Caro amigo Augusto Sales, hoje importantíssimo editor do Paralelos, que publicou em livro o único conto literário de minha vida:
Neste dia 20 de janeiro, Dia de São Sebastião do Rio de Janeiro, sei que muitos lá de fora vão te cumprimentar pelo aniversário da cidade. Engano comum: ontem mesmo recebi um spam de uma famosa loja de eletrodomésticos me parabenizando e oferecendo desconto em nome de mais um ano completado por esta cidade. Declinei do desconto. Aliás, acho que recusaria até se, em vez de desconto, tivesse vindo um presente; não abro mão do 1º de março desde a noite em que um avião passou em cima da cabeça do Tom Jobim bem no momento em que ele começava a cantar, com suas lindas vocalistas, “...vejo o Rio de Janeiro, estou morrendo de saudade...”. Não nos conhecíamos, era o ano de 1991 – mas talvez você também estivesse lá. Enfim, me dá a impressão de que Tom embarcou naquele avião rumo à eternidade, como se quisesse descansar um pouco desse calor e dessa tensão. Ora, não era ele quem dizia que “Nova York é bom, mas é uma merda, o Rio é uma merda mas é bom”? Nada mais justo que volta e meia o Maestro brigasse com a cidade por quem foi apaixonado toda a vida.
Só sei, caro Augusto, que esse negócio de Cidade Partida não é bem o que eu penso. Eu acho que temos vários países aqui dentro. Você bem o sabe, você veio do Méier, a Ipanema da Zona Norte, eu fui criado aqui na Zona Sul a vida inteira, mas tive de atravessar o túnel para encontrar o grande amor da minha vida, a mulher com quem vim a me casar. Vocês da Zona Norte têm um quê de tenacidade, de “seguir em frente sem nem ter com quem contar”, que faz de vocês pessoas melhores. Nem estou falando que na Zona Sul só tem playboy, mas é que na Norte se sente mais a questão do país dentro das cidades. Ora, a Itália tem San Marino e Vaticano como repúblicas independentes, muita gente quis fundar a República do Leblon, pois eu te digo que o Méier, Quintino e Piedade são como um condado, um “county” como dizem os ingleses e americanos. Nomeio-te Conde da Dias da Cruz, portanto. Hoje você mora do lado de cá do túnel, assim como meu amigo Marcelo Moutinho, que é madureirense legítimo. Mas o olhar revela tudo, caro Augusto. Vocês são de outro país – e eu gosto da gente desse país. O sotaque de vocês me lembra um samba qualquer de João Nogueira.
A frase que une todos estes países, caro Augusto, é “A culpa é do governo”. Eu concordo com ela. São os governos que colocam mais policiamento na Zona Sul do que na Zona Norte, porque o crime na Zona Sul repercute mais – é aquele velho círculo vicioso de “crime-imprensa-anunciante-mercado consumidor-reforçar Zona Sul-eleição”. Os números não mostram isso, com certeza. Mas outro dia saltei do metrô em Irajá, peguei um ônibus até um pequeno bairro perto do Amarelinho, pequeno porém muito tranqüilo, e não vi um policial sequer em um trajeto de 15 minutos. Nada. Nem guarda municipal. Enfim, é por essas e outras mais que surgem as milícias. Nós aqui na Zona Sul pagamos pela segurança privada nas ruas. O pobre lá na Zona Norte cansou de não ser atendido e passou a pagar uma graninha pro vizinho policial, que mora ao lado. E ficamos assim. A culpa é do governo, dos governos todos, estaduais, municipais, federais. Mas a solução só vai poder vir do carioca comum mesmo.
São os governos que demoram mais a consertar buraco na rua, são os governos que deixam os bairros sem luz, são os governos que deixam o bairro sem água encanada. Disso não há dúvidas. Mas o Mal já foi feito, e é difícil consertar: não temos mais a autoridade pública, nos falta o funcionário de carreira que não tem apenas indicação política, enfim, falta a coisa pública. O que a gente faz enquanto não tem? Não me venha com esse papo de votar direito. Você sabe bem que não vai ser por aí. A democracia é boa, velho amigo, mas só tem me dado decepções. Democracia é como o Flamengo: torço mas não vence. Se bem que ano passado ganhamos a Copa do Brasil.
Acho que nesse dia 20 de janeiro, caro Augusto, a gente deveria declarar a independência do Méier, a Independência da Urca, de Botafogo, de Acari, de Quintino, do Leblon, da Lagoa, da Fonte da Saudade, de Irajá, de Ipanema, de Copacabana. A gente colocaria, de cada país novo, uns 10 caras que a gente acha “Pedra 90” (lembra desta gíria?) em um parlamento, e criaria a União das Repúblicas Capitalistas Cariocas, URCC. Quando fôssemos jogar algum campeonato, usaríamos a inscrição CCCP na camisa azul e branco, só para poderem fazer a piada “Camaradas, Cuidado Com Política”. Por que “capitalistas”? Ora, porque esse negócio de comunismo ou socialismo jamais daria certo no Rio de Janeiro. O carioca é desigual por vocação, por natureza. E gosta de consumir: chopes, cervejas, sucos, torresmos, frangos à passarinho, pizzas, pastéis com caldo de cana, e o próprio coração. Somos capitalistas militantes, até mesmo o mais empedernido petista na única mesa ocupada do Amarelinho da Cinelândia às duas da madrugada.
Mas vamos falar do que é importante: daqueles parlamentos dos Pedras 90.
Da República do Jardim Botânico, teríamos pelo menos uma representante parlamentar que usasse sarongue ou outra roupa indiana qualquer. Fumasse cigarros de bali, adorasse o verde, comesse pizza de cantina no Jóia e andasse no 410 em direção ao Horto.
Na República de Botafogo, obrigatoriamente o representante parlamentar seria um barbudo de boné e estrelinha do PT que freqüentou o Bar do Tio Otávio nos anos 90 e hoje vive armando bloco de samba na Cobal.
Na República do Flamengo, o deputado seria alguém que não passa uma semana sem aquela esfiha da Galeria Largo do Machado, e teria de obrigatoriamente já ter fumado cigarro na área de fumantes do Estação Paissandu.
Como escolheríamos o representante da República do Leblon? Talvez os garçons do Bracarense, que priorizam quem eles conhecem, fossem os eleitores mais honestos para isso. Mas certamente este deputado do Leblon teria de chegar à Pizzaria Guanabara toda madrugada de sábado, pedir um chope e um pedaço de pizza, contar uma história engraçada e repudiar a briga física na mesa ao lado.
Na República de Ipanema, eu deixaria minha amiga Glória Roland escolher o parlamentar. Glória não é de querer o cargo, ela prefere influenciar o parlamentar. Eu também prefiro assim – Glória tem coisas mais importantes a fazer em Ipanema do que ser política. O dono da Toca do Vinícius, Carlos Alberto Affonso, também estaria neste parlamento obrigatoriamente, posto que é guardião da chama. A luta dele para preservar a Bossa Nova é, na verdade, uma luta em defesa do Rio de Janeiro.
O cara que fosse representar a República da Tijuca jamais poderia falar a palavra “Saens Peña”. Um verdadeiro parlamentar tijucano só chama a Saens Pena de “Praça”. Ele teria de comprovar com documentos que sente saudades do Cine Carioca e que já molhou polenta no molho de tomate na Galeteria La Nonna (obrigado, Cascalho Ventura, por mais essa dica). E sempre que abrisse a carteira, teria de deixar cair um bilhetinho do metrô.
Nem preciso dizer que Vila Isabel, entre seus 10 representantes, teria um que soubesse cantar no mínimo “Feitio de Oração” inteira. Quem acha, vive se perdendo. Mas ele teria de achar rapidinho na calçada musical a parte onde está escrito “salpicava de estrelas nosso chão”. Até hoje não achei, amigo Augusto.
Na República da Urca, eu te digo: o parlamentar local teria de ter pelo menos jogado nos juvenis do Guaíba Praia Clube, o imortal time de praia. Eu estaria assim alijado do processo eleitoral, a não ser que houvesse uma cláusula permitindo a candidatura de todo torcedor que estivesse em Copacabana no dia do histórico Guaíba x Valença. Nesse dia, quase 50 pessoas pareciam estar dançando numa imaginária boate lotada no meio da praia, próximas umas das outras – mas na verdade estavam saindo na porrada. Eu, claro, via de longe. Tou fora dessa de brigar por causa de futebol.
Não sei se você toparia assumir uma das cadeiras da Republica do Méier, mas em caso negativo, teria de ser alguém que foi em shows no Imperator e que já tenha almoçado pelo menos 200 vezes na Churrascaria Sal Grosso. Mais importante do que já ter andado de trem. Eu usaria de nepotismo e daria para minha mulher uma das cadeiras da República de Quintino – mas teria de pedir autorização ao Zico antes. Mas certamente quem representasse Quintino teria de ter estudado em Piedade, no Colégio Nossa Senhora da Piedade. É onde todo mundo estudou, que nem em Niterói, onde todo mundo estudou no Abel ou no Salesiano.
Acho que essa união das repúblicas, caro Augusto, talvez salvasse essa cidade quente de virar uma Chicago que ela ainda não é (Chicago não teve um calçadão do Posto Nove). E mais do que isso, preservaria uma identidade que volta e meia a gente vê se perder – pense que volta e meia tem um pessoal nosso chamando de “balada” o ato de sair à noite. Me lembro que só usei essa palavra até hoje para canções como “Love Hurts”, do Nazareth. “Balada” era música lenta de banda porrada, lembra?
No dia em que as repúblicas se unirem, talvez todo mundo entenda que este dia 20 de janeiro é o dia do padroeiro, não é o aniversário, mas é importante para a gente pensar no Rio mais uma vez. E rezar para que as estátuas do Redentor e de São Sebastião nunca sejam confundidas – nos últimos anos, andam atirando flechas venenosas demais para o alto do Corcovado.
Ainda bem que os braços Dele continuam abertos.
Um abraço,
Gustavo de Almeida
Rio, 20/01/2007
GUSTAVO DE ALMEIDA
A maioria dos escritores acaba não sendo lembrada, isto é fato. Seja porque sua obra acaba tendo pouco a ver com as questões que a sociedade apresenta no nebuloso futuro, obviamente posterior à obra, seja porque o texto é de pequena monta, sem a “profundidade”, análise, vigor e beleza próprios de uma grande obra literária, ou ainda, por pura injustiça, como mostra, por exemplo, a recuperação ao longo do tempo de um Gregório de Matos. Entretanto, quando um autor consegue que sua literatura tenha uma sobrevivência mais ou menos perene, não é garantia que sua obra seja devidamente apreciada pelo “grande público” (desculpe, é força do hábito...). Sem querer entrar nessa discussão longa e por vezes redundante de culpados ou não, os escritores acabam reconhecidos por uma ou duas obras que parecem ser o ápice de todo seu esforço de criação. O que gera um conhecimento incompleto de um autor.
É o caso de Lima Barreto, por vezes enquadrado na categoria de mulato, como se isso fosse categoria explicativa (só pra lembrar, Pushkin, Castro Alves e Alexandre Dumas não estavam muito longe de também serem mestiços), cuja obra mais conhecida é Triste Fim de Policarpo Quaresma.
Da imensa produção literária do escritor carioca, Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá parece ficar à sombra injustamente. Bem recebido quando publicado em 1919, ganhou uma segunda impressão nesse mesmo ano com a indicação: menção honrosa, Academia Brasileira de Letras. Na quarta edição do livro (1943), Paulo Rónai explica bem ao dizer que a troca de idéias e impressões entre Augusto Machado de vinte anos e Gonzaga de Sá sexagenário não constitui propriamente um enredo. Não nos moldes tradicionais. Aliás, mais forte que a crítica a uma aristocracia postiça ou a demonstração do caráter voltaireano de Gonzaga de Sá no centro do texto está a cidade do Rio de Janeiro. Não ouso muito em dizer que, entre nós, foi o primeiro autor a usar como que uma tomada panorâmica na escrita:
Esse examear de colinas, esse salpicar de morros e o espinhaço da serra da Tijuca, com os seus contrafortes, cheios de vários nomes, dão à cidade a fisionomia de muitas cidades que se ligam por estreitas passagens. A city, o núcleo do nosso glorioso Rio de Janeiro, comunica-se com Botafogo, Catete, Real-Grandeza, Gávea e Jardim Botânico, tão somente pela estreita vereda que se aperta entre o mar e Santa Teresa.
Depois de se deter sobre o crescimento da cidade de modo espontâneo e os meios de comunicação entre bairros, o narrador arremata:
Mas, se a sua topografia criou essas dificuldades, deu à nossa cidade essa moldura de poesia, de sonho e de grandeza. É o bastante! (1943, p.57-59)
Acompanhado os passos dos dois personagens, vamos aprendendo a ver esta vida comum da cidade do início do século XX, de quem vai beber uma cerveja e depois pega o bonde para casa. No romance, Gonzaga mora nos arredores da Rua Bento Lisboa, no Catete.
Certamente, a precisão descritiva deve muito a Balzac, de quem Lima Barreto era leitor. Naquele escritor francês muito se inspiraria o Nouveau Roman, nos anos 50 do século passado, também chamado de Escola do olhar, cujos maiores representantes foram Nathalie Sarraute, Claude Simon, Michel Butor, Robbe-Grillet entre outros. O Nouveau Roman deve ao romance balzaquiano não pela valorização do enredo ou precisão de diálogos, mas a interrogação diante daquilo que é visto, por extensão, a realidade, o mundo sensorial, o homem.
Nesse aspecto sempre me pareceu natural ver em Vida e Morte de M. J. de Gonzaga de Sá um romance arrojado, desses riscos que ninguém parece querer mais correr. Talvez seja mais fácil admirar o monumental Triste Fim de Policarpo Quaresma, com seus momentos irônicos, satíricos. Apesar disso, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá é uma declaração de amor ao Rio, quase um Marc Ferrez escritor, uma pequena obra-prima; é um livro que talvez não deva agradar a todos, mas qual livro deveria?
ANTONIO DUTRA
Uma coleção de clichês assola e mancha a imagem do carioca. Alguns deles são os de que o carioca não trabalha, passa o dia na praia e não pode ver uma esquina ou um botequim sem parar para conversar com alguém que acabou de conhecer e de quem já ficou íntimo. Outros clichês são os de que o carioca é incapaz de chegar na hora para um compromisso, que deixa tudo para o último minuto e sua idéia de marcar um encontro é dizer, "A gente se vê". Pois bem: é quase tudo verdade. Mas essas características, brandidas em tom de crítica pelos não-cariocas, têm uma explicação e são, em muitos casos, justificadas.
Primeiro, não é que o carioca trabalhe pouco. Ao contrário, o Rio é uma das cidades do Brasil onde mais se trabalha. Talvez seja aquela onde mais se trabalha, e não ria.
Segundo números do IBGE, o carioca trabalha 40h47min por semana, uma média invejável em qualquer grande cidade do mundo - confira com a da sua cidade. Ele apenas não tem culpa se lhe sobram 127h13min por semana para não trabalhar. E esse período, que os cidadãos de outros burgos dedicam a dormir ou a ver TV, o carioca aproveita para fazer coisas muito melhores, como ir à praia, dar um pulo ao botequim, jogar conversa fora, praticar algum esporte ou andar à toa na rua. Para isso, o Rio é tão rico de opções que cada hora de trabalho efetivamente cumprida deveria ser contada em dobro - porque, enquanto trabalha, o carioca está deixando de exercer tais opções.
