“Joana de Pasárgada”
Lá estava ela, nua,
A provocar-me a casta,
A rasgar-me o sono,
A seguir-me despida
Do alto pendida
Com as faces roubadas
Consteladas
Por fulgor alheio.
Lá estava ela, nua,
A mimar-me os sonhos,
A afagar-me os ombros,
A ornar-me os passos
Por entre os becos frustrados,
Entorpecidos
No silêncio falso
De tua pousada.
Lá estava ela, nua,
A escravizar-me os olhos,
A sussurrar-me o belo,
A poetizar-me a língua
Traduzindo cânticos
D’alma conspirada,
Consagrada
Complacente e nua.
Lá estava ela, a lua.
JACQUELINE SALGADO
Luis Humberto Crosthwaite
Poderíamos nos encontrar depois de muitos anos.
Poderíamos não acreditar.
Poderíamos nos abraçar.
Poderia convidá-la para conversar.
Poderia ser em um café, você me diz.
Poderia pedir moca e me sugerir um capuccino.
Poderia aceitar e pedir, além disso, um pão doce.
Poderia deixar que você falasse.
Poderia fazer algum comentário que não viria ao caso.
Poderia me perguntar porque estou tão calado.
Poderia elogiar sua pulseira e seus anéis.
Poderia se levantar para ir ao banheiro.
Poderia ficar sozinho, pensando.
Poderia aproveitar o momento para me questionar.
Poderia me dizer que já estou grandinho.
Poderia tentar ser inteligente com você; acho que você gostaria disso.
Poderia voltar sorrindo.
Poderia ficar nervoso.
Poderia não encontrar o que falar.
Poderiam minhas mãos estar suando.
Poderia armar-me de coragem, começar uma anedota.
Poderia explicar que precisamente na semana passada….
Poderia mostrar-se interessada.
Poderiam seus olhos brilhar, cheios de fogo.
Poderia um garçom nos interromper.
Poderia ser gay, o garçom
Poderia dizer não obrigada.
Poderia eu admirar a maneira como você diz não obrigada.
Poderia perguntar como fiquei.
Poderia dizer que não sabe.
Poderia pensar que você não estava prestando atenção.
Poderia se lembrar que foi algo sobre a semana passada.
Poderia dizer que não é importante.
Poderia ver você, sem mais nem menos, ficar em silêncio.
Poderia ser um longo silêncio.
Poderia pensar que não é suficiente, queixar-se desse silêncio.
Poderíamos queixar-nos do mundo, da situação do mundo, da guerra, dos gringos.
Poderia defender o silêncio: faz falta, não acha?
Poderia ser, você me diz, mas é mais agradável escutar sua voz.
Poderia ficar vermelho.
Poderia baixar a vista e contemplar os dedos de seus pés, embaixo da mesa.
Poderia incomodá-la se faço isso por muito tempo.
Poderia confessar que tem estado triste.
Poderia me dizer que sente falta de um homem.
Poderia continuar me contando: trabalhávamos juntos; a empresa o mandou para longe.
Poderia eu mostrar certo interesse.
Poderia me esforçar em fingir certo interesse para que você não perceba que odeio esse homem.
Poderia expressar nesse momento que não me interessa saber nada dos outros homens da sua vida.
Poderia.
Poderia.
Poderia.
Poderia não me atrever.
Poderia continuar falar dele.
Poderia escutá-la.
Poderia se deter por um momento, sorrir.
Poderia me dizer que sorte nos encontrarmos depois de tantos anos.
Poderia festejar também.
Poderia me lembrar que em outra época quis compartilhar uma vida com você.
Poderia lembrar os desencontros que tivemos; outro eu, outra você.
Poderia pensar que talve agora.
Poderia acreditar (agora, claro) que este encontro não é casual.
Poderia ser o destino.
Poderia agradecer ao destino por tê-la colocado novamente na minha vida.
Poderia dizer isso agora.
Poderia convidá-la para dançar.
Poderia.
Poderia.
Poderia.
Poderia continuar em silêncio.
Poderia continuar com o relato de sua vida: um doloroso divórcio já superado.
Poderia perguntar, de verdade?
Poderia me responder, é claro.
Poderia falar de sua filha.
Poderia falar dos meus filhos.
Poderia nos interromper um estouro.
Poderia ser um forte estouro que deixa todos aturdidos.
Poderia ser um estouro que vibra as janelas do café.
Poderia ser uma explosão, você me diz.
Poderíamos ficar assustados.
Poderia o garçom sair do café para ver o que acontece.
Poderia ser gay o garçom.
Poderia voltar correndo e dizer que há um incêndio lá longe.
Poderíamos pagar imediatamente, deixar gorjeta: 15%.
Poderia as pessoas estarem se reunindo na rua.
Poderíamos caminhar, como muitos outros, em direção às chamas.
Poderíamos ver uma casa pegando fogo.
Poderia uma mulher estar gritando, pedindo ajuda de dentro da casa.
Poderia ver a angústia em seu rosto.
Poderia me dizer rapidamente, com desespero, que algo assim aconteceu quando você era menina.
Poderia querer chegar mais perto, mais e mais.
Poderia repetir que isto já aconteceu, que a história se repete.
Poderia tentar entendê-la. A história?
Poderia me explicar, mas há muita confusão em sua cabeça: lembranças importantes, dúvidas galopando.
Poderia mostrar que os bombeiros já estão chegando.
Poderia ignorar isso.
Poderiam seus olhos brilhar, cheios de fogo.
Poderia entrar na casa que está se incendiando.
Poderiam as outras pessoas gritar para que você não faça isso.
Poderiam dizer, o que está fazendo, ficou louca?
Poderia tentar chegar perto; mas o calor, o calor das chamas.
Poderia me sentar para chorar numa banqueta.
Poderia ser o destino.
Poderia maldizer o destino por ter tirado você novamente do meu caminho.
Poderia chegar a polícia, os bombeiros, as ambulâncias.
Poderia haver confusão na rua.
Poderia a fumaça deixar tudo opaco, deixar a vida opaca.
Poderia um cheiro estranho inundar tudo, inundar a vida.
Poderia encontrá-la entre a confusão; caminhando, linda; tossindo, linda; soluçando, linda.
Poderia correr em sua direção.
Poderia, inclusive, dizer seu nome sem me dar conta.
Poderiam me deter os paramédicos.
Poderia vê-la partir em uma maca, em uma ambulância.
Poderia.
Poderia.
Poderia.
Poderia recuperar juízo.
Poderíamos nos encontrar depois de muitos anos.
Poderíamos não acreditar.
Poderíamos nos abraçar.
Poderia invitá-la a conversar em um café.
Poderia me dizer que sente muito.
Poderia me explicar que está com pressa.
Poderia eu simplesmente sorrir; dizer que está bem, fica para a próxima.
Poderia não me dar seu número de telefone.
Poderia ser o destino.
Para Susana Calette
Luis Humberto Crosthwaite Escritor nascido em Tijuana. Suas histórias refletem distintos aspectos da vida na fronteira México-Estados Unidos. Entre seus livros mais conhecidos estão “Instrucciones para cruzar la frontera” (Joaquín Mortiz, 2002), “Idos de la mente” (Joaquín Mortiz, 2001) e “Estrella de la Calle Sexta” (Tusquets, 2000)
Luis Humberto Crosthwaite
Podríamos encontrarnos después de muchos años.
Podríamos no creerlo.
Podríamos abrazarnos.
Podría invitarte a conversar.
Podría ser en un café, me dices.
Podrías pedir moca y sugerirme un capuchino.
Podría hacerte caso y pedir, además, un pan dulce.
Podría dejar que hablaras.
Podría hacer algún comentario que no vendría al caso.
Podrías preguntarme por qué tan callado.
Podría elogiar tu pulsera y tus anillos.
Podrías levantarte para ir al baño.
Podría quedarme solo, pensando.
Podría aprovechar el momento para cuestionarme.
Podría decirme ya estás grandecito.
Podría tratar de ser inteligente contigo; creo que te gustaría eso.
Podrías regresar sonriendo.
Podría ponerme nervioso.
Podría no encontrar que decir.
Podrían estar sudando mis manos.
Podría armarme de valor, comenzar una anécdota.
Podría explicar que la semana pasada precisamente...
Podrías mostrar interés.
Podrían tus ojos brillar, llenos de fuego.
Podría un mesero interrumpirnos.
Podría ser gay el mesero.
Podrías decirle no gracias.
Podría yo admirar la manera en que dices no gracias.
Podría preguntar en qué me quedé.
Podrías decir que no sabes.
Podría pensar que no me estabas poniendo atención.
Podrías recordar que fue algo sobre la semana pasada.
Podría decir que no es importante.
Podría verte, así nada más, en silencio.
Podría ser un largo silencio.
Podrías pensar que no es bastante, quejarte de ese silencio.
Podríamos quejarnos del mundo, de la situación del mundo, de la guerra, de los gringos.
