Lima levantou-se as quinze para as dez. Foi ao banho. Voltou. Na mesa da cozinha procurou o jornal por entre uma chusma de papéis. Revirou daqui, olhou de lá, espremeu os olhos, mas só o encontrou minutos depois, junto ao pé da mesa. Uma dúvida atroz havia se apoderado dele à noite, impedindo-lhe o sono: teria confundido a grafia de cessão com a de secção? Não lembrava. De posse do periódico, foi direto para a coluna que levava a sua assinatura. Segunda linha do terceiro parágrafo: perfeito! Tudo estava em ordem. Com o jornal diante dos olhos pegou o bule e despejou uma gosma preta em um copo sujo. Sentou-se com o café em uma das mãos, o jornal na outra e põe-se a ler. Não foi a melhor matéria já escrita; todavia, não era a pior. Prometeu-se melhorar.
O sol, no ápice, torrava o asfalto indiferente. Na rua, as crianças anunciavam as festas de fim de ano.
Na casa, Lima procurava por uma meia. Iria exercer a rotina de encostado: perambular o Rio de Janeiro, esquecer-se das últimas semanas, dos réis em falta, das coisas ruidosas da vida; enfim, dos males que se lhe flagelavam o corpo e a alma. Talvez começasse o projeto Folclore Brasileiro, talvez não. No caminho decidiria, quando o resquício agonizante da paraty, ingerida á noite anterior, fosse substituído pelas primeiras cervejas do dia.
Em pé, abarcando os cômodos com o olhar, aguçando a audição, Lima procurou Evangelina, sua irmã. Não a encontrou e, feliz, ganhou o mundo às escondidas. Na volta, havendo bronca, daria suas desculpas. Ele é que não iria atormentar-se com o abafado do clima, colando-se ao mofo da casa.
Tomou a Major Mascarenhas, em Todos os Santos, seguiu à transversal. Pegou o trem. Sem destino, deixou-se ir. Entretanto, pouco antes da Central, sem anúncio de chegada, uma sensação estranha veio misturar-se em sua mente, preocupando-o: esquecia algo. Que era? Não sabia, mas o desconforto agarrava-se a ele indolente, fazendo-o refletir. Que era? Puxou pela a memória. Olhou de verruma as embotadas lembranças. Confundiu-se: secção ou cessão? Não lembrava.
Desceu. Cogitou passar pelo Campo de Santana, mas desistiu. Seguiria a pé, subindo a General Câmara. À altura da Rua do Ouvidor, lembranças da época em que morava na pensão da Dona Augusta vieram à tona. Mais adiante, na Rua dos Andradas, caiu seu olhar sobre um casal que passeava próximo à Escola Politécnica, no Largo de São Francisco. Recordações desagradáveis do tempo da Engenharia surgiram, para, em seguida, serem substituídas pelas as das noites passadas nos cafés Papagaio ou Paris, junto aos amigos de copo e letras. A execrável perseguição exercida pelo professor Cardoso não havia deixado mágoa em seu coração.
Um vento sutil e reconfortante o levou à escada da Igreja de São Francisco De Paula. Entrou, embora não gostasse da arquitetura à Luiz XVI. Exceção aberta, admirou-se com a arte do mestre Valentim. Olhou. Saiu. Contente, Lima, pela primeira vez em tantos anos, contemplou o perfil da estátua de José Bonifácio, alvo de tantas pilherias praticadas por ele e seus amigos, no tempo de estudante.
Uma vertigem inesperada, entretanto, quase o deitou ao chão. O frenesi o fez precipitar-se para o corrimão à direita, em busca de apóio. Controlou-se. Aos poucos um vulto foi se materializando em sua mente: delirava. “No terceiro degrau das escadas de S. Francisco, a esquerda de quem sobe” Lima via o Quincas Borba coadunar-se ao paralelepípedo frio e asqueroso, com suas vestes surradas.
—Não é possível! Sussurrou a si mesmo. Quincas Borba, ali, deitado... Estaria a malévola realidade a lhe pregar uma peça? Hesitou, respirou, e conteve o desejo de chamá-lo à prosa.
Aos poucos ele recobrou a lucidez e distinguiu a sutileza do ocorrido: misturou ficção e cotidiano, literatura e sociologia, Machado de Assis com um alheio esfarrapado. Acalmou-se. Refletiu ruminando algumas idéias, e recordou das tristes tardes no hospício, quando, isolado, sentia o peso da indiferença do mundo. Não queria sentir-se vazio e abandonado novamente. Para tanto, bastava manter a calma, esforçar-se e evitar pensar no cemitério dos vivos, que tão pungentemente o recolhera por uma trinca de vezes.
Recomposto, e rindo amargamente do lapso que o atacara, Lima desceu as escadas da Igreja sem virar as costas, e foi ter com o Senhor Chagas, dono de boteco.
Chegou, sentou-se, e pediu uma cerveja. Deixaria a paraty para mais tarde; estava cedo. Controlar o excesso de cachaça era vital para que a epilepsia tóxica, enfermidade que tanto lhe afligia, não lhe dominasse.
Não havia conhecidos àquela hora. Beberia sozinho, coisa que detestava. Com o primeiro gole a sensação de esquecimento o atacou mais uma vez. Lima, mecanicamente, levou à mão ao paletó, em revista aos documentos. Estavam lá. Mas -tinha certeza- algo ficava para trás. Que seria? Algum artigo para o jornal? Quitar conta em atraso? Não conseguiu lembrar. Melhor desistir e entregar-se a bebedeira. Lima entrou na rotina como quem entra no céu. Sóbrio, cheio de si, preste a engolir o mundo (e o mais) pelo copo. O pressentimento de que esquecia algo não foi capaz de o alertar para o resultado da seleção à vaga de João do Rio, na Academia Brasileira de Letras, divulgado pela manhã.
Agraciado pelo dom do esquecimento, Afonso Henriques de Lima Barreto bebeu e riu, e chorou, e cantou, e virou as costas - àquele dia- à Academia que, por tantas vezes, a ele as costas havia virado.
LUCIANO SILVA
O nariz humano é capaz de detectar até dez mil odores diferentes. As células do cérebro, uma vez destruídas, jamais se recuperam; o tecido capilar que recobre a narina, ao contrário, se regenera em caso de perda, o que garante a perpetuação do sentido do olfato. Se não fosse por isso, o próprio ato de respirar impediria que um ser humano comum ainda pudesse perceber perfumes diferentes por volta dos trinta anos.
Graças a Deus!
Porque eu já tinha por volta dos trinta anos e foi assim que eu a encontrei. Pelo cheiro. No meio de tantos outros vários cheiros, as essências se encontrando e se despedindo no meio de um bloco de carnaval, sangue suor e cerveja misturado a perfumes baratos e lança perfume, tudo isso torrado e moído no chão de asfalto da Vieira Souto num domingo de carnaval, e eu colado a um poste sem saber bem para onde me virar, sem saber se o melhor era ir para casa ou ficar, porque a Isabel ainda me doía o peito inteiro e eu sabia que estar ali no meio da banda era arrumar encrenca, confusão, eu me sabia triste e abusável, e quantas não são as mulheres que procuram um pouco de abuso num domingo de carnaval em Ipanema, quantas não matariam o primogênito para ter um pouco de confusão?
Não me lembro o preciso momento em que algo na esquina moveu minha atenção para fora do meu próprio umbigo e eu decidi olhar, esquecido da possibilidade de escolha entre ir e ficar (mal sabia eu que essa seria minha última possibilidade de escolha, que daquele dia até hoje eu não conseguiria optar por uma rua ou por outra, que escolher um vinho em um restaurante me levava horas, que eu sequer planejava o banho porque o momento vinha impiedoso, e eu simplesmente me levantava e ia, sem sequer conhecer o verbo optar, optar por não tomar mais banho, não mais comer ou dormir ou respirar, eu simplesmente fazia a coisa toda no automático, acordar comer respirar comer tomar banho e dormir, e assim se ia meu dia e minha semana e meu mês, repleto de uma falta de opções). Mas algo ocorreu naquele instante em que meu joelho se dobrara e eu pensara em me encaminhar de volta para a Sá Ferreira; um acidente qualquer, um pára-quedista caindo na orla, um assalto, um naufrágio. Alguma confusão encorpou na esquina com a Farme e eu acabei ficando para saber o que era. Estiquei o pescoço, os músculos rangendo com o esforço, espremi os olhos sob o sol e desvendei umas vinte cabeças que surfavam as tantas outras, sumindo e reaparecendo como que em movimento circular, e a briga estava ficando feia e eu resolvi que era hora mesmo de ir para casa, era hora de tomar um banho, abrir um vinho dentro do ar condicionado, quem sabe ouvir um pouco de jazz, dar uma olhada em um filme, dormir. E circundei o tal poste pela esquerda e rumei para mais perto do túnel, os cheiros todos do bloco, os cachorro-quentes das barracas, a borracha dos pneus estacionados queimando, o barulho da banda sendo levado pelo vapor da calçada até minhas narinas, e enquanto isso eu sequer percebia que tinha algo, tinha algo bem atrás no meu cérebro que ia marchando nariz adentro até alcançar meu peito, e eu sequer me dei conta de que, da mesma forma que aquela havia sido minha última escolha, aqueles seriam meus últimos aromas se não levarmos em conta o perfume dela.
Até agora.
A questão do acidente em nada ajudou minha descoberta, não diretamente, mas se não tivesse havido um acidente eu teria ido para casa segundos mais cedo, e não a teria encontrado. Não foi perto da Farme que a encontrei, como posso ter insinuado a um leitor mais ansioso. Não foi sequer no circuito da orla mas enfiado no meio de Ipanema, quando já cansado do calor fevereiro no Rio, detestando carnaval e esperando lavar toda aquela folia da minha pele, entrei em uma livraria procurando um ar condicionado que contrastasse com o mormaço que carregava o samba, eu queria era um jazz bem solto, algo que me levasse talvez de volta à Orleans com Isabel, uma coisa mais bayou que cajun, eu queria fugir do Rio naquele instante, e por isso sacudi a poeira carioca das minhas costas e entrei na livraria, o ar ríspido me acariciando a pele quente, e me encaminhei direto para a sessão dos cds de jazz me sentindo um pouco rei um pouco príncipe, que na minha cabeça ninguém mais estaria ali, nenhum corpo estaria escondendo parte da estante dos meus olhos, eu achei quando entrava na livraria que eu seria a única viva alma a buscar jazz no carnaval do Rio (que em nada se assemelha ao do French Quarter, Isabela um dia disse) e por isso me encaminhei para a sessão de jazz com um andar meio posudo, sentindo orgulho da minha exclusão voluntária, como se isso me validasse diante de todos os medos da vida, um cara que ousava pedir jazz em pleno carnaval não podia ter medo de mais nada, nada o assustaria, era a ousadia em pessoa e que coragem, que cara e que coragem! eu pensava enquanto subia as escadas.
E, mesmo ao vê-la, achei ainda que eu era o cara impiedoso e cruel que tinha sido por segundos ao subir as escadas, porque as costas dela eram estreitas e mal tapavam três fileiras de cds, e ao invés de achar que eu já estava perdido quando vi os pequenos fios loiros que adornavam-lhe a nuca eu ainda tive tempo de ficar um pouco irritado, quem era a estranha que adentrava meu castelo vestindo um short e uma camiseta azul marinho, o que ela estava fazendo ali e por quê ninguém ainda a tinha retirado mesmo que a força?, eu me lembro de ter tido esses pensamentos enquanto me encaminhava e me postava atrás dela, os cabelos curtos em desalinho que mais tarde eu conheceria não ser resultado de travesseiro mas das mãos dela que são aceleradas, eu me postei em urah atrás da estranha, meu peito já meio estufado e a barriga encolhida, que naquele momento eu era rei e príncipe herdeiro, e ela estava no meu território e aquela invasão me incomodou muito, seria fácil enxotá-la, e era isso que eu iria fazer, eu iria enxotá-la dali, demorar o tempo que eu quisesse escolhendo um cd de jazz, marchar para o caixa e deixar a livraria carregando a pequena sacola preta e rumar para casa esquecido do incidente e todo o reino iria sorrir porque a ordem estava restaurada. E eu ainda pensava em tudo isso quando a porra da tecnologia me traiu, e uma lufada de vento vindo do ar condicionado acariciou a parte de trás do pescoço dela e ergueu a mão em concha oferecendo aquele perfume às minhas narinas, e eu precisei de ar no mesmo instante, traído pela porra da tecnologia, da física, da biologia, e achei que eu sentiria incólume aquele perfume pela primeira vez e continuaria minha jornada para esquecer Isabel.
E tudo seria fácil assim se não fosse o perfume dela, só dela, e se eu não o tivesse aspirado com mais força do que eu podia, e ela não tivesse se virado ao som do meu movimento e me fitado com espanto daqueles olhos azul carbono, e se naquele momento eu não estivesse completamente vendido, e ela não tivesse sorrido ao ouvir o martelo da compra, e eu não a tivesse beijado ali mesmo uns quinze minutos depois, sabendo-lhe as preferências musicais mas não o nome, a minha mão segurando-a pela nuca e aquele perfume que ficou na minha pele desde então e é ainda tudo o que sinto, mesmo agora, quase um ano e cinco encontros depois e todo um oceano de esquecimento do resto, de jazz e de Isabel e de cajun e bayou, e ontem ela me disse que está indo embora, vai morar em Paris com umas amigas, e aqui estou eu novamente, e mais uma vez é carnaval, mas este ano eu sequer vou ir ver a Banda de Ipanema porque há muitos meses eu já perdi a habilidade de sentir o cheiro de mar.
BARBARA LIMA
Cena I – Ipanema
Vinha só de sunga e chinelo.
Desde que se aposentou, fez das manhãs ensolaradas na praia, rotina. Caminhava relaxado depois das partidas de vôlei com os amigos. As poucas centenas de metros da orla até sua casa serviam de passarela às morenas, negras e louras em seus biquínis pequeníssimos a caminhar com sensual despojamento. Sorria. Sorria aos jovens malabaristas de sinais, que, mesmo com vida sofrida, se divertem com as bolinhas coloridas a subir e descer, obedientes que são aos movimentos rápidos dos bracinhos habilidosos.
Ali, na esquina da Joana Angélica com Visconde de Pirajá, ele se sentia mais em Ipanema do que em qualquer outra esquina do bairro. Talvez pela tranqüilidade dos livreiros ao redor da Nsa. Sra. da Paz, ou, quem sabe, pelas velhinhas ao depositar suas promessas ao lado da igreja. Não sabia o motivo, mas não esquentava a cabeça. Para refrescar, o mate geladíssimo da Padaria Ipanema. Desde que o doutor proibiu o açúcar por causa da diabetes, não abusava mais dos sorvetes mirabolantes da Chaika. Uma pena.
Seguia em direção à Lagoa para ver a capivara antes do anoitecer; os pedalinhos e seus casais de namorados; a turma forte e sincronizada que dava suas remadas aos gritos do timoneiro. E as bicicletas passavam zunindo, os jovens faziam cooper e os cachorros pareciam sorrir com seus cocos na boca. O engarrafamento até o Rebouças, que podia ser visto pelas luzes dos faróis que começavam a se acender, avisava que era hora de voltar para casa.
Ia só de sunga e chinelo.
