Caro amigo Augusto Sales, hoje importantíssimo editor do Paralelos, que publicou em livro o único conto literário de minha vida:
Neste dia 20 de janeiro, Dia de São Sebastião do Rio de Janeiro, sei que muitos lá de fora vão te cumprimentar pelo aniversário da cidade. Engano comum: ontem mesmo recebi um spam de uma famosa loja de eletrodomésticos me parabenizando e oferecendo desconto em nome de mais um ano completado por esta cidade. Declinei do desconto. Aliás, acho que recusaria até se, em vez de desconto, tivesse vindo um presente; não abro mão do 1º de março desde a noite em que um avião passou em cima da cabeça do Tom Jobim bem no momento em que ele começava a cantar, com suas lindas vocalistas, “...vejo o Rio de Janeiro, estou morrendo de saudade...”. Não nos conhecíamos, era o ano de 1991 – mas talvez você também estivesse lá. Enfim, me dá a impressão de que Tom embarcou naquele avião rumo à eternidade, como se quisesse descansar um pouco desse calor e dessa tensão. Ora, não era ele quem dizia que “Nova York é bom, mas é uma merda, o Rio é uma merda mas é bom”? Nada mais justo que volta e meia o Maestro brigasse com a cidade por quem foi apaixonado toda a vida.
Só sei, caro Augusto, que esse negócio de Cidade Partida não é bem o que eu penso. Eu acho que temos vários países aqui dentro. Você bem o sabe, você veio do Méier, a Ipanema da Zona Norte, eu fui criado aqui na Zona Sul a vida inteira, mas tive de atravessar o túnel para encontrar o grande amor da minha vida, a mulher com quem vim a me casar. Vocês da Zona Norte têm um quê de tenacidade, de “seguir em frente sem nem ter com quem contar”, que faz de vocês pessoas melhores. Nem estou falando que na Zona Sul só tem playboy, mas é que na Norte se sente mais a questão do país dentro das cidades. Ora, a Itália tem San Marino e Vaticano como repúblicas independentes, muita gente quis fundar a República do Leblon, pois eu te digo que o Méier, Quintino e Piedade são como um condado, um “county” como dizem os ingleses e americanos. Nomeio-te Conde da Dias da Cruz, portanto. Hoje você mora do lado de cá do túnel, assim como meu amigo Marcelo Moutinho, que é madureirense legítimo. Mas o olhar revela tudo, caro Augusto. Vocês são de outro país – e eu gosto da gente desse país. O sotaque de vocês me lembra um samba qualquer de João Nogueira.
A frase que une todos estes países, caro Augusto, é “A culpa é do governo”. Eu concordo com ela. São os governos que colocam mais policiamento na Zona Sul do que na Zona Norte, porque o crime na Zona Sul repercute mais – é aquele velho círculo vicioso de “crime-imprensa-anunciante-mercado consumidor-reforçar Zona Sul-eleição”. Os números não mostram isso, com certeza. Mas outro dia saltei do metrô em Irajá, peguei um ônibus até um pequeno bairro perto do Amarelinho, pequeno porém muito tranqüilo, e não vi um policial sequer em um trajeto de 15 minutos. Nada. Nem guarda municipal. Enfim, é por essas e outras mais que surgem as milícias. Nós aqui na Zona Sul pagamos pela segurança privada nas ruas. O pobre lá na Zona Norte cansou de não ser atendido e passou a pagar uma graninha pro vizinho policial, que mora ao lado. E ficamos assim. A culpa é do governo, dos governos todos, estaduais, municipais, federais. Mas a solução só vai poder vir do carioca comum mesmo.
São os governos que demoram mais a consertar buraco na rua, são os governos que deixam os bairros sem luz, são os governos que deixam o bairro sem água encanada. Disso não há dúvidas. Mas o Mal já foi feito, e é difícil consertar: não temos mais a autoridade pública, nos falta o funcionário de carreira que não tem apenas indicação política, enfim, falta a coisa pública. O que a gente faz enquanto não tem? Não me venha com esse papo de votar direito. Você sabe bem que não vai ser por aí. A democracia é boa, velho amigo, mas só tem me dado decepções. Democracia é como o Flamengo: torço mas não vence. Se bem que ano passado ganhamos a Copa do Brasil.
Acho que nesse dia 20 de janeiro, caro Augusto, a gente deveria declarar a independência do Méier, a Independência da Urca, de Botafogo, de Acari, de Quintino, do Leblon, da Lagoa, da Fonte da Saudade, de Irajá, de Ipanema, de Copacabana. A gente colocaria, de cada país novo, uns 10 caras que a gente acha “Pedra 90” (lembra desta gíria?) em um parlamento, e criaria a União das Repúblicas Capitalistas Cariocas, URCC. Quando fôssemos jogar algum campeonato, usaríamos a inscrição CCCP na camisa azul e branco, só para poderem fazer a piada “Camaradas, Cuidado Com Política”. Por que “capitalistas”? Ora, porque esse negócio de comunismo ou socialismo jamais daria certo no Rio de Janeiro. O carioca é desigual por vocação, por natureza. E gosta de consumir: chopes, cervejas, sucos, torresmos, frangos à passarinho, pizzas, pastéis com caldo de cana, e o próprio coração. Somos capitalistas militantes, até mesmo o mais empedernido petista na única mesa ocupada do Amarelinho da Cinelândia às duas da madrugada.