Podría abogar por el silencio: hace falta, ¿no crees?
Podría ser, me dices, pero es más agradable escucharte hablar.
Podría ruborizarme.
Podría bajar la mirada y contemplar los dedos de tus pies, bajo la mesa.
Podría incomodarte si lo hago durante mucho tiempo.
Podrías confesar que has estado triste.
Podrías decirme que extrañas a un hombre.
Podrías seguirme contando: trabajábamos juntos; la compañía lo mandó lejos.
Podría yo mostrar cierto interés.
Podría esforzarme en fingir cierto interés para que no te des cuenta que odio a ese hombre.
Podría expresar en ese momento que no me interesa saber nada de los otros hombres de tu vida.
Podría.
Podría.
Podría.
Podría no atreverme.
Podrías seguir hablándome de él.
Podría escucharte.
Podrías detenerte un momento, sonreír.
Podrías decirme qué suerte encontrarte después de tantos años.
Podría festejarlo también.
Podría recordar que en otro tiempo quise compartir una vida contigo.
Podría recordar desencuentros entre nosotros; otro yo, otra tú.
Podría pensar que quizás ahora.
Podría creer (ahora, claro) que este encuentro no es fortuito.
Podría ser el destino.
Podría agradecer al destino por haberte puesto nuevamente frente a mí.
Podría decírtelo ahora.
Podría invitarte a bailar.
Podría.
Podría.
Podría.
Podría seguir en silencio.
Podrías continuar con el relato de tu vida: un doloroso divorcio ya superado.
Podría preguntar ¿de veras?
Podrías decirme por supuesto.
Podrías hablar de tu hija.
Podría hablar de mis hijos.
Podría interrumpirnos un estallido.
Podría ser un fuerte estallido que a todos nos aturde.
Podría ser un estallido que cimbra las ventanas del café.
Podría ser una explosión, me dices.
Podríamos asustarnos.
Podría el mesero salir del café para ver qué sucede.
Podría ser gay el mesero.
Podría regresar corriendo y decir que hay un incendio a lo lejos.
Podríamos pagar de inmediato, dejar propina: 15%.
Podría estarse reuniendo la gente en la calle.
Podríamos caminar, como muchos otros, rumbo a las flamas.
Podríamos ver una casa incendiándose.
Podría una mujer estar gritando, pidiendo ayuda desde el interior.
Podría ver angustia en tu rostro.
Podrías decirme rápidamente, con desesperación, que algo así pasó cuando eras niña.
Podrías querer acercarte, más y más.
Podrías repetir que esto ya sucedió, que la historia se repite.
Podría tratar de entenderte. ¿La historia?
Podrías explicarme, pero hay demasiada confusión en tu cabeza: recuerdos importantes, dudas galopando.
Podría señalar que ya no tardan los bomberos.
Podrías ignorarlo.
Podrían tus ojos brillar, llenos de fuego.
Podrías entrar a la casa que se incendia.
Podría la demás gente gritarte que no lo hagas.
Podrían decir ¿qué hace, está loca?
Podría tratar de acercarme; pero el calor, el calor de las llamas.
Podría sentarme a llorar en la banqueta.
Podría ser el destino.
Podría maldecir al destino por haberte quitado nuevamente de mi sendero.
Podrían llegar la policía, los bomberos, las ambulancias.
Podría haber confusión en la calle.
Podría el humo opacar todo, opacar la vida.
Podría un olor extraño inundar todo, inundar la vida.
Podría descubrirte entre la confusión; caminando, hermosa; tosiendo, hermosa; sollozando, hermosa.
Podría correr hacia ti.
Podría, incluso, decir tu nombre sin darme cuenta.
Podrían detenerme los paramédicos.
Podría verte partir en una camilla, en una ambulancia.
Podría.
Podría.
Podría.
Podría recuperar la cordura.
Podríamos encontrarnos después de muchos años.
Podríamos no creerlo.
Podríamos abrazarnos.
Podría invitarte a conversar en un café.
Podrías decirme que lo sientes mucho.
Podrías explicarme que tienes prisa.
Podría yo simplemente sonreír; decirte está bien, a la próxima.
Podrías no darme tu número de teléfono.
Podría ser el destino.
Para Susana Calette
Luis Humberto Crosthwaite Escritor nascido em Tijuana. Suas histórias refletem distintos aspectos da vida na fronteira México-Estados Unidos. Entre seus livros mais conhecidos estão “Instrucciones para cruzar la frontera” (Joaquín Mortiz, 2002), “Idos de la mente” (Joaquín Mortiz, 2001) e “Estrella de la Calle Sexta” (Tusquets, 2000).
Amor,
eu queria terminar essa carta,
com seus olhos,
pregados no meio do papel
icebergues verdes flutuando sobre linhas tortas.
Eu queria terminar essa carta, Amor,
com as suas verdades indiferentes, com a suas mãos
macias e seus gritos carregados de mistério, miséria, abismos e, reentrâncias infinitas
e, ausências e, Amor
eu queria terminar essa carta
com a autópsia das lembranças,
com o barulho pútrido do silencio
que ecoa dos retratos empoeirados.
Eu queria terminar essa carta
com as marcas, com as marcas, com as marcas
da vitrola defeituosa
escondida na sua infância
Terminar essa carta, amor
em mil novecentos e noventa e três
reais
e quarenta e sete centavos.
(o preço das nossas ligações telefônicas)
Eu queria ter você terminando essa carta
como se estivesse escrevendo para seu amante em Zurique
o mesmo que possui minhas mãos, minhas pernas, meu estômago
que começa e acaba
em mim
Eu queria terminantemente minar essa carta
com suas lágrimas definitivas
que só servem para me alagar nos domingos de sol
Eu queria terminar essa carta
antes da boca aberta do armário vazio
e essa sua mania surpreendente de abortar minhas ilusões .
Neste fim de tarde rosado,
eu queria terminar esta carta, amor
e, em seguida, enviar a você
Mas, no sábado, depois das quatro
os correios já estarão fechados.
JANEIRO, 2005
Guilherme Tolomei - Nascido no Rio de janeiro em 1981 é estudante de Direito da UFRJ. Ganhou o Concurso de poesias da Rádio Mec (1997), 2° lugar na Maratona Nacional de Letras (Canal Futura, 1998), participou da Coletânea de texto da UNESCO (2004) e ganhou o Concurso da Bolsa Eldorado de Literatura (2005)
Seu pai o quê?
Nem meu avô.
O quê?
Nem o avô do meu avô.
Mas o quê, eles todos?
Nunca.
Eles nunca o quê?
Nunca puseram as mãos no que não lhes pertencia.
E isso foi bom para eles?
Eu também não.
Nunca roubou?
Nunca, nada.
Nada como?
Nunca fiz nada.
De errado?
É. Nem de certo. Saí aos meus.
Mas não considera certo nunca ter feito coisas erradas?
Talvez.
Como assim?
Tivesse tido oportunidade, talvez tivesse feito.
O quê?
O errado. Ou o certo, não sei. Saí aos meus.
Como sabe que seu avô, por exemplo, nunca fez nada errado?
Não disse isso. Sei que ele nunca roubou. Se gabava disso.
O que ele fazia?
Era mineiro. Fundidor de ouro. Morreu pobre como nasceu.
Nem uma barrinha? Nem um grãozinho. Nem?
Nem.
E seu pai?
Meu pai parece esconder algum grande e terrível segredo.
Um roubo?
Não, acho que algo pior.
Um assassinato?
Não atino com o que seja. Mas sei que assassinato não é.
Suborno?
Mas quem subornaria alguém como ele? E para quê?
E você?
Eu?
É. Você já foi subornado?
Ninguém nunca me pediu nada. Saí aos meus, já disse.
Devido a sua aparência honesta?
Pareço é otário.
RICARDO ALEIXO
Ricardo Aleixo é poeta, ensaísta, músico e artista visual. Autor, entre outros, dos livros "Trívio" e "Máquina Zero". Tem, no prelo, o volume de ensaios "Palavras a olhos vendo - Escritos sobre escritas". Despacha no endereço www.jaguadarte.zip.net.
Eu, olho-me no espelho oval da parede,
Procuro detalhes desta minha presença.
Tento achar em minha verdadeira aparência
Ainda atraente, sentir algum contentamento
No limiar da idade estampada no rosto:
Sutilezas, algum sulco ao redor dos olhos,
Que faz o corpo pedir azul kleiniano e branco,
Deixando-me satisfeito, na expectativa, entregue.
Mas não pensem que é uma mudança radical
O que se passa em minha proposta pessoal,
Esta tentativa de ficar mais jovem e refeito,
Bonito pra mim mesmo. Prestem bem atenção:
A razão suficiente da minha imagem refletida
Demonstra o prazer em vestir as cores do céu.
Poema de “Pavios Curtos”, livro de José Aloise Bahia, anomelivros, 2004
JOSÉ ALOISE BAHIA
Esse rosto que me olha de esguelha
(talvez para não ser reconhecido)
não é o mesmo que ontem vi no espelho,
o rosto familiar de um velho amigo
que desde sempre eu via à minha frente
e que no entanto agora anda sumido.
