dezembro 31, 2003

Cusparada: 3112

I hurt myself today
to see if I still feel
I focus on the pain
the only thing that's real

Hurt - Nine Inch Nails [versão de Johnny Cash]

Uma cusparada. Foi o primeiro som que ouvi, tão logo acabei de nascer. Justo na passagem da meia noite. Meu batismo orgânico. Até hoje me pergunto quem foi o autor daquela escarrada que trago na memória como recuerdo ancestral. Nascido na margem esquerda do rio, num local onde nada, nada muda, fui condenado – por quem? , eu também me pergunto – a andar munido de um tamborzinho. Que uso para marcar minha passagem pela planície. Minha passagem pelo tempo e pelo espaço - hah, vão perdoando a verve de piadista, mas esta é inevitável, nestas condições.

Tá-tará-tará-tim-bum. E dá-lhe aleluia e auto-flagelação.
Hoje é dia de festa. Fico mais velho com o resto do mundo. Eu, todo de branco, marco o compasso da passagem cronológica por avenidas esquecidas da margem esquerda. Cantando um lamento negro cujo refrão recita onde estou me faltam asas e a solidão é sanguinária. Os mentirosos se espreguiçam nas poltronas e os dementes lançam pipocos para a lua – mesmo que ela não esteja lá. É nesse ambiente que surge a limusine branca que estanca na minha frente. Tamborzinho finaliza o que estava repicando. De lá de dentro, uma janela vai descendo e uma mulher de longos cabelos negros me encara. Cheirando a champanhe e maçãs frescas.

- Eu sou Saudade. E vim para cumprir expiação.

De imediato, ela sai do carro, empunhando uma pistola semi-automática, como se planasse acima dos desejos de restos mortais. O que primeiro me chama a atenção é que Saudade usa uma camiseta onde se vê estampado o cadáver encarquilhado de Che Guevara. Depois, ela aponta para um bolo de bosta entre nós dois. Acabei de lembrar que, justamente no dia do meu nascimento, arrombaram a minha casa e de lá levaram a privada. Olhos grudados nas fezes. Saudade, sem conseguir disfarçar o tremor nas mãos que seguram a pistola semi-automática, dá o comando: come.

Eu obedeço. Sem desgarrar do tamborzinho.

Estendo minhas mãos no chão e mancho a terra de vermelho vivo. Minhas mãos carregam chagas. De tanto marcar o compasso. A pistola semi-automática cai das mãos de Saudade como escamas nos olhos e é rechaçada no chão. Ela me estende a mão, como penitência, e eu confirmo a redenção.

- Eu sou o Santo.

os sinos badalam e eu convulsiono. apertando a santa mãozinha. desejando que suas unhas rasguem minha carne de segunda.

- Me dá o teu perdão.

- Ajoelha e chora, filha. Porque é chegada a hora de comemorar a passagem.

Fogos de artifício estouram na hora precisa, lembrando o brilho crispado da batalha no céu. Saudade se transubstancia em imagem sacra de mosaico e me beija a boca suja. Com volúpia, vontade e desejo. A língua toda lá dentro, fisgando minhas cáries e obturações. Penso em ampulhetas e a química corporal faz o resto. Eu choro através das marcas de estilete e aparelhos de barbear.

Para ela. Por toda a eternidade. Essas asas de moscas.

Tamborzinho volta a repicar. Mas ninguém ouve.
//

JORGE ROCHA

Posted by jorgerocha at 08:50 PM | Comments (7)

Muiraquitã

Viver, e viver quase vencido. Erguer forças sem saber de onde, sem um muiraquitã sequer e, ainda que quase vencido, por esse “quase”, erguer-se.
Assim vivia o dia corrido e o dia por correr, porque todo dia vivia da mesma forma, com a mesma quase sem forças, com a mesma busca de força de todas as manhãs, orando mal amanhecia, num suspiro, lavando o rosto e suspirando, coando o café e suspirando e saindo de casa num suspiro profundo e enérgico.
Era preciso caminhar. Era preciso. Caminhante sempre pelo mesmo caminho, mas sem um assovio.

O ar da manhã o fazia sentir-se saudável, a necessidade dos passos o fazia sentir-se vencido. Sentir-se. A necessidade que movia seus passos todas as manhãs, mal o amanhecimento apontando, estrangulando o sono. A necessidade é que erguia cada pé, projetava o corpo, os braços cavoucando os bolsos, e o mandava para o trabalho.

A avenida projetada para além de seu olhar e, àquela hora sem a preocupação de atropelamento na ciclovia, já nem olhava para a frente, passava todo o trajeto pastando os olhos no asfalto, só vez ou outra gargarejando nuvens.

Vinte e cinco de dezembro não amanheceu diferente. Em verdade, nem amanhecera ainda e ele já se postava na avenida, seguindo a reta em contínua curva da avenida, as mãos tateando os fundos bolsos do macacão; as mãos batucando, dentro dos bolsos; o macacão aberto até o umbigo. Mas não olhava o chão. Assobiava para o alto, acompanhando o ritmo com a cabeça, um claro sorriso entrecortando a melodia, alguns soluços sorridentes ponteando. Nem se importava, daquela vez, de trabalhar no dia do natal. Daquela vez. E ia feliz de encontro ao galpão onde encontraria o caminhão e o trajeto que faria, em mais um dia por correr.

Sabia... até a noite anterior, não. Mas agora sabia, porque na noite anterior ficou sabendo pela voz da própria Norma Lúcia, e ao acordar viu confirmado pelo corpo da própria Norma Lúcia, e ao sair ouviu mais uma vez pelo olhar da própria Norma Lúcia, que Norma Lúcia o amava, e que o amaria, e que o amará.

Viver, e viver quase vencido. Mas erguendo forças e saber de onde vem essa força, desse muiraquitã.

JULES RIMET

Posted by jules at 08:41 PM | Comments (5)

dezembro 23, 2003

Iemanjá, alcatrão e areia no Posto 6

Arlindo, colega de repartição, confessou-me certa vez que começara a fumar para impressionar garotas da vizinhança. em especial uma guria chamada Liana, com quem não conseguiu nada além de um beijo escondido atrás da igreja de Nossa Senhora.

Desde então, Arlindo está sempre tentando largar o cigarro.

Lembro-me quando proibiram o cigarro aqui na repartição. Para isso, delimitaram com tinta amarela na sacada que dá para o hall dos elevadores uma área no chão e os fumantes a partir de determinada data foram obrigados a fumar entre aquelas quatro linhas desenhadas no chão, numa espécie de curral.

A criação do fumódromo gerou uma intensa socialização em torno do vício. Os fumantes agora conversam sobre as trivialidades do dia-a-dia, o Fla x Flu do final de semana, problemas existenciais, política, a novela das oito e tudo mais. Uma verdadeira confraria.. Para dizer a verdade, sinto até uma ponta de inveja pelo bate papo gostoso que rola durante o expediente - afinal, sendo um não-fumante, não partilho do privilégio de ter pessoas me cutucando o ombro durante o expediente para tomar um café e jogar conversa fora entre um trago e outro. Por conta de todas estas vantagens-satélites, aliada a uma certa acomodação, é que fica muito difícil para qualquer um largar do cigarro.

Moreno carregado, comportado, cordial, esbanjava simpatia. Arlindo tinha lá suas pendências com a vida – como qualquer um de nós –, mas sem dúvida a condição de tabagista era a que aparentemente mais o incomodava.

Da penúltima vez que tentou deixar a nicotina de lado, até que conseguiu por algumas semanas, mas não resistiria a abstinência do bate-papo no fumódromo, e... voltar a fumar foi uma questão de tempo.

Há toda a sorte de pendências: há aquelas que parecem existir antes mesmo de nascermos, algumas são corriqueiras, outras que nascem de nossas próprias escolhas. Existem ainda aquelas que podem ser classificadas na categoria de ‘pendências futuras’. Estas últimas são mais resistentes, pois advém das escolhas não-feitas e que de alguma forma ficam lá penduradas na sala de estar de nossas existências como janelas com vista para o mar em uma casa sem portas. Assim, nesta casa sem portas não temos lá a conveniência de simplesmente pegar as chaves, atravessar a ante-sala, passar pelos umbrais e descendo as escadas até o portão entreaberto, sair. Ou mesmo não possuímos desprendimento suficiente para simplesmente esquecermos da porta e sairmos pela janela e assim tocarmos com os pés a praia, sentindo a areia fofa ea brisa cheirosa que vem do oceano acariciar nossa face.

O medo de arriscar pode levar ao atalho da contemplação. Imóveis, somos tentados a nos debruçar a assistir de camarote a vida que passa diante de nossos olhos.Na pior das hipóteses, chegamos a nos trancar no quarto de dormir – sem janelas -, donde incapazes de contemplar, nos persuadimos a tentar apagar as lembranças que guardamos do mundo lá fora.

Arlindo gostava de sentar-se em Ipanema depois do expediente a contemplar as ondas indo e vindo, esperando a noite cair. Pensava na vida. Aquele ir e vir de ondas trazia junto com o cheiro de maresia, um certo sentimento de urgência. Isso fazia com que Arlindo tivesse medo de, com o tempo, acabar por envelhecer e perder assim o viço e a força nas pernas que o permitisse pular a janela de sua sala de estar existencial.

Nestas horas, a primeira pendência que vinha a sua cabeça era o fumo. Queria encerrar sua carreira de tabagista compulsivo. Carregava este parceiro há anos, o que denunciava os dentes ligeiramente enegrecidos pela nicotina denunciavam sua fraqueza.

Sempre que se decidia por parar de fumar, vinha na carona uma enormidade de outras resoluções que adiava há tempos.

