A palavra certa para definir o conjunto de narrativas enfeixadas em "Somos todos iguais nesta noite", o novo livro de Marcelo Moutinho, é singularidade. As narrativas têm o ponto comum da lembrança afetiva, e partindo dela estabelecem relações com a realidade. Outro ponto importante é a presença de um subúrbio nostálgico, idealizado na mente do escritor e recriado através de sua lembrança, resgatando fatos julgados imprescindíveis para a formação de sua memória.
Marcelo Moutinho investe sobre a cidade. Esquadrinha a alma dos subúrbios cariocas à moda de um Ribeiro Couto. Soma à investigação um olhar cinematográfico um road movie do menino que no modelo de automóvel novo do pai acompanha a movimentação dos anônimos que cruzam seu caminho.
O lirismo bêbado de Moutinho não esquece dos clowns. E tampouco dos sonhadores. O pescador jogando sua tarrafa nas estrelas metaforiza nossa incessante busca através da vida de um sentido, e nele podemos enxergar a tarefa do escritor, mergulhado no irremediável de si mesmo.
"Rosa Noturna" e "Dedicatórias" são os dois pontos altos do livro. Ambos versam sobre a dissolução do humano e atravessam a própria crise que engendram para recriarem a si mesmos no ambiente inóspito de um futuro sem esperança.
Marcelo Moutinho é franco como o próprio sorriso estampado em sua fotografia. E cada conto de seu livro é este mesmo sorriso, em todas as possibilidades e significados. E por cada sorriso passeia uma imagem do Rio, um enigma. Basta entrarmos para começarmos a decifrá-lo.
Somos Todos Iguais nesta Noite
Marcelo Moutinho
Ed. Rocco
124 páginas
R$ 19,00
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:: fevereiro 11, 2007 05:51 PM