Há também o cenário. Em outras cidades, pode ser um alívio passar o dia entre quatro paredes para não enxergar o que nos rodeia. Mas, no Rio, é um suplício ver-se encarcerado num escritório com vista para a baía de Guanabara ou para o oceano Atlântico - tem-se a sensação de que a vida esta lá fora e o expediente a ser cumprido em troca do salário e algo próximo da morte. Posso dizer isso porque passei anos trabalhando como redator na extinta revista Manchete, de frente para os ensolarados jardins de Burle Marx no parque do Flamengo, vendo ao longe os barcos que saíam da marina da Glória com jovens de quépi e moças de shortinho, rumo a aventuras que faziam supor sal, sexo e champanha. E com a tortura extra de, às vezes, ter de escrever títulos e legendas de fotos em reportagens sobre essas mesmas aventuras.
Donde se vê que a relação 40h47min semanais de trabalho vs. 127hl3min de lazer é, no Rio, de uma profunda sabedoria. Mas, para quem a está olhando de fora, é uma relação enganadora - porque, ao mesmo tempo em que não se vê o carioca trabalhando (oculto por elipse no interior de escritórios, órgãos oficiais e lojas comerciais), todo mundo pode ver o carioca não trabalhando. Ele não tem como não ser visto - porque quase todo o lazer no Rio é a céu aberto, sob as vistas do público, nas praias, nas praças, nos ca1çadões, nas centenas de bares com mesas na ca1çada ou nas biroscas de esquina. É um lazer que se dá na rua. E, como tal, barato ou gratuito, ao alcance de qualquer um.
Rua é a palavra-chave. O carioca tem uma longa intimidade com ela, e ela com ele. É na rua que ele se sente em casa. Isso se reflete até na literatura produzida aqui nos últimos 150 anos. Os principais ficcionistas do Rio - Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis, Lima Barreto, Marques Rebêlo, Nelson Rodrigues, Carlos Heitor Cony – sempre foram atentos observadores da ação na cidade. O Rio pode ter sido até o inventor de um gênero literário: a crônica, uma narrativa curta e só aparentemente trivial, feita para jornais e revistas, misturando realidade, ficção e comentário, e cujo cenário é quase sempre a rua (no mínimo, uma janela). O maior dos cronistas, Rubem Braga, gerou uma quantidade de grandes seguidores - Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Elsie Lessa, Jose Carlos Oliveira - e a tradição prossegue hoje com Aldir Blanc, Heloisa Seixas, Joaquim Ferreira dos Santos. Os cronistas são as antenas da cidade, os primeiros a perceber as mudanças do vento. São também os que imortalizam os cidadãos anônimos, mais densos e surpreendentes do que as figurinhas carimbadas. E esses cidadãos só se encontram nas ruas.
Exceto por certos lugares e horas a serem evitados por simples bom senso, o Rio convida a ser batido a pé. Ha. sempre algo para ver - pode ser a fascinante diversidade arquitetônica, a graça marota de sua fauna humana ou o interminável desfile de corpos femininos. É uma cidade tão receptiva a andar por ela que, pensando bem, não faz sentido marcar encontros formais em covis claustrofóbicos, nem essa obsessão primeiro-mundista por dia e hora sacramentados na agenda. Daí o "A gente se vê" - e se vê mesmo. Na rua, os encontros duram o que tem de durar: horas seguidas ou apenas alguns minutos, e ninguém se ofende quando o outro diz que precisa ir andando. Quanto ao fato de o carioca se sentir íntimo de alguém que acabou de conhecer, é porque ele é, por natureza, aberto, confiante, e que bom que seja assim. O contrário disso seria desgostar a priori, virar a cara ou desconfiar de qualquer pessoa à primeira vista, e viver com a alma envenenada.
RUY CASTRO
(In “Carnaval no Fogo” p. 59, Companhia das Letras, 2003)
Ronald Chevalier, Roniquito.
Não me ocorre nenhuma figura do Rio na década de 7o que tenha sido personagem de tantas histórias quanta o Roniquito.
Era, por assim dizer, uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hide carioca, em versão atualizada e menos trágica. Sóbrio era um gentleman, profissional brilhante. Bêbado, só abatendo a tiros. E, durante anos, viveu quase que diariamente ambos os personagens.
Quer porque, com sua incrível acuidade, botava a dedo diretamente na ferida, quer porque ficava horas e horas martelando a mesma coisa na cabeça dos outros, ele conseguia levar à loucura pessoas de uma calma franciscana, que acabavam partindo para a porrada. Porrada física, mesmo. E com isso, o Roniquito foi o cara que mais apanhou no Rio de Janeiro. Era praticamente todas as noites.
Fernando Amaral, por exemplo, era um santo.
Fotógrafo e diretor de cinema, era conhecido como Soneca, tamanha sua fleugma. Pois bem, numa noite no Antonio's começou a tocar Vivaldi. Aí, o Roniquito se vir a para o Fernando, dizendo:
- Fernando, eu acho que todo cara que gosta de Vivaldi e faz análise é viado.
Aí, o Fernando cometeu a surpreendente asneira de responder:
- Eu nunca disse que gostava de Vivaldi. Além do que, não faço mais análise. Já fiz, há anos.
Foi esse o seu erro. Deu corda ao assunto. Aí o Roniquito começou a delirar:
- Pois é, já fez. Eu acho um absurdo, Fernando, você ir para um analista para esrniuçar detalhes sórdidos da sua vida. Como aquelas meias que você fazia atrás da estátua do general Osório, no ponto final do bonde 14.
Se a Fernando não respondesse, possivelmente o assunto morreria. Mas ele argumentou ...
- Mas Roniquito, eu nem morava em Ipanema!
O Antonio's é pequeno. Qualquer elevação de voz faz com que as circunstantes participem do assunto. E, para a crescente constrangimento do tímido Fernando Amaral, o Roniquito denunciava aos berros:
- Meia, Fernando Amaral! Meia!
E, é claro, depois de não sei quantas meias o Fernando não agüentou e enfiou a mão no Roniquito.
As histórias do Roniquito dariam um livro.
Todo mundo que freqüentou razoavelmente a noite carioca foi testemunha de alguma ou várias. A que eu acho a mais engraçada e doida se passou na capela do cemitério São João Batista.
Zequinha Estelita morreu num desastre de automóvel, que mergulhou na Lagoa, na fatídica Curva do Calombo.
A noticia alcançou grande parte dos seus amigos pelos bares da cidade. Assim, um grande contingente que acorreu ao velório já estava triscado. E, óbvio, o mais bêbado era o Roniquito.
No meio daquela consternação geral, o Roniquito se afasta do grupo que velava o Zequinha e entra numa outra capela. Detém-se diante do caixão, examina detidamente o defunto e da seu veredito.
- Esse defunto de vocês é uma merda. o nosso é muito mais bonito.
Esse foi o único episódio onde o Roniquito foi vitima de espancamento coletivo.
JOAQUIM VAZ DE CARVALHO
(In “Dr. Roni e Mr. Quito”, de Scarlet Moon de Chevalier, Ediouro, 2006)
“As páginas aqui reunidas, singelas crônicas do passado, são simples achegas, recordando aspectos das atividades quotidianas, do crescimento da Cidade, da vida da gente que a povoou e formou, de costumes e aparências que o tempo modificou e extinguiu. São apenas trechos esparsos das Memórias da Cidade.” (Vivaldo Coaracy, Paquetá, 1955)
A 1° de janeiro de 1502, chegava o primeiro explorador da costa à estreita barra de uma vasta baía. Pela extensão de água que via diante de si, julgou achar-se no estuário de um grande rio a que, de acordo com o sistema que vinha seguindo, deu o nome de RIO DE JANEIRO. E o nome se perpetuou.
Em época recente, alguns autores têm procurado negar o equivoco ou confusão do descobridor, afirmando que a designação "rio" era muitas vezes aplicada pelos antigos portugueses a enseadas ou braços de mar. Assim André Gonçalves teria usado a denominação com pleno conhecimento de que se achava numa baía. Esta opinião parece pouco sustentável. A suposição de que a baía de Guanabara era um estuário foi aceita por muitos anos. Ainda no mapa de Judocus Hondius, "Novus Brasiliae Typus", figura o longo e sinuoso curso do Rio de Janeiro com as origens em região hoje compreendida no território de Minas Gerais. Nem vale a possível confusão, também já aventada, com a expressão "ria" que, no português arcaico, indicava, segundo os dicionários, a foz ou embocadura dum rio.
Estas são, porém, questões de nonada. O que importa assinalar é que o Rio de Janeiro foi descoberto em 1o. de janeiro de 1502 pela primeira expedição que explorou a costa do Brasil sob o presumido comando de André Gonçalves.
Não terá o navegador percebido o seu equivoco por pouco se haver demorado no "rio" que descobrira. Já em 6 de janeiro batizava Angra dos Reis; no dia 20, a Ilha de São Sebastião, chegando no dia 22 ao porto que chamou de São Vicente, onomástico da data. Mas o resto da viagem, fantasiosamente descrito por Vespúcio, pouco interessa ao presente estudo.
Diante das noticias trazidas a Lisboa pela expedição em seu regresso, logo outra, melhor aparelhada, foi organizada sob o comando de Gonçalo Coelho, navegante experimentado que se distinguira em viagens na costa da África e mares da Índia. Trazia a frota de seis navios como um dos pilotos o mesmo Américo Vespúcio, escolhido naturalmente pelo conhecimento que já possuía dos mares e costa a percorrer. Documentos da época autorizam a suposição de que o objetivo da expedição seria correr a costa até o extremo sul, procurando passagem que permitisse atingir por novo caminho as regiões asiáticas de Malaca. Era o projeto que anos mais tarde realizaria Fernando de Magalhães.
Partiu a expedição de Lisboa em meados de 1503. Nos recifes do arquipélago de Fernão de Noronha naufragou a nau capitânia, passando o comandante da frota para outro dos navios. Em conseqüência de divergências com Gonçalo Coelho, separou-se Vespúcio com dois navios, dirigindo-se para a Baía de Todos os Santos de onde navegou para o sul até Cabo Frio onde fundou uma feitoria, nela deixando vinte e quatro homens e, com grande carregamento de pau-brasil, regressou a Lisboa onde anunciou que Gonçalo Coelho se perdera e provavelmente perecera, o que lhe parecia "justo castigo de seu orgulho". Grande teria sido a sua surpresa ao saber, três anos mais tarde, que o comandante que ele abandonara entrava no porto de Lisboa com os navios que lhe restavam.
Depois da deserção de Vespúcio, Gonçalo Coelho veio ter ao Rio de Janeiro onde se demorou tempo considerável, mais de dois anos, só regressando a Portugal em 1506. Foi ele, pois, o primeiro europeu a habitar demoradamente nas margens da Guanabara.
A ele é atribuída a construção da famosa Casa de Pedra junto à foz do Carioca, conjetura admissível. Não falta mesmo quem tenha associado a essa construção o nome indígena do rio. Cari-oca, casa do branco. Há, porém, outros significados plausíveis.
No Rio de Janeiro estabeleceu Gonçalo Coelho o seu quartel-general, de onde enviou expedições a explorar a costa meridional até além do rio da Prata, talvez até o litoral da Patagônia, sem encontrar a passagem procurada. Se a sua permanência foi tão longa como tudo leva a crer, não podia ele deixar de ter conhecimento da feitoria estabelecida ali perto, em Cabo Frio, pelo seu piloto desertor. Talvez mesmo tivesse entrado em contacto com os homens que Vespúcio ali deixara. Os documentos referentes a essa época são escassos e omissos. Já foi aventada a suposição de que, antes de regressar a Lisboa, teria Gonçalo Coelho deixado, na embocadura do Carioca, o núcleo de uma povoação posteriormente destruída pelos selvagens com o massacre dos seus moradores. Mera conjetura, mas plausível, embora nenhum documento a confirme.
Em tal caso, teria sido a Casa de Pedra o centro do suposto arraial. Construído por Gonçalo Coelho, ou por algum outro navegante que depois dele ao Rio de Janeiro haja aportado, talvez mesmo por Martim Afonso de Sousa trinta anos mais tarde, de qualquer forma foi ela a primeira construção permanente erguida às margens da Guanabara. Perdurou por longos anos, tendo servido de residência a Pedro Martins Namorado por ocasião da fundação da cidade. Destruída pelas ressacas e pelo desgaste do tempo, ainda em meados do século seguinte subsistiam seus vestígios ou ruínas, identificados quando pela primeira vez se pretendeu demarcar as terras municipais. Em época recente procurou-se localizar a sua situação presumível com auxílio dos documentos existentes. Um marco singelo, erguido no fundo da atual Travessa Umbelina, por iniciativa do escritor Gastão Penalva, assinala o resultado dessa pesquisa.
VIVALDO COARACY
(In "Memórias da Cidade do Rio de Janeiro" p. 302, Editora Itatiaia Limitada & Editora da Universidade de São Paulo, 1988)
Carioca, carioca da gema seria aquele que sabe rir de si mesmo. Também por isso, aparenta ser o mais desinibido e alegre dos brasileiros. Que, sabendo rir de si e de um tudo, é homem capaz de se sentar ao meio-fio e chorar diante de uma tragédia.
O resto é carimbo.
Minha memória não me permite esquecer. O tio mais alto, o meu tio-avô Rubens, mulherengo de tope, bigode frajola, ca¬rioca, pobre, porém caprichoso nas roupas, empaletozado como na época, impertigado, namorador impenitente e alegre e, pio¬neiro, a me ensinar nos bondes a olhar as pernas nuas das mu¬lheres e, após, lhes oferecer o lugar. Que havia saias e pernas nuas nos me us tempos de menino.
Folgado, finório, malandreco, vive de férias. Não pode ver mulher bonita, perdulário, superficial e festivo até as vísceras. Adjetivação vazia ... E só idéia genérica, balela, não passa de carimbo.
Gosto de lembrar aos sabidos, perdedores de tempo e que jogam conversa fora, que o lugar mais alegre do Rio é a favela. É onde mais se canta no Rio. E, aí, o carioca é desconcertante. Dos favelados nasce e se organiza, como um milagre, um dos maiores espetáculos de festa popular do mundo, o Carnaval.
o carimbo pretensioso e generalizador se esquece de que o carioca nao e apenas o homem da Zona SuI badalada - de Copacabana ao Leblon. Setenta e cinco por cento da populayao carioca moram na Zona Centro e Norte, no Rio esquecido. E la, sim, o Rio fica mais Rio, a partir das caras nao cosmopolitas e
O carimbo pretensioso e generalizador se esquece de que o carioca não é apenas o homem da Zona Sul badalada – de Copacabana ao Leblon. Setenta e cinco por cento da população carioca moram na Zona Centro e Norte, no Rio esquecido. E lá, sim, o Rio fica mais Rio, a partir das caras não cosmopolitas e se o carioca coubesse no carimbo que lhe imputam não se te¬riam produzido obras pungentes, inovadoras e universais como a de Noel Rosa, a de Geraldo Pereira, a de Nelson Rodrigues, a de Nelson Cavaquinho ... Muito do sorriso carioca é picardia fina, modo atilado de se driblarem os percalços.