Planejava mudar vida: de coisas simples como começar a fazer exercícios, ou uma simples viagem de duas semanas para um lugar com muita natureza a fim de arejar o cérebro - ouos pulmões -, , até coisas mais complexas ou, digamos, trabalhosas, como mudar de emprego, de apartamento e de mulher. Não que detestasse o trabalho na repartição – que, diga-se de passagem, pode até ser aparentemente monótono, mas é de uma rotina muito peculiar, em que o dia nunca é igual à véspera -, o velho apartamento no Lido ou Neuza. Nada disso. Levava uma vida bem conveniente, entretanto, era como se a vitória sobre o vício o credenciasse a vencer quaisquer outros obstáculos que até hoje o impediam de ser mais feliz nessa vida.

Nos primeiros dias em que parava de fumar, chegava à repartição com largo sorriso nos lábios e, esbanjando confiança, me pegava num canto da sala para começar a desenrolar um novelo de projetos inacabados e os planos de como iria mudar de vida definitivamente.

Certa vez, conseguiu parar de fumar por mais de seis meses. Nesse ínterim, separou-se da mulher, iniciou um regime, matriculou-se num curso de inglês, planejou uma viagem ao Taiti, e até chegou a flertar com algumas mulheres, digamos, interessantes. Parecia outro homem. “- Cinco anos mais novo!”, diziam. Enquanto expectorava as impurezas acumuladas no pulmão por anos a fio, acabava por expectorar da mesma forma todo um ranço existencial e outras impurezas que a amontoara para si.

Não durou muito. Uma enfermidade na família fez com que se desequilibrasse e voltasse aos braços do velho companheiro; e junto com o cigarro, a então ex-mulher. Neusa, , talvez por insegurança, não quer lá ver o marido alçando vôos maiores ou conquistando novas fronteiras. « Neusa é muito amiga de Arlindo, não quer vê-lo se machucando por aí...» Arlindo funciona como uma muleta. Sem Arlindo se sentiria meio deslocada. Daí, pelo bem ou pelo mal, Neusa o desalimenta sutilmente, sem que perceba, e ironicamente prefere quando ele está fragilizado, pois assim pode oferecer seu apoio, ganhando sua gratidão e adiando assim indefinidamente sua partida. Arlindo se deixa entorpecer pelo cigarro.

* * *

Réveillon, Praia de Copacabana, meia-noite. Arlindo faz uma prece para Iemanjá. As lágrimas que rolam salgando seu rosto são possibilidades que quebram depois da arrebentação .Os fogos estouram no céu dividindo espaço com rolhas de champanhe barata que voam na direção da lua. « Ano novo - vida nova! ». Sente no peito que é a hora da virada. Arlindo então se utiliza do expediente sobrenatural. Lança o maço de Marlboro nas águas do Posto 6 exclamando:

« Iemanjá leve meu vício pro fundo mar! »

Sente um alívio no peito. Resoluções para o ano que se inicia. Academia, trocar de emprego, mudar de casa, de mulher, de vida! « Mudar de vida! Isso, agora sim! Iemanjá vai me dar força para saltar todos os obstáculos que vierem a minha frente. Iemanjá e São Jorge, o guerreiro. Ah, São Jorge. Isso. Se precisar apelo até para Santo Expedito! Mas agora é pra valer, não tem mais volta! »

Animado, compra uma sidra com os ambulantes para comemorar sua mais recente empreitada. Saem pela noite, Arlindo, seu cunhado e mais um amigo. Precisava festejar, estava nascendo de novo e ninguém tiraria isso dele. Chegando em casa teria uma conversa séria e definitiva com Neusa. Colocaria tudo em pratos limpos. « -E o cigarro? » Ah! o cigarro a esta altura já é coisa do passado!

A hora é de celebrar!

E valsa na Avenida Atlântica em companhia de uma jovem desconhecida. Conversa com populares. Jura amor eterno a uma vassoura. Embriaga-se de contentamento. Perde-se do cunhado e feliz da vida corre pela praia de Copacabana inebriado de felicidade e álcool. Caído, adormece.

Horas mais tarde, quase amanhecendo, levanta o rosto da areia úmida. Além do gosto de cabo de guarda-chuva na boca, sente como se a cabeça tivesse sido pisada por todas aquelas gentes naquela noite, uma dor terrível e uma vontade imensa de fumar.

Culpa? Lembra-se de tudo que resolvera na noite anterior. Firme, se levanta e decide levar adiante todo o plano. « Ano Novo.Vida Nova. »

Perto de Arlindo, um grupo de jovens ainda permanece na areia sentados em roda ao som de um violão.

« Jovens! Não sabem nada da vida ainda. »

No caminho, se depara com os restos da noite de festa.

Copos plásticos, garrafas, sorrisos, rolhas de champanhes, sonhos, flores, pessoas ainda adormecidas nos bancos da orla, esperanças, restos de comida, um boné.

Restos da véspera de Ano Novo.

No caminho, se depara com os restos da noite de festa. Copos plásticos, garrafas, sorrisos, rolhas de champanhes, sonhos, flores, pessoas ainda adormecidas nos bancos da orla, esperanças, restos de comida, um boné, embalagens de cigarro vazias. Restos de uma véspera de Ano Novo. A cabeleira desgrenhada e coberta de areia que tentava pentear com os dedos estava mais arrumada que todas aquelas lembranças e sentimentos conflitantes que desalinhavam os pensamentos nada lineares que rodopiavam na cabeça de Arlindo.

Leva as mãos ao rosto cobrindo os olhos.

Arlindo Bufa.

Arlindo se depara com os restos da noite de festa. Copos plásticos, garrafas, sorrisos, rolhas de champanhes, sonhos, flores, pessoas ainda adormecidas nos bancos da orla, esperanças, restos de comida, um boné, embalagens de cigarro vazias. Restos de uma véspera de Ano Novo e uma guimba de cigarro ainda acesa.

Arlindo traga.

Em meio a copos plásticos, garrafas, sorrisos, rolhas de champanhes, sonhos, flores, pessoas ainda adormecidas nos bancos da orla, esperanças, restos de comida, um boné, embalagens de cigarro vazias, Arlindo deixa seus mais profundos sonhos escaparem por entre seus dedos, e junto, a sua fé se mistura cinicamente à fumaça que sai de sua boca. O “Ano Novo” se dissipa na mesma fumaça que sai da guimba de cigarro que está quase queima os seus dedos amarelados.

Com os olhos marejados fita o relógio por alguns segundos:

« Neusa deve estar preocupada. »
//

AUGUSTO SALES

Posted by augustosales at 09:49 AM | Comments (22)

dezembro 22, 2003

(Sem título)

Estava sentado, esperando o vôo, quando percebi uma pequena mancha no polegar esquerdo, perto do topo da unha. Uma mancha cinza, feito uma gota de tinta, bem pequena. Instintivamente o outro polegar começou a cutucá-la, como se fosse possível tirá-la como se arranhasse uma raspadinha. Percebi que o arranhão tinha apenas aumentado o tamanho da mancha: ela tinha dobrado de tamanho. Pior, o outro polegar também havia ficado sujo. Pensei em ir ao banheiro, mas antes que pudesse pensar em fazer esforço com os braços para me apoiar na cadeira e levantar, percebi que a mancha havia crescido ainda mais. Já ocupava toda a lateral direita da unha do polegar direito e continuava crescendo, em direção à "palma" do polegar, aquela que estampa nossas carteiras de identidade.

Instintivamente, olhei para o outro polegar e aquela mancha também havia se espalhado. Estava menor que a original, mas também estava crescendo. O mais estranho foi que a minha sensação de tirar aquilo com a água havia passado. Estava apenas pasmo com o rápido crescimento da segunda mancha, que aos poucos tomava conta da cabeça do outro polegar.

De volta ao primeiro, o que me impressionou não foi mais a velocidade de expansão da mancha. Embora todo o meu polegar esquerdo já estivesse encoberto por uma tonalidade cinza escura, não foi aquilo que me chamou atenção. Foi o osso deste mesmo dedo. O osso estava à mostra! Quer dizer, não só o osso, como os tecidos interiores, carnes, nervos, músculos, veias. Era possível ver tudo na minúscula ponta do polegar. A mancha cinza estava corroendo o dedo a partir de onde havia aparecido. Mas não saía sangue e, mais impressionante, não doía.

Olhou para o outro dedo e o mesmo estava acontecendo. Era como se a pele estivesse enferrujando rápido demais, e a ferrugem fosse corroendo a ponta dos meus polegares. Pensei em levantar-me para lavar as mãos, mas não conseguia parar de assistir àquilo. As unhas dos dois dedos já haviam ido embora assim como suas pontas. Mas não caía nada, não havia sujeira, cinzas, raspas, restos. Era como se eu estivesse sendo corroído por dentro, um parasita dentro dos meus polegares que começou a engoli-los por dentro. Talvez estivesse sendo corroído pelo próprio tempo!

Logo eu já estava sem os dois polegares e nem parei para pensar se o fato de eu levantar meus braços à minha frente para olhar para as minhas duas mãos, agora com quatro dedos cada, desintegrando fosse chamar a atenção de alguém. Eu simplesmente fiz isso, pensando que havia parado, como seria a minha vida agora sem um de meus dedos mais preciosos, o que segura e pinça as coisas. As duas mãos estavam sem os dois dedos e a sensação súbita de perda de ambos me fez compará-los com a perda dos braços.

Mas a mancha cinza continuava se espalhando. E logo tomou conta das duas mãos, começando a corroer cada um dos outros dedos assim que chegava às pontas. O espetáculo do polegar se repetia nos quatro dedos restantes de cada mão. Os dedos vinham se apagando, deixando de existir, invisíveis. Era fato que eu ainda os sentia, mesmo depois que eles haviam ido, mas era uma sensibilidade dormente, que não conseguia se concretizar, como se eu pudesse sentir os dedos da mão de outra pessoa, sem conseguir movê-los. As juntas, uma por uma, se desfazendo no ar, sem soltar vestígio, sem causar dor, sem causar pânico ou náusea. Os dedos todos haviam ido e agora era a vez das mãos.