***
Cena 2 – Laranjeiras
Passou correndo pela barraca multicolorida de pimenta. Atrás dele, um rapaz já com uma certa idade e ar de poucos amigos. Cruzou o caminhão que serve como venda de pescados frescos. O moço mal humorado ganhava a companhia de outros não menos furiosos. O moleque fugia aos brados de “pega ladrão” mas não esquentava a cabeça. Avançava pela General Glicério e, à sombra das copas das árvores, sorria tão feliz que nem parecia que uma pequena multidão estava prestes a aplicar-lhe uma surra. Descalço, veloz e sem camisa, o garoto ziguezagueava entre os feirantes naquele sábado de março.
De tão ligeiro, não viu a hora que puseram a perna para tropeçar. Em centésimos de segundo, estatelava-se no chão. Por um momento, o sorriso largo ficou miúdo. “Vou te dar uma coça para aprender a não roubar mais as minhas rosas”, ameaçou o florista. Imediatamente, os músicos que batem ponto no chorinho da praça emendaram à melodia os seguintes versos: “Não maltrate o garoto, não/ ó, seu moço da flor/ o menino é gente-boa/ e
só rouba por amor...”.
Percebendo o momento de comoção, o rapazote arregalou os olhos brilhantes e, de um pulo, pôs-se em pé. Esboçou os passos de uma dança, mas, prudente, tratou de chegar logo na casa dela. Precisava urgentemente entregar a rosa à sua amada.
***
Cena 3 – Botafogo
Dona Mariana ficava sentada na sacada de sua antiga casa em uma rua arborizada de Botafogo. Olhava de soslaio para Dr. Ivo Pitanguy, fingindo não perceber que outros a desejavam. Um desses rapazes, um jovem rico, morador de uma luxuosa casa no quarteirão seguinte, trovava versos para sua amada pontualmente às 17 horas. Seu nome? Eduardo, Eduardo Guinle. Mas a paixão era proibida: Dona Mariana tinha idade para ser sua mãe.
Edu, como os amigos o chamavam, era um excelente aluno do Colégio Santo Inácio, tradicional escola a poucos metros da casa de Mariana, na rua São Clemente. Às vezes, matava aula e declamava serenatas adolescentes até Guilhermina, sua irmã mais velha, ir buscá-lo:
- Deixe de fazer papel de bobo. Essa Dona nunca será sua!
Edu saía cabisbaixo, embora soubesse que no dia seguinte ali estaria novamente. Sua tristeza só diminuía quando encontrava Bambina, uma formosa dama que, por um punhado de notas, o faria esquecer de Mariana naquele dia.
E assim Edu levava a vida. Todo ano, no dia 19 de fevereiro, seu aniversário, ele fazia o mesmo pedido. Dona Mariana havia de ser dele. Mas, para falar a verdade, nem ele acreditava nisso, embora não confessasse a ninguém, nem a Arnaldo Quintela, seu grande amigo desde pequeno.
Um dia, ainda suado do futebol que jogava com os colegas no fundo do quintal do General Severiano, ouviu uma voz o chamar. Olhou para os lados, não viu ninguém. Continuou, havia de ser apenas a imaginação. Escutou novamente. Atrás daquela sombrinha, usando luvas que cobriam quase metade do braço, a doce e bela Dona Mariana:
- Me acompanharia em um café?
Sorriu de felicidade, mas com todo o respeito que merecia uma senhora com idade para ser sua mãe.
***
Cena IV – Lapa
Na Mem de Sá, um pouco depois dos Arcos da Lapa, entrei à direita na Rua do Lavradio. É o primeiro sábado do mês e a rua está fechada pela feira de antiguidades. Se não bastassem as portas abertas dos sobrados a exibir orgulhosamente séculos de bom gosto em cada centímetro de madeira dos móveis expostos nos antiquários do bairro, pessoas vendem de tudo em suas barracas ou em panos estendidos pelo chão: de gramofones a discos de vinis, passando por telefones antigos, times de botões da época do vovô e candelabros que reluzem à luz quente do sol.
Depois de frear meus impulsos consumistas, sentei em uma cambaleante cadeira de metal para comer uma feijoada regada à cerveja abaixo de zero, uma estupenda mistura que promove horas adoráveis de bate-papo com os amigos. A batida de limão servida antes da refeição afaga o estômago e o aquece para o feijão com paio, costela de porco e carne seca. A química, seja dos escravos ou dos portugueses (vai saber?), é tiro e queda: alimenta amizades calorosas e duradouras. Difícil mesmo é se levantar de lá e ir embora.
Mas resolvi poupar minhas energias, porque sabia que a Lapa, generosa como só ela, assim que as estrelas aparecessem, poderia me convidar para dançar aos passos de samba e chorinho nas inúmeras casas da região; ao ritmo das bases eletrônicas que servem de pano de fundo para MCs fazerem seus versos; ou, até mesmo, ao som distorcido de guitarras amplificadas no Circo Voador. Só vai depender da minha disposição.
***
Cena 5 – Leblon
Saí do trabalho. Sexta, véspera de feriado. Um engarrafamento monstro. Chego com uns amigos no Leblon para sentar num boteco e tomar uns chopinhos. O tráfego ruim não acabaria antes da quinta rodada. Botequim gostoso tem bolinhos saborosos e bebida congelando. Mesa de metal e banquinhos informalíssimos também contribuem para a sensação de cumplicidade velada. Sabe quando você está em um lugar onde não conhece ninguém mas se sente parte dele? Então, é a cumplicidade velada. Sem ela, os barzinhos do Leblon não seriam no Leblon.
Chicôôô. O garçom sorri um sorriso apressado. Em passos que derramam um pouco do chope na bandeja, ele põe sobre nossa mesa uma porção de bolinhos de bacalhau. O quitute estala ao toque do azeite e da pimenta. Delícia. Dar atenção ao estômago é fundamental para manter o bom humor das conversas de bar. Conversas que deveriam ser tombadas pelo seu valor de socialização. Todas as mesas estão cheias de pequenas confraternizações. Mesmo os solitários do balcão, vão ao boteco porque encontram no atendente, além de um ótimo fornecedor de chope, uma companhia para ouvir e falar.
Fomos embora do bar. Cada um toma o rumo mais fácil para a casa. No caminho até o ponto de ônibus, o bairro apresenta sua faceta interiorana: as pessoas se cumprimentando ao se cruzarem nas calçadas – muitas delas moram lá desde que nasceram –, o jornaleiro que conhece os clientes pelo nome e o vendedor de bolo de coco com aipim que circula com sua carrocinha. A simpatia do Leblon. Ah, o Leblon...
TIAGO VELASCO
Saí da rodoviária e peguei um circular para cruzar o centro e chegar ao Jardim Botânico. Tinha uma única missão na capital fluminense: entrevistar o maior documentarista brasileiro. Nada em mãos, nenhum encontro agendado ou intermédio de conhecidos. Sabia apenas que ele estaria no Rio no fim de semana. Carregava na minha mochila o endereço de seu apartamento e o telefone do escritório. Antes de partir de São Paulo, escutei do meu chefe: “o cara é meio arredio, não vai ser fácil”. Era um aviso.
Não seria uma entrevista corriqueira. Além de tarefa encomendada, era a chance de bater papo sobre os filmes que me despertaram para a realidade do país; dos trabalhos mais honestos realizados por um artista brasileiro. Nem gastei muito tempo colhendo informações sobre sua vida, sabia muita coisa de antemão, só anotei no pedaço de folha sulfite algumas datas relevantes. O maior temor era colocá-lo na frente da câmera, justamente o homem que conhecia todas as artimanhas na hora de sabatinar alguém.
Antes de procurar um hotel, resolvi fazer uma ronda a pé pela região onde ele morava e verificar o endereço que tinha registrado no meu bloquinho. Saltei do ônibus e tive de caminhar um bocado. Gostei do que vi, as árvores frondosas sombreando meu caminho e os primeiros botecos com cadeiras espalhadas nas calçadas. Muito chope na mesa e pouco terno nas pessoas. Comi ali mesmo, arroz com bife acebolado, um montinho de farofa no canto do prato e uma cerveja.
Lavei o rosto no banheiro e percebi que minhas pernas suavam debaixo da calça jeans. Saí do bar com a mochila pendurada nas costas. Senti meu corpo mole e fiquei com preguiça de voltar a caminhar. Parei numa pracinha cortada por um córrego e sentei-me no banco de cimento. Mesmo sabendo que não encontraria meu entrevistado assim de primeira, ensaiei frases para eventualmente combinar um horário e local onde pudéssemos conversar.
Apertei o interfone e aguardei. Vi que o porteiro saía de uma porta no saguão de entrada do prédio e dirigia-se para a cabine de vidro fumê. “Pois não?”. Apresentei-me e perguntei pelo entrevistado. O homem com sotaque nordestino demorou a dizer o número do apartamento e falou logo que o senhor Coutinho passava manhãs e tardes no escritório. Agradeci e voltei para a pracinha. Fiquei satisfeito de pelo menos saber que minhas informações estavam corretas.
Após sondar hotéis em Copacabana e Ipanema, me dei conta de que minhas economias para a viagem seriam insuficientes. Teria de optar por uma diária mais em conta. Fiquei zanzando feito barata tonta pela cidade. Ora pegava informações com taxistas, ora perguntava para pedestres apressados e camelôs. Andei perdido debaixo do sol, minhas costas encharcadas e os joelhos moídos de tanto dobrar. Poucas informações oferecidas nas ruas eram certeiras e a maioria fazia eu andar em círculo por becos desconhecidos.
Atravessei os Arcos da Lapa e finalmente encontrei três hotéis aparentemente com preços razoáveis, dois de esquina. Acertei os detalhes, preenchi uma ficha e subi as escadas. Joguei meu corpo no colchão coberto por um lençol branco manchado. Dormi de roupa.
Acordei com uma conversa invadindo a janela entreaberta do meu quarto. Levantei sem saber onde estava. As vozes eram de dois homens jogando cartas no barzinho em frente ao hotel. Agora de noite, a paisagem transformara-se, os neons borrados nas paredes, as luzes dos bordéis acesas e as prostitutas perambulando lá embaixo, as saias curtíssimas e os peitos estufados. A rua ordinária do fim de tarde ganhara vida. Vibrava lasciva. Debrucei-me no parapeito e fiquei inspecionando os detalhes. A mistura de sons e luzes fez-me lembrar da Rua Augusta. A mesma transformação acontecia ali, só que no lugar dos jovens roqueiros figuravam rodas de samba.
Liguei duas vezes para o entrevistado, ninguém atendeu. Deixei recados explicando que estava no Rio e que gostaria de marcar uma entrevista. Depois desci para comer alguma coisa e voltei cedo para dormir.
De novo no Jardim Botânico atrás do senhor Coutinho. “Ele não está”, o porteiro, agora outro, com o mesmo sotaque nordestino. Tentei outra saída. Perguntei se poderia conversar com alguém que pudesse transmitir o recado para ele. “Pode deixar que eu mesmo falo quando ele chegar”. Tudo bem, mas gostaria de deixar por escrito meu nome e telefone de contato. O porteiro, ainda desconfiado, resolveu acreditar na minha história e abriu o portão de grades de ferro. Sorri de satisfação. Deixei o bilhete na portaria e, ao sair, perguntei quando ele costumava voltar. “Lá pelas quatro”.
Era quase meio-dia. Teria que queimar tempo até tentar encontrá-lo no horário previsto pelo porteiro. Pela primeira vez, fiquei desanimado e sem a convicção de conseguir entrevistá-lo. Já pelejava há tempo um contato e não havia recebido qualquer retorno. Guardei gravador, caneta e bloco na mochila e fui caminhar na Lagoa Rodrigo de Freitas.
Quem sabe não encontraria cronistas ali. A alma desolada do Cony. Andei atento para enxergar o fascínio do caminho tão narrado por velhos românticos. Com os olhos duros e prontos para criticar o saudosismo piegas de certos sambistas.
Nos primeiros passos, encontrei um casal de velhinhos sentado no banco, com o jornal aberto, escondendo seus rostos. Tapando também a vista dos inúmeros quiosques que se seguiam ladeando o caminho de pequenas pedras. Na ciclovia, revezavam-se crianças em triciclos e homens de porte e roupa atlética suando satisfeitos de estarem em forma. De repente, uma paisagem monumental se abriu aos meus olhos. Era como “a máquina do mundo” de Drummond. Devagar, pétala por pétala. O contraste das montanhas e picos com prédios e moradias, os pedalinhos em forma de cisne circulando mansamente nas águas.
Percebi então como era fácil viver no Rio e porque essa terra era tablado inspirador de poesias doces. Caminhei por muito tempo sem me cansar da vista. Mesmo ela se repetindo por todos os cantos, morro após morro. Passei pelo clube Naval, por quadras poliesportivas e por garotos andando de esqueite e patinetes. Era sexta-feira, duas da tarde. O tempo passava sem eu me dar conta.
Retornei ao hotel, após ter passado mais uma vez no prédio do Jardim Botânico e ter recebido a mesma resposta: o seu Coutinho não está. Desconfiei do porteiro, mas não podia falar nada. Reclamar pouco adiantaria. Mesmo assim, retifiquei meu pedido da manhã: assim que o encontrasse, era para entregar meu recado em mãos.
O celular tocou enquanto eu tomava cerveja na praia de Copacabana. Voz de mulher. “Um momento que o Coutinho vai falar”, anunciou. Ele falou tudo muito rápido e diretamente, meio sem jeito e com desleixo. Acatei atento e perguntei qual seria o melhor horário para conversarmos. Acertamos os pormenores: sábado à noite, no apartamento dele. Desliguei o telefone e exibi uma satisfação clara no rosto. Pedi outra cerveja.
Permaneci calmo durante o resto do dia. Talvez o sol muito quente tenha me sugado a energia. Isso era ótimo, conseguia pensar melhor quando estava tranqüilo. Corrigi algumas informações no quarto do hotel. Ajeitei inúmeras vezes as fitas cassetes do gravador. Experimentei a tinta das canetas e anotei, por fim, algumas perguntas capitais.
O porteiro demorou no interfone até dizer: “pode subir, o seu Coutinho está esperando”. Agradeci e entrei afoito, subi dois lances de escada e peguei o elevador. Vestia uma camisa verde e uma calça marrom. Tinha a testa um pouco molhada. A porta abrindo-se e logo atrás um sujeito de camisa xadrez aberta na altura do peito, bermuda bege e chinelos com tiras de couro. O cabelo levemente despenteado. Era meu entrevistado. Foi muito cortês e chegou a pedir desculpas por não ter respondido antes, disse que costumava ter problemas com jornalistas.
Sentei-me do seu lado num sofá de couro preto. Quando fiz a primeira pergunta – sobre sua infância – Coutinho redargüiu desanimado: “Nossa, isso vai longe”. E foi mesmo. Conversamos durante uma hora e meia. Ele falou longamente sobre todos assuntos, apenas interrompidos por dois telefonemas da sua esposa. Deixei o prédio e fui jantar em um dos quiosques da Lagoa, com o gravador colado na orelha e o bloco de notas rabiscado sobre a mesa.