Não. Este novo é um rosto diferente,
de quem está ali a contragosto,
só por honra da firma, e se ressente
da obrigação de refletir um rosto
que — fora um ou outro aspecto físico
que nada significa — é o seu oposto.
(Um dos dois rostos é um impostor, no mínimo.
Um dos dois vai ouvir: Pára com isso,
porra. É com você mesmo, seu cínico.)
PAULO HENRIQUES BRITO
Deixou a marca dos dentes
Dela no braço
Pra depois mostrar pro delegado
Se acaso ela for se queixar
Da surra que levou
Por causa de um ciúme incontrolado
Ele andava tristonho
Guardando um segredo
Chegava e saía
Comer não comia
E só bebia
Cadê a paz
Tanto que deu pra pensar
Que poderia haver outro amor
Na vida do nego
Pra desassossego
E nada mais
Seu delegado ouviu e dispensou
Ninguém pode julgar coisas de amor
O povo ficou intrigado com o acontecido
Cada um dando a sua opinião
Ela acendeu muita vela
Pediu proteção
O tempo passou
E ninguém descobriu
Como foi que ele
Se transformou
Uma noite
Noite de samba
Noite comum de novela
Ele chegou
Pedindo um copo d’água
Pra tomar um comprimido
Depois cambaleando
Foi pro quarto
E se deitou
Era tarde demais
Quando ela percebeu
Que ele se envenenou
Seu delegado ouviu
E mandou anotar
Sabendo que há coisas
Que ele não pode julgar
Só ficou intrigado
Quando ela falou
Que ele tinha mania
De ouvir sem parar
Um samba do Chico
Falando das coisas do dia-a-dia
PAULINHO DA VIOLA
Orlando Lopes
*
a
mão
errando
entra mais uma vez no vestido
reino pacífico que
se pode dominar
qualquer domingo desses
sexozinho faz mal
(sempre
um pé atrás:
esgana os beiços – descorados
e rachados –
esperando seu bem)
o aperto nas pernas
não permite a ninguém
imaginar
as ereções tardias
(apenas os olhos
escancarados
deixam entrever
alguma coisa
do lobo-mau)
*
a reentrada angustiada
de uma lua meio vazia
interrompe os versos táteis
das pernas e mãos
(de madrugada
pode-se cair de quatro
na avenida:
blefes de um amor obeso)
vômito onomatopaico
introduz
aplausos pneumáticos
(merda de pombo pousando:
debandam por ali
nos prédios)
a chuva passa perto
aumentando a cobertura
de prédios e pombos
*
DE COMO OS OLHOS BRILHAM TRÁGICOS E PERFORMÁTICOS
indefectível
frenético o coração da mulher
(the heart who knew too much)
o rosto parado
registra psicoses passeando
pelo corpo feminino
(já entre quinze e vinte anos
sentada para o almoço
com as pernas abertas
sai correndo
e chorando
e batendo a porta do banheiro
esse marido já está no papo)
*
o batom de Alice
paira nas mãos do coelho
que depois de longa vigília
inicia a cerimônia
de feminilização
na penumbra
o coelho depilado
(os pêlos brancos
amontoados no chão
& bigodes esvoaçantes)
Retoca a boca hemorrágica
hoje roger rabbit
não escapa
*
AMOR (poema pop – versão remix)
destila
do sorriso
a inviabilidade de nova diáspora:
prende-se ao braço oferecido
com uma sofreguidão cínica
tópica dos corações estuporados:
definem-se nos lábios rasos
timbres monótonos
extraídos de um comercial
de geladeira
refrão: nunca fogem um do outro
mal conseguem parar de deixar
escapar suspiros (espantosamente
espontâneos) sonhadores
(a felicidade lhes afaga a fronte
ignorando as circundantes sombras épicas
dos outros casais (clowns solidários
estereotipados e amargos)
o tempo todo os corpos se atropelam
em câmera lenta (ou frames
distorcidos) – sucessivas táticas
de marketing afetivo
*
DRAMALHÃO (em ritmo de rumba)
Ah, disse ela.
Uh, disse eu.
Sebastião Lírio
desconectadas
as pernas
perdem o sentido
(os lábios escorrem
como um sinal : monumental
sorriso amarelado
(feed back angustiado e impaciente
que se espaça
entre mais e maiores interrupções)
e evasivo)
recolhem-se em beijos
(apertam-se e marcam-se: cândidas burrices
enérgicas
de um
loving generalizado e aleatório)
único recurso estilístico
dos ingênuos e inocentes amantes (na vida real
)
adoça-se uma pele em outra (sensualidade
frouxa: artérias compassadas
no ir e vir do gorduroso cérebro cardíaco:
a luminosidade de um seio que
roçado
se intimida
e repele
boca e dedos)
A BOLINÁVEL CRISÁLIDA ESTEPE (discurso da pequena e parva análise floreada)
início:
ela surge
como se nada tivesse acontecido]
serpenteia lúcida
pelos paramentos da sala de estar]
fast-forward:
(agony’s story)
a feiúra pontiaguda
pensa
[visão geral:]
arremete-se (branco bólido fibroso
mais veloz que um trem)]
aos pés de seu objeto de amor
pause (em cinemascope):
seu objeto de amor
metendo-lhe um pé na bunda (literalmente)]
segue:
close no orgulho ferido
que recrimina com um fechar de olhos
sua depressão]
rewind.
Replay.
Comemorando mais um especial poesia, Paralelos e a Fundação Biblioteca Nacional sorteiam três exemplares da excelente revista Poesia Sempre, editada pela Fundação Biblioteca Nacional e que neste número homenageia Augusto de Campos.
Para quem não sabe, hoje com uma tiragem de 5.000 exemplares e trimestral, a Poesia Sempre passou recentemente por uma reformulação que a deixou mais robusta, com um design caprichado e voltada apenas para os autores brasileiros. Luciano Trigo, que está à frente da publicação, tem uma preocupação especial: os novos poetas; e por isso tem constantemente incentivado os novíssimos a encaminhar seus trabalhos para avaliação e possível publicação (alguns dos autores publicados aqui em Paralelos já publicaram na revista).
Para concorrer a um exemplar de Poesia Sempre, basta responder qual o nome do irmão famoso do autor homenageado desta edição.//
E-mails para promo@paralelos.org.
EDITORIAL
Montar um especial de poesia brasileira é sempre problemático. Não por falta de poetas, ao contrário! Há uma avalanche de textos poéticos em produção, coleções de poesia em lançamentos, novas gerações de poetas em surgimento.
Não significa que os poetas começaram a ser respeitados nesta terra brasilis, o espaço continua sendo limitado e restrito, as publicações continuam em edições alternativas e editoras pequenas. Talvez o diferencial seja o surgimento, também em avalanche, de editoras pequenas. As grandes nem querem ouvir sobre o assunto: ninguém fala em voz alta, mas a Poesia ainda carrega o estigma (oh, cruzes, oh, horror) de ser ‘artística demais’, isto é, não ser economicamente viável, isto é, eles continuam achando que Poesia não vende...
(Aliás, do que os Poetas vivem? De poesia? Hum! Marcelo Ariel, um dos nossos convidados: “Vivo [sambando no fio da navalha] da venda de livros e por isso me sinto como o negativo de um narcotraficante... Aliás, optei por ser poeta num meio onde todos preferem a bandidagem. A poesia para mim é a última trincheira.")
No entanto, apesar de tudo eles estão por aí. É só virar a cabeça e trombar com vários. Continuam batalhando com suas edições limitadas e agora com os espaços ilimitados das internets, com seus blogs, sites, links.
Mas... e BONS poetas? Existem? Ou serão fruto de nossa imaginação e esperança paralelas? Como discerni-los no meio da massa ignara? Isso é possível?
Para estes três camaradas, não só é possível, como há muita coisa interessante acontecendo. Foi através das indicações de MANUEL DA COSTA PINTO, FREDERICO BARBOSA e ADEMIR ASSUNÇÃO que juntamos este pessoal, conhecemos sua poesia e a estamos apresentando. Eles sabem do que estão falando.
Manuel da Costa Pinto é formado em jornalismo pela PUC-SP e mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP, autor de Albert Camus – Um Elogio do Ensaio, pela Ateliê Editorial, e LITERATURA BRASILEIRA HOJE (Publifolha), onde apresenta cem autores em plena atividade, cinquenta prosadores e cinquenta poetas, foi fundador e editor da revista Cult e atualmente é colunista da Folha de S.Paulo. se quiser conhecê-lo melhor, pode acessar a entrevista que fizemos com ele, aqui mesmo.