A mancha cinza já tomava conta das mãos, que eram apenas nacos de pele, nervos, tecidos, músculos, carne e ossos, uma parte do corpo sem função. Embora ainda pudesse perceber algo de útil na mobilidade do que havia restado dos ossos dos dedos dentro das mãos. Mas eram meus últimos movimentos que faria. Percebia sua importância apenas quando minhas mãos eram dissolvidas por uma estranha e silenciosa corrosão. No mesmo instante, lembrei-me de quando eu as descobri - ainda bebê, dias depois de nascer.

Percebi o movimento que eu impulsionava para as mãos. Não entendia que o cérebro era a central dos principais sentidos. Sentia apenas a força sair de mim e chegando às mãos. Que se moviam quase que ao mesmo tempo. Testando a polaridade do corpo. O alinhamento dos lados.

Perder-me em divagações me fez perder o fim das minhas mãos. Eu ainda conseguia senti-las, mas elas já haviam ido. Os braços começavam a se acinzentar e pensei o quanto ainda demoraria até chegar à cabeça. Até me separar do corpo. O engraçado foi que não me desesperei, em momento algum.

Não havia dor, nem pânico. Quando vi os ossos das pontas dos braços começarem a ser comidos por esse... esse nada, senti apenas tédio. Continuaria fazendo o que sempre fiz, a vida inteira: vendo-a passar, sem poder interferir. Nem mesmo na minha morte - se é que eu iria morrer assim, mas, pensando bem, não fazia a menor diferença... - eu não conseguiria influir... Covarde demais para me matar ou provocar a própria morte.

Sequer consigo apressá-la. Meus braços tornando-se cotocos e o máximo que eu conseguia era rir da minha própria apatia.

Vez ou outra parava para pensar se tudo aquilo era um sonho. Não parecia ser. Ele lembrava-se de tudo até ali, de acordar, arrumar as coisas, pegar a mala, o táxi, o preço do táxi, retirar o bilhete, o preço do bilhete, o número do vôo e da poltrona, o motivo de ter-se sentado onde estava. Sabia de tudo, lembrava-se dos menores detalhes de sua rotina até ali. E sonhos sempre deixam esta linearidade embaçada, você nunca lembra das coisas com clareza, mesmo porque lembrar, em sonho, é o mesmo que acontecer.

Não há diferença entre tempo e espaço nos sonhos. Sonhos não narram fatos, e sim sensações. E eu não estava apenas sentindo - aquilo era um fato. Cerebral - é assim que tem que ser. Eu não existia mais dos cotovelos para lá. E não existirei dos cotovelos para cá em pouco tempo, se alguma coisa não parar isso.

Em meio às minhas indagações sobre a possibilidade de tudo ser um sonho, vinha a lembrança recorrente de como eu estivera indiferente àquela corrosão. Como nenhuma emoção se manifestara. Encarara tudo de uma forma fria e racional, como se fora normal desaparecer assim. Parecia que eu fora programado para isso.

Será que é isso? Será que eu sou um robô programado pra desintegrar sem dor a partir de uma determinada data? Mas o prazo expirou em público e eu estava no meio de um sala de espera de um aeroporto, minhas células artificiais se implodindo uma atrás da outra e logo mais estaria sem braços. Logo mais...

Logo mais quanto?

Quanto tempo se passou? A quanto tempo eu estou desintegrando? Fui olhar em meu relógio mas ele já havia se desintegrado. Só então reparei que havia perdido outras coisas que não eram orgânicas: uma aliança, as mangas da camisa, o relógio, um pino que havia colocado no braço depois de um acidente... Droga, eu não vi o pino! O pino desintegrou-se e eu sequer consegui vê-lo. Lembro de ter comentado para o médico: "Não dá pra vê-lo, doutor?" e ele desconversou, "espero que não!", com aquela risada típica dos médicos. Mas eu realmente queria vê-lo, o pino de platina (nem sei se era de platina, presumo que sim), metal no robô de carne e osso...

Aí sim eu saberia se eu era um robô. Porque se eu sou mesmo um robô, sou feito com metais muito bem disfarçados de ossos. Eu sempre me perguntei isso e agora parece que a resposta me veio: por que eles fazem testes com metal se o homem é feito com outros tipos de material? A resposta é: sim, eles já o fazem, embora secretamente e usando metais que se pareçam muito com ossos de verdade! Então nem teria graça ver o meu pino no braço, pois ele seria feito com metal desta natureza.

Digo, aparência.

Ou seria natureza? Estariam eles fazendo testes com ossos de verdade? Robôs construídos a partir de cadáveres? Já ouvi falar que a indústria de armas testa balas em corpos que um dia já foram vivos e que a fabricantes de carros também fizeram isso até uma certa época... Mas teriam feito robôs a partir de pessoas mortas? Serei eu um robô vivendo com os ossos de outra pessoa? De outras pessoas? Tipo monstro de filme? Isso explicaria a motivação mórbida das grandes empresas. Não é mero descaso ou margem de erro mal calculada: é Mal Puro. Nos assustam com a possibilidade de a engenharia genética criar clones, mas já podem estar criando clones há muito tempo, a partir de nossos restos mortais. Daí o interesse na superpopulação e no genocídio. Gente morta, matéria-prima para robôs orgânicos. Que se evaporam quando programados para que isso aconteça.

Que eficácia. Isso eu tinha de admitir. Já não tinha braços, não tinha a menor idéia de quanto tempo havia se passado, não conseguia olhar ao meu redor e ver sequer se haviam pessoas ao meu redor, espantadas, horrorizadas com o que estava acontecendo comigo. Uma câmera de vídeo portátil e temos aqui uma nova paranóia em vídeo, uma nova autópsia alien, um novo Zapruder, um novo 11 de setembro. "O sujeito que desapareceu no aeroporto!", diriam as manchetes do jornal. Minha vida seria vasculhada, se é que ela existira mesmo.

Perfeito: cria-se um autômato orgânico, injeta-se doses de realidade em sua cabeça, forja-se um passado e programa-se sua autodestruição em um local público onde certamente alguém terá uma câmera de vídeo à mão. Quantos escândalos seriam encobertos por uma imagem dessas? Quantas transações pesadas, assassinatos malfeitos, grampos telefônicos, denúncias sexuais, fitas de vídeo... Tudo abafado por um robô que se desintegrou no aeroporto.

Quer dizer, nem o próprio robô sabia que ele era um robô.

Havia ainda a possibilidade de tudo aquilo ser um sonho - um sonho robô. Mas a mancha cinza havia se espalhado por todo meu peito (não dava pra ver, mas eu conseguia sentir) e subia em direção ao pescoço. Se fosse sonho, certamente acordaria agora mesmo. Mas senti a mancha subindo pelo queixo e o meu pescoço aos poucos se desfazendo.

Foi quando a minha cabeça caiu.

Bateu no braço da cadeira onde eu estava sentado e caiu no chão, mais uma vez. Senti dor, pela primeira vez. Duas pancadas fortes, podia ter me machucado sério, mas... o que é que eu tou dizendo? Minha cabeça acabou de cair do meu corpo e eu sequer consigo vê-lo, para saber se ele realmente está tremendo, como dizem. Caí olhando pro lado, se eu conseguisse mexer a cabeça um pouco para baixo, talvez conseguiria ver os meus pés. Mas não dava. Nem sequer sinto a dúvida na beira do abismo da morte - ela é certa e inevitável, mas não temo pelo fim da vida.

De repente, eu vi outra pessoa.

Outras pessoas. E elas estavam caindo todas aos pedaços, como eu. Uma menina havia sido corroída dos pés à cabeça e parecia ter caído um pouco antes do que eu, seu tronco estatelado no chão, se desfazendo aos poucos, da cintura até o pescoço. Uma menina bonita, um dos motivos de eu ter me sentado onde estava, cabelos curtos e jaqueta de couro, bem legal. Ela se surpreendeu quando me viu - ou melhor, quando viu minha cabeça jogada no chão. Mas não houve susto nem repulsa. Ela apenas arregalou os olhos como se estivesse entendendo que aquilo pelo que ela estava passando não era único.

Devo ter olhado para ela do mesmo jeito. Talvez ela também estivesse se imaginando um robô feito para se desintegrar em público e acobertar as piores feridas causadas à humanidade. Talvez estivesse apenas contemplando a própria desmaterialização, ao me ver.

Haviam outras pessoas neste mesmo estado e a minha cabeça já devia estar completamente acinzentada. A mancha já havia coberto os meus olhos, mas tirando o tom da minha pele, nada mudara na minha visão. Mexi minha mandíbula um pouco antes de ela desaparecer de vez e consegui ver meus pés. Eles estavam parados, como se nada tivesse acontecido. Aos poucos deixava de sentir a língua e os dentes de baixo, enquanto pensava que espécie de epidemia podia estar causando aquilo às pessoas.

Não era algo deste planeta. Não podia ser: tudo que é terráqueo tende à putrefação, à gosma, à pasta orgânica sendo desfeita lentamente. Os processos de destruição conhecidos exigem apodrecimento. Mesmo a destruição nuclear é um apodrecimento em um milésimo de segundo, a gosma torrada num único instante. Este processo que estamos passando não é algo que conhecemos.

Deve ser alienígena. Ou sintético. Pior: robô. Nanorrobôs do tamanho de células desintegrando tecido e se multiplicando numa velocidade assustadora. Minúsculos seres, que se multiplicam numa enorme mancha cinza como a que começa a tomar o pescoço da garota e que já deve ter pintado toda minha cabeça. Já não sinto o céu da boca e vejo meu nariz sumindo aos poucos. Sinto o cinza começar a corroer a base da nuca em direção ao interior do cérebro, mas ainda não sinto dor. Não sinto nada.