FERNANDO MASINI
Fernando Masini é jornalista e editor do Clube dos Cronistas Cotovelares (www.cotovelares.com).
paulette tinha tomado uma decisão firme. quase nunca fazia isso. não gostava de não poder voltar atrás. preferia ter um leque amplo de opções sobrepostas umas às outras, para que pudesse manter um vir-a-ser inesgotável, uma eterna imanência. mas havia chegado a hora de começar a curtir a vida com o mesmo afinco que dedicava ao trabalho. era apenas deixar o corpo ir, que a alma trataria de acompanhar.
chamou sua amiga mais cúmplice e foram rumo à disneylândia existencial, com o objetivo único e exclusivo de se divertir com os meninos errados. acabaram optando pela zona norte, por ser menos asséptica. em menos de duas horas já tinham virado tema e centro e quadrado da hipotenusa. eram as próprias donas da situação, mais poderosas que qualquer trio de arbitragem. precisavam apenas estar disponíveis e à flor da pele, para se sentirem confortáveis na posição de musas. pode parecer simples no posto nove, mas em madureira ser musa era outra coisa: exigia atitude, rebolado e curvas passíveis de feijoadas com orelha de porco. era preciso também ter tomado sol na laje. não era pra qualquer uma virar musa dos poetas inconcretos, dos artistas de palco improvisado, dos cineastas com filmografia em vhs. era preciso aprender a ser imprescindível, a não ser mais uma das infinitas gostosas que vêm embrulhadas para presente em vestidos de sensualidade previsível, facilmente digeríveis por gregos acomodados e troianos insípidos, desses que já perderam a capacidade de sentir alguma coisa além do óbvio. o cansaço blasé já havia feito estragos suficientes. era tempo de cerveja com churrasco, de sábados dormidos em camas de solteiro alheias às suas. na verdade era tempo de sábados suados em camas de solteiro alheias às suas, porque dormir era coisa pros domingos, depois de tudo, quando voltavam para as suas casas e faziam um balanço do fim-de-semana carne ao ponto e bola na rede.
dali em diante, para paulette e sua amiga cúmplice, os domingos seriam para verificar os avanços nas suas recém-iniciadas carreiras de musas zona norte. assim, poderiam brindar àquilo tudo que passou, porque suas almas precisavam de alguma coisa além da beleza pura, simples e politicamente correta. e também porque a geografia de suas vidas podia até começar na gávea, mas nunca, de forma alguma, terminaria na lapa. nem em santa teresa.
e para aplacar o vazio inevitável dos domingos que sucedem os sábados cheios, o brinde tinha que ser com a única bebida capaz de tirar o gosto da cerveja, da poesia e das camas de solteiro suadas: o bom e velho campari.
não é toa que dizem que só ele é assim.
POLIANA PAIVA
Poliana Paiva é formada em teatro pela CAL e em cinema pela UFF. Sua experiência profissional é basicamente em curtas metragens universitários, documentários e programas de TV, nas funções de assistente de direção, produtora, pesquisadora, roteirista e atriz. Sua filmografia consta de dois curtas: o vídeo experimental "Fragmento de uma mulher sozinha" (2002), baseado numa peça de Dario Fo, e a ficção em 16mm "Onde a noite acaba" (2005). Poliana mantém o blog http://flordelaranja.multiply.com/
Eu me chamo São Salvador. Este nome remete a lugares em Portugal, a um bairro em Belo Horizonte e a uma ilha das Bahamas. Diante disso, o que importa mesmo é que tenho idéias, penso e até formulo opiniões sobre religião. Meu esporte preferido é observar. Já perguntaram se esse exercício é fatigante, claro que não, esclareço. É olhando que nos aproximamos mais das pessoas, descobrimos uma amizade nova, a vagabundagem, um caso de amor, a malandragem ou mesmo uma história contada pela metade.
Quem me olha de longe pode pensar que não faço nada da vida, mas existo e isso dá trabalho. Olho com inteligência para os que passam. Especulo sobre suas profissões, desejos, pressas, crimes, desafetos, felicidades e tristezas. São os personagens do espetáculo da cidade.
Gostaria de estar mais próxima do Paço Imperial, onde o Rio de Janeiro nasceu. A questão é que sou uma rua discreta e calma. Chego até o cento e quinze, depois não sei mais. Não alcanço o centro, mas como o rio em busca mar, faço conexões com outras ruas que chegam lá. Escuto o que as pessoas falam dele.
Sou um ser vivo e móvel, não era esse o conceito de João do Rio sobre a rua? Reflito os que moram aqui, os que me confundem com outro endereço e os que passam despreocupados para ouvir a roda de samba no coreto da praça São Salvador. Gosto da simplicidade dos entregadores, em suas bicicletas, dos carteiros e porteiros, do contato com as ruas Martins Ribeiro, Esteves Jr. e Senador Corrêa. Mas tenho inveja da Marquês de Abrantes. Por que o Lamas está lá?
Aos sábados, religiosamente, o vendedor de abacaxi vende suas frutas. A gargalhada e as conversas altas jogadas ao vento dos que tomam chopp, na Adega da Praça e no bar Casa Brasil, anima as tardes. Essa gente alegre pauta assuntos numa lista sem fim.
As meninas passam. Crescem. Ficam mulheres com cheiro dos bairros e das ruas. O meu cheiro é orvalhado; o de Botafogo é a mistura de perfume e cigarro; o da Rua das Laranjeiras remete as folhas secas do outono; o Flamengo tem cheiro de rosas; o Cosme velho de terra banhada pela chuva. Também há homens com cheiro de rua. Antes identificavam os rapazes do largo do Machado pelo perfume que usavam, o “cabelo à americana, roupas amplas à inglesa, lencinho minúsculo no punho largo, bengala de volta, pretensões às línguas estrangeiras, calças dobradas como Eduardo VII e toda snobopolis do universo”. Esse mesmo tipo, hoje, usa All Star, cabelos à moda Edward Mãos de Tesoura, jeans surrado e camisetas básicas com estampas urbanas ou frases em inglês. Mas, há outros tipos por aqui, há os com jeito interiorano, que vão tomar suco na sorveteria Copa 74 e comprar pão na Padaria e Confeitaria São Salvador - os padeiros garantem ter o melhor pão da fronteira Flamengo-Laranjeiras. Sim, esqueci de dizer que, metade de mim pertence ao Flamengo e a outra metade a Laranjeiras. Os dois bairros me possuem.
Os transeuntes têm expressões próprias. Os moradores têm hábitos comuns, lêem os mesmo jornais, assistem aos mesmos filmes e se encontram na creperia da Travessa dos Tamoios, na Adega do Juca, no Devassa e até no Bar Getúlio, no Catete. É inevitável não reconhecer um morador da São Salvador.
Sou uma rua humana, a exemplo das que me cercam e das que se avizinham, abrigo os mendigos que dormem nos bancos de concreto cor de telha, na Praça Jose de Alencar. Há uma senhora que não enxerga muito bem. Ela arrasta todas as manhãs uma grande sacola com seus pertences, a cada semana, uma moça de vinte e poucos anos lhe dá uns trocados para um café.
À noite todas as janelas ficam acessas com o reflexo prateado das TVs. Depois de um dia de trabalho, os moradores carregam idéias particulares e intransferíveis; mudam o jeito de vestir e de andar. Escuto uns falarem mal de inimigos, confessarem mágoas, sorrir pelo simples fato de estar vivo; e, os que são da boemia, pisam trôpegos no asfalto guiados apenas pelo instinto em silêncio. Para se expor na rua é necessário coragem. Os que flanam não se incomodam com o vento que leva as palavras. Outros lamentam as promessas que desaparecem no ar: o convite feito para um café, o número de um telefone que não foi anotado, um endereço para visitar que alguém esqueceu de dar, a possibilidade de um jantar...
Os insones, diante da psicologia das construções, acedem cigarros no parapeito das janelas. Constroem a rua ideal sem precisar sair da janela nem mudar a própria vida.
Sou a São Salvador, rua carioca, substantivo feminino entre dois bairros. Nem sou estreita nem apinhada de gente. Sou a cidade com as cores das rosas, das gérberas e dos cravos vendidos, de terça a domingo, pelo florista que monta e desmonta sua banca na esquina com a Ipiranga. Para me decifrar não basta me localizar no mapa, é preciso ser íntimo do verbo flanar e saber que uma rua é tão perecível quanto as pessoas que nela deixaram seus registros.
ELIS GALVÃO
Vencidos os 21 degraus da escada-caracol que leva ao terraço da casa, encontro o que resta da minha família dentro da piscina pré-moldada de fibra de vidro. Mãe, tias e tios – todos nus. Sei desde criança: quando o verão atinge 40 graus no Rio de Janeiro, não há mais lei nesta casa de subúrbio. Um cão pincher de 30 centímetros e meio, e pêlo da exata tonalidade dos cabelos de minha tia, também está na água, nadando um pouco melhor que seus pobres parentes humanos. São todos inocentes, sou eu quem sinto culpa e constrangimento infinitos.
– Yafa é mais limpa que muita gente que eu conheço – garante a tia, a quem ninguém ousará contrariar. Nem mesmo passa pelas suas cabeças molhadas que o cão deva ser discriminado de qualquer maneira, limpo ou não. Consta que a cadela salvou duas crianças de morrerem asfixiadas durante uma festa junina nesta rua em 1987. Embora tios, primos e vizinhos atestem ser a mais absoluta verdade, ninguém sabe explicar direito como aconteceu o ato heróico da cachorra, nem mesmo que mudança extraordinária se deu em sua natureza para que se pusesse, de repente, disposta a ajudar crianças. Yafa não gosta de crianças. Yafa tentou me morder pela primeira vez quando eu tinha cinco anos de idade e desde então jamais parou de tentar. Yafa é o cão que guarda as portas do inferno, e um dia por acaso subiu à Terra, vindo parar no subúrbio. Um animal irascível e paranóico, de latido agudo, angustiado, com dentes afiados e uma indefectível verruga preta no traseiro esquerdo, que cresce conforme ela atravessa as décadas como soberana desta casa.
– Nada, Yafa! Nada pra mamãe ver!
– Tia, as roupas pro bazar.
– Olha só! Yafa! Yafa!
Yafa significa "bonita" em hebraico.
– A beleza da mamãe... pega a bolinha, pega! – E vareja a bolinha na direção das cadeiras de praia, empurrando a cachorra para fora da piscina. Yafa arfa e corre. – Bonita! Bonita!
Etc., etc., etc.
Olhando de cima, tenho a impressão de que a água parece capaz de puxar cada grande peito da minha mãe até o fundo da piscina. Posso ler o futuro dos meus peitos naqueles peitos, com clareza absurda, apesar da cor esverdeada do cloro. Por instinto, ajeito meu par dentro do sutiã. Talvez, quando chegar a minha hora de içá-los cirurgicamente, isso já seja tão barato quanto fazer as unhas.
Largo no chão duas malas cheias de roupas para o bazar do centro espírita. Então, só dá tempo de encher o pulmão antes de me atirar dentro d´água como uma bomba quando o tiroteio começa.
Abro os olhos ardendo no cloro, e o que resta da minha família, submersa, levanta as mãos e abana para mim, indicando que devo permanecer debaixo d´água. Pego ar e mergulho outra vez. Encaro o umbigo da minha mãe, emoldurado pelos seios enormes. Meu jeans pesa instantaneamente, a blusa branca fica transparente, os tênis ficam mais largos nos pés, como se quisessem me deixar e boiar acima de nós.
E as granadas vão boom boom-boom boom boom boom-boom, numa versão mais grave do coro feminino na música de Lou Reed, que Marky Mark sampleou em 1991 e um funk ressuscitou hoje, mais vulgar e poderoso. E nós, no bunker uterino de fibra de vidro, boom boom-boom boom boom boom-boom.
Amanhã dois garotos no ônibus a caminho do colégio público vão discutir se a coisa começou às onze da noite ou às onze e 15, com metralhadoras, parando às onze e meia para retornar à carga às três e ir até às quatro e quarenta, quatro e quarenta e cinco, com a invasão do Morro do Dendê pelo Batalhão Especial. Os garotos passarão a noite despertos, cronometrando, para competir no ônibus, no dia seguinte, a respeito de quem ficou mais tempo acordado que quem.
As quadrilhas debatem a posse de territórios fazendo voar argumentos sobre as casas da vizinhança, como antes as famílias do bairro se constrangiam mutuamente aos berros, brigando em aberto por causa de pouco dinheiro, uma bebedeira, um filho ilegítimo, traição, sandálias de dedo, domingo. Não que tenham parado com isso. Agora há o coro das pretas que vão boom boom-boom boom boom boom-boom e os encapuzados boom boom-boom boom boom boom-boom e a rua boom boom-boom boom boom-boom boom. E respiramos. Os movimentos para roubar oxigênio entre as balas e tornar a submergir são ágeis, carnes balançando e tudo.
Numa das subidas, percebo que o pincher aguarda o fim do tiroteio sob uma cadeira de praia que virara peneira. Não dou o alarme, precisamos descer rápido outra vez. Agora confiro de perto, debaixo d´água, o resultado da conversão tardia do meu tio ao judaísmo, realizada pouco antes de ele se casar: o quão dolorosa é uma circuncisão feita aos 30 e poucos anos?
Antes que eu veja mais alguma marca de família, tiros, granadas e dois helicópteros da Polícia Militar se calam. Estamos de novo na superfície. As casas de tijolos, que se multiplicam igual capim em torno das nossas, voltam a piscar acesas. As duas malas de tecido de jacquard com revestimento especial para evitar a retenção de líquidos estão perfuradas um bilhão de vezes, as roupas estraçalhadas. As mulheres do bazar do centro espírita ficarão decepcionadas, mas sem necessidade de culpar os santos. Afinal, minha família resta, inteira. Com exceção de Yafa.
A noite fica sossegada outra vez, cheia de mortos bem ali perto e de luzes nas janelas.
CECILIA GIANNETTI
O corpo cansado, como quem estivera amarrado em infinitos feixes ou correias ligadas a pesos, invisíveis aos demais passageiros. O torpor ou fadiga fruto não do levantamento de peso, antes causado pelo abrir e sair de portas, o sol transplantado para o fundo de cada sala, que apesar das diferenças de dimensões, mantinham as indiferentes características de mesa e cadeiras e pessoas como uma pintura monocromática.
O cansaço era como um remédio mal digerido ou mal absorvido pelo organismo, diante dos infinitos nomes, numerados, repletos nos diários, gerados pela confusão, justaposição e mistura de rostos e consoantes, criando surpresa, dissonância ou horror, como Vasiguiton ou Ardson ou qualquer outra cópia incompleta de Richardson. Nomes gerados pela necessidade de perpetuação, sobrevivência e desejo que irrompe de mulheres e homens, novos, inconseqüentes e imberbes.
Exaurido, seguia como um outro Prometeu, sentado, desfrutando do ar condicionado, quase um lenitivo para quem deixava para trás de si a Ilha do Governador às onze horas da noite. Imaginando o dia seguinte como uma roda de hamster, caminhando rápido no mesmo lugar, enquanto observava as luzes que morriam na Estrada do Galeão, como se todo o comércio hibernasse num inverno imprevisto e noturno, para em seguida, enquanto recapitulava o dia e o esforço de decapitar jacobinos ali, expulsar holandeses acolá, constituir capitanias hereditárias mais adiante, pensando sem o brilho, calor e imprevisibilidade dos seres humanos, mas antes equações monocórdias, conjunção de ângulos revestidas de carne.
As luzes que provinham de Niterói e do Centro do Rio avistadas da praia do Galeão tornavam a vontade de estar em casa indescritível, pulsante, quase desesperador.
O rumor e cair das ondas, ir e vir, como borrões negros parecia acompanhar o ritmo do ônibus confortável e lento, que a custo dobrava para entrar na ponte velha com a mesma luz amarelada e suave do bairro da Glória, não sem antes parar no último ponto da Ilha para que o despachante pudesse conferir passageiros e passagens.