Frederico Tavares Bastos Barbosa já publicou poemas em diversas revistas por todo o Brasil, ganhou o Prêmio Jabuti, tem sido traduzido e publicado em coletâneas de diversos países, como os Estados Unidos, Austrália, México, Espanha e Colômbia. Em 2002, publicou, em parceria com Claudio Daniel, a antologia de poesia brasileira contemporânea Na Virada do Século - Poesia de Invenção no Brasil (Landy Editora) e lançou o seu quinto livro de poemas, Cantar de amor entre os escombros, também pela Landy, para a qual criou e dirige a Coleção Alguidar. Dá pra ver muita coisa do que já fez pelo site fredbar
E o Ademir Assunção publicou os livros de poemas LSD NÔ (SP, Iluminuras, 1994) e Zona Branca (SP, Altana, 2001), a prosa experimental A máquina peluda (SP, Ateliê Editorial, 1997) e o de prosa Cinemitologias (SP, Edições Ciência do Acidente, 1998). Trabalhou como jornalista na Folha de Londrina, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo e na revista Marie Claire. Tem um blogue, o zona branca
Digamos que seja, no mínimo, uma equipe de respeito.
O pedido que fizemos foi o seguinte: de apresentar nomes de jovens poetas que estejam surgindo agora e que já mereçam que prestemos bastante atenção. O resultado foi além do pedidos: autores jovens, com um livro publicado; outros com mais do que dois livros, mas cuja produção ainda está colocada de lado, ou não é conhecida. O resultado é o que vocês podem conferir.
E, mesmo assim, foi um sufoco. Só com as indicações, teríamos um pouco mais de trinta nomes! Tivemos que fazer novo filtro, delimitar ainda mais, até fechar nestes nossos dezoito convidados: Neuza Pinheiro, Márvio dos Anjos, Mauro Faccioni, Marcelo Montenegro, André Luiz Pinto, Valéria Tarelho, Rodrigo de Souza Leão, Douglas Diegues, Donny Correia, Sergio Mello, Fabiano Calixto, Greta Benitez, Luis Dlhnikoff, Maria Esther Maciel, Paulo Ferraz, Marcelo Ariel, Adriano Menezes, Ricardo Myiake
Sem nenhuma pretensão maluca de querer esgotar as possibilidades do contingente de poetas brasileiros que estão surgindo, este especial até que pode dar uma boa idéia do que está acontecendo. //
CLAUDINEI VIEIRA
Editor convidado
O DESTINO DISSE
aqui estou eu frente ao Destino
de joelhos
com a face nua, olhos lavados
e sozinho
espero o sol ir-se para entrar
no escuro desse diálogo
aqui, apenas com perguntas e imagens
e umas páginas em branco
nesse estreito entreolhar
sem distâncias
mas
ele não sabe o que dizer, apenas
um gesto sobre o outro
e mais outro, e mais outro
construindo um Tempo e dizendo:
esse é O seu,
e este é O meu
DE MÃOS DADAS
encheremos juntos o vazio
ninguém ficará de fora
não temos asas
não somos fogo
vasculharemos o precipício
penetrando no labirinto
não somos luz
não temos voz
seremos só o que seríamos
vivendo onde é o ausente
não temos dentro
não somos nós
CAMINHO PARA A MONTANHA DAS PALAVRAS
caminho para a montanha das palavras
tateando o mapa de meus pais
(este gemido – este som das grutas)
caminho com os olhos cravados
(este som perdido e sem sentido)
mirando no topo e com os olhos firmes
não está no campo da mirada
não está no ângulo ou na vontade
não está no desejo ou na esperança
essa massa esse corpo essa nuvem densa
cujos braços rolam lentos pela mata
mordendo os lábios e sugando os ventos
montanha de palavras – desejo solar
caminho entre sombras como o menino
para esmolar algumas gotas de carinho
LÁ
lá está a floresta baixa
um metro sobre a areia
o caminho se bifurca
e adiante se divide
lá à frente outra vez
divisões ininterruptas
lá está a areia alta
um metro sob a mata
estradas que se cruzam
abre a adiante fecha
a junção a certeza
a dúvida a fresta
FACE
tracemos agora um caminho
desconexo e descozido
para fazer ver a todo mundo
que nós só temos nossa face
uma face crua, bruta, seca
que frente a frente é muito
uma frente dura, justa, oca
que face a face é única
Vamos nos debruçar sobre este problema
como um deus de olhos grandes
e também como um ponto torturado.
Vamos nos debruçar em silêncio
soprando a canção da infância
estendendo os dedos
largando o lápis
Criamos um remorso e um vento
e mesmo que seja insensato
vamos descer os olhos sobre isso
É fraco o meu desejo
mas sobre a dor ele insiste.
Vamos ver este jogo de flores
desde um ponto muito longe
até bem perto
até bem no escuro
Mauro Faccioni Filho (1962) publicou os livros de poemas DUBLO DUBLÊ, e OLHOS CEGOS, 2004, (Letras Contemporâneas), participou da antologia PASSAGENS (2002) e é um dos fundadores da revista Babel
Réquiem para 12 rosas
As rosas que mandei, sei que morreram,
Pois é o destino vil de toda rosa.
Nenhuma pôde em vida ser vaidosa;
Tão logo abriram, cedo faleceram.
As doze mensageiras se perderam
Na missão já sabida desastrosa.
Levaram um cartão, em simples prosa,
Cumpriram seu dever e feneceram.
Era preciso que elas fossem vê-la
Para que eu desaguasse esses amores
Tão represados no pensar em tê-la
Sem poder, arruinando-me nas dores,
Culpas de rosas mortas por querê-la
E um amor que não vale doze flores.
Soneto dos dois lados da moeda
Eu penso em ti bem mais que deveria
Se fosse apenas coisa de momento,
Se eu só quisesse tê-la como o vento
Que nos deixa depois que acaricia.
Podia ser um sonho calmo e lento,
Que numa ou noutra noite iludiria,
Mas não... eu penso em ti à luz do dia,
Dirigindo, desperto e bem atento.
Do meu carro eu te busco em outros carros,
Pelas noites te busco em outros sarros...
Se me achasses na vida nessas horas,
Imagino que tua voz diria
Que em teus olhos se vê que inda me adoras...
...ou que penso em ti mais do que devia.
Paranóia
No alto daquele prédio,
Naquela calçada,
Fitando da janela,
Estão todos, todos
Contra mim.
Unidos sob um sólido ideal, repetem meu nome em sórdidas tramóias,
Sou seu mais digno alvo, última coluna a derrubar.
Na mesa daquele restaurante,
Na escadarias do Municipal,
Nas estações do metrô,
Todo e qualquer instante é pouco para eles, eles todos, todos contra mim.
Eles e seus malditos códigos, sinais,
Criptografias, isso que atravessa a mente e mente e mente e mente,
Esse calvário diariamente entre o que já não sei se é
E o que é simplesmente.
Eles me dizem em silêncio as coisas que não ouço
E você no meu lugar talvez nem entendesse.
É verdade é sério é de verdade e eu juro que é
Acredito na minha intuição
Tanto quanto em minha imaginação.
Atrás de você,
Ao nosso redor,
Diante da sombra trêmula que vela por nós dois,
Eles conspiram, eles querem sua ajuda,
Eles e você, sim,
São talvez vocês todos, juntos,
Todos contra mim.
Eles querem me matar porque eu os fiz viver e posso assassiná-los
E você no meu lugar talvez sobrevivesse.
Só que eu nem posso estar no seu lugar.
(O horizonte se afasta lentamente de mim enquanto
Um sopro gélido de vento pousa a mão sobre o meu ombro e some.)
No elevador,
No túmulo,
No Céu,
Eles, você e eu, Ele, enfim,
Todos juntos, vamos, todos nós agora
Contra mim
MÁRVIO DOS ANJOS é carioca, nascido em 9 de agosto de 1978. Poeta e músico, radicou-se em São Paulo desde 2003. É jornalista da Folha de São Paulo. É vocalista da banda de rock Cabaret (ex-Glamourama), que tem disco de estréia previsto para este ano. Publica seus poemas em nobrefarsa.blogspot.com
Lucidez
fabrica espelhos
repletos de eletrochoque
os sinais ficam vermelhos
nào há mistério q volt...
''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''
Uma palavra
que diga
por mínima
cai no ridículo
A música sim
sobe de mim
musa, meu Upa
musa, meu Fico
''''''''''''''''''''''''''''''''''''''
enquanto a gente
anoitece
um filho
quando amanhece
cresce em segredo
é como brincar de infinito:
faz de conta que dá conta
mas dá medo
''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''
'sacar meu país
saco de pancada
saco de risada
chute no saco
''''''''''''''''''''''''''''''''''
homens não são o que pensam
quem eles pensam que são?
Não sabem de onde vem
nem sabe pra onde vão...
Se nada sou do que penso
se não sei pra onde vou
melhor sair caminhando
no segredo desse instante
já que voar
eu sabia
mas foi bem
antes de antes...
''''''''''''''''''''''''''''''''''''
olha ali a luz
tão nova
e a mariposa
tão antiga
roda...