Quer dizer, estou espantado com tudo isso. Que tecnologia fantástica, que permite que morramos sem sentirmos dor. Sem que sequer nos apavoremos diante da idéia de não existir mais. A cabeça da menina já está toda cinza, ela já não olha mais para mim, perdeu seu olhar no infinito. Olho no final do saguão e não reconheço mais nada. Ouço algo caindo, deve ser uma das minhas pernas. Não consigo ver mais nada.

Devem ter cortado meus nervos óticos. Ou comido meus olhos. Não consigo ver mais nada, mas não está escuro. Está tudo claro. Não é bem branco. É como uma luz forte. Sinto o que resta de mim desaparecendo. Não é bem o fim, mas eu ainda sinto meu corpo. Sinto que ele pode tocar tudo, mas eu não consigo mais move-lo. Posso sentir tudo. Eu-
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Posted by alematias at 09:15 PM | Comments (6)

dezembro 20, 2003

Natal

- Vem.

- Não sei se devo

- Não era isso que queria?

- Era, mas esperava que tivesse mais tempo. Assim, tudo na afobação.

- É; é o que resta, anda logo.

Ismênia não tinha sido má tia. Aliás, Deverson gostava muito dela por permitir que ficasse em sua casa, recém-chegado ao Rio. Era um “Vem cá, beija sua tia” ou “Vem cá, senta com sua tia” que irritavam Demóstenes. Franzia o cenho. Incapaz de afrontar a pobre Ismênia cardíaca.

- O moleque precisa de trabalho. Só se aprende com trabalho, todo dia é ele com esses rádios. Com esses cordões.

Preferia o silêncio à afronta. Calada, a mágoa dizia muito, mesmo com a menor bobagenzinha. Sentada na cozinha da patroa, descascava as batatas com pensamento longe. Impossível esquecer o Deverson. Pobre menino. A mãe tão boa, pobre criatura morta. Deverson no mundo, só ela de tia. Só ela pra cuidar dele. Coitado. Precisava cuidar dos cabelos, pobre menino. Ia lhe ensinar a importância de usar xampu. De lavar as orelhas direito. Tem que tar apresentável.

- Deixa entrar, não carece de vergonha não. Tia é tia.

Evitava tomar banho sozinho com Ismênia em casa. Demóstenes achava estranho, toda vez que entrava, o rapaz: Dá licença que vou tomar banho. Meia hora no máximo que demorava até dizer. À vontade, Deverson. Demóstenes gostava de sentar no sofá e ver televisão. Tinha meninas em casa, não queria misturar tudo. O sangue de homem é quente. Não gostava de imaginar um filho de Deverson e Sharlaíne lhe chamando de vovô. Esconjuro. Primeiro vê-las casadas, depois ir viver com Ismênia. Enquanto mudava o canal, matutava as idéias.

Deverson no banho muitas vezes lembrava, não precisa não tia. Deixa menino. Tô conseguindo usar o xampu e mudar a temperatura, ó a água tá quentinha. Fecha o olho menino. Tô de olho fechado, tia. Deixa eu ver. Não carece não. O pior era a reação esquisita do corpo. Sem controle a rigidez que alcançava os músculos, o sexo. Não carece não, é melhor que fique aí. Lavava bem os braços, o rosto; não alcançando encontrar limpeza que bastasse sob a pele.

- Você sente aqui... hoje eu tenho que comprar presentes de natal, vou comprar o seu também.

- Não carece.

- Que isso, pra quê orgulho?

- Orgulho não.

- Vou agora cedo na Rua da Alfândega e volto.

Deverson em encruzilhada. Apaziguava o espírito com os amigos, evitava qualquer comentário para não criar suspeição. Da laje observava o esgoto no valão, resto de sofá boiando, lento, gravetinho lépido; pensava no presente de Natal. Presente tem que ter respeito. Sem emprego, sem dinheiro. Precisava de alguma coisa barata. Cordão. Crucifixo não. Podia parecer recado, tia pode interpretar mal. Pensou numa bermuda. Entrou na loja deu uma olhada sem se decidir. Volto mais tarde.

- Ou amanhã.

Sabia que Demóstenes marcara de passar o Natal com eles. Talvez Sharlaíne aparecesse também. Bonitinha, eu acho. Melhor chegar em casa antes de todo esse pessoal. Sharlaíne, a irmã dela, Demóstenes, e tia Ismênia. Quando pôs a chave, reconheceu a voz da parenta.

- Olhe, procurei você. Onde tava?

- Fui dar uma volta.

- Deixa pra lá. Trouxe o presente. Quer ver?

- Sim; mas deixa pra me dar à noite.

- Não, você vai gostar.

Ismênia guiou Deverson para dentro, puxando-o pelo braço. Fê-lo sentar na cama. Olhe que eu vou buscar no armário, antes que Demóstenes chegue. Fecha o olho. Deverson obedeceu. Escutou os passos pelo minúsculo cômodo. Um rumor que chegou a pensar em abrir os olhos. Obedece menino, fica de olho fechado. Pronto, pode abrir.

Ismênia estava de saia. Soerguida pelas mãos, à mostra a calcinha sexy. O transparente sobre os pêlos.

- Vem

- Não sei se devo. – pigarreou a frase.

- Não era isso que queria?

- Era, mas esperava que tivesse mais tempo. Assim, tudo na afobação. - medo de Demóstenes pegar tudo. Ver juntos e tragédia. Pensou um pouco.

- É; é o que resta, anda logo.

A segurança de Ismênia ajudou a espantar os pensamentos. Despiu-se ligeiro. E deitou, sem pensar em mais nada. //

Posted by adutra at 02:12 PM | Comments (18)

Tudo bem

Quando minha noiva e eu passamos pela Barão de Itapetininga naquela quarta-feira, fazia um calor considerável. Era por volta do meio-dia e foi um custo conseguir um sorvete daqueles de casquinha para cada um. O meu, óbvio, era de coco e ela, zombando da minha falta de imaginação, pediu passas-ao-rum e pistache. Olhei com cara de horrorizado e perguntei se ela fizera aquilo de propósito para atrapalhar minha digestão. Respondeu com uma lambida desafiadora. Quase esbarramos na barraquinha de hot-dog.

A Barão até que estava tranqüila, considerando-se o final de ano e as compras de natal: havia somente um grupo de músicos colombianos cantando Beatles e músicas natalinas em quíchua, um malabarista que saltava sobre facas, um palhaço com um sino enorme apregoando as vantagens da liquidação na loja de roupa infantil e a freira com um megafone anunciando o fim do mundo e a necessidade de AMOR, AMOR, AMOR. Além dos tradicionais camelôs, é claro.

De repente, minha noiva estacou diante de uma loja e exclamou Que bolsa linda! Ficou com dúvida se poderíamos entrar com os sorvetes na mão, mas decidiu logo. Enterrou seu sorvete na minha mão e me ordenou aguardar sua volta. Até tentei um protesto, interrompido com um beijo, e entrou. Suspirei e olhei em volta para encontrar uma sombra. Foi quando vi o velho.

Estava praticamente do meu lado e nem o percebera. Isto é, era uma figura tão comum e banal que o apagara da minha vista. Um desses senhores aposentados que para ganhar alguns trocados miseráveis trabalham com cartazes no peito e nas costas oferecendo negócios irrecusáveis como venda e compra de ouro e prata, passes de ônibus, tíquete-restaurante, serviços de advocacia, propostas de emprego, etc. Me acostumara a vê-los todos os dias (quem não faz o mesmo?). No entanto, aquele ... Era alto, magro, esquelético diria, sentado em um banquinho que notei desconfortável, e movia os lábios sem nenhuma pessoa ao lado: estava falando sozinho. Não gosto disso, não me divirto com este tipo de coisa, geralmente viro o rosto e continuo o meu caminho.

Era o que eu ia fazer: sair debaixo do sol, encontrar uma sombra, esperar minha noiva, tomar meu sorvete de coco. Mas, sem querer, ouvi seu murmúrio e parei: ele não falava, estava cantando. E a incongruência daquela canção me desconcertou: era a musiquinha de "Feliz Aniversário". Na rua Barão de Itapetininga, no meio do tráfego de pessoas que corriam de um lado para o outro carregadas de embrulhos e indiferença, em um dia quente de verão paulistano, um velho sentado em um banquinho de três pernas olhava fixo para o nada e, absorto, cantava parabéns para você nesta data querida muitas felicidades muitos anos de vida numa voz monocórdica e sem emoção.

Quando minha noiva saiu da loja, me encontrou estacionado no mesmo lugar, a minha testa estava coberta de suor e os sorvetes haviam derretido emporcalhando minhas mãos. Ela riu, meio preocupada, e perguntou se havia acontecido alguma coisa.

Respondi que não, estava tudo bem. Tudo bem.
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Posted by claudinei at 12:07 PM | Comments (15)

dezembro 19, 2003

O Natus Nobilis de Natal

Tenho um amigo que é médico. Trabalha de manhã num posto do SUS, na Cinelândia, e à tarde vai para o consultório em Copacabana, onde cobra uns R$200 pela consulta de meia hora. A sala do posto médico é um cômodo pequeno. Com aperto cabem duas cadeiras, uma mesa com tampo de fórmica e um armário enferrujado, com cadeado, onde ficam os receituários. Da janela dá pra ver o Teatro Municipal. As gavetas da mesa estão cheias de bloquinhos com desenhos do telhado do teatro, que ele faz com caneta hidrográfica.

Há uns dois anos, na época do Natal, um paciente entrou nesta sala com um presente nas mãos. Chegou um pouquinho antes do horário da consulta, carregando um embrulho de papel vermelho sem estampa, fechado cuidadosamente com durex. Ofereceu com um olhar satisfeito a embalagem feita em casa.

"Feliz Natal, doutor", disse.