Tenho para mim que no Rio as ruas são faculdades; os bo¬tequins, universidade. Algumas frases apanhadas lá nessas bigornas da vida, em situações diversas, como aparentes tipos-a-esmo:
"Está ruim pra malandro" - o advérbio até está oculto.
"Quem tem olho grande não entra na China."
"A galinha come e com o bico no chão."
"Tudo de mais é veneno."
"Negocio é o seguinte: dezenove não é vinte."
"Se ginga fosse malandragem, pato não acabava na panela."
"Não leve uma raposa a um galinheiro."
"Se a farinha é pouca o meu pirão primeiro."
"Há duas coisas em que não se pode confiar. Quando alguém diz 'deixe comigo' ou 'este cachorro não morde."
"Amigo, bebendo cachaça, não faço barulho de uísque."
"Da fruta de que você gosta eu como até o caroço."
"A vida é do contra: você vai e ela fica."
Como filosofia de vida ou não, vivendo numa cidade em que o excesso de beleza é uma orgia, convivendo com grande¬zas e mazelas, o carioca da gema é um dos poucos tipos nacio¬nais para quem ninguém é gaúcho, paraibano, amazonense ou paulista. Ele entende que está tratando com brasileiros.
JOÃO ANTONIO
(in "Ô Copacabana!", Cosac Naify, 2001)
Trechos da Biografia, por Cassiano Viana e Susan Blum. Exclusivo para Paralelos.
Certa madrugada, Carol despertou e Julio não estava na cama. O encontrou desmaiado no chão, um mar de sangue, os olhos fechados, a barba vermelha. Em poucos minutos, uma ambulância o levara para o hospital.
“Passei dias infernais com todo tipo de tubos e sondas; deram-me mais de trinta litros de sangue (isso, para alguém que freqüenta a vampirologia, não é lá tão ruim, pois não creio que Drácula tenha bebido o sangue de trinta pessoas diferentes em cinco dias, isso dito com todo meu respeito ao Conde), daí passei para um quarto menos penoso, onde pouco a pouco fui saindo do inferno, ao longo de três semanas. Agora termino de repor-me em casa de amigos, e ainda é preciso fazer controles e passar uma vez ou outra pelo hospital; sinto que já deixei todo perigo para trás”.
Apenas Carol e os médicos sabiam que aquilo era mais que uma simples hemorragia produzida por um consumo excessivo de aspirinas. O diagnóstico do hematologista foi categórico: Cortázar padecia de leucemia mielóide crônica.
Começava assim, o lento caminho até o fim.
(...)
De volta a Paris, em dezembro de 1981, foi finalmente estabelecido o casamento Cortázar-Dunlop. “Depois de quase quatro anos vivendo juntos e de havermos passado por todas as provas que isso supõe em muitos planos, estamos seguros de nosso carinho e me sinto muito feliz de normalizar uma situação que algum dia será útil para o destino de Carol”, escreve Julio para sua mãe.
Apesar de aproximar-se dos sessenta e oito anos, o espírito infantil de Cortázar não se apagava. Em algumas tardes se trancava em seu ateliê para brincar e armar móbiles, outras vezes aparecia disfarçado com os caninos vampirescos e as unhas pintadas de negro. Corria então atrás de Carol por toda a casa e não se contentava até que a tinha em seus braços e podia morder-lhe o pescoço.
(...)
A brincadeira mais extravagante chegou em maio de 1982, quando junto a Carol organizou uma viagem cujo único objetivo era o de escrever um livro sobre a experiência. Estabelecendo uma série de regras e rotinas, a proposta era embarcar em um treiller-caminhonete que haviam comprado e fazer a viagem Paris-Marselha através da Autopista do Sul, parando todos os dias em um dos estacionamentos, num total de setenta. Parariam para escrever, desenhar, ler ou simplesmente dormir um pouco debaixo de alguma árvore, tentando perceber, naqueles lugares, o que geralmente passa despercebido para o turista comum.
As regras do jogo consistiam em que em nenhum momento poderiam sair da autopista, de modo que alguns amigos lhe levariam provisões e outros estariam preparados com antecipação para qualquer imprevisto.
Em uma dessas paradas, escreveu a um amigo: “Já passamos por dez parkings e do décimo te escrevo. A moral é alta, a saúde também. Na maioria dos casos encontramos lugares secretos no fundo dos bosques que os outros turistas, sempre convencionais, parecem temer, pois que ficam amontoados próximos dos banheiros e dos cestos de lixo, ansiosos em devorar seus malditos sanduíches, soltar cinco minutos os pequenos e os cachorros (que, eles sim, vem nos visitar-nos como cúmplices furtivos e cordiais) e igual aos caminhões e os autocars, lançar-se de novo na autopista como leucócitos em uma veia”.
A idéia do casal era que o resultado da viagem fosse um livro em colaboração onde se parodiasse as velhas estórias de viagens ao pólo ou à África, satirizando o ar científico dessas publicações e recolhendo material para futuros contos. A viagem durou trinta e três dias. Chegaram a Marselha cansados, porém satisfeitos. Nenhum dos dois sabia que o que havia começado como um jogo idealizado por um amor apaixonado e criativo, teria após algum tempo o significado de uma despedida.
(...)
Poucas semanas antes de completar os dois meses previstos para a estadia [na Nicarágua], Carol começou a sentir uma dor forte nos ossos que os obrigaram a trocar de planos. Stéphan [filho de Carol] retornou ao Canadá e o casal viajou imediatamente para Paris. No Hospital St. Louis descobriram que um vírus estava afetando a produção de glóbulos brancos e plaquetas de Carol, que foi internada e assim teve iniciou um longo tratamento que se estendeu durante setenta dias.
Essas semanas de tristeza consumiram Cortázar. O tempo transcorria e não se evidenciava nenhuma melhora. Os médicos propuseram um transplante de medula. Os amigos de Cortázar, Aurora, que estava ao seu lado, e ele mesmo se ofereceram como doadores, mas os médicos não conseguiam encontrar compatibilidade.
Apesar de sua força de vontade e as esperanças que mantiveram até o último dia, em 2 de novembro de 1982, Carol “se foi como um fiozinho entre os dedos. (...) Se foi docemente, como era ela, e eu estive ao seu lado até o fim, os dois apenas na sala do hospital onde passou dois meses, onde tudo resultou inútil. Até o final esteve segura de que melhoraria, e eu também, mas nos últimos dias somente ela, por sorte, conservou sua esperança que eu havia perdido depois de falar com os médicos. De nenhuma maneira o dei a entender, a acompanhei como se nada tivesse mudado, e nas últimas horas consegui que já ninguém entrasse para molestá-la e fiquei ao seu lado, cuidando, até que o ultimo calmante que lhe haviam dado foi adormecendo-a pouco a pouco”, escreve Cortázar em uma carta.
Luis Tomasello construiu a tumba no cemitério de Montparnasse, Julio Silva desenhou a escultura que a adorna: um círculo sobre outro, flores ou talvez cronópios subindo uma escada.
Frente a ela, deprimido, cansado, repentinamente velho, chorava um homem que padecia sem saber sua própria enfermidade. Um homem que, em sua solidão e com a dor de um amor perdido, intuía que o fim estava próximo.
(...)
Aurora o visitava freqüentemente. Os amigos perambulavam pela casa tentando levantar-lhe o ânimo. Conversavam sobre jazz, sobre lutas de boxe e de tempos em tempos lhe narravam algum episódio fantástico ou lhe asseguravam: haviam visto um vampiro. Julio se interessava um pouco; mas tudo tinha jeito de despedida. Abatido e triste, Cortázar redigiu um testamento onde todos seus bens e metade dos direitos autorais, ficavam para Aurora Bernárdez.
“Inútil te dizer que tenho a intenção de viver tudo o que possa – disse numa carta -. Mas se vive melhor quando se tem as coisas e as camisas bem arrumadas”.
Para um homem que havia vivido a literatura como uma presença tangível, despedir-se dela foi uma das primeiras contas saldadas.
(...)
A proximidade da morte não emperrou as atividade de um homem que, ainda que resignado, estava decidido a aproveitar até o último minuto de vida. De volta a Paris, enquanto preparava Salvo el crepúsculo (1993), onde reunia todas as poesias que havia escrito e que seriam publicadas de forma póstuma, se ocupava de terminar o livro que havia começado a escrever com Carol a partir da viagem pela Autopista do Sul. Ainda em que cada parágrafo sentia desgarrar-se pela recordação do sorriso de Carol, escrever era uma forma de sentir-se próximo dela.
Os Autonautas da cosmopista (1984), cujos direitos também foram cedidos ao povo nicaragüense, é um texto divertido e irônico. Carol e Julio, autodenominados no livro “la Osita” e “el Lobo”, haviam começado a escrevê-lo juntos antes da viagem para a Nicarágua, antes do fim. Ficou ao Lobo ficar em casa e terminar, sozinho, a brincadeira:
“Leitor, talvez já o saiba: Julio, o lobo, termina e organiza sozinho este livro que foi vivido e escrito pela Ursinha e por ele, como um pianista toca uma sonata, as mãos unidas em uma só busca de ritmo e melodia. Assim que terminamos a expedição, voltamos à nossa vida militante e partimos uma vez mais para a Nicarágua onde havia e há tanto por fazer. (...) Ali a Ursinha começou a enfraquecer, vítima de um mal que acreditávamos passageiro, porque nela a vontade de viver era mais forte que todos os prognósticos, e eu compartilhava de sua coragem como sempre compartilhei de sua luz, de seu sorriso, de sua apaixonada vivência do sol, do mar e da esperança de um futuro mais bonito. Voltamos a Paris cheios de planos: terminar juntos o livro, doar seus direitos autorais ao povo nicaragüense, viver, viver ainda mais intensamente. Seguiu-se dois meses que os amigos nos encheram de carinho, dois meses em que rodeamos a Ursinha de ternura e em que ela nos deu cada dia esse valor que nos ia abandonando. A vi empreender sua viagem solitária, onde eu não poderia acompanhá-la, e no dia 2 de novembro, ela me foi por entre as mãos como um fiozinho de água, sem aceitar que os demônios disseram a última palavra, ela que tanto os havia desafiado e combatido nessas páginas. A ela devo, como devo o melhor de meus últimos anos, terminar sozinho este relato. Bem sei, Ursinha, que terias feito o mesmo se ao final fosse eu a te preceder na partida, e que tua mão escreve, junto com a minha, estas últimas palavras, nas quais a dor não é, nem nunca será mais forte que a vida que me ensinastes a viver como acaso temos chegado a mostrá-lo nessa aventura que chega aqui a seu final, mas segue, segue em nosso dragão, segue para sempre, em nossa autopista”. (Post scriptum de Los autonautas de la cosmopista)
(...)
Até fins de 1983 a saúde de Cortázar seguia piorando. Ao avanço da leucemia se juntavam as complicações intestinais e problemas de pele. Esperançoso com um tratamento intensivo, Julio se internou durante vários dias em um hospital de Paris, mas não conseguiu superar nenhum dos sintomas. Aurora o acompanhou durante todo o tratamento e logo se instalou em seu apartamento, preparando refeições para que recuperasse o peso que havia perdido no transcurso do último ano, e se preocupando em dar a ele seus medicamentos. Mas nada podia lhe tirar a tristeza, ainda que a companhia de Aurora fosse de grande ajuda, uma amizade que havia sobrevivido ao final do casamento e ao tempo.
Cortázar, inconsolável, passava largas horas no cemitério. Sozinho, frente à tumba que um dia seria também a sua, arrumava o ramo de flores amarelas que Carol tanto gostava e se sentava junto a ela: “A morte me golpeou no que mais amava e não tenho sido capaz de levantar e devolver o golpe com o simples ato de voltar a viver. Há momentos em que a única realidade para mim é a tumba de Carol, onde vou ver passarem as nuvens e o tempo sem ânimo para mais nada”.
(...)
Por duas vezes Julio precisou ser internado com urgência no Hospital Saint Lazare. Aurora o acompanhava e preparava a roupa para sua internação, Luis Tomasello o levava e o trazia de volta: “Se entro uma terceira vez, já não saio”, disse, no regresso a sua casa, após vários dias no hospital.
Em janeiro de 1984, Tomasello foi buscá-lo novamente. Julio o esperava sentado na poltrona. Estava calmo, com um gorro na cabeça e um sorriso no rosto: “Se esta luta for em sete rounds, a ganho; mas a doze, não creio”, lhe disse antes de levantar, caminhar até a porta e ficar alguns segundos parado, olhando para o quarto, provavelmente despedindo-se de seus livros.
Seguiu trabalhando no hospital. Com as últimas forças, se acomodava na cama do quarto e escrevia poemas para um livro de quadros de Tomasello. Havia pendurado as pinturas na parede. Eram negras e pareciam radiografias: “Cavalo negro dos pesadelos, machado do sacrifício, tinta da palavra escrita, pulmão que desenha, serigrafia da noite, Negro, o dez, roleta da morte, que se joga vivendo” (Negro el diez, 1984).
Quando podia, se erguia para olhar o relógio ou ia até janela. Da janela podia ver o pátio e mais adiante a grade que rodeava o hospital. Em seguida, dava meia volta e voltava aos poemas. Algumas semanas depois o livro estava terminado e Cortázar pediu a seu amigo que lhe trouxesse alguns exemplares. Autografou setenta livros, um atrás do outro. “Melhor fazermos isso tudo agora – disse – isso não é coisa que passe algo”.
Em 12 de fevereiro Cortázar murmurou um último desejo. Girou a cabaça em direção da janela e fechou lentamente os olhos. Perto da cama estavam Aurora e Tomasello; no ar, tal como havia pedido, tocava Mozart.
Foi sepultado dois dias depois, no cemitério de Montparnasse. Fazia frio e passava pouco de sol por entre as árvores. Um grupo de latino-americanos esperavam encolhidos, os olhos inchados, silêncio e lágrimas. Cortázar chegou em um modesto carro, seguido de dois velhos automóveis dirigidos por seus amigos. Baixaram o imenso ataúde de carvalho e o depositaram na tumba. Ali, debaixo de uma mesma lápide que desde então nunca deixou de estar acompanhada por um ramo de flores amarelas, descansam Carol Dunlop e Julio Florêncio Cortázar, enormíssimo cronópio.
CASSIANO VIANA & SUSAN BLUM
*Fruto de dois anos de trabalho, a biografia (ainda sem título definido), escrita por Cassiano Viana e Susan Blum, é baseada na pesquisa de entrevistas, correspondências, artigos, livros de ensaios e em biografias publicadas principalmente na Espanha e na Argentina (maior parte material inédito em língua portuguesa) sobre Julio Cortázar. A biografia, estruturada de forma lúdica como de O jogo da amarelinha e os álbuns-almanaques (Ultimo Round e A volta ao dia em oitenta mundos) – com depoimentos de outros autores, cronologia, lista de livros, discos e filmes recomendados e um dicionário cortazariano, já está sendo negociada com editoras e ao que parece sai mesmo no próximo ano. Os leitores de Cortázar no Brasil aguardam ansiosamente.
Se o caro leitor dessas cronópias linhas ainda não leu o conto inacabado de Cortázar, por favor, procure-o imediatamente. Finalmente traduzido, por Cassiano Viana, e lido no Odeon (Cinelândia - Rio de Janeiro) em 12 de julho de 2006, Bix Beiderbecke é considerado o último conto escrito por Cortázar.