''''''''''''''''''''''''''
Venusiana n. 1
se eu pudesse me inventar de novo
meu amor
virava bálsamo
pra tua dor
Agora vê os astros
meu amor
como estão nus
Vênus te deixe
bem leve
lá no azul...
''''''''''''''''''''''''''''''''
ma
dor
é m
b raco
f ndo
Neuza Pinheiro, cantora, compositora, poeta, participou de revistas como Coyote, Babel, Et cetera, Medusa...Trabalhou com Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé. Seu texto mais recente(O metaformoso) consta no livro A linha que nunca termina(ed. Lamparina, 2005), homenagem a Leminski. É socióloga, parananse, vive, desde o início deste ano, no grande ABC (Santo André).
Poema para quem está distante
para Julia Medrado
Ainda tenho nas mãos o perfume que tu usas,
E teu riso ainda faz eco nos corredores
Onde andavas, distraída. Tu me olhas
No retrato, imagem que paira longe
E entra pela janela sem venezianas.
Faz frio onde tu estás, as pessoas
Não te querem por perto, e o gosto
Do refrigerante de guaraná permanece
Memória que dói, fisgada no meio da perna,
E te pegas ao vazio da praça sem nenhum sono.
O que posso fazer senão te acenar
Do lado de cá do mar que nos aparta?
Os navios ancoram ao largo, à tarde
Automóveis negros trafegam aos roncos,
E nada se pode dizer senão o incerto;
Dança que não valeu: ninguém por perto.
Poema de fim de tarde
Insetos jogam-se contra o vidro,
O sol mastiga automóveis
Vorazes sobre o asfalto feito grude.
Homens passam, mulheres passam,
A ignorância põe riso nas bocas
E nos corações borrados.
(Crer não é possível e tudo te é enfado.)
Então, no calor do fim de tarde,
As palmas tortas olhando o céu,
Os mortos sem lágrimas que mitiguem
A sede que sobeja nas frinchas,
Mãos que se pegam sem prazer,
Só, gemes teu medo, na sombra,
Nas formas que crescem
Tão logo escureces, nos rastros
De teus trôpegos passos, nos restos.
Poema desconsolado
para Anna
Em meio aos papéis picados
Que a chuva quis levar
Mas deixou,
Fico eu, faltoso de uma festa
A que não fui,
Saudoso de quem jamais me viu
Ou, mesmo se vir, não virá;
Fico eu, contemplando igrejas vazias
E enfileirando promessas ditas sem palavras
Ou vontade, apenas porque agradam a quem as faz
E quem as ouve;
Fico eu, no desconsolo de um domingo à tarde,
Arrastando os pés e os móveis teimosos,
No lodo que a alegria me legou;
Aos tropeços, pernas e braços partidos,
A trilha para sempre perdida,
Um bibelô rachado.
Melodia quase
Não ouvi o tique-taque do relógio.
O vento soprou o perfume de teus cabelos
E o sol surgiu e sumiu.
Agora só vejo nuvens cor de asfalto
E nenhum risco de raio no céu ensurdecido.
Na quase chuva tu brincas com meus dedos
E me pousas teus olhos de miragem,
Água turva que ao fundo me traga
No instante em que todos os sons
Silenciam infindáveis, banhados
Pelas luas e estrelas que trazes nas mãos.
Mas é só um enlevo: os carros rugem,
Pessoas andam à nossa volta, alguém
Grita o teu nome, evanescente neblina.
E tornam os relógios a nos lembrar
Que o sol existe, que estamos secos,
Que fecharam a porta, que não há mais vento.
De como o romantismo saiu fora de moda
para V.
Seria assim: enquanto tivesse o dia
Em seus minutos primeiros, tu passarias
Naquela rua de terra onde trocamos
Palavras e toques e fluidos no
Estreito dos bancos do carro,
Tu passarias e nos veríamos amantes
Nos primeiros instantes do dia
Ao sol lançando suas farpas,
Tu e teu odor de mulher nos
Cabelos e roupas, no entorno
De tuas coxas, no escuro de teus seios,
Tu entrarias em meu carro e
Entrarias em minhas entranhas e
Te entraria tanto quanto gritasses
E mais me pedisses e juntos ficássemos.
Mas naquele dia choveu sem nenhuma trégua
E meu carro atolou três quadras antes
E afundaste teus sapatos na lama.
Tristeza
E daí que o dia acordou sem chuva?
Se as bocas estão secas e fechadas,
Se as palavras não lavram, discordadas
Que estão com tanta morte e tanto tédio,
Nem há por que buscar qualquer remédio,
Placebo que engolimos qual veneno;
Nem há calor que nunca esteja pleno
De lassos vermes nos roendo a carne.
Os dias continuam – isso é verdade –
No fogo e na água de seus roteiros,
Matando e fecundando, indiferentes
Às mãos que se tocaram outrora ardentes,
Às rosas que largamos nos canteiros,
Aos humanos esforços de bondade.
Ricardo Miyake nasceu há 43 anos em São Paulo, é poeta, professor de Literatura no ensino superior e mantém o blogue de poemas, crítica de cultura e lamúrias pessoais Defenestrando o Inútil (http://defenestrando.zip.net).
Vila Socó libertada
(Depois do fogo)
No outro dia
(sem poesia)
As crianças
(sub-hordas)
procuram no meio do desterror
botijões de gás para vender
Um menino indianizado
encontra uma geladeira
pintada por Pollock
dentro o cadáver de uma grávida
incinerado
com a barriga estourada
A mão do feto
devorado
(por Saturno)
atravessa as tripas
sai para o fora do fora
ali ao lado
onde o silêncio do menino é calmo
(A quietude neutra avalia o inconsolável)
Um jornalista a cem metros do projeto caminha
(a câmera-sombra focando um canto)
Atrás dele um rapaz
que julga ver nos escombros um Lázaro
Ele corre e ao agarrar um braço o braço vem junto
e ao ser largado no ato por um instante entre o chão e o espaço
é fotografado pelo pai de um dos meninos do gás
na foto revelada:
Uma realidade desfocada
(sem mortos, vivos ou paisagem)
Tudo é uma névoa-nada.
Caranguejos aplaudem Nagasaki
para Gilberto Mendes e Mano Brown
1.
(Vila Socó)
Corpos em chamas se atiram na lama
mulheres e crianças primeiro
caranguejos aplaudem nossa Nagasaki
bebê de oito meses é defumado
enquanto Beatriz
agora entende o poema derradeiro
Beatriz mãe solteira antes de morrer deu um inútil pontapé na porta
2.
No ar
gritos mudos
a noite branca da fumaça envolve tudo
alguém no bar da esquina
pensa em Hiroxima
nas vozes
Horror e curiosidade acordaram a cidade
se misturando
dentro do inferno olhos clamam
por telefone
o ministro é informado
– O fogo os consome...
A sirene das fábricas não
silencia
Dois serafins passando pelo local
sussurram no ouvido
Do Criador
"Vila Socó : Meu amor"
Uma velha permaneceu deitada
em volta da cabeça na auréola
o último pensamento passa
o coro das sirenes
no meio do breu iluminado
uma garça voa assustada
com os humanos e seu inferno criado
no mangue o vento move as folhas
Um bombeiro grita:
– Ksl. O fogo está contra o vento. Câmbio.
Foi Deus quem quis
diz o mendigo
que sobreviveu porque estava dormindo no bueiro da avenida
Um orgasmo é cortado ao meio
quando o casal percebe o fogo
queimando o espelho
Voltando no tempo
Lamentamos
o movimento do gás
levíssimo iceberg
que converteu fogo em fogo horror em horror
3.
Vila Socó
estacionou na história
ao lado de Pompéia, Joelma e Andrea Dória
Pensando nisso
ergo nesse poema um memorial
para nós mesmos
vítimas vivas
do tempo
onde se movimenta a morte se espalhando na paisagem
como o gás
que também incendeia o Sol (bomba de extensão infinita)
4.
Beatriz sentou perto da porta e ficou olhando o fogo. Até
que invade a cena a luz suave de um outro sol frio. Fim de jogo
5.
(O que não queima)
Beatriz agora é outra coisa e contempla:
raios negros num céu negro
depois brancos num céu branco
– Suavemente penetrei num jardim onde uma única árvore existe.
(O incêndio acaba e a garça pousa no mangue, onde os anjos sonham)
Naquela noite um acordou
andou nomeio das chamas
e as chamas
O queimaram
Como as palavras
Lutando com Shakespeare às 4 da manhã a risada de Rilke sozinho no castelo ecoou no universo como uma rosa ou o indizível em Beckett diante do homem que o esfaqueou afundando nisso agora como um deus que vomita almas como se fossem palavras.
Marcelo Ariel Nasceu em Santos em 68. Autodidata, mantém desde 1988 um sebo itinerante chamado O Invisível. Adaptou para o teatro obras de Dante Alighieri, Byron, Hilda Hilst,Yukio Mishima, Fernando Pessoa e Roberto Piva. Publicou seus poemas nas revistas Babel e Cult e edita com J. Roberto a revista literária (www.livrariapagu.com.br.)