Meu amigo agradeceu, pediu para o paciente sentar. Ele não quis. Ficou de pé, aguardando a reação do médico. Quando acabou de arrancar o durex, meu amigo puxou o presente. Era uma garrafa de Natus Nobilis. O paciente falou antes dele, nervoso:

"Esse daí é o que a gente bebe quando tem uma ocasião especial lá em casa. É pra quando o senhor tiver uma festa com os amigos, um aniversário, qualquer coisa assim".

Meu amigo fez todos os elogios possíveis ao uísque. Há dois dias, tinha ganhado de um paciente do consultório uma cesta dessas que a gente pensa que ninguém compra, da Lidador. Mas não fez a festa que fazia naquele momento. O homem se despediu com um aperto de mão, orgulhoso do presente:

"Bom Natal, doutor, até logo".

Outro dia vi uma cesta de Natal aqui em casa e lembrei dessa história. Era uma cesta simples: panettone, geléia, pêssego em calda, umas azeitonas e não lembro mais o quê. Lembrei do Natus Nobilis que emocionou meu amigo, o médico que aos domingos almoça fora e bebe uísque doze anos.

Lembrei da história e foi o primeiro momento deste período de Natal em que eu não me senti um filisteu, usando o feriado como desculpa para beber um pouquinho. Como, na verdade, nunca faltam desculpas para beber, o Natal para mim é uma data meio absurda. Sequer fui batizado, embora tenha comungado uma vez.

Parece que é pecado, comungar sem ser batizado. Mas, segundo os entendidos, os sem-batismo não podem ir para o inferno, nem para o céu. Ficam no limbo, o que talvez não seja má opção. Prefiro não saber muito sobre o lugar, para ser honesto. Mas gosto de pensar que, chegando lá, a comoção que senti com a história do Natus Nobilis pesará a meu favor. Talvez os funcionários simpatizem comigo por conta disso, e esqueçam da hóstia que eu não podia ter comido, das outras coisas todas que a gente faz e não devia. Talvez até me recebam com uns tapinhas nas costas. "Lá vai o cara da história do Natus Nobilis", dirão. E de repente, quem sabe, eles me arranjam uma bebidinha na noite de Natal.

Posted by mconde at 04:24 PM | Comments (8)

O velho

Eles começaram pendurando uma bola vermelha em cada uma das orelhas do velho.

No ano seguinte, outras bolas se somaram àquelas duas. Desta vez, não só vermelhas, e não só nas orelhas. Agora havia bolas douradas, prateadas, brancas, azuis e verdes, que pendiam também dos cabelos e da barba (que eles não cortavam fazia uma década).

No outro ano, eles dependuraram bolas de vários tamanhos e cores também nos buracos do nariz e nas pestanas do velho.

No quarto ano, eles não se restringiram às bolas coloridas: adornaram o velho e sua cadeira de rodas com fitas verdes e pequenos ramos cheirosos.

No ano sucessivo, eles substituíram as fitas verdes e os pequenos ramos cheirosos por grandes galhos de pinheiro, os quais eles encheram de bolas coloridas e prenderam debaixo dos sovacos do velho.

No outro ano, eles espalharam os grandes galhos de pinheiro por todo aquele corpo desgastado. Engancharam galhos nas orelhas, no nariz e na boca do velho. Outros foram postos debaixo das pernas, dos braços, presos ao elástico do pijama amarelo, atrás do saquinho de mijo e entre as pantufas peludas e o apoio para os pés na cadeira de rodas.

No sétimo ano, eles prepararam minúsculos pacotinhos de papel verde amarrados com fitinhas de seda vermelha e os dispuseram, entre uma bola colorida e outra, nas orelhas, nos cabelos, na barba, no nariz, nas pestanas, na boca, nos braços e, principalmente, nos inúmeros galhos de pinheiro que ornamentavam o velho e sua cadeira de rodas. Por fim, botaram um belíssimo enfeite cor de anil no alto da cabeça.

No último ano, por cima de tudo isso, eles ainda acrescentaram luzinhas piscantes, que acendiam e apagavam em tempos diferentes. As mais bonitas eram aquelas bem pequenininhas que percorriam os infindáveis tubos de alimentação, respiração e excreção do velho.

Posted by vstigger at 02:39 PM | Comments (4)

Poema de Natal

Sob a ponte, rôo a ponta de um lápis triste - triste, pois é o último.
No bolso, um envelope a mim destinado com letra forte,
com o entusiasmo com que se mata um deus.
Não saberão, os carros voando sobre minha cabeça,
da resposta de meu lápis:
quem dirige só olha à frente, através jamais.
Hoje é Natal e esta carta recebi hoje -
o que não faz diferença. Meu lápis não crê
nem em nascimentos de deuses nem nos desastres do correio.
Pois perante o eterno não existem crimes.
Entre os lábios a língua passeia - gosto de grafite e madeira - mas
não é de desejo que a boca enfeita seu céu.
E sim de medo. Um medo desde o fim.
Fortuna: minha fama não renderia nem tira de jornal.
E não me sinto triste - assim, de destinatário a remetente.
Assim é que - sob a ponte - a palavra de grafite e madeira busca brusca o
papel
no que faz o lápis quebrar a sua ponta.


(Poema de Natal, enviado por Ronaldo Bressane, faz parte do livro O Impostor, publicado pela Editora Ciência do Acidente em 2002.)

RONALDO BRESSANE

Posted by rbressane at 11:01 AM | Comments (5)

Fios de memória

Francisco olhou pela janela do hotel à procura de alguma coisa que lhe indicasse que aquela era a noite do réveillon. Um silêncio tão ensurdecedor que nem um zumbido produziu foi sua resposta. Nos outros prédios, luzes apagadas, cortinas fechadas e nenhum sinal de movimentação. De um modo, isto era exatamente o que ele esperava, quando pediu para ser designado para uma viagem de trabalho no último dia de 2003.

Assim que o relógio marcou 23h55, e os primeiros fogos espocaram muito longe dali, Francisco tirou toda sua roupa, peça por peça, girou a torneira fria do chuveiro, e entrou debaixo d’água com os olhos fechados.
A pressão do jato d’água não era tão forte quanto ele desejava, de uma força purificadora, quase religiosa, que levaria em líquidos e sujeiras todo o sofrimento daquele ano. O ato de passar o réveillon debaixo do chuveiro era simbólico. Longe do Rio, e do mar, trancado em um hotel três estrelas, numa cidade que não era a sua, Francisco escolheu passar isolado o primeiro réveillon sem a mulher, morta no início daquele ano.

Sem a esposa e o mar, esperou o relógio marcar cinco para meia-noite para tirar a roupa, entrar no box envidraçado, e passar a virada do ano dentro d’água, da mesma forma que costumava fazer quando ainda a tinha a seu lado, e molhavam os pés juntos no mar de Copacabana, pedindo benesses a Iemanjá.

Com os olhos fechados e a água fria batendo forte no seu peito, pensou na mulher, vinte e cinco anos mais jovem que ele, presa nas ferragens de seu carro, se esvaindo em líquidos, ossos quebrados e vidros estilhaçados. Uma imagem forte, que ele não tinha visto – estava, assim como agora, viajando no dia – mas que reinventava, sempre com mais horror, a cada piscar.
Abriu os olhos, cabeça baixa, queixo colado no peito, e sentiu a opressão luminosa dos ladrilhos brancos a fitá-lo em desalento. A água escorreu suave pelo seu rosto, arrastou-se pelo cabelo, testa e nariz, de onde perdeu o chão e despencou com força. Baixou o olhar para o ralo, onde encontrou a esposa, viva, na forma de cabelos mortos, presos como recordações.

Abaixou-se, pegou dois longos fios, e sentiu na palma da mão toda a força escura daqueles cabelos negros. Deu vida a esposa na forma de cabelos negros de outra mulher, possivelmente a última hóspede daquele quarto impessoal de hotel. As lágrimas desceram pelo seu rosto, mas não se misturaram à água fria do chuveiro. Francisco sentiu o queimar de pele que elas provocaram ao escorrer pelo seu rosto. Na boca, o gosto da água fria foi substituído pelo salgado das lágrimas derramadas.

Tentando afastar o pensamento daquilo tudo, esfregou as mãos com força, debaixo do jato d’água, mas os fios de cabelo insistiam em grudar em sua pele, como recordações incontestes; fios, como os da memória, que se escondem e se mostram quando querem, de modo quase mágico.

Esfregou as mãos novamente, quase em posição de prece, como que rezando por uma esperança. Os fios foram vencidos pela força d’água, mas silenciosamente correram para a segurança do ralo, da onde só sairiam quando fossem chamados novamente.

O ruídos de fogos e gritos, numa algazarra que para Francisco não passou de um farfalhar de ondas sonoras, chegou ao auge, muito longe dali, às 23h59, com abraços, brindes e beijos. Nessa cidade estranha não se comemorava o ano novo em público, mas em lugares fechados, cerimônias solitárias, como a que Francisco fazia naquele chuveiro. Ele pensava no Rio, na Avenida Atlântica, na algazarra daquela gente toda, em saltar três ondinhas de mãos dadas, na pureza do ato, na beleza da simplicidade.

Francisco temia que a partir da morte da esposa sua vida se tornasse uma sucessão de minutos, dias e meses até o momento em que seria engolido pelas ondas de uma ressaca. A inércia o manteria trabalhando, lendo os jornais, segurando no ferro do metrô, olhando para os lados antes de atravessar a rua, mas o condenava a uma vida sem sobressaltos, esperando pacientemente para reencontrar a mulher.

O acaso jamais colocaria outra linda jovem apaixonada por alguém quase velho, 59 anos, com a bunda magra e enrugada, manchas e reentrâncias na pele, olhar de desencanto e nem tanto a ensinar quanto à idade suporia.
Evitara o espelho por anos, desde o dia em que conhecera Carla e que ela lhe beijara a boca, injetando um torpor de juventude que julgara ter perdido. Evitara o espelho por medo dela olhar ao mesmo tempo para a imagem refletida dos dois, e entender que o amor deles seria passageiro.