O conto, como já dito, é inacabado. Ele termina em reticências porque foi impossível decifrar as últimas palavras, conforme citação de Cassiano na publicação de Bix: “Cortázar escrevia à máquina, mas fazia suas correções à mão e nesse conto específico foi impossível decifrar as quatro últimas palavras na última página elaborada; assim, ficou resolvido que iriam publicá-lo finalizando com reticências” (Viana, 2006, p. 14). Mas, na verdade, pouco importa se Cortázar terminaria o conto com um ponto final ou até com uma exclamação! Pois as reticências e as interrogações são elementos recorrentes em sua obra (se não textualmente, com certeza em seu contexto).
Inacabado! Essa palavra incomoda. Ao lermos as últimas palavras do conto ficamos esperando mais. É típico do ser humano gostar de linearidade em sua vida, e não estou aqui falando apenas de literatura. Começo, meio e fim são importantes, seja em um caso de amor, em um trabalho ou em situações familiares. Procuramos sempre um ponto final. Aceitamos uma exclamação! Mas as interrogações e as reticências incomodam... coisas inacabadas são como promessas desfeitas. São uma situação suspensa no ar.
Apesar disso, o fato de estar inacabado não desvaloriza o conto, pois, como disse o personagem de Cristóvão Tezza em Breve espaço entre cor e sombra: “Não se surpreenda: as obras de arte também obedecem às leis do DNA. Um pedaço contém potencialmente todo o resto. (...) Eu acho que isso acontece com todas as artes. Na literatura, por exemplo. Kafka tinha o costume de não acabar os livros; não precisava. A parte contém previamente o todo” (Tezza, 1998, p. 19). Também no conto encontramos o DNA de Cortázar: um DNA visual-sonoro, um DNA espaço-tempo, um DNA erótico.
E são esses DNA minúsculos, essas reticências, que passam a povoar o interior do leitor, fazendo-o sentir-se perdido em um meio-termo, em um entre-lugar. Somos deslocados por Cortázar e empurrados através de um ponto vélico que nos revela outras realidades possíveis. Cito o ponto vélico e me coloco na obrigação de explicar o termo, ainda desconhecido para a grande maioria das pessoas. Cortázar o cita em um ensaio intitulado “do sentimento do fantástico”1 aproveitando a escrita de Victor Hugo: “ ‘Ninguém ignora o que é o ponto vélico de um navio; lugar de convergência, ponto de intersecção misterioso até para o construtor do barco, no qual se somam as forças dispersas em todo o velame desfraldado’ (...) O fantástico força uma crosta aparente, e por isso lembra o ponto vélico; há algo que encosta o ombro para nos tirar dos eixos” (Cortázar, 1993, p. 179). Assim, considero ponto vélico qualquer elemento (pessoa, objeto, fala, acontecimento) que nos desloca, que nos faz refletir sobre novas possibilidades e sobre encontros fortuitos (que, como afirma Cortázar, não o são), que nos faz abrir os olhos para outras realidades2.
No caso desse conto o ponto vélico é a música, que carrega em suas notas o espírito da panamenha (e do leitor) para outro espaço e tempo, mantendo contato com o músico Bix (e de certa forma, também com o político Omar). Cassiano Viana teve o cuidado profissional de levantar dados sobre os dois personagens. Descobriu que Omar é, provavelmente, Omar Torrijos Herrera, presidente do Panamá, morto em um acidente de avião em 1981. Lembrem-se que Cortázar deixou de brincar, nesta realidade, em 1984. Já Bix, músico de jazz, faleceu em 1931. Cinqüenta anos separam a morte dos dois personagens do conto. Mas, e daí? Tempos e espaços são apenas formalidades. Formalidades essas que Cortázar dispensa com todo o prazer de uma criança que está brincando...
Retornando à questão musical, é interessante observar que a vida da panamenha é como um filme (imagens e sons). O visual, tanto dos olhares de Omar para ela (assim ela o achava), quanto os reflexos no espelho, de sua família que vinha observá-la “entretida” no discurso político da TV. E o sonoro com as músicas de Bix, já falecido, mas ainda vivo e presente (talvez mais do que nunca) através de sua música. Essa passagem temporal, que a música permite, já foi abordada por Cortázar em outros instantes de sua obra (“el perseguidor”, por exemplo); além da gravação que fez de alguns de seus contos em cd, e que brinca que está falando para pessoas que não estão presentes, e que depois ele pode não estar mais presente quando as pessoas o escutarem.
É o famoso estranhamento na obra de Cortázar: desordem do tempo e do espaço cotidianos. Quem garante que a panamenha não está ainda em um terceiro tempo e espaços, diferente do de Bix e diferente do de Omar? Pode-se ler o conto como o devaneio da jovem panamenha, de imaginação fértil, fantasiando Omar com seus discursos políticos e, após a morte dele, transferindo seu desejo para Bix. Afinal ela conheceu a ambos na mesma época (cf. p. 06): Omar pela televisão, (outro ponto vélico?) em que, para ela, ele apenas o fazia para observá-la no sofá. E Bix através do disco que um primo mostrou. A panamenha afirma: “Claro que Bix não podia me olhar como Omar; nos tempos de Bix não havia televisão, mas que importava?” (Viana, 2006, p. 07). Para ela, Bix a olhava como Omar, mas através da música. Assim como certas palavras de Omar eram escolhidas por ela para serem exclusivas à si própria, também certas notas ou solos eram somente para ela. Típico de adolescentes que se crêem o centro do universo.
Um a olhava pela TV aos domingos e o outro na casa da namorada do primo. Quando soube da morte de Omar (desfazendo assim toda e qualquer esperança de algum dia se encontrarem de verdade, supondo que os tempos e espaços sejam os mesmos), ela abraçou o disco (a única esperança que lhe restou), mas o largou logo em seguida. Com este ato sabia, de antemão, que também perderia Bix, pois seus pais o jogariam fora (como de fato ocorreu).
Nesse ponto houve a transformação, como se Omar lhe mostrasse outras possibilidades de contatos, o próprio corpo da panamenha se revela (em outra menstruação) mostrando-lhe como ter contato com Bix de outra forma, que não a platônica. Nesse momento ela fica com Pedro (apenas porque era jovem como Bix), e, ouvindo a música de Bix, Royal garden blues, transformou a dor da penetração em gozo.
Quando a panamenha comenta que estava em Ohio ou Maryland com Bix e seus rapazes ela cita a drogadição com hash, e isto pode levar o leitor a pensar nas alucinações de pessoas que estão sob o efeito dessa droga. Esta idéia pode ser corroborada pela repetição de que é panamenha e logo em seguida está em Ohio ou Maryland. O amalgamento de não somente tempos, mas também de espaços, provoca novo estranhamento. Além disso ela também usa as palavras como uma droga, para se aproximar do leitor/ouvinte, como se nos acariciasse ou nos lambesse (cf. p. 10).
Ao encontrar Bix ela afirma que não agüenta mais o fato dele estar sempre observando-a. Esta afirmação provoca uma troca de papéis, pois ele sugere que ela o observe, o que ela fará, seguindo a Bix em suas excursões. É interessante quando ela comenta da vida de Bix, que lá pelas cinco da tarde “os olhos iam ficando de vidro” (p. 11), pois esse comentário tanto pode ser relacionado com o problema com álcool ou drogas, quanto pode remeter ao olhar vitrificado, porque televisivo, de Omar.
Outro ponto interessante é quando a panamenha fala do show de Bix da noite anterior e diz que o verá no próximo, ao que ele rebate: “espero que não sejas uma dessas fanáticas que não perdem um. É algo que nunca pude suportar, duas vezes o mesmo rosto no meio da platéia me tira até a vontade de viver. Sinto como se fosse necessário repetir os solos que toquei na noite passada e isso é algo que não farei jamais na vida”. (Viana, 2006, p. 11). Essa não repetição, esse viver diferente a cada instante, essa necessidade de se observar coisas novas é o que, de certa forma, a panamenha faz ao colocar-se vivendo junto com Bix. Mas a repetição pode ocorrer. Não sabemos ao certo onde nos situamos, em que espaço e tempo nos deslocamos. Tal qual em uma fita de moebius3, podemos crer piamente que vivemos uma única e “real” realidade. Quando na verdade estamos pisando em duas faces de uma “realidade”. Assim, a panamenha está em uma realidade em que Bix não mais vive, mas consegue penetrar em outra, na qual Bix está mais vivo do que nunca e convive com ela. É um caminho novo e ao mesmo tempo recorrente. Como disse Bix: “quem sabe numa dessas noites não começo a copiar a mim mesmo, não seria o primeiro” (Viana, 2006, p. 12).
Enfim, ao repensar a questão do visual/sonoro, lembro de Cortázar, em uma carta à sua amiga Duprat, falando de pintura e de música. Na carta, Cortázar diz que talvez pintar à óleo seja como copiar a realidade mais imediata da paisagem, sua correspondência mesma. Já a aquarela captaria mais o “espírito” da paisagem, seria mais o vôo da andorinha do que ela em si. Nesse sentido, ele compara essas pinturas com a música, dizendo que a pintura à óleo seria uma orquestra sinfônica e que a aquarela seria um quarteto de cordas, mais íntimo, mais sumido e menos exterior (cf. Cócaro, p. 21). Esse conto inacabado, é um quarteto de cordas, uma aquarela diluída que Cortázar nos brinda, simbolizando talvez a vida e a obra inacabadas de Bix. E agora, coincidentemente, sem Cortázar, a ponte inacabada entre autor e leitor, a ponte sobre um infinito de possibilidades.
Por fim, podemos agora fechar os olhos, aguçar os ouvidos e... escutaremos um dueto. Um dueto formado por Bix e Cortázar, tocando para Omar, para a panamenha e para nós!
Nota: A editora Desiderata está editando os dois contos de Cortázar traduzidos por Cassiano Viana, com desenhos de Odyr Bernardi para serem publicados ainda este ano.
SUSAN BLUM
Referências bibliográficas:
Cócaro. N. El joven Cortázar. Argentina: ediciones del Saber, 1993.
Cortázar, J. Bix Beiderbecke. (trad. Cassiano Viana). Incluso os textos “O último solo?” de Viana e “Sobre traduções e textos inacabados” de Löis Lancaster. Rio de Janeiro: Pocket Cat/Carlota edições, 2006.
Cortázar, J. Valise de cronópio. São Paulo: Perspectiva, 1993.
Moura, S. B. P. Abrindo as portas para ir brincar nos espaços de Final del juego. Dissertação. Curitiba: UFPR, 2004.
Tezza, C. Breve espaço entre cor e sombra.
Susan Blum (susanblum@usp.br). Curitiba /1963. Formada em Psicologia (PUC-Pr, 86) e em Letras (Universidade Federal do Paraná - UFPR, 2003). Mestre em estudos literários (UFPR, 2004) e doutoranda na USP pesquisando sobre o espaço e o autor Julio Cortázar. Tem alguns contos publicados, como os que estão na Revista Cronópios (http://www.cronopios.com.br) e algumas traduções de poemas do Apollinaire (no site http://www.humanas.ufpr.br/departamentos/delem/nuttraducao).
Possui publicações em revistas literárias como Fragmentos (UFSC) e Letras (UFPR), além de apresentações em congressos. Pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início em 2002. Seu currículo pode ser obtido no currículo Lattes do CNPQ.
- O senhor vai levar esta arca?
Olho para a cômoda no canto da sala, uma espécie de étager de madeira escura que não combina com o piso claro do apartamento novo. A pergunta da mudança ecoa na minha cabeça permanecendo sem resposta. Enquanto percorremos o apartamento o rapaz anota cada item que vamos ou não levar. A mesa da sala definitivamente fica, decidimos. O armário do quarto também. Incrível como hoje, quando as transportadoras são chamadas de empresas de logística, é muito mais cômodo fazer mudar de uma casa para outra.
O rapaz continua a narrar detalhadamente o processo de empacotamento de cada móvel, livros, roupas etc. Sua voz vai sumindo... Vejo o garoto deixando o ‘outro lado’ do Méier, uma casa de telhas francesas de barro, para um apartamento próximo à Dias da Cruz, artéria que corta o tradicional subúrbio carioca onde vivi parte da minha infância. De lá já morei ou passei temporada em lugares como Tijuca, Botafogo e Leme no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Londres e Nova York.
It's easier to leave than to be left behind. Discordo de Michael Stipe. Destas localidades carrego pedaços de lembranças do que fui, das pessoas que convivi e das coisas que testemunhei. Esta existência fragmentada geograficamente perfaz o todo do que hoje sou. “Não seria o escritor que sou sem os anos que vivi na Europa” – expôs há alguns dias o escritor peruano Vargas Llosa. De fato a condição de esquartejado em referências contribui para o sujeito se tornar mais flexível em relação aos outros e em relação às condições do meio que está inserido. Por outro lado, pode torná-lo desassossegado, itinerante, viciado na mudança, inquieto.
Já ouvi dizer que as pessoas são o que comem. Pode ser. Entretanto somos muito mais o resultado das nossas experiências e do que vemos. Inevitavelmente morar em um só lugar a vida toda, a mesma rua, a mesma circunvizinhança, o mesmo círculo de amigos, as mesmas influências, é muito mais seguro e menos doloroso do que a partida, o trauma da adaptação e os riscos que o novo sempre representa.
Distraído e encharcado de melancolia, a bílis negra, e ao mesmo tempo ansioso pelos dias que estão por vir no apartamento novo em Larajeiras, bairro que acolhe o escritor Sérgio Sant’Anna, não percebo o rapaz da mudança insistir:
- E a arca, senhor, ela vai ou não vai?
AUGUSTO SALES
“Sueño con la novela y es un sueño recurrente y me la entregan fresquita, recién salida de la imprenta, y yo tomo el libro, mi libro, y lo hojeo y lo leo por partes y lo encuentro clarísimo, coherente, inteligente, y no me asombra para nada que esté conformado por puras formas geométricas. Ni una letra, ni una palabra, pero en el sueño tomo mi libro y lo leo y sé que es perfecto”. JULIO CORTÁZAR
O primeiro livro que li de Cortázar foi Histórias de cronópios e de famas (1962). Era 1988, eu tinha 15 anos e confesso que levei pelo menos outros dez para finalmente desistir de tentar entendê-los, esses seres verdes que flutuam no ar quando se está embutido numa poltrona de teatro e Louis irá surgir de um momento para o outro.
Para mim, os cronópios permanecem – mais que O jogo da amarelinha (1963) – a maior contribuição de Julio, não só para a literatura, pese o fato que o mundo parece estar mesmo implacavelmente dividido entre eles, os cronópios, as esperanças e os famas.
A força dos cronópios é a poesia, a rebeldia, o questionamento contra a padronização, o Grande Costume. Todos queremos tanto ser cronópios e repudiar aos famas. Com os cronópios, Cortázar nos proporcionou uma vida menos pesada, melhor, quase suportável. Ele, que dizia se sentir uma criança aprisionada em um corpo de adulto e gostava de usar a palavra brincar para classificar seu trabalho. Mesmo aquilo que poderia parecer um manual, suas instruções, para subir uma escada, para chorar, para matar formigas em Roma, para dar corda no relógio ou para entender três quadros famosos, são manifestos de anarquismo, influenciado pelo surrealismo que era Cortázar.