- Você viu, bem ali na frente, ele chegou ali e abriu a porta e foi na árvore.
- Sério, quando isso?Resmungou o motorista.
- Sério, agorinha mesmo, já chamaram os bombeiros, mas ainda nada, bem ali, quando você passar com o ônibus dá uma olhada ali – apontou o despachante para a esquerda que dá acesso à ponte. Em direção ao meio de árvores. – Pois é rapaz, até amanhã.
- Até amanhã.
O automóvel seguiu a passos de trator, enquanto seus olhos procuravam em meio às árvores, qualquer coisa de anômalo, uma marca física, topográfica, maior; para além do táxi estacionado de porta aberta. As janelas embaçadas pelo choque entre o frio e o calor externo, percorrendo até notar pendurado pelo pescoço, o rosto diluído no verde e escuridão e o cinto tornado um galho a mais, enquanto devido à luminosidade declinante fabricava a árvore inutilmente oxigênio.
- Um homem não tem o direito de fazer isso, comentou o condutor a outro passageiro, deixando ver no rosto essa mistura de vontade de autoconservação e trincar de certezas.
Passou ao lado, enquanto motorista e o outro passageiro discutiam com parcimônia sobre estar vivo. Observava as luzes da Penha, lembrando todo o trajeto até o Centro, relembrando, pensando quanto lhe faltava pra atravessar toda Linha Vermelha.
ANTONIO DUTRA
“...Sessenta e quatro dias sem vê-la. Abri a lista telefônica, A,B, C, cantinas, centros de línguas, cirurgiões- dentistas, companhias aéreas - e o Santo Cristo há muito não ia pra casa, e a Saudade começou a apertar, eu vou embora, eu vou ver Maria Lúcia, já está em tempo de a gente se casar - alô, que horas tem vôo hoje? À tarde, cinco horas tá bom. Fiquei na minha, só liguei dez minutos antes do embarque, olha, tô chegando, me espera lá? E ela ficou de um lado pro outro, roendo as unhas no Santos Dumont. Eu, lá em cima, botei a cara na janela quando o avião começou a baixar, Teresópolis, Niterói, a ponte e suas luzes amarelas, a Baía, as barquinhas cheias de alegria pra Paquetá, a Praça XV crescendo e ele lá, de braços abertos, esse samba é só porque, eu quis dizer pro cara ao lado não, eu não sou turista não, eu sou daqui, de Marechal Hermes, família do Engenho Novo, são quase trinta anos de palavrões no trânsito e olhos deliciados por ondas e bundas. Lembrei da torcida, Maracanã, domingo, quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro–negro, e eram praticamente as mesmas coisas, montanha e mar dividindo o espaço curto da minha lágrima. Não dá pra ficar longe, mesmo com todo o cocô e todo o óleo boiando na Guanabara, mesmo com o mundo parado no trânsito, com todo o cinismo da elite, com toda a autoridade podre, eu nasci pra viver nesse inferno, graças a Deus.
O avião pousava e do impacto contra a pista brotava aquela sempre sensação de que os freios não serão suficientes e cairemos todos no mar. Vôos atrasados, conexões, filas de espera, aquela voz suave que nos transporta pro outro lado de uma tela de cinema, flight eight one six now boarding – na pressa não nos damos conta de como é mágico esse ambiente de aeroporto. Eu pisava o chão, indeciso, como se não soubesse por onde ir, feito alguém inseguro por não saber ao certo onde está. E era justamente o contrário aquele certo estremecimento que amoleceu minhas pernas quando reconheci a paisagem tão minha cúmplice, testemunha de bons atos, malefícios, decisões, certezas, dúvidas. No meio de malas, carrinhos, gente esbarrando em mim – será que tudo ainda será capaz de me reconhecer ? – enxerguei, por trás do vidro, aqueles braços me acenando, capazes de invadir a pista e me pegar no avião, tamanha a ansiedade que só quem espera pode ter. É ela mesma, de longe, não cortou o cabelo, o vestido também parece um dos mesmos. De perto, o perfume de antes, o abraço longo bem na porta do saguão, o suficiente para empilhar atrás de nós seres apressados, querendo passar, querendo ir, voltar, chegar, e ela me despejando um boeing inteiro de beijos guardados durante todo esse tempo que o reencontro torna bem maior do que na verdade foi. Meu passado no saguão do aeroporto, intacto, assim como eu deixei.
A Presidente Vargas é uma reta pontilhada de sinais, cruzamentos e lembranças – Rio que não é rio: imagens – em cada sala desses prédios há um dízimo de uma existência, no caso a minha, irrecuperável, irrevogavelmente fotografia na memória. Acelero, ultrapasso um 484, Olaria - Copacabana, e ele despeja fumaça negra – Essa cidade me atravessa – ainda sei dirigir nessa selva – Cada coisa é demais e tantas – e é inevitável uma comparação, por menor que seja: na L2 Norte as pessoas conseguem voltar pra casa às seis da tarde. Confuso, tento explicar a mim mesmo, murmurando expressões sem fôlego – Essa cidade me atravessa – sem muita esperança de entender, na realidade não sei, parece que não encerrei nada por aqui, parece mais ainda que não comecei nada por lá, tá difícil trabalhar isso por dentro, sabe ?, aqui eu sei cada passo – ruas voando sobre ruas – chegar a qualquer bairro, qualquer beco obscuro descubro em meia hora e não tenho mais um endereço aqui, é louco isso, minha casa tá lá agora, onde nem sei bem se há uma padaria perto.
Atravesso bairros, dobro esquinas, cada caminho que revisito acresce alguém à vontade que tenho de encontrar tanta gente, pessoas que estão guardadas no excesso de bagagem do meu passado. E de cabeça planejo um roteiro afoito que me leve a percorrer o maior número possível de lugares no menor tempo disponível. Preciso ser visto para ser lembrado por quantas pessoas eu consiga nessas pouco mais de 72 horas urgentes, passar a limpo minha recente vida nova em breves minutos, cuidar para que as recordações não sejam mais interessantes do que as novidades.
No caminho vou listando na cabeça o que poderei dizer a cada um, o que é mais interessante; faço o resumo de um briefing, corto sentimentos e impressões desnecessárias, é preciso mais que nunca ser conciso para que eu fale de todo um mundo desconhecido sem abusar das palavras. E aí, cara, como vai, como tá lá, aquela cidade estranha, aquelas ruas esquisitas? Tá tudo bem, é ótimo, moro em tal quadra, trabalho em tal setor, estou feliz, preciso ser breve, mesmo que na verdade eu nem fale a verdade completa. Fica mais um pouco, vou mandar trazer uma pizza, o almoço tá saindo, pega mais uma cerveja, não posso, tenho que ser rápido, disfarçar essa vontade de ficar aqui ao menos por todos os dias da minha existência. Preciso ver todos, todos os que eu consiga, nesse espaço de tempo trem - bala que me leva às estações sem que as paradas sejam suficientes para um xixi, um café, um chiclete de saudade descolorido no chão, grudado na sola do sapato.
Companheira de viagem no trem - bala, ela me segue em cada breve estação do meu passado. Essa cidade me atravessa, Madureira, Cachambi, Tijuca, Laranjeiras, Ipanema, e nem sequer vi o mar, murmurei em um quase lamento quando o sinal abriu. Da próxima vez a gente vai, com mais calma, se existir, e ela considerou quase sem querer. Existir o quê? Próxima vez? Não, calma. Tudo bem, deixa o mar pra lá, ultimamente convivo com pessoas que não vêem o mar há quase quatro décadas, e me calei, fingindo desatenção à contrariedade que ela lutava para disfarçar.
Andaraí, Lins, Rio Comprido, Rebouças, Humaitá, pai, mãe, tia, tio e o amigo que eu, antes de ir, já não via há quase um ano, mas de quem eu não sentia tanta falta, porque eu o sabia ali ao lado, qualquer ônibus, qualquer tanque de gasolina na reserva me levaria até ele, mas aí eu fui e um ano virou século e medo de perder e ser esquecido. Tudo o que eu via do trem - bala ela via ao meu lado, calada, meio sorriso de nostalgia, querendo esconder a inquietude das horas que passavam e a faziam me perder em lentas gotas. Reencontrava as ausências que eram as minhas ausências, sentidas por mim, nunca por ela. E quando raro lhe caía o disfarce, escapava-lhe um olhar fugidio indagando se o trem – bala em algum momento passaria na estação de nós dois sozinhos.
E nossa estação veio, chegou depois de um dia inteiro percorrido nos trilhos da minha memória. Dormi de madrugada, metade forasteiro, metade nativo, agarrado a seus braços depois do amor contido e imaginado dois meses. Senti que havia sido apressado, cheio de saudade sim, mas com o desespero da distância, prazer retesado, com a certeza velada de que o tempo não parou como queríamos, de que as horas não foram vagarosas como merecíamos e de que o dia amanheceu mais cedo, nos acordando antes do costume, sem que ainda tivéssemos nos recuperado da exaustão dos amantes. Sentado na beira da cama, posição clássica, eu fazia um scout, aquelas monótonas estatísticas no intervalo das partidas. Números imagináveis me apontavam que nosso tempo de bola em jogo foi bem menor que o tempo de bola parada. Por isso a senti menos minha, muito mais da sorte, do destino, quando o avião levantou vôo e a Praça XV ficou pequenina outra vez...”
ANDRÉ GUISTI
Graças a Deus que eu não sou um pequeno burguês. Obrigado senhor, por me botar no mundo, bem no alto do morro. Nasci incolor e cheirando a samba, a bala perdida, a pó. Hoje, se tenho um diploma e um anel é por conta da reza forte de minha mãezinha, Dona Ziná. Parteira do Vidigal, do morro do Vidigal.
Nasci e me criei ouvindo samba. Meu pai, Seu Madureira, era compositor da ala dos compositores da Portela, velha guarda. Seu Madureira uma vez emplacou um samba com o qual a escola foi campeã. Uma vez só. Mas campeã! Portela campeã do carnaval de mil novecentos e... mil novecentos e... nem me lembro mais, eu nem era nascido.
Meu pai, Seu Madureira, morreu de bala perdida. Voltava do barracão da escola e, na volta, se viu bem no meio da guerra civil: polícia e traficante. Uma bala perdida veio e levou o compositor do samba enredo campeão de mil novecentos e... Hoje eu sei que nenhuma bala é perdida quando atingi um alvo.
Graças a Deus eu ter nascido mestiço, cheirando a bala perdida. Um moleque filho de compositor e parteira. Nascido bem no alto do morro. Vendo o Rio de Janeiro, o Redentor. Nosso barraco tinha a vista para o Cristo Redentor. A lembrança mais linda que tenho gravada até hoje nas retinas. É só fechar os olhos e lá está ele, nosso Pai, de braços abertos sobre a Guanabara.
Hoje sou antropólogo, professor da UFRJ. E me pergunto de quem é o Rio afinal? Do pequeno burguês, viciado em cocaína, nascido em Copacabana? Ou de um moleque feito eu que fornecia esse pequeno burguês? É isso mesmo! Fui traficante até me tornar professor universitário.
Precisava me vestir. O samba de meu pai nunca deu camisa a ninguém. Nem a ele mesmo, que só tinha dois pares de camisas. Pensando melhor, nem a Noel Rosa. Lembram: “com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?”.
Fui traficante, mas nunca viciado. Acho que isso e a reza forte de Dona Ziná, foram o que me fizeram chegar aonde cheguei.
Sou antropólogo, ex-traficante, e volto a perguntar: de quem é o Rio afinal? Dá dondoca que passeia no calçadão de Copacabana? Ou do garoto da periferia, de cima do morro, que num delírio, provocado pelas drogas, dialogou com a estátua de Drummond?
Carlos Augusto, um garoto feito eu, meu melhor amigo, morto por uma overdose da droga que me deu camisa e me ajudou a ser doutor. Nunca esquecerei aquela cena. Carlos Augusto sonhava em ser escritor, poeta feito Drummond, e, no mesmo dia de sua morte, eu estava com ele naquela tarde, ele e a estátua do poeta dialogaram por horas a fio.
De quem é o Rio afinal? Creio que o Rio é um país sem dono, uma terra de ninguém, uma cidade tombada pertencente ao patrimônio mundial. Tanto é do pequeno burguês viciado, como da dondoca que exagera nos “ss”, como do poeta Drummond, do poeta Carlos Augusto e desse negro que vos fala, que graças ter nascido juntinho, ali pertinho do Redentor, não nasceu um pequeno burguês.
CLAUDIO PORTELLA
Cláudio Portella é escritor. Nasceu em Fortaleza em 1972. Autor de Bingo!(Editora Palavra em Mutação, Porto/Portugal, 2003). Organizador do livro Os Melhores Poemas de Patativa do Assaré (Global Editora, São Paulo/SP, 2006). Seus trabalhos estão traduzidos em vários idiomas. O escritor é publicado em incontáveis revistas, jornais, suplementos, revistas eletrônicas, sites e blogs. Contato: clautella@ig.com.br
Antes de falar, fedia. Apareceu de alguma dobra no tempo, despertou de uma vala imunda falando como se o dom da palavra lhe tivesse sido apenas momentaneamente devolvido.
- É romance? - eu lia Isaac Bashevis Singer, como faço todos os dias indo de ônibus para o trabalho, trajeto longo, paisagem em decomposição a céu aberto, língua negra em forma de canal cruzando a cidade, de Botafogo a São Januário.
Fedia.
Não, respondi com breve tremor de cabeça, ainda sem coragem para olhá-lo.
- Palavra de Deus? - e de sua boca a podridão de mil livros reciclados em papel higiênico.
Tentando parecer natural, murmurei que eram contos e pela primeira vez olhei para a sua boca, apenas um dente escurecido pendendo das gengivas gastas, quase brancas. Vestia-se com etiqueta: camisa pólo amarela, calça social bege ...kichute.
Levantei os olhos; ele me encarava, sorrindo.
- Fiz Letras, e você?
O cheiro novamente.
Conversar seria impossível, mas respondi, automático.
- Jornalismo.
Ele sorriu. Ou manteve o sorriso esticado até o ponto em que as bochechas agüentavam segurar o rasgo no rosto, o dente canino vazando para fora da boca.
- Tenho muita experiência com comunicação de massa.
A vontade de rir.
- Leu Erico Verissimo?
- Leu Jorge Amado?
Tremeliquei a cabeça negativamente, ou pensei em fazê-lo.
Por sob os óculos fundo de garrafa ele tentava enxergar a capa do livro que eu segurava, engatilhar um novo assunto. Indiscretamente puxava o livro mais para o meu colo, tentando escondê-lo. Ele acompanhava o movimento, descaradamente, buscando vislumbrar o título, o autor, alguma coisa.
De uma hora para outra ele começou a se agitar no banco, apoiava a mão na cadeira da frente, olhava para os lados, para trás.
O grito:
- É baiano?
O susto.
Não falava mais comigo. Tinha levantado do meu banco e pulara para outro.
Ninguém em volta, o ônibus vazio.
- Tem cara de baiano.
Silêncio.
- Eu sou baiano.
E continuou:
- Carioca?
Fechei o livro, abri meu caderno e comecei a rabiscar algumas anotações; sobre ele, naturalmente.
Sem virar a cabeça, apenas com o rabo de olho, procurei pelo velho. Ainda sentado, mirava a janela, cabeça colada no vidro quente, a imagem de São Cristóvão passando em alta velocidade, nada, pouco para ver.
