava próximo à Escola Politécnica, no Largo de São Francisco. Recordações desagradáveis do tempo da Engenharia surgiram, para, em seguida, serem substituídas pelas as das noites passadas nos cafés Papagaio ou Paris, junto aos amigos de copo e letras. A execrável perseguição exercida pelo professor Cardoso não havia deixado mágoa em seu coração.

Um vento sutil e reconfortante o levou à escada da Igreja de São Francisco De Paula. Entrou, embora não gostasse da arquitetura à Luiz XVI. Exceção aberta, admirou-se com a arte do mestre Valentim. Olhou. Saiu. Contente, Lima, pela primeira vez em tantos anos, contemplou o perfil da estátua de José Bonifácio, alvo de tantas pilherias praticadas por ele e seus amigos, no tempo de estudante.

Uma vertigem inesperada, entretanto, quase o deitou ao chão. O frenesi o fez precipitar-se para o corrimão à direita, em busca de apóio. Controlou-se. Aos poucos um vulto foi se materializando em sua mente: delirava. “No terceiro degrau das escadas de S. Francisco, a esquerda de quem sobe” Lima via o Quincas Borba coadunar-se ao paralelepípedo frio e asqueroso, com suas vestes surradas.

—Não é possível! Sussurrou a si mesmo. Quincas Borba, ali, deitado... Estaria a malévola realidade a lhe pregar uma peça? Hesitou, respirou, e conteve o desejo de chamá-lo à prosa.

Aos poucos ele recobrou a lucidez e distinguiu a sutileza do ocorrido: misturou ficção e cotidiano, literatura e sociologia, Machado de Assis com um alheio esfarrapado. Acalmou-se. Refletiu ruminando algumas idéias, e recordou das tristes tardes no hospício, quando, isolado, sentia o peso da indiferença do mundo. Não queria sentir-se vazio e abandonado novamente. Para tanto, bastava manter a calma, esforçar-se e evitar pensar no cemitério dos vivos, que tão pungentemente o recolhera por uma trinca de vezes.

Recomposto, e rindo amargamente do lapso que o atacara, Lima desceu as escadas da Igreja sem virar as costas, e foi ter com o Senhor Chagas, dono de boteco.

Chegou, sentou-se, e pediu uma cerveja. Deixaria a paraty para mais tarde; estava cedo. Controlar o excesso de cachaça era vital para que a epilepsia tóxica, enfermidade que tanto lhe afligia, não lhe dominasse.

Não havia conhecidos àquela hora. Beberia sozinho, coisa que detestava. Com o primeiro gole a sensação de esquecimento o atacou mais uma vez. Lima, mecanicamente, levou à mão ao paletó, em revista aos documentos. Estavam lá. Mas -tinha certeza- algo ficava para trás. Que seria? Algum artigo para o jornal? Quitar conta em atraso? Não conseguiu lembrar. Melhor desistir e entregar-se a bebedeira. Lima entrou na rotina como quem entra no céu. Sóbrio, cheio de si, preste a engolir o mundo (e o mais) pelo copo. O pressentimento de que esquecia algo não foi capaz de o alertar para o resultado da seleção à vaga de João do Rio, na Academia Brasileira de Letras, divulgado pela manhã.

Agraciado pelo dom do esquecimento, Afonso Henriques de Lima Barreto bebeu e riu, e chorou, e cantou, e virou as costas - àquele dia- à Academia que, por tantas vezes, a ele as costas havia virado.

LUCIANO SILVA



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:: fevereiro 11, 2007 02:53 PM



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