E o que dizer de Amarelinha, a busca pelo leitor participativo, além do que já foi dito e está escrito por aí?
Gosto sobretudo de contos como “Grafiti”, de Queremos tanto a Glenda (1980) “Aí, mas onde, como”, de Octaedro (1977) e dos textos incluídos em seus álbuns-almanaques La vuelta el día en ochenta mundos (1967) e Ultimo round (1971), que, ao que parece, finalmente surgirão para o leitor brasileiro, ainda neste ano. Relatos onde Julio supera Borges, por exemplo (no sentido histórico e não no competitivo) no tocante ao fantástico, para ele qualquer coisa simples, algo que pode acontecer em plena realidade cotidiana, a indicação súbita de que à margem das leis aristotélicas e da nossa mente racional, existem mecanismos perfeitamente validos, vigentes e que nosso cérebro não capta. Este sábado, por exemplo, rodeado de amigos, todos comemorando e falando dele, enormíssimo cronópio, selecionando fotografias, ouvindo sua voz e saboreando aquilo que vem do mar e Heloisa, como Malabarr, preparou magicamente. Faltará, por exemplo, publicar os poemas de Salvo el crepúsculo (1984), os Fantomas contra los vampiros multinacionales (1975), o Silvalande (1977), os escritos políticos e os três maravilhosos tomos de cartas.
Cortázar, de certa forma, para mim representa na literatura o que na música simbolizam, por exemplo, os Beatles: o sonho, a alegria, a esperança, a juventude, o viço. A idéia de que é possível não ser um escaravelho peludo e deixar que as coisas aconteçam na página como à sua maneira está acontecendo na rua ou na praça aqui ao lado, como pede a panamenha do conto Bix Beiderbecke, esse relato inacabado escrito em 1984, pouco antes de sua morte e somente publicado em 2003 na Espanha, no primeiro volume de suas Obras Completas (nove tomos de mais de mil páginas, organizados por Saul Yurkievich, amigo e herdeiro, e publicado pela editora Galáxia Gutemberg/Circulo de Lectores).
Escrito em primeira pessoa, o conto relata o despertar e as aventuras sexuais de uma panamenha que está convencida de viver uma relação mágica, essencialmente erótica e musical, com o famoso trompetista Leon Bix Beiderbecke, uma lenda do jazz dos anos 20, mesmo que décadas os separem. 47 anos separam “Bix Beiderbecke” de “El hijo del vampiro”, seu primeiro conto, de 1937.
É preciso dizer que ele está aqui, não só nas prateleiras de livros, na desordem da mesa, nos textos espalhados pelo chão do quarto, nesse disco de jazz que ouço enquanto escrevo. Há pelo menos dois anos – oficialmente - não leio quase nada além de suas cartas, biografias, livros, traduzidos ou não no país, escrevendo com Susan Blum, a biografia de Julio.
Ainda levaremos muitos anos e muitos livros para chegar a entender e definir a imensidão da obra que Julio deixou não somente para a literatura de nosso tempo, mas em nossos hábitos de leitores, na percepção do texto, em nossa inevitável necessidade de associar a literatura e a vida, a escrita e o homem. Ele que sonhava nos últimos anos de sua vida com uma novela onde não haveria letras nem palavras e que, no entanto, era claríssimo, coerente, inteligente, perfeito.
CASSIANO VIANA
A morte sempre esteve perto. Com foice e capa preta, sentada no sofá. Acostumei-me a ela. Muito nova, perdi avós maternos, tios. Aos 13 começou a varredura do núcleo familiar e lá se foi vovó Tanica e um cara que eu chamava de pai; figura mitológica, sagrada e papel principal da nossa sociedade. Depois, José Maria, meu irmão com nome santo, mas este é um capítulo tão doloroso que convém deixar pra mais tarde, ou mesmo deixar pra lá.
O primeiro homem da minha vida era mineiro, hipertenso, gostava de literatura budista e de estar em casa com seu pijama. Preocupava-se muito em deixar para os filhos algo que realmente prestasse em um mundo que já começava a falir. E deixou. Devo a ele a minha teimosia e a obstinação, pois que aprendi a ser livre antes do feminismo e de outros ismos.
Nas manhãs quentes de sábado, lembro-me dele me pegando pela mão para assistir ao Desafio ao Galo, espécie de campeonato de futebol esquisito da extinta TV Record. Com os irmãos já crescidos e desinteressados, tornei-me a sua companhia de vestido curto e botas ortopédicas. Contava então com uns cinco ou seis anos de existência e a segurança daqueles momentos fazia-me pensar que a vida seria sempre boa e maldade era coisa de televisão.
Meu pai era inclusive professor, amigo e, na falta de uma irmã para dividir feminices, amiga também. Um dia, sentindo falta de figura feminina nas brincadeiras (mamãe era um pouco séria), tive a idéia de vesti-lo de mulher. Isso mesmo. Espada que era, não foi nada fácil convencê-lo. Aliás foi um trabalhão. Mas venceram o seu excelente senso de humor, sua preguiça e principalmente seu amor por mim. E foi. Sem culpa, como se travestem os homens nos carnavais quando a sociedade assim permite.
Eu começava lá uma descoberta tão importante do significado de ser mulher, mesmo que em um homem: o prazer da produção, de se montar. Primeiro a saia folgada de mamãe. Depois um par de coloridíssimos saltos dos anos 70, em que na verdade só cabiam os dedos. Aí vinha a melhor parte, a mais lúdica: a maquiagem. Sombras, cílios postiços, blush e pó (que naquele tempo já não era mais de arroz), e batom vermelho, até hoje uma paixão. Por fim, a peruca de cachos castanhos (era muito comum ter peruca em casa nessa época), laranjas no peito e um leque feito de papel utilizado para esconder o bigode. Minha moça era feia, alta e um pouco desajeitada. Quando as primas iam de visita, era diversão na certa! Eu ficava muito orgulhosa, pois o meu pai era o mais legal de todos.
Outra vez já crescida resolvi retomar os velhos tempos. Desta vez meu pai ralhou muito mesmo, afinal eu não era mais menina. Mas ainda me amava como tal, e com certa inércia, deixou. Quis incrementar a produção com esmaltes vermelhos, pois seu rosto cansado da doença convencia cada vez menos como senhorita. Ele ficou uma fera e me fez prometer tirar “aquilo” tão logo acabasse a brincadeira.
Acontece que eu esqueci de tirar. Alguns dias depois, chegava da escola quando percebi a tensão no rosto de quem me esperava. Meu pai tinha morrido com as unhas do pé esmaltadas de vermelho. O rapaz da funerária estranhou. Pegou um chumacinho de algodão com acetona e tirou sem fazer perguntas, pois estávamos muito tristes.//
MÔNICA OLIVEIRA
Mônica Oliveira é jornalista e assinava a coluna "A exibicionista" no extinto site Falaê!com.br. Ela mantém o blog http://eusoumaria.zip.net.
A falta que ele (já) nos faz / A(s) marca(s) / O encontro (não) marcado
Eu poderia começar essa crônica de várias maneiras. A falta de certeza de qual seria o melhor começo me fez utilizar o clichê de começar dessa maneira: não começando.
Faleceu dia 11 de outubro de 2004, às vésperas de completar 81 anos, o escritor mineiro Fernando Sabino. Contista, cronista, romancista - excelente nos três ramos - Sabino nos deixa.
Não escreverei aqui sobre sua vida ou suas obras. Falta-me conhecimento pleno sobre o assunto (apesar de ter lido quase todos os seus livros e saber sua biografia) e isso seria por demais demorado. Há tanto o que escrever sobre o Fernando...
Mas quem melhor escreveu sobre Fernando Sabino foi ele mesmo. Vide “O menino no espelho” (romance que conta sua infância), “O tabuleiro de damas” (um esboço autobiográfico), “O encontro marcado” (onde realidade e ficção se misturam), “Cartas perto do coração” (no qual ele abre o seu para Clarice Lispector), entre outros livros publicados pelo mineiro.
---------------------------------------------------------------------------------------
Existem certas coisas que precisam ser ditas:
Fernando Sabino: o homem que me fez amar a literatura;
Fernando Sabino: o homem que me fez expandir meu horizonte literário;
Fernando Sabino: o homem que me fez começar a escrever;
Fernando Sabino: o homem que me fez dar boas risadas com seus textos maravilhosos;
Fernando Sabino: o homem que me fez chorar com os mesmos textos;
Fernando Sabino: o homem que me respondeu duas cartas enviando dois livros com dedicatória;
Fernando Sabino: o homem que me fez chorar ao ver - de longe e depois de muito tempo - a face da morte.
---------------------------------------------------------------------------------------
“Toquei a campainha. Quem abriu foi uma senhora:
- Olá, o Fernando está?
- Sim, quem deseja?
- Eu sou um grande fã dele. Será que ele poderia me receber? Estou de passagem pelo Rio e gostaria muito de conhecê-lo.
Ele, todo gentil, permitiu a minha entrada.
Passamos a tarde inteira conversando: literatura, música, cinema, política, ‘causos’ e eu estava assombrado. Ali em minha frente, o homem que eu pensara ser imortal. O homem que eu quisera ser e daria qualquer coisa para ser metade do que ele é.
Saí de seu apartamento na rua Canning com sua obra reunida nas mãos - presente dele - e com uma sensação de extrema felicidade.”
É uma pena isso não ter acontecido. Fernando se foi e não esperou a visita que eu faria à sua casa no Rio. Mas não tem problema. Nos vemos mais cedo ou mais tarde. Temos um encontro. Marcado.
//
RAFAEL RODRIGUES
O que ia fazer ali na hora do recreio, ninguém entendia muito bem. Nem os amigos mais próximos, nem as namoradinhas. Muito menos a freira que tomava conta da biblioteca. No início, o garoto era acanhado. Depois, ganhou intimidade com os autores de que mais gostava, entre os vários que experimentava. Escolhia os livros com curiosidade inocente, sem recomendação. Lia e ia fazendo seu gosto. Mesmo podendo levá-los para casa, gastava tempo por ali, adiantando algumas páginas para eleger qual deles leria até o fim. Pelas largas janelas chegava o som longínquo da algazarra dos outros alunos, como se fizessem parte de outra vida.
Não eram só os livros que o atraíam à biblioteca. Ia sempre que estava aborrecido. Querendo ficar só. Podia ser uma paixão platônica por uma colega ou pela professora de matemática. Uma briga com amigos. Outra em casa, onde fazia birra e chorava, dizendo-se independente. E olha que a coisa já tinha sido mais feia. Quando menor, era uma criança de rompantes inacreditáveis. Comum dar com a cabeça na parede. Dizer que ia fugir e não voltar. Perguntava o tempo todo: por que isso, por que aquilo? Dizia que ia casar com a professora. Inventava moda. Brincava sozinho. Criava jogos que ninguém mais entendia. Não tinham como.
Cresceu um pouco, mas a sensação de isolamento continuou, apesar de já cultivar algumas amizades que durariam décadas. Mas, se as férias pareciam um intervalo gigantesco na sua vida, o que dizer de um ano ou dez? Quando pensava que um dia ficaria velho como seus pais, a professora ou a senhora que o observava com ar assoberbado entre os livros, uma onda de sentimentos contraditórios vinha à tona. Planejava ser astronauta, ator, milionário, espião, bombeiro, jogador de futebol e diretor de cinema. Entre as cem vidas que podemos escolher, gostava de pensar que poderia viver todas. Mas, no instante seguinte, recuava mil passos. E então, era como se não pudesse viver nem a sua.
Muitas vezes o desgosto que o levava à biblioteca era maior do que simplesmente orgulho ferido. Algo que perpassava todo o resto e que ele não sabia explicar. Um olhar triste de nostalgia precoce, encarando a fresta por onde lhe escapava a alma. Até os momentos mais alegres vinham acompanhados de certa melancolia, saudade deslocada no tempo. Nessas horas, via-se em desvantagem em relação ao resto do mundo. Não encontrava cumplicidade em lugar algum. Era um menino de angústias infinitas.
A Irmã Laura tentava lhe podar as leituras. De início, com algum sucesso. Achava que alguns livros o garoto só poderia ler no segundo grau. Implicava com ele. Que estranho era alguém amolar quem só queria ler livros! O que poderia haver de tão importante em um moleque lendo um livro? E principalmente aquele livro, que ela considerava tão impróprio? Eu não tinha mais do que doze anos quando surrupiei O encontro marcado da biblioteca do Colégio Sion, no Cosme Velho.
Do Fernando Sabino, já havia lido praticamente tudo, os volumes de crônicas (como muitos, fui apresentado ao Sabino pela série Para gostar de ler) e seus outros romances (O menino no espelho e O grande mentecapto, com destaque). Era seu fã confesso e solitário, entre colegas que não ligavam muito para livros. Essa relação ganhou outras tintas depois que li o ''encontro''. Sabino, a esta altura amigo íntimo, me deu as palavras que eu ainda não conhecia para definir e explicar a angústia que eu puxava sem saber. Não só me deu palavras, mas me acompanhou por anos. Já não me sentia ilhado naquele sentimento. Havia Eduardo Marciano, e havia eu. Que, de forma torta, fui me vendo cada vez mais naquele livro, em cada vez que o relia, em todo ano que o reli.
Quando soube da morte do Fernando, depois da tristeza e de um porre de oito horas, amanheci pensando que nunca havia lhe agradecido. Tímido ou receoso, nunca tentei entrar em contato, nem por fax ou carta. O máximo que fiz foi, alguns meses atrás, lhe enviar uma cópia do meu primeiro romance com uma dedicatória onde eu também me dizia ser um Marciano. Hoje vejo como fui sem graça. Afinal, como agradecer a alguém que lhe deu o norte na vida? Se antes eu pensava em cem caminhos, Sabino me apontou o único possível.
Obrigado, Fernando. Você não me deu um nome, mas me ofereceu uma estrela. Eu acreditei, fui buscá-la. Hoje, continuo essa busca. Preciso continuar, mesmo agora que o mundo ficou pior, sem um Fernando escrevendo crônicas, viajando pelo mundo, cercado de amigos, contando histórias, bebendo uísque, tocando bateria, ouvindo jazz, passeando por Ipanema, não atendendo o telefone e generosamente editando seus tesouros. Estamos sempre começando. E é preciso continuar, mesmo sabendo que seremos interrompidos. Estamos sempre começando. Antes do fim, e apesar dele, estamos sempre começando. Fico sem jeito de falar, Fernando, mas nos últimos quinze anos, te amei profundamente. Não apenas como se ama um autor, mas como se ama um amigo, um companheiro de todas as horas. Por tudo, como te agradecer, Fernando?
//
JOÃO PAULO CUENCA
~ publicado originalmente em 16/10/04 no Jornal do Brasil
“Fernando Sabino, meu amigo, as rosas estão frias
E estremeceram nas hastes como uma voz de eternidade”
~ Hélio Pellegrino, em carta-poema, 4 de maio de 1945
Não era meu cronista preferido (pronto, falei!). A verdade é que, entre os “quatro mineiros do Apocalipse”, afeiçoei-me mais ao lirismo comedido do Paulo Mendes Campos e ao pessimismo permanente do Otto. Mas não é sempre que um romance lido quando já passada a adolescência entra numa lista particular (e necessariamente ilógica) dos “livros de nossa vida”. Os títulos que relacionamos costumam perdurar e em geral circundam textos sorvidos na quentura da descoberta, quando olhamos para o mundo e, ao nos flagarmos nus, então percebemos que a nudez não nos é exclusiva.