O cheiro.
- Tá escrevendo o que? -, ele voltara.
Terminei uma palavra que se espraiava entre duas linhas, difícil de equilibrar no marulhar do ônibus, me enchi de coragem para responder que era sobre ele que escrevia. Mas minha voz se perdeu, ele não estava mais ao meu lado, nem atrás, na frente, do lado de fora do ônibus.
Não estava. Nem seu cheiro.
FLÁVIO IZHAKI
Teresa tinha um pênis de vinte e dois centímetros, contados na régua. o atributo lhe rendia fama nos arredores da praça Paris, onde trabalhava de terça a domingo, das onze as cinco, quarenta reais por uma gozada, sem beijo na boca. "Beijar, nem por cem. É só para namorado."
Os quarenta (e mais quarenta e mais quarenta e mais quarenta) ajudavam a pagar as despesas do apartamento da rua Candido Mendes, dividido com duas amigas. Era ali que Teresa dormia, depilava as pernas, o sovaco e o rosto, tonificava os glúteos com os exercícios da revista de ginástica, aplicava em ampolas de hormônio as futuras curvas de mulher. Era ali que, enfim, abrigava-se durante o invisível do dia, nas horas de inexistência, antes de virar purpurina sublime e esparsa numa calçada da Gloria.
Nas dimensões apertadas do apartamento, ela se amontoava as próprias coisas, as amigas e aos objetos das amigas, espalhados pelos dois cômodos. A topografia das caixas de papelão, dos moveis atravancados, dos colchões no chão, da geladeira no meio da salários poucos armários para muitas roupas, era como um raio X invertido da própria Teresa: desordem.
O dinheiro, contudo, não permitia mais espaço. 'Só estico a mão ate onde posso alcançar. Quem ;abe quando encontrar um italiano rico ... ", ela pegava emprestado o sonho das amigas, mas devolvia rápido. Pois sabia que ao menos naquele apartamento conseguia morar sem maiores entraves - em geral em três sessões arrecadava o básico das despesas.
Responsável pela organização da contabilidade interna, fixou uma quantia mensal para cada moradora e, de sua parte, distribuiu os gastos do mês pelos 26 dias de trabalho (segunda era folga), estabelecendo um valor mínimo a garantir noite apos noite. Caso ficasse doente e fosse obrigada a faltar, compensava nos dias seguintes.
Problemas mais sérios mesmo só enfrentava nas épocas chuvosas, como aquele mês de outubro, que resolveu desafiar todos os prognósticos. Lá se iam mais de três semanas de temporal e ruas vazias. "Quando chove, os homens somem. Parece que são feitos de papel. A gente lá, com guarda-chuva na mão, passando frio, e ninguém da as caras."
Teresa passou o mês inteiro de olho na previsão do tempo, adiando a apreensão. Mas já era dia 27, não havia como esperar mais. As dividas gritavam em vermelho num bilhete na geladeira: "A pagar: dia 3o - aluguel, dia 5 - condomínio, luz e água, dia 8 - conta no restaurante."
Se no restaurante ate poderia negociar, com algo juro, um prazo melhor, os outros pagamentos tinham que ser na data, sem chororô. "Boneca que atrasa dorme na rua", o proprietário do apartamento já avisara - e quando ele falava apertando a orelha direita (e ele falou), significava que o assunto requeria seriedade.
Por isso naquela noite, a primeira cujo teto não se cobrira com o véu da chuva, ela decidira colocar de uma vez só as contas em dia. Com cinco sessões, calculou, abateria boa parte da divida. Bastavam disposição, preservativos e uma roupa sensual.
Optou pelo vestido de paetês dourados, bainha pelo menos dois palmos acima do joelho, delineando as coxas e a bunda, e pelos sapatos plataforma que lhe impingiam ainda mais altura. Pintou o rosto em cores quentes, recolocou o piercing brilhante do nariz. Depois ajeitou o sutiã, compensando com enchimento o peito menor pela injeção de silicone mal aplicada, borrifou perfume, pegou a bolsa e ganhou a rua.
- Quanto é o boquete? - Não eram nem onze e meia quando, direto no assunto, o rapaz no Chevette a abordou. Ele era jovem, bastante jovem, fazia o tipo namorado-certinho-que-resolveu-aprontar.
- Boquete, vinte; completo, quarenta. Vale a pena, viu, gato?
- Vinte? Não rola por quinze, não? - ele chorou.
- Vinte, gato. É tabelado.
- Mas onde a gente faz?
- Pode ser dentro do carro mesmo, tem uma rua
bem discreta ali em cima ...
Teresa entrou no Chevette, sentando-se ao lado do rapaz, e subiram uma ladeira ate chegar a um canto ermo do bairro, onde havia outros carros parados. Ele abriu as calças, ela pôs a boca, ele gozou, ela cuspiu, e em meia hora voltava ao mesmo ponto onde antes se achava, na calçada entre as lojas de portas cerradas e a praça Paris, no entrelugar, sempre no entrelugar.
Por cerca de uma hora, Teresa permaneceu ali, a espera, observando os carros a circundar a praça, desejos rondando sem coragem de estacionar. Ate que um Fiat Uno piscou o farol em sua direção, diminuiu a velocidade e se aproximou. o homem de meia-idade, cavanhaque somando anos extras ao rosto, pareceu-lhe levemente bêbado.
- Oi, tesão! - ele movia os músculos da boca de maneira esquisita, tentando desenhar no rosto uma excitação.
- Oi, gato. Procurando diversão? - Teresa encostou a bunda na janela do carro e puxou a mão dele ate sua nádega esquerda.
- Depende ...
- Depende de que, gato?
- Do preço dessa diversão.
- Ah, não é caro, não. E garanto que você não vai se arrepender. - Com a bunda projetada ainda mais para o interior do veiculo, ela pousou os dedos sóbre o sexo dele e começou a massageá-lo. - Quarenta reais e você vai a lua comigo.
- Mas está incluído o motel lá na lua? - ele fez graça.
- Não, gato, mas o motel só custa quinze e aceita cartão.
- Você também aceita?
- Ainda não. Quem sabe um dia, no futuro. Nos
somos as mulheres do futuro, você sabia?
- E você e ativa também, mulher do futuro? ¬ele desafiou.
- Faço de tudo, amor. Menos beijar na boca.
- Pode entrar. Vamos lá. - o homem abriu a porta do carona, engatou a primeira e entabulou uma conversa.
- Sabe por que eu gosto de transar com vocês? Porque um homem conhece exatamente onde fica o prazer de outro homem. Mas não gosto de corpo de homem, e vocês têm corpo de mulher. ..
- Mulheres do futuro, já falei - Teresa sorriu. - E aqui. Para ali, colado naquele poste - apontou com o indicador.
Andaram poucos metros ate o motel, onde ela cumprimentou o recepcionista e pediu a chave do 206. Permaneceu no quarto com o homem do cavanhaque por mais de hora e meia. Duas gozadas, pagamento dobrado, menos oitenta no vermelho do bilhete na geladeira. o homem levou-a de volta à praça Paris.
Teresa precisava de um pequeno intervalo. Enquanto esperava pelo novo cliente, comprou uma lata de cerveja num bar próximo. Tomou lá mesmo, apoiada no baldo. Três e meia da manha, três sessões: nada mal. Uns quinze minutos ficaram no bar.
- Pendura, Zé - e rumou para a calçada.
Então, o susto: um carro esportivo, não deu para ver direito a marca, voou repentinamente da faixa central para a pista colada a calçada, e Teresa só pode sentir o jato forte soprando um pó branco contra seu rosto.
- Pirocuda! - alguém berrou de dentro do carro, que partia. Ela ainda enxergou o extintor de incêndio projetado para fora da janela. E com as mãos friccionando o vestido no meio das próprias pernas, rebateu:
- Viados! Playboys filhos-da-puta!
Embora já estivesse acostumada, ainda perdia a pose com esses ataques. Mas a raiva não tardava a se esvair. Uma ajeitada no vestido, um pente rápido nos cabelos e a noite aquietava: pronta para outra. Para mais duas, alias. A intenção era concluir o plano ate cinco da manha. Teresa retornou ao bar apenas para uma ultima ajeitada no espelho e vamos lá mais duas.
Não precisou aguardar muito. Carro novo, casal com jeitão de recém-casado, tudo bem, claro, com os dois, sem problema, nesse caso e sessenta mais quinze do motel, eu ensino como faz para chegar lá, e aqui, quarto 202, não, não, sem beijo de língua, chupar a moça tudo bem, foder a moça tudo bem, com você tudo bem também, vai, vai, goza gostoso, vai, goza aqui na minha boca, isso, isso, mais sessenta reais na carteira, vocês podem dar carona até a praça?
A noite promissora confirmava a vocação e, apesar de cansada, Teresa sentia alivio: faltava somente a derradeira sessão e, depois, casa.
Ainda era madrugada, mas a manha já se insinuava e o movimento diminuía. Os funcionários das padarias começavam a aparecer, carregando os seus "bom-dia" nas mochilas, e quando as lojas abrissem os clientes decerto sumiriam de vez. "Mais um, só mais um e posso ir. .. "
Teresa vertia o cansaço na maquiagem que esfriara, mas se acendeu de novo ao notar que um Honda Civic, com cara de zero-quilômetro, desacelerou cerca de vinte metros a sua frente. o motorista pousou duas rodas sobre a calçada, trancou a porta e riscou chão em linha reta para onde ela estava.
- Boa-noite, estou com pressa, programa rápido, quanto e? - ele, esbaforido, engolia as palavras. - Quarenta, o completo.
- Tem local?
- Motel. Soma mais quinze.
- E perto?
- E, mas indo de carro.
- Não. Sem carro. Não tem outro?
- Tem. Só que e mais caro. Custa cinqüenta por
uma hora.
- E quinze minutos?
- Cinqüenta também.
- Fechado - e tomou Teresa pelo antebraço, puxando-a com força, como se fosse de o guia.
Afobados, andaram no compasso ditado pelo homem ate o motel mais luxuoso, vencendo vertiginosamente a portaria. Mal entrou no quarto, ele pediu a Teresa que tirasse a roupa, se lubrificasse e ficasse de quatro sobre a cama. Em seguida, arriou a calva de moletom e entrou nela com violência. Gozou em menos de três minutos.
- Pronto. Pode se vestir. - Já recomposto, ele lavava as mãos.
- Calma. E o pagamento?
O homem se secou com a toalha de papel, apalpou o bolso de trás da calva e então percebeu: o dinheiro ficara no carro.
- Olha só, esqueci a carteira no porta-luvas. Vámos ate lá que eu pago.
- E o motel?
- Você não tem algum ai?
- Eu? Eu e que vou pagar?
- Só ate o carro. Pode deixar que eu compenso...
Teresa não via outra saída se não confiar nele.
Mesmo tensa com a possibilidade de um golpe, mais um, deixou cinqüenta reais na recepção do motel e o seguiu.
- Olha só, você fica no mesmo lugar onde estava quando fui falar contigo. Por favor, não se aproxima do carro, OK?
"Lá se vão meus cinqüenta", e Teresa estancou no ponto combinado, ele se encaminhando ao seu Honda Civic. Para surpresa dela, porem, o homem de fato resgatou a carteira e num passo retomava com os noventa reais, que lhe foram entregues com um seco "obrigado".
Em seguida, ele se virou de costas e fez o trajeto de volta, precipitando-se carro adentro. Ajeitou-se na posição do motorista e, com a porta entreaberta, pendeu para o banco de trás, de onde retirou algo que ela não definia bem e que ele manteve no colo. Teresa se aproximou um pouco e pode ver com mais nitidez: era um buquê de rosas vermelhas.
Passaram-se alguns instantes, ele fitando as rosas sobre seu ventre, e a cena se dispersou. Num ato repentino, o homem escancarou a porta do carro, atirou as flores no chão, engatou a chave e arrancou de forma brusca. Os pneus gritaram por ele.
Teresa então notou que, com a rispidez da queda, uma rosa se desgarrara do buquê. Ela se abaixou, pegou a rosa e, ainda agachada, inflou o rosto num sorriso, imaginando quem seria enfim o destinatário que nunca receberia aquelas flores. Talvez alguém que se foi, independente como um barco que se desamarra da margem; talvez uma mulher que, por um motivo qualquer ou sem motivo algum, não as merecesse; ou ainda o próprio homem, que as desprezou pela remissão a alguém que hoje só desperta ira. As possibilidades rebolavam em sua cabeça, alongavam-se em especulações, ate que Teresa atinou: pouco importava. Aquela rosa, que brotara inesperadamente numa fenda invisível da madrugada, na mesma calçada entre as lojas e a praça Paris, agora era dela.
Hora de ir para casa: a noite estava ganha.//
MARCELO MOUTINHO
(In “Somos Todos Iguais Nesta Noite”, Editora Rocco, 2006)
Tradução: Cassiano Viana
Porque O raio verde, novela pouco lida de meu mestre e xará, me contou aos nove anos que se olhássemos o pôr-do-sol em um horizonte marinho, se o céu é diáfano e se no último momento não atravessa uma vela de barco, uma revoada de pássaros ou uma nuvenzinha caprichosa, com o último segmento incandescente afundando-se na linha do azul veremos surgir um instantâneo e prodigioso raio verde.
Eu vivia muito longe do mar e o sol de minha infância se punha entre alambrados, casas de ladrilhos e salgueiros chorões. Subindo a louça de minha casa esperei ingenuamente o milagre do raio verde, e vi apenas fracas antenas de rádio; quando vinte anos depois comecei a cruzar o Atlântico e o Pacífico, muitos entardeceres me vieram espreitar algo que nunca de realizou ainda que as condições parecessem, impecáveis, e como ocorre na mal chamada maturidade, perdi a fé no raio verde e no visionário que me havia descrito e de alguma maneira prometido.
Ontem, do mirante do aqueduto Luis Salvador, olhei uma vez mais o sol afundar no mar. Um amigo mencionou o raio verde, e sofri antecipadamente pelas crianças presentes que o esperaram com a mesma ansiedade que eu o havia desejado em meu absurdo horizonte suburbano, agora seria pior, agora as condições estavam dadas e não haveria raio verde, os pais justificariam de qualquer maneira o fiasco tentando consolar aos pequenos; a vida – assim a chamam – marcaria outro ponto em seu caminho até o conformismo. Do sol ficava um último, frágil segmento alaranjado. O vimos desaparecer por trás da perfeita beira do mar, envolto no halo que ainda duraria alguns minutos. E então surgiu o raio verde, não era um raio sem um fulgor, uma faísca instantânea em um ponto como de fusão alquímica, de solução heracliteana de elementos. Era uma faísca intensamente verde, era um raio verde ainda que não fosse um raio, era um raio verde, era Julio Verne murmurando-me ao ouvido: “O viste enfim, grande tonto?”
Um poeta romântico escreveria isto melhor, don Gaspar ou Shelley. Eles viviam em um sonho diurno, e o realizavam em seus poemas. A flor azul de Novalis, a urna grega de John Keats, o perfil dos deuses de Holderlin. Meu raio verde se volta ao nada no mesmo instante que o digo; mas era ele, era tão verde, era enfim meu raio verde. De alguma maneira soube ontem, que muito do que defendo e que outros crêem quiméricos está aí em um horizonte de tempo futuro, e que outros olhos o verão também um dia.