DE UMA CRÍTICA PUBLICADA NUM
SUPLEMENTO CULTURAL DE DOMINGO
I. (o artista : um retrato)
A estréia de J.G.C. aos
32 anos, na quinta-
feira, é a certidão de nasci-
mento de um artista em dia com as
demandas de nosso tempo.
Tendo, nos últimos 12
se dedicado a oficinas,
cursos, viagens e visitas
a exposições, sua obra pôde es-
perar o momento certo
para eclodir, não sofrendo
da habitual ingenuidade
que caracteriza todos
os dublês de Duchamp, pois o
seu domínio sobre o espaço e
sobre a matéria é absoluto,
bem como sua força suges-
tiva, tanto que estimula
sensações inexistentes
em um público pouco ou nada
familiarizado com a
realidade que retrata.
II. (o artista : depoimento)
Estudei dos 20 aos 30
na Europa, tempo de intenso a-
prendizado, mas só conto os
dois anos depois da volta, es-
senciais para a concreção do
meu estilo, pois passei longos
meses nas ruas e favelas,
freqüentei cortiço, abrigo e
bueiro, conheço essa gente
pelos nomes, inclusive
seus cachorros, cheguei mesmo a
me sentir igual a eles.
III (a obra : o conceito)
Foi essa bizarra experiência
que lhe permitiu trazer à
galeria sacos e sacos
de latinhas de alumínio,
pilhas de papelão (os quais o
público pode tocar) e
duas carroças que estão livres
para quem quiser puxá-las.
A cena é um divertimento à
parte: há muito riso, já que
nem sempre os músculos das a-
cademias são aptos para
vencer os quilos de entulho. As
demais obras aprofundam-
se nesse universo excluído:
bancos (camas) de concreto
salpicados de excrementos,
panos puídos pendurados,
secando ao sol (um holofote) --
fachos que atravessam os furos
criam uma trama no espaço
--, cobertores embebidos
em querosene na espera
de um fósforo e, o principal, um
barraco inteiro, legítimo,
no qual entram dez pessoas de
cada vez. Lá: colchões velhos,
recortes tampando as frinchas
das paredes (o olho atento a-
qui diferencia as texturas
de cada, das tantas, tábua),
panelas com restos pelos
cantos e roupas imundas --
tudo bastante insalubre. A
visita não dura mais que
dois minutos, e é tão real que
na estréia alguns vomitaram.
J.G.C esperava o
vômito de quem, como ele,
não sabe o que é o inabitável.
IV (nota final)
Os antigos moradores
foram com justiça pagos
pelo barraco e por tudo
que eles tinham, inclusive as
roupas, podendo a família
toda regressar ao mato
do qual os coitados nunca
deviam ter posto o pé fora.
Se você ficou curioso,
mas crê que toda a sujeira
pode te macular, saiba
que os monitores do evento
num átimo providenciam a
completa assepsia de todos
logo que se sai da sala.
(ah, o vinho era de ótima safra)
TRAGÉDIA URBANA
A maquete fora elogiadíssima na Bienal de Veneza
-- Meu objetivo é retratar a suspensão do tempo, o fim da história, como se usa dizer. Por isso, serão utilizados materiais reciclados, comprados em demolições, ou fabricados por artesãos especializados em imitações: na fachada haverá elementos compostos de entulhos de velhos Ramos de Azevedo; os balanços serão de casas neocoloniais; na entrada serão erguidas paredes de adobe; haverá ferrarias inglesas da Sorocabana Railway; as portas, janelas e maçanetas virão de cidades históricas de Minas. Haverá, mas escondido, um pedaço de Niemeyer, um pequeno enigma para meus pares. Não, nada aqui será anacrônico, pois o presente e o passado estão os dois no futuro, não é assim que disse aquele poeta inglês? Pound, não é? seja quem for, é o futuro sendo extraído das ruínas do tempo.
tanto que resolveram construí-la --marco aistórico--, após um grande estudo sociológico,
na zona cerealista da cidade.
Ninguém notou que era um marco
até que um pivete
resolveu pichar o nome da namorada
numa das torres.
Quem passa por lá hoje
ainda lê o nome pela
metade e ainda
vê o corpo caindo.
Paulo Ferraz Nasceu em 1974 em Rondonópolis (MT) e mora em São Paulo, onde trabalha como funcionário público na Justiça Federal. Mestrando em teoria literária na USP e editor da revista Sebastião, é autor do livro Constatação do óbvio (selo Sebastião Grifo).
AULA DE DESENHO
Estou lá onde me invento e me faço:
De giz é meu traço. De aço, o papel.
Esboço uma face a régua e compasso:
É falsa. Desfaço o que fiz.
Retraço o retrato. Evoco o abstrato
Faço da sombra minha raiz.
Farta de mim, afasto-me
e constato: na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz
onde estou não é sempre
e o que sou é por um triz.
NOTURNO
(a T. S. Eliot )
O dia é noite no poema:
Sombras, pedras, luas secas
encobrem a estação das flores.
Sobre o deserto
memory and desire
ainda restam:
ecos entre as cinzas
deste verso.
Will it bloom this year?
Na terra triste do poema
enterro o fim e o infinito:
me faço silêncio, eclipse.
PAISAGEM COM FRUTAS
Duas peras sobre a mesa
esperam a tua fome.
O dia é verde
e o vento tem cores provisórias.
Sobre o muro
um pássaro mudo
de olhar escuro
perscruta a tua sombra
Ele sabe
que ninguém sabe
em que azul
ocultas
teu absurdo.
OFÍCIO
Escrever
a água
da palavra mar
o vôo
da palavra ave
o rio
da palavra margem
o olho
da palavra imagem
o oco
da palavra nada.
ELEGIA
Há um vestígio mineral
em sua ausência: algo
que sem estar ainda
fica: fatia de cristal
que não se vê e brilha:
solidez em transparência
elegância de pedra, luz
do que é perda e não.
Há um vestígio musical
na sua ausência: algo
que é sigilo e ressonância:
sintonia de cristais
sílabas de sim no
silêncio do som e do aqui.
SOBRE UM FILME DE WONG KAR-WAY
O corpo e seus possíveis.
O dentro que, na pele,
vira flor.
Os cheiros, a memória
do que, de tão breve,
não fica
senão como sombra
líquida
quase cítrica
desse amor.
ECLIPSE
A lua desliza
sob as sombras
do sol
que não há:
luz de escuros
véu para o olhar
que não vê
senão
a cor lilás
da noite
que reluz
num verso
de Éluard.
MANUSEIO
Tépidas
essas mãos
que divagam
devagar
por meus relevos
óbvios
e demoram
fundo
no obscuro
ponto
onde o corpo
se abisma
e silencia,
absurdo.
Maria Esther Maciel nasceu em Patos de Minas (MG) em 1963. Vive em Belo Horizonte. É professora de literatura na UFMG. Autora, entre outros, dos livros: Dos haveres do corpo (poesia, 1985), Triz (poesia, 1998), A memória das coisas (ensaios, 2004) e O livro de Zenóbia (prosa de ficção, 2004).
O ÂMAGO METAFÍSICO DO HOMEM
nenhum minério
calcifica ou fixa
a ossatura humana:
o cálcio é necessário
mas só para a solidez
da estrutura externa:
nem os demais cristais
fósforo, ferro, magnésio
e os compostos em que mais
se agregam e se fortalecem
a mantém no que têm de metálico:
firmes, são também maleáveis
no meio da medula
o que modula
o modo como os nossos
ossos se endurecem
o que mais medra
enquanto a têmpera
do tutano se matura
é a massa amorfa do medo
NATUREZA MORTA
primeiro a pele
azul-venoso
do céu tardio
tingiu-se da hemorragia
do dia moribundo
depois o pus
ocre
do crepúsculo
precipitou a negra
gangrena da madrugada
PARONOMÁSIA PARA UM ANIMAL APRISIONADO
A onda andante e flexível do seu vulto
Em círculos concêntricos decresce.
R. M. Rilke
feras ferem
fezes fedem
ferros fazem
feras se cagarem
porque o g segue o f
– daí não se borrarem –
como o predador a presa
que pega entre as presas
desce à cela das vísceras
onde se desfaz em força férrea
e fezes pétreas
feras ferem
com o ferro
das suas garras
enquanto o ferro
que as agarra
não as fere
fedem a fezes
as jaulas
às vezes
a febre de fome
fome erosiva
de carne viva
ferro frio que faz, feroz
da veloz fera voraz
carne inerme
dada aos vermes
DA INEVITABILIDADE DA METÁFORA
metáfora: do grego
meta-foréo, transportar
palavras são – som com
memória – formas que levam além
das coisas
o que as coisas não:
a memória se forma
das formas que deforma
(talvez por isso transporte melhor
o que é amorfo como a dor)
Luis Dolhnikoff (SP, 61) é autor, entre outros, de Sobre Sísifo (a sair pela Ateliê Editorial), de que fazem parte os poemas aqui reproduzidos. Prepara atualmente, com o artista plástico Francisco Faria, e ao lado da poeta Josely Vianna Baptista, uma série de poemas geneticamente relacionados a desenhos, para uma exposição no Museu Oscar Niemeyer de Curitiba (abril 2005), e outra série para o Instituto Tomie Othake de SP (julho de 2005). Sob auspícios de uma Bolsa Vitae de Arte, desenvolve um estudo e uma antologia crítica da obra do poeta Pedro Xisto.