Falo de “O encontro marcado”, evidentemente. Que segue firme, ao lado de Kafkas, Dostoievskis, Clarices e Camus na prateleira mais preciosa de minha estante íntima. Com a morte de Sabino, o último dos quatro mineiros, pus-me a pensar por que afinal esse livro fora capaz de forçar espaço nessa listagem, apesar de tão tardiamente. E revisitei o romance, relendo apenas as frases sublinhadas:
“Estamos imprensados entre esses dois acontecimentos: o nascimento e a morte. Temos apenas 60 anos para resolver o problema, talvez menos.”
“A idéia da morte os fazia mais velhos.”
“Quem fala em sangue, e não esta sangrando, é um impostor.”
“Há uma fresta em minha alma por onde a substância do que sou está sempre escapando mas não vejo onde nem porquê.”
As quatro acima são apenas exemplos soltos das tantas passagens que mereceram rabiscos daquele rapaz de vinte e poucos anos que era eu, por falarem de coisas intangíveis e ressonantes. Que continuam ressonantes, mesmo na leitura apressada de anteontem à noite. Contudo, para além das frases, da prosa fluente do narrador, compreendi que minha profunda ligação com a obra atrelava-se essencialmente ao fato de “O encontro marcado” ser antes de tudo um romance sobre o amor, urgido no sentimento trágico diante da vida que uniu Sabino, Hélio, Otto e Paulo. Aquele mesmo amor que os levava a “puxar angústia”, em expressão que se tornou clássica. Pobre de quem nunca “puxou angústia” ao ouvir um samba triste, ao engolir o quinto chope numa mesa de bar, ou ainda ao encontrar um cartão antigo, já amarelado, dormindo esquecido dentro de um livro...
“Vivíamos em estado permanente de discussão”, comentou certa vez Sabino, referindo-se ao grupo. E as delongas superavam tempo ou geografias. Na correspondência trocada entre eles, anos e anos depois das travessuras na Praça da Liberdade de uma Belo Horizonte quase provinciana, o misterioso fio que os ligava permanecia firme. Como o demonstra carta remetida a Hélio, datada de 1945. Sabino confessava ter o coração cheio de “alegria triste”, e observava: “Há qualquer coisa de comovente nesse encontro de nós quatro assim de longe – tão longe que estamos um do outro, você do Paulo, o Paulo do Otto, o Otto de mim, e no entanto tão juntos, que nossa respiração se confunde, nossas mãos se tocam no ar e há um resto de doçura no olhar de cada um, que é a lembrança dos outros três.”
Essa doçura valente - presente em cada linha de “O encontro marcado”- nasce da generosidade de “mostrarmos nossos corações uns para os outros”, como bem definiu um desses amigos que sabem ser doces. É ela que confere intensidade às relações humanas. É ela que me faz situar o romance entre os grandes livros que li. É ela, enfim, como bem souberam o próprio Sabino e seus parceiros Hélio, Otto e Paulo, que faz da amizade uma forma [sublime] de amor.
//
MARCELO MOUTINHO
Acontece assim: chegado de viagem, você se esforça para ficar a par do que aconteceu nas últimas semanas, e ao invés de descobrir se o dólar subiu o desceu, a colocação do Flamengo no campeonato ou quem venceu as eleições, descobre que Fernando Sabino morreu. E se sente, estranhamente, mais só.
Os jornais costumam publicar as aspas de amigos e gente notória no dia seguinte, tecendo loas à vida daquele que se foi. Mas nossa cultura nos impede de ver com bons olhos essa “passagem”, nos obrigando a usar eufemismos como esse -- mesmo quando ela se dá em circunstâncias de dor ou sofrimento. Pois a primeira coisa que me ocorreu ao saber do falecimento foi o alívio de ver encerrado o calvário que foram seus últimos 10 anos. Depois da publicação de Zélia, Uma Paixão, Sabino encarou as críticas da imprensa, a separação da última mulher e uma certa reclusão, para não falar no que a idade avançada já lhe cobrara da saúde. Pior: não tinha mais nenhum dos amigos próximos a lhe apoiar – Hélio Pellegrino, Pedro Nava e Paulo Mendes Campos se foram na década de 80, Otto Lara Resende e Rubem Braga, no comecinho dos anos 90. Afastara-se de Millôr Fernandes por causa de uma piada envolvendo as cifras do tal livro. Para um escritor que tinha convivido intimamente com todos eles (e mais Jayme Ovalle, Vinícius de Morais, Otto Maria Carpeaux e Carlos Drummond de Andrade), para um amante de jazz e baterista diletante que conhecera Louis Armstrong, para um viajante que conhecera Londres e Nova Iorque antes dos 30 e transformara em livro (De Cabeça para Baixo) seus diários de viagem pela Europa; para o homem que por três vezes se casara, cada uma delas em relação de mais de década, gerando 7 filhos, o que não terão sidos esses últimos anos norefúgio da rua Canning?
Não que tivesse tomado desgosto pela vida que tanto curtiu; podia ser encontrado caminhando pela orla ou tomando sustos ao descobrir um de seus livros na seção de bizarros de um sebo próximo. Mantinha contato com amigos
próximos e aproveitou o tempo produtivamente para revisar seus escritos, publicar inéditos ou cartas da juventude, organizar a memória. Bom cabrito, não berrou: trabalhava silenciosamente como o mineiro que nunca deixou de ser.
Além desse exemplo de postura pessoal, deixa um romance de formação (O Encontro Marcado), um retrato do Brasil, na figura arquetípica de um anti-herói (O Grande Mentecapto), e uma infinidade de contos, crônicas, perfis e memórias onde, confundindo personagem e autor, exaltou otimismo pela fé do homem temente a Deus e pela capacidade de enxergar e se encantar com o lirismo do cotidiano, aquilo que chamava de “um olhar virgem do mundo”, lavrada na própria lápide: “Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e que morreu menino”.
Dois tipos de livros influenciam um jovem escritor. O primeiro é o que afeta a sua literatura, o jeito de escrever, o modo como pensar o texto, as facetas da narração. Este caso, que me desculpem os colegas que lêem a Paralelos, é a menor das influências. A segunda, mais importante, e que soará piegas em palavras assim expostas logo num primeiro parágrafo, é aquele livro que muda sua vida.
Não estou falando dos casos raros que um livro faz você ir para esquerda quando o normal seria a direita e decorrente disso você esbarra numa oportunidade que muda a sua vida. Não, a questão aqui é muito mais sutil. Falo de um tipo de influência que você percebe, mas tenta não assumir. É quando o leitor percebe uma resposta naquela questão interna que nem conseguia formular.
Entrando ainda mais para o lado pessoal, este foi o meu caso com "O Encontro Marcado". Fernando Sabino nomeou-me um sentimento que eu já cultuava em segredo e guardava no silêncio abafado do quarto vazio ou dos bares cheios. Era o sentimento de inadequação, da estranheza, da dor plácida e pontiaguda. Sabino me sussurrou: "Ei, menino, sei bem o que andas fazendo...isto se chama puxar angústia."
E assim foi. Mudou alguma coisa palpável? Talvez não. Mas me influenciou, deu mais calma, coragem. "Encontro Marcado" é um livro que vem definindo personalidades há 48 anos. Somos uma confraria de seguidores de Sabino, que só tende a aumentar, dada a universalidade de sua obra.
Um pequeno caso de como o livro é importante para mim é o seguinte: assim que conheci minha namorada, com menos de uma semana dei um livro para ela ler. "Toma. Se temos futuro - e tudo indicava, e continua indicando que sim - você precisa saber duas ou três coisas sobre mim que alguns livros dirão." Encontro Marcado foi o segundo nessa sucessão de informações iniciais.
Quantos já exclamaram que Eduardo Marciano sou eu? Ou responderam que "Encontro Marcado" é o livro de sua vida. Existe legado literário mais belo que esse? Descanse em paz, Fernando, que sua obra permanecerá conosco.
//
FLÁVIO IZHAKI
Segunda-feira, Outubro 11, 2004
SONHO
sobrevivente geracao nao se orgulhava menino 81 amigos natacao livros viaduto ligia rancor rancor filho leitura sabia rancor cancer hotel catete aos 12 anos diabo uisque romance paulo dixieland distraido lara cartas fabiana eletronica bem-te-vi puxar angustia mario cartas otto cartas helio cartas paulo paulo roberto cosmopolita jornalista pergunta nao esta muito babao o funerio nao pode escrever o que sentimos ainda alguma coisa nao temos direito quem falou em direitos sentei na escada do predio com o livro no colo com meu avo tambem eh assim eh como se nunca morrido como sempre sentado no mesmo lugar da varanda perto do coracao geracao que chorou porque ninguem chorava nunca mais nos voltamos choroes a requisitar algum jeito de sentir turrao infantil velho infantil rancor nao nao como quis num quarto com deus e os amigos o assobio do amigo morto atravessa a janela na alucinacao exemplares assinados fabiana jornais secretaria rancor jornais nao figueiro poesia rubem nava vinicius bateria uisque canning barril 1800 jazz aniversario lagrimas reveillon degraus predio verde porteiro homem feito restos mortais no quarto como quis no espelho marciano vaidoso winnetou dia da crianca em deus sobrevivente amizade assobio alguma coisa a que pregar nossa cruz catolico sem restricoes a fe fernando em seus abracos jesus e seus demonios num boteco o mar bravo mineiro como o viu pela primeira vez um mar bravo rancor nao nao jesus solidao desconfianca amargo amigo assobia e a cama e o quarto como quis la embaixo ficam cada vez mais longe.
escrito às 4:52 PM por Cecilia Giannetti
[publicado originalmente em escrevescreve.blogger.com.br
Uma dessas histórias sobre o artesanato de canções conta que numa noite, ainda final dos anos 70, Gilberto Gil estava hospedado (ou apenas dormiu, não me lembro ao certo) no apartamento de Caetano Veloso, aqui mesmo, no Rio de Janeiro.
Naquela mesma noite, Caetano tinha ido ao cinema e quando voltou o hóspede já tinha se recolhido. Deitado, Gil ouvia pedaços do enredo do filme, que o autor de Tempo tempo tempo tempo contava empolgado às demais pessoas da casa.
Dali, dos fragmentos resgatados pela imprecisa audição, surgiu a inspiração dos versos “Quem sabe / o Super-Homem venha nos restituir a glória / mudando como um deus o curso da história / por causa da mulher”.
O trecho citado é a estrofe final de Super-Homem – A canção e faz menção ao esforço hercúleo que o personagem protagonista do longa-metragem fazia para trazer de volta à vida a mulher amada, morta em uma catástrofe de proporções ‘cinematogáficas’.
Ele veio-me a cabeça logo após saber da morte do escritor mineiro Fernando Sabino, aos 80 anos, nesta segunda-feira, 11, vítima de câncer no fígado. Mas a lembrança chegou, ressalva seja feita, associada a uma segunda morte, também neste 11 de outubro: a de Christopher Reeve, intérprete mais famoso do Super-Homem do cinema, aos 52 anos, em Nova York, de parada cardíaca.
Como já dito, Sabino era escritor, mineiro, autor de quarenta e tantas obras, que serão citadas nos obituários jornalísticos e até o final da semana deverão estar, de bate-pronto, de volta às prateleiras das melhores casas do ramo. Reeve, por sua vez e como também já citado, era ator, norte-americano e, além de seu mais famoso personagem, atuou em filmes água-com-açúcar como Em algum lugar do passado.
Não poderiam ter percurso de vida mais dispare, antagônicos e não teriam nada além da fatídica data a uni-los, se não fosse o escriba aqui querer dizer algo sobre o indizível. Mas, por estranho que seja, ainda não é possível ver o desaparecimento de ambos como uma coisa una, dissociada da outra. Dá-se, então, um inesperado encontro - mesmo que para uns e outros isto se configure heresia.
Já há alguns anos Sabino, ele também, havia se recolhido e estava envolvido na tarefa de fazer voltar seu próprio tempo e ressuscitar antigas personagens, histórias, diálogos, idéias. Fazia isso porque considerava-se (e era) a pessoa mais indicada para função e para que não houvesse necessidade de revirarem baús póstumos sem a sua orientação.
Reeve, que depois de inexpressivas atuações na telona passou a ocupar o limbo do ostracismo, fez o caminho inverso ao de Sabino e voltou aos holofotes após seu acidente. Voltou para valer-se do fato de, um dia, ter interpretado o papel do homem mais poderoso do planeta e tentar lutar, de fato, por reaver o que havia perdido.
Sabino, que tem em sua galeria de personagens o alter-ego Eduardo, de O encontro marcado, morreu, na véspera de seu 81° aniversário, lúcido como o jovem que aos 18 anos recebeu elogios de Mário de Andrade sobre seu primeiro livro de contos. O escritor quedou-se, principalmente, depois das mortes de seus melhores amigos: Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende. Por fim, a saudade e um câncer corroeram-lhe, fatalmente, o filtro natural da vida.
Reeve, que durante anos ainda ficará no inconsciente coletivo por ter interpretado um metafórico ‘filho do Homem’, vinha há anos mantendo uma sobrevida depois que a queda de um cavalo o deixou tetraplégico. Mesmo que forte e ainda novo, ao morrer, Reeve nem de longe lembrava o heróico galã do cinema. Esta talvez seja a prova maior de que foi árdua a mais importante de suas lutas – da qual saiu derrotado.
Para os leitores, estarão sempre por aí, nas gentes das ruas, a lembrança do olhar atento e curioso de Sabino; as conversas espirituosas trocadas via Correios, numa época em que a tecnologia ainda não atrapalhava o tempo do pensamento; e a percepção da importância de se procurar, encontrar, ouvir, compreender e aceitar o outro – que pode estar tanto no outro, de fato, ou aqui, em nós mesmos.
Para os cinéfilos, Reeve deixa uma legião de adultos-meninos que, antes de se interessarem por outras formas de ficção (quiçá literárias), quiseram dobrar barras de aço como papel, enxergar através de paredes metafísicas e fazer o tempo voltar até antes de terem dado aquele passo em falso, no encontro marcado com suas próprias vidas.
Como Eduardo, há também um sem-número de leitores dispostos a seguir em frente em suas vidas (reais e ficcionais), ainda que para isso tenham que ultrapassar barreiras intransponíveis – contanto, claro, com os super-poderes da percepção.
Claudinei Vieira, nosso correspondente na terra da garoa, escreve um texto epistolar para ver se consegue se livrar de sua ressaca literária pós-Flip.
DA RESSACA INTER-FLIP-NÉTICA
Thu, 15 Jul 2004 03:26:54 -0300
claudinei Vieira
A FLIP não foi tão boa assim, como estão falando. Afinal de contas, eu acabei esquecendo a minha escova de dentes preferida lá na pousada. Era a minha escova de estimação, acompanhou-me em várias viagens, fez parte da minha existência. Tudo bem que estava meio baleada, não tinha algumas cerdas, mas, fora isso, era minha amiga. Duvido que alguém possa avaliar minha perda. Agora deve estar jogada em alguma lata de lixo da história, a não ser que alguma outra pessoa a tenha adotado também. Mas, tudo bem, a vida continua.