JULIO CORTÁZAR
O fragmento de conto abaixo, inacabado por Julio Cortázar, inédito em português, ganha tradução de Cassiano Viana, que prepara uma biografia deste grande escritor argentino
Sou panamenha e há tempos vivo com Bix. Escrevo e passo para a linha seguinte: ninguém irá acreditar; se acreditassem, seriam como eu e não conheço ninguém assim. Não exatamente eu, mas ao menos como eu. O que é uma vantagem porque dessa maneira posso escrever sem que me importe que leiam ou não, que ao final queime isto com o último fósforo do último cigarro, ou que o deixe abandonado na rua, ou que o dê para qualquer um, para que faça o que der na telha; tudo estará distante, tão distante de mim e de Bix.
Escrevo porque não há mais o que fazer e porque é certo ou parecerá certo para alguém que seja como eu. Existem, esbarro neles perto ou longe na vida. Nem todos vivem atados ao que lhes ensinaram. Veja, Rimbaud disse que se apaixonara por um porco e os professores dizem que era um grande poeta, o fazem provavelmente sem convicção, porque devem pensar assim para não parecerem idiotas. Porém, eu sei que era um grande poeta e Bix também o sabia, ainda que jamais tenha lido uma linha em francês e eu tinha que lhe traduzir Rimbaud, ao que ele colocava a mão na cabeça e ficava pensando, ou ia até o piano e começava a tocar essa coisa que agora se chama In a Mist e que era sua maneira de dizer que entendia a poesia francesa, porque entendia Debussy e como quase tudo lhe chegava pela música, essa era a única maneira de entender certas coisas, a vida, por exemplo, a ordem disso que chamo realidade e que ele entendia somente por dó maior ou fá sustenido, soprando docemente seu trompete ou indo ao piano para deixar nascer Lost in a fog, queimando os lábios com o cigarro esquecido pelas mãos, aranhas que teciam e teciam no teclado até que tudo acabava em um palavrão e num salto, eu sempre tinha por perto um tubo de creme para lhe curar os lábios; depois nos beijávamos sorrindo e ele voltava a xingar porque lhe doía e porque o trompete ia lhe doer ainda mais à noite, quando tivesse que tocar no Blue Room por oitenta dólares a apresentação.
“Vaocaralho”, como dizia tio Ramon, que juntava palavras e as fazia soar como uma chicotada na bunda; não que me custe escrever, porque como não me dou nenhum trabalho e esta máquina desliza, como o rum que já leva horas deslizando, tudo acontece em uma fita que vejo sozinha, não porque escreva às cegas, mas nem sequer olho para o papel, prefiro seguir meus dois dedos que saltam de cima pra baixo, a mão esquerda que corta a fita e passa para o outro tópico; tenho um abajur Tiffany que me enche o papel, o rosto e as mãos de manchas alaranjadas, verdes, azuis; escrever é como dançar música lenta com Bix no Phonix, ser parte de, ser parte de quê, ser parte disso que nos une a todos, sem que ninguém saiba que está junto e que somente esta noite estará com as outras partes, porque ainda que voltemos ao Phonix, já não será igual, como as ondas em Waikiki, uma atrás da outra após milhões de anos e nenhuma igual à outra; quem poderia dizer que uma onda contém o mesmo número de gotas de água que as outras ondas, ou o formato, ou a alegria, ou o desenho da crista, ou o jeito de quebrar nessa praia aonde Bix gostava de ficar dormindo e eu fumava para observá-lo, pequeno e feio, com aquele quê de alemão que havia grudado ao maldito sobrenome e em alguns gestos, herdados do pai ou dos tios; os Beiderbecke e suas árvores de Natal e os bolos perfumados da mãe de Bix, esses eruditos metidos até a alma em pleno Middle West, alemães com camisas de “cowboys”, falando americano e mais patriotas que o próprio Thomas Jefferson.
“Vaocaralho”, dizia tio Ramon, vaocaralho a Alemanha que nunca ouviu falar de Bix porque ele já era daqui; nunca entendi porque não trocava o sobrenome como fizeram outros músicos, Eddie Lang, por exemplo. Que eu me chamasse Macieira dava uma alegria enorme a Bix, lhe havia tirado do sério a coisa quando expliquei o que queria dizer, se contorcia em risos e depois me apertava contra ele e dizia Linda, Linda Macieira, Linda Macedo, Pé de Maçã, Deliciosa Torta de Maçã, no final, ficava com Torta de Maçã, e quase sempre depois disso começava a me comer porque nada lhe dava mais prazer que o doce de maçãs com cerveja, me chupava o nariz repetindo “Torta de Maça”, “Torta de Maça”, e eu lhe soprava em plena boca, e ele se jogava para trás maldizendo e me chamando de cretina, esculpindo a “Torta de Maça” que eu lhe havia deixado na boca, pobrezinho.
Conheci Bix na mesma época em que conheci Omar, na casa de meus paizinhos (escrevo paizinhos porque me faz sorrir, é cômico falar de paizinhos quando se pensa nesses escaravelhos peludos que me criaram entre freiras e me rachavam a chicotadas quando vinha aos domingos e esquecia um absorvente ao lado do vaso sanitário, asquerosa repugnante – mamãe –, é preciso ensinar o respeito a esta indecente – paizinho querido-), mas ao menos em casa havia a televisão e alguém que aos domingos poderia esperar sentada na sala, sabendo que Omar viria me ver; a família querida jogava dominó na sala de jantar e eu esperava sozinha a hora em que anunciavam Omar e eu ia escorregando na cadeira e esperava que, mais uma vez, Omar entrasse em primeiro plano e começasse a falar, a olhar-me, dissimulando um discurso qualquer, povo de Panamá, queridos amigos, qualquer coisa para aqueles que enchiam estádios e auditórios, porque o que ele queria era somente me olhar e tinha que dizer as piores baboseiras para que ninguém desse conta de que havia vindo à TV para observar-me, eu o esperava estirada no sofá, ele começava a falar, seus olhos de tigre verde me cravavam e eu lhe sorria, Omar, Omar, deixava ele me observar enquanto levantava a saia aos poucos, deixando-o ver-me, ia lhe mostrando tudo, pouco a pouco, sem pressa, porque Omar ia ficar meia hora dizendo baboseiras para os outros; mas eu havia inventado o código, a cada tantas palavras, escolhia as que Omar estava dizendo somente para mim enquanto me cravava seus olhos de tigre e lhe tremiam os músculos das têmporas, suas mãos que se erguiam como que para me alcançar, para fazer o que eu estava fazendo diante dele enquanto ele olhava e falava.
Pelo espelho era possível ver a porta da sala de jantar e saber em que momento teria que me endireitar, baixar a saia; Omar compreendia porque também podia ver pelo espelho da TV, às vezes meu pai, mais freqüentemente minha mãe, que vinha como que desconfiada; ou ambos, olhando e dizendo: esta menina, quem diria que ia se interessar tanto pela política, se me dissessem a irmã Filotea, mas não é bom nessa idade; “vaocaralho” dizia tio Ramon da sala de jantar, já largaram a partida novamente; com vocês não se pode jogar.
[Continua]
JULIO CORTÁZAR
É com grande honra que o Paralelos apresenta a seus leitores um conto inédito do escritor Menalton Braff.
A porta do clube era um clarão de festa sobre o escuro da noite garoenta, quando atravessei a rua muito perpendicular e apressado, pisando por cima de sua umidade. Mal atingi a calçada, o lado de lá, me dei conta de uma certa inflexão familiar naquele som que escapava pelas aberturas do saguão. Não pela melodia, uma ária plangente e bela, executada com bastante freqüência por muitos violinistas. Não. O que me parecia familiar era a execução. Eu conhecia apenas um violinista capaz de arrancar tais soluços das notas mais graves de seu instrumento, que se alternavam com gritos agudos e lancinantes. Em suas mãos, o instrumento tinha alma.
Só então me lembrei de que há mais de seis meses, desde a crise da Orquestra Sinfônica, não tinha tido notícias do Antenor Braga, seu jovem spala. Várias vezes fui visitá-lo no camarim e o encontrava sempre estudando como se fosse aquela sua primeira apresentação. Em minhas críticas no Diário, não me cansava de elogiar o talento que o jovem aliava a um estudo muito sério. Não sei se me culpo a mim ou à vida que levo pelo esquecimento, mas a verdade é que durante este tempo todo muito poucas vezes pensei no meu amigo.
Mergulhei de rosto úmido na iluminação que jorrava do enorme lustre central, com suas cristalinas gotas pingentes, e se intensificava nos grandes espelhos em toda a volta do saguão. Entreguei o convite na porta e entrei, umas rugas de espanto riscando minha testa. Era uma festa de casamento, meu Deus, a celebração de um consórcio amoroso, por que aquela música tão triste, apesar de bela?
Muita gente conversava alegre e distraída no saguão enquanto outros já subiam as escadarias para o salão principal. Ergui meu corpo na ponta dos pés, nem assim, de onde estava, foi possível confirmar a identidade do violinista. Imitação tão perfeita do Antenor era bastante improvável.
Me atirei na corrente dos que pretendiam chegar logo ao salão, movendo-me na direção da escadaria.
De pé sobre o primeiro degrau, Antenor Braga, ele mesmo, recebia com música os convidados para a festa. Traje a rigor, o mesmo com que muitas vezes o vi sobre o palco, em noites de gala. O público sim, o público não era o mesmo. As pessoas passavam roçando pelo violinista, esbarrando nele sem lhe prestar qualquer atenção. Antenor mantinha os olhos fechados, imaginando-se, provavelmente, em uma daquelas noitadas que fizeram sua reputação. Ele não tocava para aquele público, ele os mantinha fora de seu espaço. Ele tocava para si mesmo, revivendo um passado extinto.
Parei em sua frente, horrorizado com o que via, indignado com a crueldade do destino: o maior talento com que cruzei na vida submetido à indiferença de um público que não era o seu. Cravei-me no granito da escada numa tentativa desesperada de proteger meu amigo de corpos mais pesados, com seus ouvidos de arame farpado. Em alguns momentos esqueci com os cotovelos as lições de boas maneiras.
Os últimos convidados subiam a escadaria, a música chegava ao fim. Não aplaudi, não disse nada, com medo do constrangimento. Depois de pendurar os dois braços, Antenor abriu os olhos, como se voltasse de um sonho, parecendo não saber bem onde estava. Olhou em volta, tentando reconhecer aquele espaço tão estranho, até me reconhecer ali, a menos de dois passos. Piscou fundo e firme, e não conseguiu evitar uma ruga, que me pareceu de aborrecimento. Mas não, era pura vergonha o que ele sentia. Com olhares rápidos, cheios de ângulos, examinou os arredores, procurando lugar onde se esconder. Foi o que interpretei de seu visível mal-estar.
Antenor Braga, na minha frente e sobre o primeiro degrau da escadaria, sentiu-se acuado, provavelmente, sem poder evitar-me. Então fechou novamente os olhos e seu rosto foi perdendo a cor.
Fiquei com medo de que o Antenor fosse desmaiar e olhei em volta, procurando alguma idéia de socorro. Com estranha lentidão, ele voltou a segurar o violino entre o queixo e a clavícula, erguendo o arco preso pela mão direita até quase a altura da cabeça. E então parou. Seu rosto de alabastro não tinha mais vida, apesar de sua expressão de sofrimento: os lábios apertados e imóveis, os olhos escondidos e duas rugas na testa. Sua última reação parece ter sido o desejo frustrado de encolher-se, de desaparecer. E então parou.
Ao me aproximar, o corpo todo úmido, mas agora de suor, percebi que ele não podia ouvir seu nome, que eu repetia apavorado. Cheguei a tocar sua mão com meus dedos, que se mancharam de branco como se ele fosse de gesso.
Ninguém por perto que testemunhasse minha inocência, eu não sabia mais o que fazer. Subir para o salão e festejar com os demais, já não conseguiria mais. Avisar ao dono da festa o que estava acontecendo, foi uma idéia que me ocorreu, mas me acovardei, com medo de que me julgassem louco.
O mundo perdeu a solidez e eu, o equilíbrio. Os balaústres da escadaria oscilavam, o clube todo parecia adernar. Pensei que fosse vomitar e me apoiei no corrimão. Eu ainda não tinha jantado e meu estômago vazio não respondeu.
Assim que diminuiu a vertigem, virei as costas e fugi para a garoa escura sem olhar uma única vez para trás.
Já era madrugada quando penso que cheguei a cochilar. Não me lembro de ter fechado ou não os olhos. Tudo era escuridão e esse detalhe não faria diferença. Até aquela hora, levantei-me diversas vezes: para enxugar o suor que me grudava o pijama no corpo, para tomar um analgésico que me aliviasse a dor de cabeça, para tomar um calmante que me livrasse das lembranças da véspera. Talvez tenha dormido meia-hora, pouco mais.
Tomei o café que a empregada preparou com muito barulho e desci para comprar os jornais do dia. Nenhuma nota, alusão nenhuma. Falava-se do casamento, da elegância de seus convidados e da viagem dos nubentes para o exterior. Do Antenor Braga, transformado em recepcionista, notícia nenhuma. Não, não tinha sido uma alucinação, pois se me lembrava de tudo, dos detalhes mais insignificantes.
Corri ao clube. Passava um pouco das nove quando atravessei a rua muito perpendicular e apressado e não foi sem certo gosto de pavor na boca que dei os primeiros passos no saguão. No pé da escadaria, sobre o primeiro degrau, havia apenas um vaso de cimento muito grande, onde uma cheflera solitária não percebeu minha confusão.
Uma das faxineiras passava torta com um balde na mão e pulei na frente dela. Se não tinha visto nada de estranho ali no primeiro degrau. Ela me olhou curiosa, sem entender muito bem minha pergunta, que repeti com novas explicações. Por fim a mulher se abriu num sorriso manso, ah, aquela estátua de gesso. Pois então, o caminhão da prefeitura já tinha levado para o depósito.
MENALTON BRAFF
* Menalton Braff nasceu em Taquara (RS) e hoje mora no interior de São Paulo, onde se dedica à literatura e ao magistério. Em 2000 seu livro "À sombra do cipreste" foi escolhido como o Livro do Ano do Prêmio Jabuti. "A coleira no pescoço", coletânea de contos publicada em março de 2006 pela editora Bertrand Brasil é seu décimo livro publicado.
Tordesilhas, a série, organizada por Marcelo Barbão, apresenta aos leitores de Paralelos autores latino-americanos em versão bilíngüe
Leia a versão traduzida para português por Marcelo Barbão
La primera vez que Jean-Claude Pelletier leyó a Benno von Archimboldi fue en la Navidad de 1980, en París, en donde cursaba estudios universitarios de literatura alemana, a la edad de diecinueve años. El libro en cuestión era D´Arsonval. El joven Pelletier ignoraba entonces que esa novela era parte de una trilogía (compuesta por El jardín, de tema inglés, La máscara de cuero, de tema polaco, así como D´Arsonval era, evidentemente, de tema francés), pero esa ignorancia o ese vacío o esa dejadez bibliográfica, que sólo podía ser achacada a su extrema juventud, no restó un ápice del deslumbramiento y de la admiración que le produjo la novela.