Engano
Ela achava que estava sozinha
tocando seu violão
se sentia abandonada.
Nem sabia que até Deus e o diabo
sentaram juntos na escada
para ouvi-la tocar na noite estrelada.
Encontro Clandestino
Então encontrei você,
amor antigo
no navio do sonho.
Fui levada por um amigo desconhecido
e até o veludo verde do meu vestido
parecia saber da verdade.
Perdi você no meio da cidade
e encontrei de novo
num sono proibido
bem no meio da tarde.
Serenata
Quantos blues sussurrei pra você
serenatas silenciosas
ao contrário.
Eu da janela
e você distraído na rua
fazendo parte do cenário.
Envolvimento
Cantora africana
balança o movimento do carro
trilha sonora de paisagem urbana.
Violão se funde com motor
num insólito e sonoro caso de amor.
Contrastes
O centro da cidade arde
casas de umbanda
peixaria, antiquário
loja de armarinhos
praças, ônibus, trânsito, tráfico
e uma loja de roupas de bebês
do lado do cine pornográfico
Greta Benitez é publicitária e pós-graduada em marketing. Foi premiada em prosa e poesia em vários estados do Brasil e no exterior. Em 1999 publicou o livro de poemas "Rosas Embutidas
POESIA
toda poesia devia ser tão vagabunda
quanto aquela última fatia de pizza doce de mussarela
na estufa da padaria
brindes perfumados do lava-rápido
pendurados no espelho retrovisor
artesanato de cadeia
toda poesia devia ser tão vagabunda
quanto o adolescente que abandona o batente
pra ficar em casa vendo Chaves
quanto o hiponga espaçado ao sol de segunda-feira
na grama do jardim do Citibank
a poesia não devia se dar ao respeito
esquadrão de Etty Frasers
usando batas de margaridas
e se aproveitando do tumulto da feira-livre
pra esbarrar no cacete do menino do carreto
pederastas que já passaram dos 60
comprando bugigangas na 25 de Março
pra trocar por enrabadas potentes dos crioulos do Malecón
a puta que acredita que nenhuma loteria
equivale a um chicle de bola de boa safra
toda poesia devia ter o lirismo desolado
de um campinho de futebol de várzea
G. Corso tentando abrir uma lata de salsichas
com o bico de uma caneta
C. Bukowski retomando a consciência aos poucos
com desenhos da Hannah Barbera
um velho surdo reproduzindo o escudo do Palmeiras num quadro
usando pregos e linha
só acredito na poesia que prega o desespero
só acredito na poesia que não diz o menu
do jantar de ontem
e sim rasga o próprio estômago
e despeja tudo como se sacudisse uma bolsa feminina
de cabeça pra baixo
flores
peixes
e borboletas
deviam ser excluídos da poesia
a lua devia constar apenas
em mapa astral
toda poesia devia ser tão falsa
quanto um Bono Vox gentil
quanto a alegria diante das fontes adestradas do Ibirapuera
eu menti a um juiz sobre um atropelamento
pra ver se minha tia arrancava uma indenização polpuda da CMTC
e tudo que ela conseguiu foi uma perna manca
uma vida manca
e risinhos durante sua passagem
a caminho do coral de uma igreja batista
toda poesia devia ser escrita
nas escadarias de um prédio em chamas
enquanto os bombeiros pulam seu corpo encolhido
tentando proteger um bloco de anotações
a única caneta pra poesia é o dedo
saído do exame de diabetes
eu odeio poesia
eu odeio poetas
porque eles se movem em câmera lenta
como em propagandas do Suflair
e tiveram bronquite na infância
e tartarugas de estimação
só acredito na poesia genuinamente triste
uma menina que sai pra aula de dança
e nunca mais volta
alguém que desistiu de acender um cigarro
porque tava ventando muito
(DES)SINDICALIZADA
à noite
meu cacete
cheirando a atum
dentro do
calção
um arroto de
bebum
arrogante
feito um uivo
engordura
um grupo
de estrelas
e liberta a ratinha
cobaia
do mini globo
da morte
ela dispara
em minha direção
ela fareja
a cana-de-açúcar
que levo
no meio das pernas
e vem
tirando o elástico
da calcinha
da bunda
com a elegância
de quem captura
uma pulga
durante a missa
um Camel aceso
nos dedos corroídos
pela química
de desinfetantes
lhe imprime um buraco
no vestidinho
e na alma feliz
e agridoce
que tem toda
semi-analfabeta...
“Deus do céu,
por que é que meu tesão
sempre aumenta
quando é maior o nojo
de beijar a boca?”
DESJEJUM
acordo notando que está frio
como um filme do Wim Wenders
coloco umas salsichas pra ferver
engulo uma hóstia
que não passa de um sabonete gasto
e da janela
miro a cabeça de um chinês
FORMALIDADE
o xerife da cidade fantasma
passava os dias numa cadeira de balanço
areando um velho rifle e ouvindo Eli Correia
até que um dia adormeceu na função
e acordou com o disparo da sua própria arma
e um urubu no chão, a poucos metros
envolto por uma poeira desgraçada
então o velho baforou na estrela de chip
lustrou-a com a manga da camisa
e caminhou até a ave
a fim de enquadrá-la num código qualquer
Sergio Mello, 27 anos, publicou o livro “No Banheiro Um Espelho Trincado” (Ciência do Acidente/ 2004). Vive sozinho num apartamento apertado, em SP. E tem confessando a alguns amigos que Raimundo Fagner o emociona.
ERASE AND REWIND
NOW
P L A Y
I T
A G A I N
SAM
O BÊBADO E A DOR
Segue a vida flutuando
no vácuo da bebida
Nas unhas quebradas e roídas
No centro obtuso da dor
Venho dia e noite vagando
no universo perdido da vida
Perguntando a cada morte caída
E no sereno vazio sem cor
Segue o sangue descendo da testa
rumando ao ralo entupido
Inundando o orgulho ferido
Rodeado de corvos e indignação
Sigo nu rumo à mórbida festa
desvendando o sem sentido
Retomando um sofrer interrompido
Não sei se é noite ou alucinação
A porta que se fecha em minhas costas
Tranca a luz nas feridas expostas
Dia sim e dia não
E aqui dentro a perdição
E se é que existirá no pecado
O exímio fedor inalado
Inexiste ou existe perdão?
LITÍGIO
Abraça a faca bem forte
O fio recém afiado
Esse fio de cabelo
Nenhuma lasca para lamentar
EM HOMENAGEM À MORTE DO MITO
Te beijei e lembrei
Que as fadas já não voam como antes
O açúcar melado, agora ácido na boca
Em forma de veneno cuspido entre nós
Os corpos já não são mais untados com cola
E agora parecem imãs pólo com pólo
Repelidos pela física
As palavras não são ditas baixinhas e suaves
Por dois corações que batem num só compasso
Agora, elas são vomitadas aos gritos e coices
Por dois músculos cardíacos surdos e burros
A semente plantada para germinar rosas
Deu cactos que secaram e morreram
Seus espinhos voltaram ao solo
E é lá que repousam nossos cadáveres andantes
O sonho em riste, que cortava as barreiras
Hoje é um pesadelo afiado a cortar nossos pulsos
E o verdadeiro sentimento que trocávamos nus
Tornou-se mentira e nos cobrimos na vergonha
As lágrimas
Estas sim, ainda continuam molhadas para sempre
Mas não ao sabor do gozo, mas ao asco da dor
A coragem virou medo
O calor nos carbonizou
Deixamos a Lua Cheia despencar do céu
Os planos tornaram-se obrigações
Obrigações mal remuneradas
Errei tanto até pensar que estava certo
Família, agora é egoísmo
Ar puro virou tabagismo
Lembranças são apenas juízes
E a lama é nosso cobertor
E, à noite,
Quando olhamos para o lado
Somos de novo um casal deitado
Tentando fazer amor
HAIKÁKA
Fim de outono
Se eu soubesse escrever poesia
escrevia
GALÁXIA
Foi de um belisco
Surgiu
Um obelisco, um sinal
Palco carnal em movimento
De um lamento virginal
Pipocavam um a um
Luz, cor, massa – o espetáculo
Oráculos vagam ao léu
- Estáticos no centro do céu –
O globo gira na gênese
De um gesto, se ajeita
Trazendo suspeita de um susto
O luto e o lastro
Mais e mais
E, de mais a mais,
São sinais
DOIS PINGOS NUM I
Existe uma verdade que floresce em seus olhos
Essa verdade que queima
Existe uma bagunça que teima em não sumir
Essa mania de excluir
Insiste uma vontade louca de partir
A vontade agarra o limite
Insiste em grafite o seu nome em meu muro
Ainda acabo chorando no escuro
Renasce de novo a vontade que aflora
Aflora de novo e de novo se esvai
Renasce a palavra no seio do lábio
Um dia esse muro ainda cai
Donny Correia, 24 anos. Oficialmente escreve desde 2002. Morou em Londres e lá foi colunista no Brazilian News. Em 2004 foi finalista no III Prêmio Livraria Asabeça categoria Poesia e tirou o primeiro lugar no X Prêmio Lilia A. Pereira da Silva de Poesia e desenho, promovido pela prefeitura de Itapira, SP.