Tirando este detalhe, a Flip foi legal. Não é possível descrever como foi bom. Ainda hoje estou tentando me recuperar, me readaptar à realidade cotidiana. Não é possível nem tentar aproximar o gosto dessas amizades imediatas que pareciam ter sido feitas há muitos anos e não somente alguns dias. Também não é possível descrever o prazer de todas as conversas que fizemos, das risadas que demos, das palestras que assistimos, dos planos que fizemos. Muito menos possível ainda, dar a dimensão da paciência que tivemos para agüentar a fila do almoço, de tentar conseguir uma mesa (uma das coisas que mais irritam um paulistano típico como eu), de apreciar a beleza fresca e natural das paratienses, ou paratianas??, (o que foi, aliás, um dos motivos que me fez almoçar sempre no ‘panela de ferro’). Bom, como não é possível, então não vou dizer nada.
Certo, nem tudo foram flores. O Chico não me convidou para jogar futebol, em uma atitude de retaliação mesquinha já que não fiz muita questão de participar da histeria coletiva e assistir o seu show, isto é, sua apresentação, isto é, sua leitura. E o Paul Auster já tá meio caidaço, não é mesmo? (ou aquela cara de sonso é normal?). Mas, a Margaret Atwood é linda, nunca vou esquecer as três piadas-de-escritor que ela contou, se fosse alguns anos mais nova, eu casava com ela, desde que esquecesse essa bobeira de ficar caçando borboleta na amazônia. Pelo visto, as borboletas devem estar extintas no canadá para alguém ter uma idéia destas.
E eu não tive nada a ver com aquela história de woodstock literário. Alguém fez sexo, tomou drogas e ouviu rock no meu lugar. E nem me convidou! Eu só fumei um beque, uma única vez. Nem traguei.
No entanto, tudo valeu a pena, porque minha alma etc, etc.
Sun, 18 Jul 2004 21:23:39 -0300
lidiane soares rodrigues
Gostaria de dizer a todos do prazer e da alegria que foram os dias em Paraty. Quero de fato encontrá-los novamente, pois, de alguma forma senti que todos nos interessamos por todos, e o tempo foi curto para nos sabermos até perdemos um pouco da curiosidade acerca um do outro, e no entanto foi tanto suficiente para sabermos que mais noites de longas conversas sem fim ou conclusão se seguiriam caso continuássemos. Por causa dessa brevidade intensa, algumas coisas ficaram sem ser ditas, especialmente por mim, que prefiro ouvir, e oculto algumas coisas se assim o tempo pedir. O texto que segue, precisamente conceituado pelo Claudinei de conto/crônica/testemunha/ficção é um esforço de dizê-las... Mas um adendo: eu desisti de ser escritora, portanto sejam flexíveis na avaliação que eventualmente fizerem. Desejo a todos que jamais desistam dessa coisa pulsante, de que tanta saudade eu sentia, vocês, escritores, não sei se são esquisitos como quer Chico, sei apenas que têm uma coisa no de dentro que me fascina. Sintam-se todos fortemente abraçados,
Saudações Andaluzas,
Lidiane
Do nome e da coisa.
Um escândalo. É no que todas mulheres, dos sete aos setenta, se transformam quando ouvem, lembram, sentem ou se remetem através de qualquer um dos cinco, seis, sete, oitodos sentidos femininos a esse nome: XicoBwark. Elas, escândalo; eles, espântalo. Os meninos entre os oito e os oitenta anos constatam, avaliam, buscam resposta para a irrespondível ‘o que será quer será’, disfarçam o constrangimento, mas testam obstinadamente hipóteses de explicação, defendem teses acerca do fenômeno e, nada: continuam cindidos: entre o imperativo racional de admitir o talento do moço e a ojeriza às suas meninas, mulheres, racionais, frias, difíceis, frígidas, duronas, se desracionalizando, se aquecendo se excitando se entregando à volúpia aos instintos aos febris arrepios de lábios nuca tremor de mãos e olhos, com o mais remoto sopro do nome, com a mais remota chance de vê-lo, com a mais pura fantasia de tocá-lo. Nome é avatar das profundezas mais misteriosas delas, como se habitasse no lar recôndito das cavidades e esconderijos do corpo e do espírito do feminino: morada da qual o homem quer gozar, deseja se apoderar e nela, quem sabe, viver.
Pois ela, nem queria mais. Como se sabe, após o gozo, um cigarro, um afago, um silêncio, um sorriso: minuto seguinte, fruição, como só os deuses gregos puderam na história. E ela havia gozado. No dia anterior, o olhar de uma mulher, daquelas que sabemos ‘com esta realizaria todas minhas fantasias homoeróticas’, e que não se precisa dizer o nome pois era a coisa de dentro dela que havia lhe feito aquele efeito de: sentir-se mulher demais para qualquer homem. Preliminares quentes. Naquele dia mesmo, ao sentimento de fêmea viera se adensar o de libertinagem crítica, na identificação que sentiu com a perspectiva política do humorista de quem não quer dizer o nome, pois aqui os sem nome estão mais próximos da coisa que são, não demandaram signos mas atendem pelo chamado intuitivo de seu significado. Polis erotizada.
Anteontem, ontem, hoje, a semana já a penetrara como se a vivesse há anos. Embora seu nome fosse literária, assim o parecia de pouco, por ter tietagem de muito; mas ela, tão saudosa desse conhecimento de vida que a literatura dá, e dessa vivência de vida que se torna literatura, ela gostav ela queri ela, ela é qu, ela, ela ela gozava... das promessas quentes das preliminares do Eros politizado dos olhares as palavras e a vida das coisas tão vivas ainda sem nome: ao gemido grande gritante longo, se seguiria o minuto pleno que vem depois do gozo e ela linda como as mulheres que gozam dilataria o seu minuto por horas horas e dias dias, que depois da viagem ficaria difícil voltar dela.
...não faço mais questão de entrar... “Vamos ver se a gente consegue, olha essas mulheres correndo!” ...ah eu entendo... “Vamos ficar na fila, a gente diz que é da Oficina.” ...estão dizendo in off que tem um barzinho... “Não sei, talvez seja melhor entrar depois de todo mundo.” ...com um telão, aqui atrás, é perto... “Como estamos fazendo nas outras mesas.” ...no barzinho a gente podia tomar uma coisa fresca... “Faz assim, vamos nos dividir, é muito,” ...e eu... “se aparecer assim, a mulher não deixa a gente entrar” ...eu estou com sede... “Ah, e se você gritasse ‘olha o XicoBwark’, todo mundo dispersa, a gente entra.” ...todo mundo quer ir mesmo?... “Entra aí na fila, vai.” ...mas... “Acho que liberaram a entrada”.
Uma moleza, um estender de pernas, uma bituca, aquela agitação parecia distante dela que não gostava de estádio de futebol, nem de show de rock e que sempre se perdia dos amigos em coisas com muita gente. Muita gente, se sentia atrapalhada, não se encontrava em ninguém, alguém estava ali pelo mesmo motivo que ela? Os homens-meninos-bravos, não. As mulheres-excitadas-excitando-homens-com-cheiro-de-hormônios que não pululavam por eles, não. Por que ela estava ali?
Incômodo que não podia esperar XicoBwark e PoulAuster lerem um ao outro, nem as palmas passarem, nem a folia acabar nem nada começar nem as perguntas nem as réplicas nem as tréplicas nem a tradução nem reencontrar a todos. Todos. Onde estavam? Olhava distante, embora fosse perto, o XicoBwark, mas onde estavam todos? Cadê vocês? Tantos rostos e: nenhum. Pensou em sair, mas. Pensou em chamar, mas. Pensou em acenar, mas. Pensou em, mas. Pensou, mas. Não. Ia ter que ficar com a voz e o rosto de XicoBuark mesmo. E cadê-los? Era a pergunta que acompanhava a outra, cadê-me?
Tentou se concentrar, mas a idéia de uma multidão concentrada lhe pareceu um equívoco, embora não estivesse em condições de qualificar nada de equivocado, tão deslocada ela mesma estava. No seu esforço sobrehumano conseguiu ouvir qualquer coisa que lhe deu certeza de que ler PoulAuster era fundamental, teria de descobrir o nome do livro depois. As costas começaram a doer o bumbum, o frio do chão e nenhum, rosto algum. Xicobwark. Lá pelas tantas, sua voz era som sem tema, e seu rosto se descolava de seu nome, XicoBwark, e trazia todas as canções que musicalizavam os seus amores mortes perdas lágrimas: a sua dor profunda na pior delas: a dor de existir. Então do amor gritou-se o escândalo, do medo criou-se o trágico no rosto pintou-se o pálido e não rolou uma lástima nem uma lágrima pra socorrer. Mas as lágrimas logo correriam e preferiu se agarrar a uma menos dilacerante, sim tinha tantas dores que vezenquando se autoferecia o luxo de escolher entre elas, afinal ninguém havia, com tantas pessoas ao seu redor, para lhe abraçar. E bela, dor bonita. Intrigada: aquele nome viveu coisas que faziam com que ele conhecesse coisa demais, soubesse demais, qualquer coisa nas canções diziam de mais acerca de nós, e ali de repente pensou estamos todas nuas pelo seu país? E bela, dor bonita. A dor a que se apegou para tentar suportar sem abraço sem mãos dadas sem toque no cabelo sem, era a dor do ser mulher, pois esta se vive só mesmo, sem escolha. Uma professora xicóloga havia encontrado modelos de mulher nas chicas do XicoBwark: órfica, prometéica, dionisíaca: então as diversas faces femininas subitamente trazia a ela a sensível lembrança de seus amantes. O primeiro que me via, brincando e gostando de ser. O da ferida, que me fazia ferina, dizia a ele que não saía dos trilhos, mas ao fim trocariam tiros, como fora bom encontrá-lo e não vê-lo suportá-la tão feliz... é que lembrava e ainda sentia que muitos homens lhe amaram bem mais e melhor que. O primeiro e os que fizeram mais e melhor lhe deixavam saudades e um sorriso encantado desenhado com as linhas da memória e com o sabor da ambígua amizade: que será, que será?, e a beleza melancólica do rosto se adensava com a lágrima que o da-ferida lhe arrancava, pois o pobre homem só extraía isso mesmo de suas mulheres. Poucos, raros, nunca foi de tantos, e nesse nem tanto, seus poucos amantes, entretanto, lhe pareceram tantos que ela sentia rugas no canto dos olhos das lembranças e nomes masculinos, eram apenas quase trinta anos que ela tinha mesmo? E com o frio e o cansaço e o sorriso de lembranças e o gozo, mulher virando no sofá, sofá virando cama coração... amor já vai embora ou PlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPla, mais, PlaPlaPlaPlaPla PlaPlaPlaPlaPla. Cadê-los? Terminava a tal mesa e todos sumidos. Parou. Não havia terminado, é que as palmas a traziam de PlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPla volt PlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPla volta PlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPla à realidade.
Mais e mais falta de alguma coisa que no interior da noite anterior estava presente. Pequenos e furtivos encantos amores ou qualquer coisa que fazia daqueles, dias incompreensíveis. Cadê o amigo que faz samba e amor até mais tarde, ligou um dia antes da viagem para avisar o tipo de sapato feminino mais adequado pois era difícil de andar na cidade, como enternecia o modo como ele. Cadê ele que dividia as descobertas sobre Morangos Mofados, e tanto ajudava sem nem saber como, engraçado e sensível, me autorizava a rir sem medo. Cadê, o irritado com a XicoBwuakisteria, que tentava não deixar sua irritação o igualar à desrazão hormonal delas, e era bonito de ver seu esforço. Cadê aquele enigma, de jeito manso, que pôs meu coração a balançar? Cadê, o que precisei ir tão longe da universidade para saber que estuda no prédio ao lado e que também lê ela, minha escritora? Sentia tanta falta que se fosse possível, alguma coisa ser só o vazio, seria. Talvez não fosse um corpo com uma parte amputada, pedaço de mim, não sentia uma falta, um vazio: ela era a própria falta. E o outro, o amante, tão mais quente em seus braços, com ele, tão mais quente a fria paulista na ligação do dia anterior “no sonho de quem você vai e vem...que horas, me diga, que horas você volta?”
PlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPla PlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPla olhou ao redor PlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPla parecia que até que enfim PlaPlaPlaPlaPla poderia encontrá-los. Nem que não a escutassem: queria encontrá-los. Voltar à pousada, pensar sobre a palestra dos humoristas, sobre política, tomar um banho, última noite com todos juntos, passaria até batom, será que o garoto gaúcho tiraria mais fotos líricas? Será que a máquina dele registrava a alegria de ir reecontrando todos? Aliás, cadê ele, o próprio açúcar com afeto? Aos poucos, cadê-los, se resolvia... e cadê-me, também: as perguntas tinham a mesma resposta.
Foi bonita a festa pá...fiquei contente...
“Ai que legal”, “Nem acredito que entramos”, “Nossa como ele já está velho, né?”, “Ai mas o PoulAuster parecia meio ausente”, “Eu não acredito que aquele livro dele era autobiográfico”, “Que sem sentido aquela pergunta”, ...melhor nemnão falar... ....vou só sentir... melhor só sentir... ainda falta o do coração a balançar, mas a ausência e retorno súbitos dele faz parte do balançar... já me sinto melhor, faltava agora só seu abraço silencioso terno calmo que me beija com calma e fundo até minh...
Alguma canção que não conseguirmos ouvir lhe tocava os olhos naquela hora, talvez pensem que é emoção de ver Xic.., pensou. Aos poucos não ouvia mais o murmurinho daqueles encantos proibidos pela pouca intimidade daqueles que acabam de se conhecer mas muito mais querem um do outro ainda. Alguma canção de Chico, Tom ou Vinícius tocava em seu coração naquela hora e eu que era triste e conduzia o ritmo de seu silêncio e o volume dos seus passos. Não sabemos qual ou se eram todas juntas. Mas ela, ela sim, sabia do essencial: que n’algum lugar daquela noite a xicobwarquisteria seria tratada, medicada, curada. Um exemplar da espécie diria algo a uma exemplar da espécie. “Você também leu esse livro?” “Sabe qual passagem mais me emociona?” “Você também?” E compartilhariam uma dor. E da partilha da dor o insuspeitável desejo salvaria o prazer, metamorfoseando a condição da humana absoluta solidão em condição mesma da fome do Outro. Como que, de doendo, a incompreensão dos gêneros, de tão profundamente grande e corajosamente assumida, passasse a arder na pele eriçar os pelos contrair de carne. Eles se deitariam, na perfeita incompreensão, encontrariam-se um na falta do outro, e se compreenderiam assim fazendo um ao outro. Ela é qualquer uma, alguma, mais uma, delas. Ele, pode ser Francisco, quem sabe Pedro, ou João, talvez Severino: mal sei como ele se chama, mas entendo o que ele quer. Não gozarei sozinha esta noite.
Tue, 20 Jul 2004 00:18:14 -0300
Tatiana Carlotti
Gente, que coisa maluca! Ficamos todos assim...