Durante os nove anos que passaram juntos, cultivou em segredo um medo de perdê-la para outro, alguém mais jovem. Mas agora ela havia morrido primeiro, e isso subvertia tudo que o casal, silenciosamente, havia especulado sobre o futuro. As promessas de amor eterno, que só partiam dela, fato que o incomodava mais do que dava alento, tinham se esfacelado com a força de um carro que se choca em um poste.

Dez minutos depois de meia noite.

Francisco fechou a torneira, e a ducha de água fria primeiro virou pingos, para depois se eternizar em silêncio. Enxugou-se, parte por parte, e colocou seu pijama sujo de todas as noites. Desta vez não penteou o cabelo com especial atenção para esconder a tardia calvície eminente, mesmo não precisando se esconder do espelho.

A insônia, companheira recente de cama de casal, o chamou com zumbidos agudos de silêncio. Recusou o convite. Foi para a sala e sentou no sofá, onde ficou observando, pelas luzes e sombras no reflexo do vidro de um quadro, o início de 2004.

No reflexo do vidro, viu que 2004 nascia ao contrário, do final para o começo, da direita para a esquerda, da luz para a falta dela, e que daquele ano não haveria de passar. Chorou novamente, e levou as mãos ao rosto, da onde tremulava um fio de cabelo comprido, balançando levemente pela força de uma brisa que vinha da janela aberta.
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Posted by fizhaki at 10:33 AM | Comments (10)

Natal - La fiesta caribeña

Recupero-me de um banquete tailandês regado à erva inominável, sentado meio que a contragosto numa bóia pró-hemorróidas, cigarro no canto da boca e suor descendo ao rabo, e eis que recebo um e-mail: uma amiga me pede um texto sobre o Natal, porque acredita que este será diferente de todos os outros. Tenho três dias até o deadline. Preciso estudar sobre a data, preciso de algo original. Opto pela História, parto do início de tudo.

Planeta Terra, 185 milhões de anos atrás. Um gigantesco deslocamento de placas tectônicas leva áreas ao fundo do mar, trazendo outras à tona, formando assim uma cadeia de montanhas que se eleva do Mar do Caribe, dando origem a pequenas e paradisíacas porções de terra cercadas de água por todos os lados. No topo dessa cadeia, Puerto Rico. Em seu coração, a bela San Juan.

San Juan, Puerto Rico. A menor das ilhas antilhanas. Mar do Caribe. Aproximadamente 1.600 quilômetros de Miami, Brazil. Dia 25 de dezembro, era Pré-Menudiana. Uma estrela cruza o céu, de um ventre evangélico nasce um mito.

Maria era paraense. Ex-vendedora da Avon, abandonou o clima escroto da mata, deixando apenas incógnitas atrás de si. Quem era Maria, do que era feita, o que movia a fera, ninguém ousara saber. Nascida na capital do estado, Maria trazia em si o traço da experiência. Índia na raiz genética, converteu-se ao evangelho após o quê ninguém sabe. Como eu já havia contado.

Maria rodou pelo Norte, tentou a sorte em Manaus, até encontrar um crioulo que a levou de graça às Antilhas. Pouco tempo depois, fazia uma concessão à Igreja e aceitava desposar José, um jamaicano bem forte, rastafari do fundo da alma.

José era na verdade um haitiano rebelado, que fugira para a Jamaica e aprendera o ofício da carpintaria. Pois fora em Puerto Rico, muito chapado da erva, que, mirando a cicatriz de cesária de Maria, não mais se segurou e exclamou: "La chinga que eres virgen!". Mas Maria afirmava. Nunca conhecera homem de fato.

O negro era muito do doido, então jamais pôde saber se realmente chegara a carcar sua senhoura. O fato é que no mês de Capricórnio, a crente começou a gritar: "Mas porra que esse vem grande! Porra que esse é cabeçudo!". E todos os magos vieram, e a estrela cruzou o horizonte, e os cabritos louvaram aos céus e Maria não estava por lá: não podia freqüentar festas, sua Igreja era contra. De qualquer forma, nasceu ali um menino, portorriquenho do verão eterno. Na verdade eram cinco miúdos: Ray, Robbie, Roy, Ricky e Jesus - porque o pai era rebelde e pau no cu que todos os cinco receberiam nome de gringo. Um precisava ser nacional.

Desde pequeno, Jesus viu-se envolto em brumas. Ninguém, enumerando os filhos de José e Maria, conseguia lembrar-se do nome do quinto. Era sempre "Ray, Robbie, Roy, Ricky e o outro". Jesus nunca se acostumou. Chegou a ameaçar que um dia, depois que a Santeria o levasse além, voltaria e assombraria os mortais com vinho e pão sem sabor. Mas isso é uma outra história.

O fato é que Jesus era gago, embora falasse bastante. Então todos os seus amigos resolveram se comunicar por escrito com o Menudo. O resultado disso foi que o garoto um dia teve acesso ao que escreviam e, percebendo como aquilo era absurdo e descolado de seu propósito primeiro, resolveu ganhar o mundo. Se mandou de verdade, em busca de suas origens.

Pensou em chegar a Fidel, mas Fidel o negou por três vezes. Tentou chegar aos States, mas os Quakers não o reconheceram. Então veio dar no Brasil. Experimentou de tudo. Caiu na putaria de cara. Tomou todas as drogas, viciou-se em ayahuasca, pegou malárias horrorosas, e não se adaptou ao clima escroto da Floresta Amazônica. Então pegou um pau-de-arara e assim foi parar em Natal.

Chegando ali ao Rio Grande - porque o do Norte também é Rio Grande - não tinha muitos talentos. Orador mal-interpretado, carpinteiro sem vocação, beatnik dos mais coerentes, levava consigo apenas um tesouro: o talento para a música pop. Pois foram seus dois maiores hits - "Não se reprima" e "If you`re not here", ambos compostos em homenagem à mãe - que lhe renderam hospedagem gratuita no puteiro do Tio Noel.

Noel era um velho bondoso. Imigrante do Norte da Europa, negociava bens materiais. Vivia cercado de sodomitas, anões da construção civil e gostava muito de festas. Todo dia a zona de Natal via-se cheia de luzes, e a estrela maior era Rodolfo, um viado cheirador inveterado, constantemente acometido de rinite alérgica. Rodolfo era a sensação. Dançava como um filho da puta e não havia coronel da região que não simpatizasse com suas estripulias. Comerciantes também curtiam aquilo. Instalavam-se ao redor de Natal e o afluxo de pessoas dispostas a tudo faziam com que suas lojas lucrassem como nunca. E Jesus chegou bem naquilo.

Jesus chegou muito doido, gaguejando seu hebra-bra-bra-sileiro de portunhol, e Rodolfo logo o adotou. Levou até o bom velhinho e Jesus cantou e dançou. Jesus cantou e dançou e experimentou de tudo o que havia de bom. Foi aí que o cafetão o pôs no palco e, pouco a pouco, tornou-se seu empresário.

A relação de Noel e Jesus nunca foi assunto claro. Assim como a mãe evangélica, Jesus recusava maiores explicações. Limitava-se a cantar, a dançar e a entreter. Foi inclusive isso o que o levou a nunca deixar o puteiro. Jesus, sem em momento algum pressentir, ia-se tornando, pouco a pouco, um mero intérprete de suas próprias composições. O mal que lhe acometera a nascença voltava de bicho na idade adulta: ninguém lembrava de Jesus. Lembravam-se de Noel, lembravam-se de Rodolfo, o viado do nariz vermelho, mas ninguém recordava Jesus.

Foi necessário um desgosto para a comunidade local. Num belo dia de março, mês pisciano total, Jesus levantou-se ao palco, segurou fortemente no mike, e anunciou se matar. Os psicanalistas locais logo o rotularam: "histérico. A histeria é um traço patológico segundo o qual o indivíduo internaliza as dores do mundo. Manifesta-se das mais variadas e extremas formas". Jesus morreria pelo público, encerraria seu show no ápice. Mas é aí que a história faz escala em sua porção edipiana: o fim podia até ter lugar, mas não em frente a Freddie Willy.

Freddie Willy era um matador verborrágico, alemão chicoteador de mulheres. Coisa ruim encarnada em animal, o ímpio da serpente do monte. Pois Freddie Willy ali se atiçou, levantou da multidão e exclamou: "seu pai está morto, seu porra!". Freddie Willy era fã do Menudo e seu único objetivo era a derrota de Ricky que, todo mundo sabia mas ninguém ousava dizer, era bicha da pior espécie mesmo. Então Freddie Willy matou. Matou o carpinteiro. E Jesus se matou. E os livros venderam pra caralho.

Muito mais recentemente, os irmãos de Jesus do Crato - pois assim ficara conhecido, após um caso com uma cearense que salvara do apedrejamento - enfim.... Muito mais recentemente, Ray, Robbie, Ricky e Roy começaram com um papo doido de que Jesus estava entre eles. Noel chegou a convidá-los todos para beber ao morto - um morto dos muito bem-mortos. Mas o povo ali não podia ir a festas.

Então o que decorre disso tudo é que Noel todo ano celebra o evento. É bem verdade que não divulga mais o superstar, mas a festa fica tão foderosa que na verdade ninguém se importa mais. Hoje em dia, em Natal, ninguém se lembra mais de Jesus.

CARLOS JAZZMO

Posted by cjazzmo at 10:27 AM | Comments (8)

Ele existe, eu existo

Eu vi quando ele saiu do quarto, com sua barba branca e sua roupa vermelha. Quarto de hospital, veja bem. Está certo que eu estava febril, entupida de remédios, mas sorri pra sua piscada, quando parou na porta. Na cama ao lado da minha, meu presente. Ele dormia, visivelmente feliz, roncando um pouco, como sempre. Roncando muito, na verdade. Mas juro que, dessa vez, eu não liguei.