Mas vamos falar do que é importante: daqueles parlamentos dos Pedras 90.
Da República do Jardim Botânico, teríamos pelo menos uma representante parlamentar que usasse sarongue ou outra roupa indiana qualquer. Fumasse cigarros de bali, adorasse o verde, comesse pizza de cantina no Jóia e andasse no 410 em direção ao Horto.
Na República de Botafogo, obrigatoriamente o representante parlamentar seria um barbudo de boné e estrelinha do PT que freqüentou o Bar do Tio Otávio nos anos 90 e hoje vive armando bloco de samba na Cobal.
Na República do Flamengo, o deputado seria alguém que não passa uma semana sem aquela esfiha da Galeria Largo do Machado, e teria de obrigatoriamente já ter fumado cigarro na área de fumantes do Estação Paissandu.
Como escolheríamos o representante da República do Leblon? Talvez os garçons do Bracarense, que priorizam quem eles conhecem, fossem os eleitores mais honestos para isso. Mas certamente este deputado do Leblon teria de chegar à Pizzaria Guanabara toda madrugada de sábado, pedir um chope e um pedaço de pizza, contar uma história engraçada e repudiar a briga física na mesa ao lado.
Na República de Ipanema, eu deixaria minha amiga Glória Roland escolher o parlamentar. Glória não é de querer o cargo, ela prefere influenciar o parlamentar. Eu também prefiro assim – Glória tem coisas mais importantes a fazer em Ipanema do que ser política. O dono da Toca do Vinícius, Carlos Alberto Affonso, também estaria neste parlamento obrigatoriamente, posto que é guardião da chama. A luta dele para preservar a Bossa Nova é, na verdade, uma luta em defesa do Rio de Janeiro.
O cara que fosse representar a República da Tijuca jamais poderia falar a palavra “Saens Peña”. Um verdadeiro parlamentar tijucano só chama a Saens Pena de “Praça”. Ele teria de comprovar com documentos que sente saudades do Cine Carioca e que já molhou polenta no molho de tomate na Galeteria La Nonna (obrigado, Cascalho Ventura, por mais essa dica). E sempre que abrisse a carteira, teria de deixar cair um bilhetinho do metrô.
Nem preciso dizer que Vila Isabel, entre seus 10 representantes, teria um que soubesse cantar no mínimo “Feitio de Oração” inteira. Quem acha, vive se perdendo. Mas ele teria de achar rapidinho na calçada musical a parte onde está escrito “salpicava de estrelas nosso chão”. Até hoje não achei, amigo Augusto.
Na República da Urca, eu te digo: o parlamentar local teria de ter pelo menos jogado nos juvenis do Guaíba Praia Clube, o imortal time de praia. Eu estaria assim alijado do processo eleitoral, a não ser que houvesse uma cláusula permitindo a candidatura de todo torcedor que estivesse em Copacabana no dia do histórico Guaíba x Valença. Nesse dia, quase 50 pessoas pareciam estar dançando numa imaginária boate lotada no meio da praia, próximas umas das outras – mas na verdade estavam saindo na porrada. Eu, claro, via de longe. Tou fora dessa de brigar por causa de futebol.
Não sei se você toparia assumir uma das cadeiras da Republica do Méier, mas em caso negativo, teria de ser alguém que foi em shows no Imperator e que já tenha almoçado pelo menos 200 vezes na Churrascaria Sal Grosso. Mais importante do que já ter andado de trem. Eu usaria de nepotismo e daria para minha mulher uma das cadeiras da República de Quintino – mas teria de pedir autorização ao Zico antes. Mas certamente quem representasse Quintino teria de ter estudado em Piedade, no Colégio Nossa Senhora da Piedade. É onde todo mundo estudou, que nem em Niterói, onde todo mundo estudou no Abel ou no Salesiano.
Acho que essa união das repúblicas, caro Augusto, talvez salvasse essa cidade quente de virar uma Chicago que ela ainda não é (Chicago não teve um calçadão do Posto Nove). E mais do que isso, preservaria uma identidade que volta e meia a gente vê se perder – pense que volta e meia tem um pessoal nosso chamando de “balada” o ato de sair à noite. Me lembro que só usei essa palavra até hoje para canções como “Love Hurts”, do Nazareth. “Balada” era música lenta de banda porrada, lembra?
No dia em que as repúblicas se unirem, talvez todo mundo entenda que este dia 20 de janeiro é o dia do padroeiro, não é o aniversário, mas é importante para a gente pensar no Rio mais uma vez. E rezar para que as estátuas do Redentor e de São Sebastião nunca sejam confundidas – nos últimos anos, andam atirando flechas venenosas demais para o alto do Corcovado.
Ainda bem que os braços Dele continuam abertos.
Um abraço,
Gustavo de Almeida
Rio, 20/01/2007
GUSTAVO DE ALMEIDA
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:: fevereiro 11, 2007 06:33 PM