A partir de ese día (o de las altas horas nocturnas en que dio por finalizado aquella lectura inaugural) se convirtió en un archimboldiano entusiasta y dio comienzo su peregrinaje en busca de más obras de dicho autor. No fue tarea fácil. Conseguir, aunque fuera en París, libros de Benno von Archimboldi en los años ochenta del siglo XX no era en modo alguno una labor que no entrañara múltiples dificultades. En la biblioteca del departamento de literatura alemana de su universidad no se hallaba casi ninguna referencia sobre Archimboldi. Sus profesores no habían oído hablar de él. Uno de ellos le dijo que su nombre le sonaba de algo. Con furor (con espanto) Pelletier descubrió al cabo de diez minutos que lo que le sonaba a su profesor era el pintor italiano, hacía el cual, por otra parte, su ignorancia también se extendía de forma olímpica.
Escribió a la editorial de Hamburgo que había publicado D´Arsonval y jamás recibió respuesta. Recorrió, asimismo, las pocas librerías alemanas que pudo encontrar en París. El nombre de Archimboldi aparecía en un diccionario sobre literatura alemana y en una revista belga dedicada, nunca supo si en broma o en serio, a la literatura prusiana. En 1981 viajó, junto con tres amigos de facultad, por Baviera y allí, en una pequeña librería de Munich, en Voralmstrasse, encontró otros dos libros, el delgado tomo de menos de cien páginas titulado El tesoro de Mitzi y el ya mencionado El jardín, la novela inglesa.
La lectura de estos dos nuevos libros contribuyó a fortalecer la opinión que ya tenía de Archimboldi. En 1983, a los veintidós años, dio comienzo a la tarea de traducir D´Arsonval. Nadie le pidió que lo hiciera. No había entonces ninguna editorial francesa interesada en publicar a ese alemán de nombre extraño. Pelletier empezó a traducirlo básicamente porque le gustaba, porque era feliz haciéndolo, aunque también pensó que podía presentar esa traducción, precedida por un estudio sobre la obra archimboldiana, como tesis y, quién sabe, como primera piedra de su futuro doctorado.
Acabó la versión definitiva de la traducción en 1984 y una editorial parisina, tras alguna vacilantes y contradictorias lecturas, la aceptó y publicaron a Archimboldi, cuya novela, destinada a priori a no superar la cifra de mil ejemplares vendidos, agotó tras un par de reseñas contradictorias, positivas, incluso excesivas, los tres mil ejemplares de tirada abriendo las puertas de una segunda y tercera y cuarta edición.
Para entonces Pelletier ya había leído quince libros del autor alemán, había traducido otros dos, y era considerado, casi unánimemente, el mayor especialista sobre Benno von Archimboldi que había a lo largo y ancho de Francia.
Entonces Pelletier pudo recordar el día en que leyó por primera vez a Archimboldi y se vio a sí mismo, joven y pobre, viviendo en una chambre de bonne, compartiendo el lavamanos, en donde se lavaba la cara y los dientes, con otras quince personas que habitaban la oscura buhardilla, cagando en un horrible y poco higiénico baño que nada tenía de baño sino más bien de retrete o pozo séptico, compartido igualmente con los quince residentes de la buhardilla, algunos de los cuales ya habían retornado a provincias, provistos de su correspondiente título universitario, o bien se habían mudado a lugares un poco más confortables en el mismo París, o bien, unos pocos, seguían allí, vegetando o muriéndose lentamente de asco.
Se vio, como queda dicho, a sí mismo, ascético e inclinado sobre sus diccionarios alemanes, iluminado por una débil bombilla, flaco y recalcitrante, como si todo él fuera voluntad hecha carne, huesos y músculos, nada de grasa, fanático y decidido a llegar a buen puerto, en fin, una imagen bastante normal de estudiante en la capital pero que obró en él como una droga, una droga que lo hizo llorar, una droga que abrió, como dijo un cursi poeta holandés del siglo XIX, las esclusas de la emoción y de algo que a primera vista parecía autoconmiseración pero que no lo era (¿qué era, entonces?, ¿rabia?, probablemente), y que lo llevó a pensar y a repensar, pero no con palabras sino con imágenes dolientes, su período de aprendizaje juvenil, y que tras una larga noche tal vez inútil forzó en su mente dos conclusiones: la primera, que la vida tal como la había vivido hasta entonces se había acabado; la segunda, que una brillante carrera se abría delante de él y que para que ésta no perdiera el brillo debía conservar, como único recuerdo de aquella buhardilla, su voluntad. La tarea no le pareció difícil.
Jean-Claude Pelletier nació en 1961 y en 1986 era ya catedrático de alemán en París. Piero Morini nació en 1956, en un pueblo cercano a Nápoles, y aunque leyó por primera vez a Benno von Archimboldi en 1976, es decir cuatro años antes que Pelletier, no sería sino hasta 1988 cuando tradujo su primera novela del autor alemán, Bifurcaria bifurcata, que pasó por las librerías italianas con más pena que gloria.
La situación de Archimboldi en Italia, esto hay que remarcarlo, era bien distinta que en Francia. De hecho, Morini no fue el primer traductor que tuvo. Es más, la primera novela de Archimboldi que cayó en manos de Morini fue una traducción de La máscara de cuero hecha por una tal Colossimo para Einaudi en el año 1969. Después de La máscara de cuero en Italia se publicó Ríos de Europa, en 1971, Herencia, en 1973, y La perfección ferroviaria en 1975, y antes se había publicado, en una editorial romana, en 1964, una selección de cuentos en donde no escaseaban las historias de guerra, titulada Los bajos fondos de Berlín. De modo que podría decirse que Archimboldi no era un completo desconocido en Italia, aunque tampoco podía decirse que fuera un autor de éxito o de mediano éxito o de escaso éxito sino más bien de nulo éxito, cuyos libros envejecían en los anaqueles más mohosos de las librerías o se saldaban o eran olvidados en los almacenes de las editoriales antes de ser guillotinados.//
ROBERTO BOLAÑO
Roberto Bolaño nasceu em Santiago do Chile em 1953. Em 1968, muda-se com a família para a Cidade do México onde completa os estudos secundários. Aos 17 anos abandona definitavemente a escola. Em 1973, decide voltar ao Chile para apoiar o governo socialista de Salvador Allende. Chega pouco tempo antes do golpe militar. É preso e permanece na cadeia por oito dias. Em janeiro de 74 volta ao México onde começa a se relacionar com escritores e poetas mexicanos. No ano seguinte publica seu primeiro livro de poemas: “Gorriones cogiendo altura”, seguido por “Reinventar el amor” no ano seguinte.
Em 77 começa uma série de viagens pela África e Europa e acaba estabelecendo-se em Barcelona onde fica até 1980. Em 84, publica sua primeira novela, “Consejos de un discipulo de Morrison a un fanático de Joyce”, escrita a quatro mãos com Antoni García Porta.
Depois de vários novelas e coletâneas de contos, todas premiadas, publica “Llamadas telefónicas” em 97. No ano seguinte volta pela primeira vez em 25 anos ao Chile, onde o livro “Los detetives salvajes” ganha o prêmio do Consejo Nacional del Libro do Chile.
Em 2000, publica “Nocturno de Chile”. Depois de publicar “Amberes” e “Una novelita lumpen” em 2002, falece em 15 de julho de 2003 por insuficiência hepática. Como trabalhos póstumos aparecem “El gaucho insufrible”, “Entre paréntesis” e “2666”, novela em que ele trabalhava ao morrer.
Tordesilhas, a série, organizada por Marcelo Barbão, apresenta aos leitores de Paralelos autores latino-americanos em versão bilíngüe
Leia a versão original em espanhol deste conto
A primeira vez que Jean-Claude Pelletier leu Benno von Archimboldi foi no Natal de 1980, em Paris, onde estudava literatura alemã, quando tinha dezenove anos. O livro em questão era D´Arsonval. O jovem Pelletier ignorava então que essa novela era parte de uma trilogia (composta por O jardim, de tema inglês, A máscara de couro, de tema polonês, bem como D´Arsonval era, evidentemente, de tema francês), mas essa ignorância ou esse vazio ou esse descuido bibliográfico, que só podia ser atribuído a sua extrema juventude, não diminuiu um ápice do deslumbramento e da admiração que a novela produziu nele.
A partir desse dia (ou das altas horas noturnas em que deu por finalizada aquela leitura inaugural) converteu-se em um archimboldiano entusiasta e deu começo à sua peregrinação em busca de mais obras de dito autor. Não foi tarefa fácil. Conseguir, mesmo fora de Paris, livros de Benno von Archimboldi nos anos oitenta do século XX não era, de modo algum, uma tarefa que não contivesse múltiplas dificuldades. Na biblioteca do departamento de literatura alemã de sua universidade não era possível encontrar nenhuma referência a Archimboldi. Seus professores não tinham ouvido falar dele. Um, no entanto, disse que seu nome era conhecido. Com furor (com espanto) Pelletier descobriu ao final de dez minutos que o professor estava confundindo com o pintor italiano, para o qual, por outra parte, sua ignorância também era enorme.
Escreveu para a editora de Hamburgo que tinha publicado D´Arsonval e nunca recebeu uma resposta. Recorreu, assim mesmo, as poucas livrarias alemãs que pôde encontrar em Paris. O nome de Archimboldi aparecia em um dicionário sobre literatura alemã e em uma revista belga dedicada, nunca soube se era piada ou era sério, à literatura prussiana. Em 1981 viajou, junto com três amigos de faculdade, pela Baviera e ali, em uma pequena livraria de Munique, em Voralmstrasse, encontrou outros dois livros, o pequeno tomo de menos de cem páginas intitulado O tesouro de Mitzi e o já mencionado O jardim, a novela inglesa.
A leitura destes dois novos livros contribuiu para fortalecer a opinião que já tinha de Archimboldi. Em 1983, aos vinte e dois anos, começou a tarefa de traduzir D´Arsonval. Ninguém pediu que o fizesse. Não tinha, naquele momento, nenhuma editora francesa interessada em publicar esse alemão de nome estranho. Pelletier começou a traduzi-lo basicamente porque gostava, porque era feliz fazendo isso, apesar de que também pensou em apresentar essa tradução, precedida de um estudo sobre a obra archimboldiana, como tese e, quem sabe, como primeira pedra de seu futuro doutorado.
Acabou a versão definitiva da tradução em 1984 e uma editora parisiense, depois de algumas vacilantes e contraditórias leituras, a aceitou e publicaram Archimboldi, cuja novela, destinada a priori a não superar a cifra dos mil exemplares vendidos, esgotou depois de algumas resenhas contraditórias, positivas, até excessivamente, os três mil exemplares impressos abrindo as portas de uma segunda e uma terceira e uma quarta edição.
Nesse momento Pelletier já tinha lido quinze livros do autor alemão, tinha traduzido outros dois e era considerado, quase por unanimidade, o maior especialista sobre Benno von Archimboldi que existia em toda a França.
Nesse momento Pelletier pôde recordar o dia em que leu pela primeira vez Archimboldi e se viu, jovem e pobre, vivendo em uma chambre de bonne, compartindo o lavabo, onde lavava o rosto e os dentes, com outras quinze pessoas que habitavam a escura água-furtada, cagando em um banheiro horrível e pouco higiênico que mais parecia um vaso sanitário ou um poço séptico do que um banheiro, compartilhado igualmente pelos quinze residentes de sua água-furtada, alguns dos quais já tinham voltado para as províncias, com seu correspondente título universitário, ou tinham se mudado para lugares um pouco mais confortáveis na própria Paris, ou, alguns poucos, continuavam ali, vegetando ou morrendo lentamente de asco.
Viu-se, como dizíamos, ascético e inclinado sobre seus dicionários alemães, iluminado por uma fraca lâmpada, magro e recalcitrante, como se ele todo fosse vontade feita carne, ossos e músculos, nada de gordura, fanático e decidido a chegar a um bom porto, enfim, uma imagem bastante normal de estudante na capital mas que funcionou nele como uma droga, uma droga que o fez chorar, uma droga que abriu, como disse um poeta holandês cafona do século XIX, as eclusas da emoção e de algo que, à primeira vista, parecia autocomiseração mas que não era (o que era, então?, raiva?, provavelmente), e que o levou a pensar e a repensar, mas não com palavras, mas com imagens doloridas, seu período de aprendizagem juvenil, e que depois de uma longa noite talvez inútil forçou em sua mente duas conclusões: a primeira, que a vida tal como a tinha vivido até aquele momento tinha se acabado; a segunda, que uma brilhante carreira se abria à sua frente e que para que esta não perdesse o brilho devia conservar, como única lembrança daquela água-furtada, sua vontade. A tarefa não lhe pareceu difícil.
Jean-Claude Pelletier nasceu em 1961 e em 1986 já era catedrático de alemão em Paris. Piero Morini nasceu em 1956, em um povoado perto de Nápoles e, ainda que tenha lido Benno von Archimboldi em 1976, quer dizer quatro anos antes de Pelletier, foi só em 1988 que traduziu sua primeira novela do autor alemão, Bifurcaria bifurcata, que passou pelas livrarias italianas com mais pena que gloria.
A situação de Archimboldi na Itália, é preciso dizer, era bem diferente da situação na França. De fato, Morini não foi o primeiro tradutor que ele teve. E mais, a primeira novela de Archimbodi que caiu nas mãos de Morini foi uma tradução de A máscara de couro feita por um tal Colossimo para a Einaudi no ano de 1969. Depois de A máscara de couro na Itália se publicou Rios da Europa, em 1971, Herança, em 1973, e A perfeição ferroviária em 1975, e antes tinha sido publicada, em uma editora romana, em 1964, uma seleção de contos onde não faltavam as histórias de guerra, intitulada A boca-do-lixo de Berlim. De modo que poderia se dizer que Archimboldi não era um completo desconhecido na Itália, mas tampouco se podia dizer que fosse um autor de êxito ou de êxito médio ou de escasso êxito, o melhor era dizer de nenhum êxito, cujos livros envelheciam nas prateleiras mais mofadas das livrarias ou entravam nos saldões ou eram esquecidos nos armazéns das editoras antes de serem guilhotinados.//
ROBERTO BOLAÑO
Roberto Bolaño nasceu em Santiago do Chile em 1953. Em 1968, muda-se com a família para a Cidade do México onde completa os estudos secundários. Aos 17 anos abandona definitavemente a escola. Em 1973, decide voltar ao Chile para apoiar o governo socialista de Salvador Allende. Chega pouco tempo antes do golpe militar. É preso e permanece na cadeia por oito dias. Em janeiro de 74 volta ao México onde começa a se relacionar com escritores e poetas mexicanos. No ano seguinte publica seu primeiro livro de poemas: “Gorriones cogiendo altura”, seguido por “Reinventar el amor” no ano seguinte.
Em 77 começa uma série de viagens pela África e Europa e acaba estabelecendo-se em Barcelona onde fica até 1980. Em 84, publica sua primeira novela, “Consejos de un discipulo de Morrison a un fanático de Joyce”, escrita a quatro mãos com Antoni García Porta.
Depois de vários novelas e coletâneas de contos, todas premiadas, publica “Llamadas telefónicas” em 97. No ano seguinte volta pela primeira vez em 25 anos ao Chile, onde o livro “Los detetives salvajes” ganha o prêmio do Consejo Nacional del Libro do Chile.
Em 2000, publica “Nocturno de Chile”. Depois de publicar “Amberes” e “Una novelita lumpen” em 2002, falece em 15 de julho de 2003 por insuficiência hepática. Como trabalhos póstumos aparecem “El gaucho insufrible”, “Entre paréntesis” e “2666”, novela em que ele trabalhava ao morrer.