Eu era menina, ainda, quando ele me esqueceu. Até parecia que ele me olhava, mas eu era transparente. Nunca uma palavra de abrigo, nunca um gesto que protegesse minha insegurança. Nunca. Fiquei ilhada no mundo, sem seu apoio. Ele odiava meu ar perdido, meus traços seguros no papel, minha forma de arte. Rasgava tudo com sua indiferença. Cada cor que eu usava era para os olhos dele, cada linha que eu riscava era para amarrá-lo. Mas nada disso adiantava. Eu não existia. Fiz de tudo na vida para que ele me reconhecesse. Mas, não adiantou.

Era dia de Natal, eu, mãe de três. Mãe de quatro, na verdade, porque tenho marido-filho que busca colo. Estava doente e não sabia. Cozinha de casa impregnada com cheiro de final de ano. De repente, febre alta, desmaio, ambulância. Todos ficariam sem mim, num dia de Natal. Primeira e única vez. Só ele poderia me acompanhar. Pela primeira vez, ele teria que cuidar de mim. Ele, que nunca se fantasiou, colocou seu sorriso mais terno e foi comigo ao hospital. E fomos, nós dois. Só nos dois.

Talvez tenha sido a chance de me ver desaparecer de verdade. Talvez tenha sido a chance de acertar os ponteiros ou, talvez, a febre alta e meus delírios o tenham deixado confuso. Mas ele me viu. Ele falou comigo e rimos juntos lembrando da minha infância. Ele agradeceu o fato de eu ser dele. Ele reconheceu que eu poderia ser gente. Que eu poderia chorar das nuvens do céu, que eu poderia rir das borboletas voando, que eu poderia ver coisas que ele não via. Ele me aceitou e, por um segundo, foi comigo pra onde não tem explicação. Transcendemos, ali, entre palavras e imagens.

É, pode ser que eu não tenha sido uma boa menina. Mas eu juro que ganhei meu pai de presente do Papai Noel.
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Posted by epougy at 10:20 AM | Comments (3)

Cinzas

para Daltônico

A praça, um pulmão urbano como na cartilha ambiental segundo as novas diretrizes pedagógicas, árvores, vento, espaço aberto, benesses para a vista e a alma humanas, cansadas de pó e de fumaça. Fuma teu último cigarro, é o dia derradeiro, último do ano. Um cigarro profundamente aspirado, no meio do pulmão urbano deserto. Nas artérias de cimento, piche e coloridos tijolos portugueses que o circundam, a correnteza é vasta e se veste hoje de branco.

Tu não portas branco, sentado no banco da praça. Nem as pombas são brancas como a paz celestial. No cercado que te protege, nenhum símbolo óbvio de celebração universal. Nem brancas nem negras, as pombas como imóveis peças de tabuleiro, em jogada que não te animas a começar. O jogador não és tu. De tua parte, segue apenas o ímpeto de produzir cinza, como as pombas pontos cinzas são. O tom que permite interpenetração, conjugação de opostos em massa mal definível, tom da contradição, do nebuloso e duvidoso existir, como se pode duvidar que existam pombas assim, tão cinzas e tão imóveis, obtusas aves que não correspondem aos ideais que se confere aos animais alados. Não voam, ao seu lado, à frente, no chão, na sombra da grande árvore ou no débil sol que se insinua através do céu nublado, cinza, peões cinzas, sequer a ciscar. E súbito um grande pato incoerente vem despertar-te do torpor. A brasa também será cinza mas enquanto vive é laranja, vive e se consome, queima por si só e te lembra do tempo, da aparência que as malditas pombas pretendiam obnubilar. Embaralhavam o óbvio que aos providenciais olhos daltônicos escapava.

O pato veio restituir a ordem das coisas, as cores e nomes, a gente branca a fluir nas margens, a cor da brasa (de bico de pato) e a dor do dedo queimado. É de bom tom de cinza não acreditar-lhe absoluto. Assim as pombas paradas deixam de negar-se, como não fossem simultâneas a nada, e coexistem novamente com o tempo que se acaba em mais um ano, farelo que se esvai na ampulheta, e onde existe? O tempo, o tempo na cabeça dos passantes (fora da praça, do pulmão e da cabeça), o tempo feito na simultaneidade de milhões, bilhões de cabeças, o tempo contado junto como se fosse um. Em cada semblante a certeza da meia-noite, da zero hora, renovação cravada em calendário e tão fielmente perseguida que se desencadeia de fato, e não pelo poder do relógio ou da ampulheta, mas na procissão de ritos e atos, crença ingênua na condensação de um só momento universal, o tempo que corre e também pára, pois só parando pode engolir a todos e defenestrá-los num outro ano, limpinho, zerado, todos prontos para um começar de novo. Mas começa-se o começado?, zera-se o tempo inumerável?, vive-se a vida num todo imutável?, a contagem tem que ser regressiva, tem que ser progressiva?, para quê a contagem, afinal? Tua cabeça teima em não pulsar neste pulso (não este pulso de sangue aqui do braço, mas o pulsar coletivo que alinha simultaneidades).

Quantas fotografias é possível produzir de modo a comprovar cientificamente a existência da simultaneidade? Com o cérebro? Umas cem, duzentas? A velha charrete conduz avó e neta afundando em sulcos a terra fofa de Marabá, o moleque trepa rápido na estátua central para inscrever em giz sua conquista, maior que o herói medieval ali representado, um raio vara a noite em Taiwan e amedronta o gato perdido na mata, trens prontos a zarpar, aviões no ar, multidões aformigadas nas praças vistas de cima, pestanas que não resistem e se deixam desabar, um fósforo que risca e ilumina algum ponto da gigantesca praça, à procura de um relógio, da hora zero que se aproxima, o tempo íntimo, os glóbulos brancos, a dança cósmica, o grito sufocado do primeiro orgasmo, a libertação e o pavor, por trás daquela persiana que nada revela. Ano novo no funil do tempo em cujo furo passa a Terra inteira, aos teus olhos daltônicos.

Vida incandescente ou as milhares de mortes prosaicas deste instante, o tiro e o incêndio, a água, a queda, o ar que falta, a chaga que obstrui o próximo momento. A cara da morte cinza, da morte que não é luto, mas adubo, húmus, pó de volta ao pó. A celebrada renovação só é vida porque há morte. Só há vida porque há morte.

As cinzas mortuárias jazem no chão como homenagem, e o pó da praça as absorve e redefine, para alegria das formigas. Já não há brasa nem é preciso. Levanta-te e anda. A correnteza te espera.
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Posted by pperi at 10:16 AM | Comments (2)

Dezembro

Para o amigo André Czarnobai

Eu sei porque voltei. Foi por causa daquela tristeza sazonal, misto de solidão e nostalgia que sempre me bate em dezembro. Pensei muito antes daquele dia. Acreditei que a distância e o tempo não fariam tanta diferença na hora do reencontro. Julguei que o simples retorno fosse suficiente para reascender tudo aquilo que ficou para trás. Nenhuma mágoa, sentimento de culpa ou arrependimento. Apenas uma volta casual, como se tivesse ido na esquina comprar cigarros.

Nenhum tipo de contato, nem sequer um telefonema, durante todo aquele tempo. Na verdade teve uma única vez, ano passado, mas não cheguei a falar com ninguém. Apenas estacionei o carro numa rua perto do colégio da Bia e fiquei ali parado, escondido, esperando ela passar. Mas ela não veio. Depois liguei pra casa e atendeu uma voz desconhecida. O número havia sido trocado.

A Bia sempre foi muito parecida comigo, e nunca escondi que por causa disso era minha predileta. Das três filhas era de quem eu sentia mais saudade. Os carinhos da Vera também me faziam muita falta. Desejo do nosso sexo, lembranças da nossa amizade e da maneira corajosa como ela encarava o meu trabalho. Se não fosse ela talvez eu nunca tivesse chegado aonde cheguei.

Que merda, não dá pra fazer o tempo retroceder. Às vezes fico me perguntando um monte de coisas. Me questiono como seriam nossas vidas se tivesse dado continuidade a minha carreira de piloto comercial. Me interrogo, procurando respostas, e me sentindo um idiota porque resolvi dar ouvido aos conselhos do Cardoso.

Ganância, cobiça desmesurada. Puta que o pariu, tínhamos uma vida confortável. Carro do ano, viagens por conta da companhia, crianças matriculadas em colégio particular, casa na praia, seguros de vida e saúde. Mas eu achava pouco, nunca estava satisfeito e sempre queria mais, cada vez mais. Depois que resolvi comprar aquela ilhota em Santa Catarina os negócios começaram a desmoronar. Gastei dinheiro inexistente e precisei correr atrás do prejuízo. Confiei no Cardoso, acabei fodido.

Eu não queria ter atirado. Não pude evitar. Nunca imaginei que aqueles caras não fossem árabes. Impossível saber que eram da Federal. Um deles não morreu, ainda bem, e assim não me sinto tão culpado. Jamais tive pudor em fazer meus negócios; puxar o gatilho é que sempre me incomodou. A responsabilidade final é de quem puxa o gatilho. É como no futebol, quando o jogador chuta em gol e a bola toca no zagueiro antes de entrar. A súmula do juiz registra como autor do gol aquele que teve a intenção do chute. Por isso nunca me torturei. Russos, colombianos, brasileiros, gregos e outros facínoras internacionais. Jamais perguntei aonde seriam utilizados os armamentos que transportava.

É comprador ? Então não precisa ter nacionalidade, ideologia ou religião.
O Cardoso assumir os negócios, colocando outro em meu lugar, era uma conseqüência óbvia. O que eu não esperava, e essa foi a grande surpresa do meu retorno, era encontrar o Cardoso morando lá em casa. Naquele dia, quando enxerguei ele pilotando um dos meus carros, junto com a minha família, chegando na minha casa, me arrependi de ter voltado. Aquela foi a pior véspera de Natal de toda a minha vida. Antes tivesse ficado escondido lá no Uruguai, sobrevivendo do abigeato.