Estive essa semana aérea, perdida nas minhas coisas, nos móveis aqui de casa, no silêncio que eu tanto prezo. A mente vagando em mil possibilidades de ver e existir. Escrevendo. Produzindo. Achava que Paraty havia sido particularmente especial para mim, por motivos pessoais, mas quando comecei a ler os e-mails, os textos, (todos), percebi que havia sido algo coletivo. Fico feliz por compartilhar isso com vocês. Não ia mandar texto algum, mas depois de ler o texto lindo da Lidiane, os e-mails, e ver que a sensação é geral, vou colocar mais lenha nessa boa fogueira da memória, ou melhor, nessa boa fogueira de desejos.
PARATY E O DESEJO
Franziu os olhos para ver melhor. Talvez acreditasse que veria mais. Mais o quê? Queria manter o gosto do cigarro na boca, o cheiro de mofo dos quartos, o brilho das pedras nos olhos. Impossível. A estrada sempre embaralha a memória e quem escreve o roteiro é o desejo do que deveria ter sido. O desejo. Esse velho bêbado que destece as lembranças e constrói o que quer. Não escondo nada dele. Ele entra na minha casa, muda os meus móveis, se mete na minha cama. O desejo come as minhas idéias. Todas foram defloradas por ele, seu pau é grande, seu gozo é longo. Depois de conhecê-lo todas me fogem. As idéias. Eu ralho com ele. Xingo. O mando cozinhar, arrumar o quarto, limpar o banheiro. Ele ri. Do alto da sua empáfia, o desejo me manda calar a boca. Sim, ele não é nem um pouco cortês. Às vezes parece um lobo que vai me atacar. Às vezes um asno no meio da sala. Eu já me acostumei.
Em Paraty eu cruzei com ele várias vezes. Em Paraty ele me seguiu como um louco e só se contentou quando os fogos estouraram na ponte. Foi bonito, o céu e o rio explodindo coloridos. "Pode voltar minha criança que eu costuro as tuas memórias", ele disse. Eu sempre soube que o desejo estava lá. Nos aplausos da platéia. No riso nervoso dos mediadores. No olhar do Chico. Na voz do Paul Auster, a voz do Paul Auster. O desejo de comê-los. Todos eles. O desejo de tê-los por um segundo apenas. Exibi-los numa coleção privada. Íntima de reconhecimentos. Perseguí-los numa ânsia insonsa. Aplausos. Aplausos. Escritores deveriam viver em completo sigilo, sem imagens, sem vozes, sem realidade. Escritores deveriam ser papéis em branco, seriam menos perigosos. Como ouvir Hector Man (O livro das ilusões) sem imaginar as mãos de Paul Auster rodando os óculos sobre o joelho? Como saber que Hector Mann dá quatro sem parar? "Isso é injusto". "Golpe baixo", diz meu marido enciumado. Olha aqui o desejo mijando de rir sobre os meus ombros. Ele está lendo essa babaquice. Podem ouvi-lo? Ele está chacoalhando a pança gorda nas minhas costas, e suas mãos quentes estão sobre os meus ombros. "É mentirinha Tati! Quá quá quá! É ficção."
Agora só restamos nós dois. Eu e o desejo. Ele finge ser gentil. Traz-me flores. Traz-me vinho. Ele finge gostar de Debussy. Finge dançar bem. Eu sei quem ele é, mas faço de conta que não sei. Eu cheiro as flores. Bebo o vinho. Eu encosto a minha cabeça nas suas pernas e ouço a música. Pressinto seu bote, mas ele se contém. Ele me aguarda, quer que eu lhe chame pra cama. Então eu lhe peço: "Querido, me conte uma bela história". Ele olha para o teto sem paciência, mas resolve fingir. Cruza as pernas e abre o livro, sua voz é grossa e seus dedos tateiam as letras, ele lê através dos dedos, e seus olhos estão fixos em mim. Ele conta as histórias da sua mente, e eu as reconheço. Todas. Todas as histórias já minhas. Todas as histórias que leio desde menina. Je vous accompagne dès petite.
Eu tenho as palavras de Hector Mann. Eu tenho o olhar de Miguilim. Eles são o suficiente pra mim. Talvez seja esse o prazer, deixar o desejo ser com suas vestimentas e penduricalhos. Em Paraty meu desejo se transvestiu de tantos nomes e tantas frases, é a minha lembrança mais adorável: minha própria imagem sóbria seduzida por esse fanfarrão que me acompanha desde criança, e no fundo, a frase copiada da Ligia que valeria por todo um silêncio: o ser humano é imprevisível, incontrolável e inacessível.
Beijo
Tati
CLAUDINEI VIEIRA
Especial; Cardoso, Flávio Izhaki, Tony Monti, Gustavo de Almeida, Antônio Dutra, Alessandro Garcia, Claudinei Vieira e Marcelo Benvenutti comentam suas diferentes visões de Parati.
Parados em frente da Praça da Matriz escolhemos dentre os populares que ali passavam nove transeuntes que nos relatassem a sua FLIP. O leitor pode conferir o resultado abaixo:
FOTOGRAFIA;
13 fotos e algumas letras sobre Paraty
por Mariana Newlands
CRÈME DE LA CRÈME;
Parati
por Antônio Dutra
Recuerdos de noites semi-bêbadas em Parati (ou simplesmente Parati paramim)
por Alessandro Garcia
FLIP EXPERIÊNÇA,
uma narrativa com PROPOSTA GONZO
por Cardoso
Da ressaca inter-flip-nética
por Claudinei Vieira
Eu não fui à FLIP
por Flávio Izhaki
Trocadilhos não, por favor
por Gustavo de Almeida
Gritos, cerveja, urubu, beija-flor e outras literaturas
por Tony Monti
Das Bichices de Sempre
por Marcelo Benvenutti
BONUS TRACK;
O ogro de Paraty
por Marcelo Benvenutti
Sabia que em Paraty as estrelas estariam brilhando. Logo no primeiro dia, insone e perdido em meio às pedras que me lembram o calçamento podre de certas praias gaúchas, estes feitos com 300 anos de atraso, encontro Paul Auster distribuindo sorrisos e abraços para os passantes e os fotógrafos. Não li nada de Paul Auster, portanto, não posso julgar o que ele escreve, mas imagino escrever a trilogia bêbada de Paraty. Não se preocupem. Nada a ver com a trilogia bêbada de Havana. Até porque eu prefiro o Fausto Wolff.
Outra hora, quase dei um encontrão no Moacyr Scliar. Eu não sei se ele estava lá mesmo ou não. Poderia ser outro sujeito parecido com ele. Eu nunca sei direito. De tanto caminhar pela Osvaldo Alegre em Porto Aranha acabo confundido esse pessoal todo. Ainda mais um imortal. Quem me diz que ele não tem superpoderes e é onipresente?
Depois invadimos uma festa onde se encontravam todos os vagabundos de sempre. Menos o Luís Fernando Veríssimo. Não sei se ele foi embora porque sentiu a presença de invasores perturbados, o que provaríamos ser mais tarde, ou se não suportou ver as pessoas dançando como queijo no microondas intermináveis sessões de Bossa Nova. Nada contra. Os joelhos da Nara Leão são o equivalente pop do rabo da Beyoncé. Mas foi providencial o pedido do Mandága para que tocassem, pelo menos uma só vez, rock'n roll naquele festa funerária internacional de Paraty. Óbvio que a festa terminou.
Mais tarde, tentando adentrar o bar Che, que o nome já me provoca arrepios, não pelo nome, mas por ser um bar de correntinos, e de correntino e chimango o mundo tá cheio, não nos deixaram adentrar por falta de cerveja. Graças ao senhor Terron que seguiu militarmente até o bar mais próximo, que tinha cerveja gelada mas não tinha onde sentar, e pediu trinta latas, colocou numa sacola e largou em cima do bar dos castilhanos, podemos nos acomodar no recinto infecto. Algum tempo depois, Pedro, o Mandága, e eu fomos interpelados por um mexicano chamado Angél que veio nos pedir fogo para o seu cigarro. Graças ao escritor desconhecido ele começou a conversar com a gente sobre o assunto mais inesperado possível. Literatura. Como não entendo nada de literatura, muito menos em inglês, me contentei em escutar, como um analfabeto surdo, Pedro conversando com o mexicano, que dizia saber falar português direito, não sabia, por ser casado com uma mineira, e seu amigo Ravi, o editor paquistanês que mora em Londres e estava lá procurando autores para serem traduzidos para o inglês do Paquistão. Mesmo que não pudesse suportar tanta baboseira, ainda agüenteiei o escritor desconhecido chorar compadecido a morte da cafetina.
Parágrafo.
Em Paraty existia uma cafetina de nome Françoise. Isso aconteceu lá pelos tempos do Getúlio. Françoise não era francesa, como supõe o nome. Era pernambucana. Foi por essa época que o Governo federal mandou queimar as bandeiras estaduais e pregar o nacionalismo exacerbado. Foi também nesses idos que todas as línguas estrangeiras foram perseguidas. Não seria diferente com Françoise. Teve que deixar de lado seu afetamento e mudar seu nome de guerra para Marinalva, seu nome de nascença. Desenganada, Françoise, ou Marinalva, pendurou-se na numa haste do Y e se enforcou. Quando seu corpo vergou enrijecido, a haste caiu e puxou a outra haste. Desde esses tempo, Paraty começou a se escrever Parati e nunca mais nenhuma mulher se prostituiu pelas ruas.
Fim do Parágrafo.
Mas a festa provou mesmo ser dos mortos. Quando nos dirigíamos para o almoço, eu, Carol, a amiga do Garibaldo, Pedro, o Mandága, e Leonel com seu ar debochado, escutarmos os comentários de duas gurias de seus sessenta anos.
- Adorei a palestra.
- Qual palestra?
- A da Clarice.
- Que Clarice?
- A Clarice. Lispector.
- Não, guria. Era a Lígia Fagundes Telles.
Antes que nos convidassem pruma apresentação do Chico, não o Buarque, mas o Science, fomos comer lula já que o xará da mesma nos fode todos os dias com seu palavreado embolado e suas mentiras de cafetão.
Noutro dia, não menos estupefatos, observamos o ataque de bichice do Hermano, agora emporcalhando as ruas do Rio de Janeiro. Ao me prometer pagar uma cerveja, olhei para trás e o provoquei dizendo para convidar o Chico, não o Science, o Buarque. Quando o porcalhão olhou para trás e deu de cara com o sexagenário compositor de olhos claros, quase caiu para trás e depois declarou, berrando como sempre.
- Esse eu até deixava fazer um fio terra.
Ao final de tudo me restou sentar na mesa da esquina e chorar. Foi quando vislumbrei uma bela mulher caminhando com um largo sorriso. Antes que pudesse admirá-la, notei que ela já estava acompanhada. Pensei. Conheço esse babaca do lado dela. Claro que conhecia. Era o Ciro Gomes. //
MARCELO BENVENUTTI - o colunista perdido das causas sociais
Eu e meu amigo Pingüim descemos a serra de São Paulo até Paraty na madrugada de quarta para quinta, dia 8 de julho. Antes que o professor da oficina Veredas da Literatura, me lembro daquela novela da Globo, Vereda Tropical, e me esqueço do significado da palavra vereda, me explique sobre a teoria do conto de Borges, ou seria Cortázar?, esses argentinos são sempre parecidos, um ficou cego, o outro, gigante, a mistura dos dois seria um ogro de 2 metros de altura?, dedilho para vocês minhas breves aventuras no mundo maravilhoso da Disney, quer dizer, da FLIP.
Depois de quebrado o cabo do acelerador do carro do Pingüim, um Del Rey que insisto em chamar de Voyage, e de ser consertado por vinte reais pelo Natálio, o homem da oficina que só abre as sete e meia da manhã, decidimos começar nossa participação na festa literária na padaria em frente à oficina. Quase perguntei ao Natálio se ali era o local em que seriam ministradas as aulas da oficina literária, mas o Pingüim poderia interpretar mal o meu sarcasmo e eu perderia a carona para a volta.
Na pousada Vem Que Tem, fomos recebidos por Rebento Saraiva, vulgo Rebê, que nos abraçou, beijou e baixou nossas calças. Antes que as formigas literárias atacassem nossos paus analfabetos, nos retiramos para o descanso merecido dos trabalhadores verbais. Ao meio dia fui apresentado aos participantes da oficina literária. Coloquei meu chapéu de mecânico e levei minha chave de torneiro, talvez fosse uma referência ao presidente, não sei, mas me senti deslocado em meio a tantos escritores e pessoas do ramo. Tenho problemas, repito.
Até aquele momento nada me dizia que eu deveria estar ali, naquele momento, escutando o professor falando sobre Guimarães Rosa. Eu não acredito nessas pessoas que tornam o texto difícil para serem mal interpretadas. Ou criadoras de um certo neologismo. Foi depois da primeira aula que aprendi que os olhos saltados da menina não se relacionam com os saltos da menina que me olha. O olhar é disforme mas o toque é sentido. Perdido estou no sonho que fui.
Decidido com meu amigo Magalhães, vulgo Magá, a destruir todas as estruturas da pseudo literatura nacional, a atual, a antiga e a porvir, partimos para aquilo que a existência humana nos revela de mais sincero. O entorpecer gradual e constante da mente. Foi com grande esforço que partimos para o bar Montreal e viramos, agora associados aos nossos comparsas Pingüim e a garota sem nome, copo sobre copo, varando a noite perturbados pela aniquilação de nossos últimos neurônios.
Com o tempo, Pingüim, excitado com o vestido da Minie, foi se dispersando em devaneios românticos de um tempo que não mais existe enquanto a garota sem nome se contorcia de dor pelo consumo excessivo de ervas daninhas. Encontramos Mora mais tarde, Rebê evanescido na cerveja preta, a chuva forte molhando nossas vestes de sacerdotes da pinga. Mora tentou nos contar da verdade que não acreditamos. Não acreditamos mesmo. Tanto que após berrar e difamar todos os nomes, os verdadeiros e os falsos, desde Obelix até a Fada Galinha, urinamos no Templo dos Autores. Clarice observava a tudo infecta e moribunda como todo bom cadáver deve ser.
Fui acordado por uma sirene de ambulância. Na direção veio um velho poeta com a pele enrijecida da morte rigorosa me trazendo um bilhete escrito por uma moça de grandes olhos apaixonados. A paixão é um tumor. O amor, metástase.
Fui internado às presas nospital de Paraty. Minha febre subindo. Minhas costas doentias. Tudo girava em torno de meu nome. Bem aventurado aquele que possui a dor nos olhos fechados. Estava atrasado para o segundo dia de aula. Nada feito. O professor foi quase tão motorista quanto os alunos. Todos na mesma faixa sem desrespeitar a mão da rua. Eu cheguei pindurado no bonde de Santa Teresa. Desci com medo e fui assimilando os contornos do traçado de Miami. As regras do jogo estavam sendo estabelecidas.
Muitar, dincontro co'Magá, ninvadimos a festa de amigos de estóra. Tragolado, nutrimos do bem comum na horta de Marinho. Unvida disalubre dedicada ao sobrome de suçassos. Ao sabor de Bonova, Mora nos ditalou: Né homem que faz feliz mulher. É o amorneiro fracesso circundante. Pedimos Rock. Ganhamos Vodim co'Cocola. Bebos, fonimbora sem liartrás. Ora d'alva.
Ao dissabor do homem encont