Tenho feito caminhadas pelos arredores da Cruz Vermelha, esmiuçando antigos casarios, sobrados coloniais, a rica e decadente arquitetura do centro da cidade. Uma energia misteriosa no ar cujo significado tento decifrar. Não consigo. Saio de casa à tarde, por volta das três ou quatro horas. O céu muito azul. Subo a Riachuelo, passando pelo Hospital Espanhol, a Academia Brasileira de Filosofia, entro pela Marques de Pombal, viro na Irineu Marinho, paro para tomar uma cerveja e observar a rua.
A sede do jornal O Globo fica na esquina. Enquanto bebo cerveja, procuro identificar algum jornalista. Não vejo nenhum, apenas algumas moças com pinta de estagiária andando apressadas.
Finalmente aparece um cara com pinta de jornalista. Alto, branco, olhos azuis, óculos de aros vermelhos, a roupa limpa e bem passada, de cores claras e alegres. Tem um porte altivo, orgulhoso, deve escrever sobre política. Deve ser um desses jornalistas que, apesar de assinarem as matérias, a gente nunca sabe o nome, porque só os colunistas é que ficam famosos.
Ao passar por mim, ele me olha fixamente, de forma um pouco exagerada.
Minutos depois ele retorna, entra no bar. Compra cigarros, me observa de perto. Sustento o olhar. Ele sorri, pede um uísque, não tem, pede um conhaque, bebe, me encarando sorrindo. Eu sorrio, iniciamos uma conversa amena. Ele é jornalista, de fato, de política, na mosca!
Na casa dele, cheiramos umas carreiras, ele pergunta se estou com fome, não estou, ele abre o bar e pega uma garrafa de uísque. Eu vou até o som, escolho um cd, ligo, fico dançando, excitada e feliz no centro da sala.
Enquanto danço, excitada, no centro da sala, olho-me no espelho e vejo um homem. Eu sou agora o jornalista de óculos de aros vermelhos, eu sou alto, branco, de olhos azuis e a mulher, que era eu, está sentada no sofá, beijando outra garota.
Vou até o bar, completo meu copo, pego o gelo e lembro do que fiz durante o dia. Conversei, ao telefone, com um senador, que me transmitiu informações explosivas sobre a crise política.
As duas prosseguem a perfomance. Uma é garota de programa. A outra, ex-eu, é meio estranha, mas bonita. Encontrei-a num bar perto do jornal. Disse-me que estava escrevendo uma crônica sobre a Cruz Vermelha e precisava de histórias.
Elas páram de se beijar. Uma delas está sem camisa, tem seios grandes, com mamilos enormes, inchados, respira forte, quer sexo. Chamo-a de peituda, ela ri, tem dentes um pouco cavalados, mas o rosto é harmonioso, olhos castanhos claros, nariz fino e lábios suavemente carnudos. Ela acaricia os próprios seios e roça uma perna na outra.
A outra é a escritora, magra, seios pequenos, olheiras profundas muito sensuais, chamo-a de Sherazade. Ela tem um sorriso giocôndico, está cheirando muito pó, digo para tomar cuidado, esse é puro.
No espelho vejo que continuo sendo o jornalista alto, mas estou um pouco mais gordo, e não tenho mais os olhos azuis. A peituda desapareceu. Há somente eu e a escritora na sala, nós dois dançando, eu beijo seu pescoço, ela estremece.
Ela me diz que estuda jornalismo, que está desiludida com a profissão, uns vendidos. Não estico o assunto enjoado, já sei o que ela vai falar, sempre a mesma coisa. Beijo sua boca, ela me morde os lábios. Grito:
"Puta que pariu! Você me machucou!"
Ela tem um olhar estranho, me dá calafrios. Me afasto um pouco, olho bem dentro de seus olhos, vejo um brilho de loucura, que merda, não tenho sorte com mulher, quando é bonita é louca, quando é legal é um tribufu. Ela pega a estátua de mármore sobre a mesa e parte pra cima de mim, insana!
No espelho, levo um susto, sou eu quem segura a estátua de mármore, estou no meio de um impulso, acerto a cabeça do jornalista, ouço o som dos ossos partindo. O sangue espirra na minha roupa. Ele cai, desacordado, morto?
Revisto à casa à procura de jóias, dinheiro, carteira, agenda. Encontro a agenda, dou sorte, ele anota as senhas do cartão. Limpo as impressões digitais, apago a luz, saio do prédio chique em Ipanema, tomando cuidado para não ser vista por ninguém. São três e cinquenta da madrugada.
Entro no carro dele, estacionado na rua, disparo pelas avenidas, acelero enlouquecidamente no aterro.
Acordo no dia seguinte, vou ao banco, saco o máximo de dinheiro, compro os jornais, paro num bar perto da Cruz Vermelha para beber uma cerveja. Dali a meia hora, vou ao banheiro fazer xixi, o espelhinho me devolve a imagem de um homem com aproximadamente trinta anos, muito bêbado, tentando organizar os pensamentos: bem, com sete reais dá para beber exatamente três itaipavas e uma cachaça com limão.
MIGUEL DO ROSÁRIO
O Waldir era um cara chato. Não um chato pequeno que nos faz lembrar um final de semana chuvoso. Nem um chato médio, tipo “dor de dente na hora do casamento”, mas sim um chato de enormes proporções, tipo “sofrer um acidente, engessar o corpo todo e ainda ter catapora depois”. Terrível! Era mesmo insuportável. Quase não ria, só andava de terno, só usava frases-feitas e isso sem falar no seu talento para falar coisas erradas nas horas erradas.
Não foi por outro motivo que sua mulher arranjou um amante. Waldir descobriu e a matou com sessenta e nove facadas. Só mesmo um assassino muuuuuito chato chegaria ao cúmulo de contar um a um os seus golpes. E mais: na delegacia ainda falou que havia conferido tudo depois. Ninguém merece!
Para os habitantes daquela pequena cidade, no interior de Minas, sua prisão foi um grande alívio. Mas como todo bom chato, Waldir não deu sossego assim tão fácil. Não! Pelo contrário, acabou se tornando famoso em todo o mundo, pois havia batido o sangrento recorde de “facadas aplicadas em uma única pessoa” e foi indicado para o Guiness Book.
De uma hora para outra, Waldir virou o assunto do momento. Foi entrevistado pelo Jô, foi capa da Veja, apareceu na Caras e foi até contratado por uma agência de publicidade para fazer o anúncio de uma faca inoxidável, onde aparecia dizendo: “Facas INOXIBEL, recomendada por quem entende do assunto”.Mas o comercial foi retirado às pressas do ar, pois, quando ele aparecia, os telespectadores desligavam seus aparelhos, pensando se tratar de propaganda eleitoral.
Quando já estava tudo pronto para a cerimônia da inclusão do nome do infeliz no livro, ocorreram dois fatos inesperados: primeiro veio a notícia de que um psicopata americano conhecido por canibal gay, havia matado o seu parceiro com 70 facadas, para depois comê-lo – no sentido degustativo, é claro! O prefeito – que já pensava na reeleição e queria tirar o máximo de proveito da fama que o caso estava dando à cidade -, foi quem mais ficou decepcionado.
- Esses ianques querem sempre estar na frente – esbravejou – eles nunca dão chance ao terceiro mundo. É um absurdo! O recorde é nosso, uai!
Mas como americano gosta de um escândalo, o canibal confessou que havia cometido o crime com a ajuda de alguns altos funcionários da Casa Branca, da CIA e do FBI, durante um ritual gay de magia cor-de-rosa. Resultado: para que o caso fosse abafado, o psicopata foi desclassificado e enviado para um presídio no Alasca.
Depois, um grupo de feministas ainda tentou ofuscar o brilho da festa com uma manifestação em repúdio à fama que Waldir estava conseguindo. Mas o movimento acabou fracassando, pois comerciantes ligados ao prefeito, se reuniram e decidiram promover, no mesmo dia, uma arrasadora liquidação de artigos de cama, mesa & banho em um magazine.
E finalmente, quando chegou a hora, lá estava o Waldir algemado, de terno e gravata e com sua cara de repartição pública, sobre o palanque armado na praça principal. O governador estava presente. Boa parte da imprensa nacional e internacional também. Tinha banda de música tocando no coreto, desfile de colegiais, políticos e duplas caipiras. O prefeito estava radiante, ao lado da primeira dama e iniciou um inflamado e tedioso discurso, onde não faltaram socos no ar, beicinhos e gestos emocionados.
- ...Não quero julgar as razões que levaram este pobre homem a cometer um crime tão bárbaro... – dizia, diante da platéia, que já via o culpado como um herói.
Os dois representantes do Guiness, louros, gorduchos e corados, suavam em bicas, mas se esforçavam para manter o sorriso diante de tanta chateação.
Enquanto isso, o corpo da vítima estendido sobre uma mesa, para que fosse feita a recontagem das facadas, pela comissão julgadora. E tudo foi transmitido pelo microfone por uma loura de maiô e saltos-altos.
- Vamos lá, todo mundo junto! E É UMA, DUAS, TRÊS...
Apesar do calor, das moscas e do mau cheiro, o povo acompanhava animado. Na 69a, houve até queima de fogos orientais e uma explosão de aplausos calorosos, enquanto a banda tocava o hino nacional.
Waldir, então, só teria que assinar o documento que formalizaria sua entrada no Guiness. Só isso. Mas como era chato, pediu a palavra para fazer alguns agradecimentos:
- Eu gostaria de dedicar esse momento, primeiramente, aos meus pais – aplausos – e também ao nosso excelentíssimo prefeito que foi o amante da minha mulher e sem o qual esta festa não teria sido possível. Obrigado.
Foi chato. Foi muito chato.//
JULIO CESAR CORRÊA
Julio Cesar Corrêa é autor de "A arte de odiar" e mantém o blog http://jccbalaperdida.blogspot.com/.
Se fosse possível chorar por meio de uma carta, o apelo que esta contém seria ainda mais sincero. Mas vocês não parecem medir o prejuízo que uma acusação como essas pode causar a uma reputação em fase de construção ainda.
Pois eu não sou caloteiro, é isso o que eu estou querendo dizer, e nem estou pedindo anistia.
Mas como comparar aquele que arquiteta um roubo com aquele a quem o crime bate à porta? Como que se põe no mesmo plano o engenheiro de um túnel clandestino e aquele que involuntariamente depara com um cofre aberto e cheio de dinheiro? Você encontrar dinheiro na calçada é diferente de você encontrar um cartão de crédito, entrar no caixa automático e sacar um dinheiro. Pois eu cheguei neste apartamento e, é o que eu estou lhe dizendo, o gato, ele já estava lá! Então não se tratava nem de algo a lucrar, mas apenas de uma despesa a menos. Por isso é que eu estou dizendo, se minha integridade for questionada, ou, pior, se exigirem de mim o pagamento da luz equivalente aos seis primeiros meses em que morei aqui, aí sim eu vou concordar com aqueles que se referiram a mim de modo pejorativo quando eu, sem necessidade, cadastrei o meu nome na Light após já tantos meses sem me preocupar com essa despesa, mais exatamente, desde que eu mudei para este apartamento, e apenas pela vontade de ser um honesto contribuinte. Ou seja, apenas por sentimento de culpa. Ou seja, apenas por medo. Você sabe o que eles disseram para mim, você sabe o que eles disseram para mim?
Eles disseram que eu era um trouxa.
Pois foi o que eles disseram.
Então se, como vocês dizem, não se tratava de um gato, se então era um problema com o medidor, aí então eu gostaria de saber uma coisa. Eu gostaria de saber como vocês vão computar a minha dívida, pois, além do mais, é bem possível que eu já tenha restituído o valor desses meses todos em que não me chegava conta alguma, uma vez que os valores das contas que vocês começaram a me mandar a partir do meu cadastro são completamente equivocados! E outra coisa: será também que esses últimos meses pagando em dia não provam que o meu desejo último sempre foi apenas o de sustentar essa imagem correta, essa, vamos dizer, essa minha biografia impecável? Entendo que aquela foi justamente a época do racionamento, não é verdade, quando vocês e o governo vinham com aquela balela de ameaça de “apagão” (que não chovia nunca, que os reservatórios do Brasil estavam secando!.Ora, corta essa.), e ainda cobravam uma sobretaxa daqueles que consumiam mais energia do que o limite preestabelecido por vocês, não é verdade; e eu sei que esses valores que vocês reivindicam, se estão corretos, demonstram mesmo certa, como vou dizer, uma... “despreocupação” da nossa, minha parte com as solicitações por parte do governo de que poupasse, de que poupássemos energia. Mas como julgar a idoneidade da própria Light se os valores mensais da minha conta, depois que eu me cadastrei, nunca diminuíram com o final do racionamento, muito pelo contrário, e sem que agora vocês sequer tivessem mais a desculpa da sobretaxa para multar a gente? E como julgar o descaso de vocês, quando, sempre me fazendo conversar com gravações ao telefone, eu ligava para solicitar a presença de um técnico no meu edifício para averiguar o medidor? Então é assim? Eu alimento a expectativa de pagar no máximo uns cinqüenta reais ao mês e vocês descobrem que eu lhes devo catorze mil e quinhentos e oito reais? E noventa e oito centavos? Ora, e a paciência é... de Jó! de que precisei até que os seus técnicos deduzissem que o portão da frente do meu prédio não podia estar fechado durante o dia, e que – ai, que difícil concluir, não é mesmo! Ainda havia um outro trinco a suspender!? Quanta irritação e desânimo vocês não me causaram e como vou exigir compensação por isso? Como vocês vão fazer sumir essa cicatriz na minha cabeça? Pois é o que eu estou lhe dizendo: foram oito pontos. Pois na ocasião eu estava saindo de casa e me entregaram o papel: “Estivemos aqui”, ou seja, apenas dois minutos antes de eu segurar o papel! Então, estava escrito no papel “Estivemos aqui e encontramos o portão fechado. Favor agendar nova visita.” Daí que eu corri à rua apressado e tropecei naquele mesmo ferrolho, machuquei a minha testa e (como, aliás, não poderia deixar de ser) não encontrei patavinas de técnico algum na rua. Quer saber de uma coisa mais: este já era o quarto bilhete que vocês largavam aqui na portaria. Então depois disso eu corro de volta para o meu apartamento, ligo imediatamente para vocês e aí vocês me informam que “a visita ainda não havia sido comunicada ao sistema”? “Então, se o técnico ainda está na rua!” – eu segurava uma compressa de gelo na cabeça quando eu lhe dizia isso – “Então liga para o técnico e pede para ele voltar aqui, pois eu estou em casa! Entendeu? E faz o favor de avisar a ele que tem um trinco no portão que ele tem que suspender! E diz para ele que é um trinco cheio de SANGUE, você diz para ele!, pois, do contrário, ele não vai poder tocar o interfone, entendeu?”
Você acha que alguém apareceu?
É o que eu estou dizendo para você. Vocês aí não são mole não! Vocês não são brincadeira não.
Mais ainda: por que o prazo de ‘até’ trinta dias para a vinda do técnico? Por que não se podia agendar uma data certa? Quer dizer então que, durante o horário comercial, eu nem posso procurar por emprego? E isso porque o técnico da Light pode, das 9 às 19 horas, nos próximos trinta dias, aparecer a qualquer momento! Por maiores que sejam as solicitações dos clientes, esses prazos só nos fazem desconfiar de que é a própria empresa que impede que seus clientes exijam justiça. Vocês detém o monopólio, vocês fazem o que vocês querem, eu não tenho a opção de não ser um cliente de vocês... assim como eu não tive acesso a nenhum dos números que vocês extraíra