Três anos e quatro meses. Ainda lembro bem daquela noite. Saí de casa com a roupa do corpo, sem grana, apenas com o resto da gasolina que tinha no tanque do Omega. Foi o Cardoso quem me ajudou a fugir. Deu dinheiro, conseguiu um lugar pra eu me esconder nos primeiros dias e arrumou os documentos falsos que venho usando até hoje. Também era ele quem me dizia pra não voltar, que a barra estava pesada e talicoisa. Se não fosse o Cardoso talvez eu estivesse cumprindo pena em algum presídio de segurança máxima. E só por causa disso ainda não o matei.

CACO BELMONTE

Posted by cbelmonte at 10:10 AM | Comments (15)

Do que não existe

ouvi um barulho, peguei a arma do papai em cima da estante. ainda trajava o meu pijama, de calça e camisa de manga longa, toda abotoada, listrada de azul e azul clarinho. estava frio, era época de baixa temperatura. Estava escuro também, e só uma luz de fora invadia a casa. de repente, um passo. atirei nele. assustado, deixei cair a arma. saiu muito sangue da barriga dele, bem vermelho. combinava com a roupa. ouvi uma voz abafada, de velho pedindo socorro, e pensei: se ele continuar falando assim, vai acordar todo mundo. a arma do papai tinha silenciador. mirei bem na testa e disparei. morreu na hora. tentei puxar o corpo para fora, mas ele era muito pesado. e eu tinha apenas sete anos. as renas, impacientes, passaram a emitir sons. chequei as balas. quatro. uma para cada uma, não podia errar.

mirei na primeira. puf, certeira. na segunda, puf, nas outras duas também. havia uma quantidade de brinquedos sem fim dentro do trenó. eram todos meus agora. na sala, o saco tinha outros presentes. nas mãos dele, o meu. um carrinho movido à pilha. brinquei o resto da noite, cada 10 minutos com um brinquedo novo. nem pensei nas outras criancinhas. adormeci no chão da sala e acordei com meu pai nervoso, lendo numa miniatura de quadro negro, a frase que eu deixei rabiscada: viva a sociedade capitalista.
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Posted by bpessoa at 10:07 AM | Comments (10)

25

Álcool. Preto e branco. Presente pra mim mesmo: um porradão de 25 lá do Azul. E uma muca. O whisky foi nacional mesmo que a grana não deu. Hohoho, cá estamos, a porra do Natal. Quanto ódio ainda cabe dentro de mim? E quanta fome? Um calombo muito saltado logo ao pé de cada orelha: o maxilar trancado. Só não sei se é ódio ou se é o branco. Tem também a mão quebrada. Ridícula de tão inchada, mas não dói – e isso eu sei que é o pó. Digo, não doer. O que a quebrou foi a falta de um você, um interlocutor qualquer. Pra falar, pra ouvir. Pra socar, em vez da parede, a casa toda. Pra existir, me fazer existir, saber disso; me dar pelo menos uma prova de que eu existo. Só uma… Não falo nem de estar vivo – isso já é outra história –, mas de responder à porra da pergunta a que o espelho não responde mais. Até porque eu soquei o filhodaputa, quebrei todo – foi o primeiro. Hé, engraçado que, num primeiro momento, eu achei que tivesse socando eu mesmo; aí teria sido suficiente: eu, de fora, me espancando até ter certeza de que eu tava mesmo ali, de verdade, suando e sangrando minha presença nessa bosta de cidade fedorenta. No entanto, foi só cair o primeiro pedaço, faltar o primeiro estilhaço à minha cara refletida, que a ilusão acabou. Ahhhhh! Cada gole é melhor. Fica mais próximo do importado que eu queria comprar. Esse ano, não fui só eu que me dei um presente: o mundo caprichou também. Passou o ano inteiro montando o troço dentro de mim, peça por peça, até construir: uma certeza: eu não existo. Coube a mim, hoje, apenas terminar de decantar aquilo que eu não posso nem chamar de surpresa – pois que a cada novo bloco, o resultado já se insinuava, se esgueirava pelas (muitas) brechas do meu raciocínio. Eu que não quis ver. Procurava algo aos pedaços, em pernas femininas, bocetas, bunda-e-peito. Às vezes pagos. Tentativa de esvair-me em porra e ainda outros pedaços; de nucas desnudas, tornozelos, num relance, um banco de ônibus, na rua. Aqui e ali, um olhar. Um cheiro. Mas, nada: isso só me dava mais dúvida, os lábios grossos mordidos, fendas na carne rubra, gosto de ferrugem. Mais fome, mais ainda; inclusive me impressiona; como tamanha fome pode não existir? Talvez já tenha me consumido todo. Não sobra mais nada de mim: o espelho mentia. Ou era eu que não enxergava o que ele me mostrava. Merda de nariz. Já começou a escorrer. As drogas acabaram, o dinheiro também. Vamos, eu e a minha meia-garrafa-de-whisky-barato, corredor do prédio, escada, rua. Mais outro gole – pra tentar embaçar a impressão de que isso aqui fora é ainda pior. Mais vazio. Só eu, a cidade vazia e as luzinhas escrotas espalhadas a torto e a direito por tudo quanto é canto. Tudo pisca, acende e apaga em milhares de cores descompassadas, só pra me lembrar de que eu não tô aqui, eu não existo. Queria que houvesse algo pra acontecer, um troço qualquer. Uma bela duma cagada na cabeça, direto de uma das renas do trenó, qual um passarinho. Aquela do nariz vemelho. Hé, nada. Aqui fora é triste pra caralho. Não agüento, não consegui dar um passo. A rua toda pisca mais umas vezes e, merda, o que isso?, tô chorando. Pelo menos não tem ninguém pra ver. Voltar. Preciso. Se continua assim, os dentes vão se esfarelar: cada piscada do mundo me aperta mais o maxilar. E o peito. Esse é o último, e vai ser dos grandes: aaaaaaahhr, acabou. Jogo a garrafa vazia pra algum lugar e ela vai urrar sua dor em cacos contra o asfalto. Maior esporro. Mas ninguém ouve. Já deu; volto. Escada, corredor do prédio, casa. Bato a porta. Agora a luz não acende. hehehehe. Me sento no sofá. Uma coisa de que sempre me lembro, aquele cachorrinho. Eu era criança, na rua; filhote, bobo, veio fazendo festa, pedir carinho, comida, sei lá que diabos. Nunca descobri porque eu chutei o bicho até matar. Não foi maldade, foi pra saber. Mas acaba que eu não sei porra nenhuma. Tanta gente por aí que sabe, que diz. Tanta coisa bonita, forte. Eu… não sei. Também não tá mais dando pra pensar. Dividir os parágrafos, as coisas e as lembranças no escuro sem lâmpada. Nisso, parece – não sei – que a porta abre um pouco. Um palmo, se tanto. Parece que algo entra. O que é aquilo que vem lá? Só quando ele tá perto de mim, reconheço o cachorrinho. Vem com o mesmo sorriso idiota, o mesmo abanar de rabo, feliz. Dessa vez eu não chuto. [Talvez por isso,] Ele começa calmamente a me morder. Primeiro os pés, então tornozelos. Aí entendo, quase-horrorizado, que ele não me morde: me devora. Aquela boquinha, dentes finos, quem diria?, consome sem descanço meu cansaço: sangue, carne, tritura osso, arrebenta tendão e rasga pele. Sem barulho algum, mas com paciência e método. Não há raiva no bicho – a cara de idiota ainda é a mesma –, só afinco de máquina. Começa a doer um pouco agora. Deve ser o efeito da droga passando. E o bicho continua progredindo.

E eu não faço ele parar.

Que coma até onde quiser. //

Posted by fslade at 10:05 AM | Comments (7)

Minas já não há mais

De quatro elas oferecem os cabelos do queixo `a fiação. A roca puxa-lhes o rosto quase arrancando o osso maxilar. O tapete que cobre as paredes do corredor pode ser cerzido. Minhas tias barbadas têm utilidade na cadeia produtiva.

O longo corredor tem cheiro de sebo e jacarandá. Atrás de uma das mais grossas portas, ela fica trancada no escuro, por dias. Ouvem-se grunhidos de sua dor aguda, uma dor da ausência que o corpo precisa preencher e na ausência preenche pelo grito. Abro a porta, o escuro salta, empurro a tigela com mingau, ela come mostrando-me os ossos cobertos de alguma carne e, de sua voz rouca caem restos de mingau sobre os peitos já caídos. É possível que o sangue nas articulações venha dos ossos a perfurarem a pele.

É dezembro e faz um calor desgraçado. Os pés lembram que o tempo passa mas o tempo parece congelado nas dobras do pijama do meu avô. Ao fim do dia mais um risco no calendário, o natal se aproxima. Se me perguntam o que tenho, digo que os brônquios me insatisfazem com sua preguiça, ralentam o trabalho da caixa torácica, não me dilatam.

Em Minas é assim, as galinhas correm com a aorta `a mostra. A balançar as asas num corrida de vôo impossível, a galinha respinga sangue e libera um cheiro azedo de galinha molhada com medo. Logo ela estará dentro de uma bacia d’água quente sendo depenada pelas mesmas mãos que tocam meu corpo no quartinho dos fundos.

Minha avó se aproxima com o lanche e me alimenta em seu colo, donde sinto sua única teta pendurada ao sutiã. Do sofá de couro me atiro no tanque pra não pisar nas minhocas nem na garagem cheia de bosta de cachorro, não quero o cheiro de pequi nem o quartinho de nicotina. A galinha e o porco pedem pra sair mas ninguém deixa. Me afundo na banheira pra não repetir o número três com sotaque carioca e fazê-los rir. Meia noite e quinze estaremos na cama. E só os cachorros passeiam.

ANTÔNIA PELLEGRINO

Posted by apellegrino at 09:53 AM | Comments (7)