6 SONETOS SALVAJES/b>
queria ametralhar – rá-tá-tá-tá-tá-tá-tá
ciertas músicas –
y para eso – emprestaria
los rifles las pistolas y la metranka de Luis Buñuel
ele ciertamente non negaria
su velha y buena metranka –
talbez até dissesse que esas músicas também lhe daon azia
– Las balas Buñuel banca...
entonces yo ametralharia a la vontade
toda esa falsa novidade
que las ondas du rádio irradiam com alarde –
seria una reboluzaum en la ciudade
afinal – en esta noite fria – fria – fria y chapada
ninguém es obrigado a engolir tanta marmelada...
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para Lobo Antunes la cosa também es diferente
literatura – qualquer literatura
tiene que tener esperma
si non – simplesmente – non conbence
comparto com el tal Lobo Antunes
de esa verdade inbentada –
sin esperma la literatura
non fede ni cheira ni nada
literatura – escritura – cualquier literatura
sin esperma
parece orina – frase impostada – conbersa
mole – enganación – guevo falso – falsa locura
Douglas Diegues ou Lobo Antunes, poco importa quem hoje canta la pelota en la gran feira literária brasileira
literatura con esperma es mucho más berdadeira...
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xota buraco dentado buçanha buceta
cona papaya racha
tatú buza babaca
perereca concha conchita concheta
eis algunos de los nombres de la bagina
que hace miles de anos inventando viene el povo
que bota esplendidos hovos
com los que posso inbentar inéditas rimas
la poesia está morta mas continua viva
mesmo que uns a queiram toda certinha
sem gosma íntima sem esperma sem suíngue sem chupetinha
y sem la endorfina verbal dum glauco dum back dum leminski dun manoel dum piva
para compensar toda essa literatura morta
restam al menos el pau bién duro dentro de la carnuda xoxota
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animales que dan lucro
animales que no dan lucro
animales que dan flores
animales que no dan flores
animales que se alimentam de animales
animales refinados – ou bestiales
animales feitos de bosta y mistério
animales terrestres y aéreos
animales eróticos ou paranóicos
animales comunes ou exóticos
animales que dan leite
animales que non existem
parece até una peça del gran Ionesco
animales pra animal ninguno botar defeito
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non adianta ter segundo grau completo
graduacion pós-graduación doctorado en la gaveta
um bom curriculum que garanta um buen emprego
quien nasceu pra ser una bestia sempre será una besta
non adianta dominio de la lengua sem la gosma de la experiência
almoçar jantar cagar vomitar grandes assinaturas
que se estendem como grifes de la más alta cultura
quien naceu pra ser una besta siempre será una bestia
non adianda saber ler y escrever correta
mente, colecionar diplomas que os otários veneram
conhecimento nunca foi sabiduria nem aqui na china nem lá nu Iran
quem nasceu pra ser una bestia sempre será una besta
muchos posam de sábio en la mais badalada de las fiestas
mas como diria titia Gertrude: una bestia es una bestia es una bestia
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bocê guarda sua dor
en el fundo de la entranha
non fica faziendo manha
aguanta firme todo ese horror
bocê non finge u dolor que sente
real demais – parece ficción
a dor que duele sin dolor nu corazón
nem bocê nim ninguém entende
bocê sofre calado la dor que non entiende
transforma eso em pobres rimas
en mel, en ollos bem abertos, en endorfina
la dor cuasi nim se siente
entre el futuro y todo lo mais que embolorou
bocê esconde legal u seu dolor
Douglas Diegues nasceu no Rio de Janeiro, em 1965, e foi criado na fronteira do Brasil com o Paraguai. Atualmente mora em Campo Grande (MS), desde onde escreve no blog http://portunholselvagem.weblogger.terra.com.br
PRONTUÁRIO
Fico pensando nas pessoas que catalogam pessoas. Que dizem: este é isso e aquele é aquilo.
Fico pensando que sou um bicho-grilo na barriga de um jovem de quinze anos.
Eu engoli um grilo um dia desses, faz tempo. Foi a primeira vez que disseram: esse menino é doente e devia freqüentar uma escola especial para doentes como ele, que são um perigo para a ordem.
Fico pensando em quem disse que ele é esquizofrênico. Fico pensando se a doença está nele que viu ou nele que via.
Fico puto de a vida de duvidar de diagnósticos. Mas às vezes é melhor acreditar do que andar em círculos.
Porque as pessoas que catalogam pessoas não existem para o mal. No fundo catalogam para o bem.
Você, meu filho, é que é incatalogável.
Todo mundo sabe o fardo que você é para a família.
Precisamos de um nome de doença para pôr no prontuário. Que tal dizer que é síndrome de alguma coisa paranóide?
Que tal não esconder que não é letal?
Morre-se com isso e talvez morrer não uma má idéia.
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diário 002.01 [E alguma luta haveria de persistir naqueles olhos que duvidavam de tudo. O policial César Amparo foi internado no hospício.]
extremo
amparo ampara e dorme de vaga aberta
a onda que opera nele diazepan ou lexotan
satã ao seu lado e do meu deus dormindo
a mímica do algoz em seu sorriso limpo
quanto de mim fica claro como o mijo
que bebo na falta d,água e de miragens
algum azul claro no céu pede que nuvens
venham salvar as fezes que ocasionalmente
rolam como pedras que não criam limo
ao som de Sabath cantando Born to be wilde
trepidam os loucos e no gardenal flutuam
bolas três vezes ao dia todo dormindo
césar amparo beija na boca de Sabath
que homem não pula mais que ele agora
Sabath comeu uma juba e cospe vírgulas
na orelha de amparo alguns sutiãs se aquecem
são os bicos dos seios de Karina e suas coxas
anelando minhas mãos que cofiam o ralo
barbeado mal feito pelo que restou de presto-
barba azul e barba vermelha e barba papa e
sorria que estou te filmando e vai Serginho e
vai Serginho e puta que o pariu cotia não
na noite a escuridão acende a Rocinha
as orquídeas brotam na beleza dos olhos
da Lua cheia que explode na água ao som
do testículo de mármore moído por Alfonso
eu vou pra Paracambí e tem que comer senão
vai pro Caju e metrô Estácio e Tijuca e Paracambí
Vanessa olha os olhos em sangue do sargento
no pico hiper-tensivo de um assobio doido
ele lê cantando um texto que fez ontem
para hoje ser lido na dinâmica de grupo da Dra.
pouco mais velha ou muito mais nova eu não
quero nada que não seja o desenho de prata
no arco do sorriso de uma doida que lembra
a minha mãe e me dá um beijo e diz que garoto
bonito que garoto bonito que garoto bonito
Ana é internada de manhã e amarrada na cama
não mama não come não nada e assim como o
procurador mente brilhante e brilhantina no cabelo
atesta que detesta eletrodos na testa mas adora
ouvir o funk carioca da favela que minas pow
paulista big brother e casa dos artistas
café e leite com água fervendo na cuca legal
macarrão no almoço e no jantar gardenal
na noite tem jogo da seleção e se enfermeira b
deixar deixará de novo a tv ligada na globo
e vc tudo haver ou a ver ou haverá ainda
outro céu que não as grades de ferro cromado
engolindo a noite e alua de Cortazar enforcada
e escaldada entre a química cerebral e Deus
quem pode com um ateu quem quer que seja eu
sei que Ana dorme no pé de Alfonso e presa a cama
babam e babam e babam enquanto tremo pedindo
piportil ou acneton ou a hóstia e a extrema unção
Rodrigo de Souza Leão, poeta, jornalista e músico, nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1965. Publicou dez e-books de poesia, todos pela Virtual Books. Tem poemas publicados nas revistas Coyote e Et Cetera, Criou o site Caos (www.geocities.com/seumario) e veicula na Web o e-zine Balacobaco. É co-editor do site Zunái, Revista de Poesia e Debates (www.revistazunai.com.br)
pantomima
prefiro o gesto, à palavra
sou mais o não dito, subentendido
no jeito mundo que ele me toca
me toca fundo
essa cena muda
me deixa úmida
in loco
centúrias
eu fumo
tu fome
ele fama
nós tragamos
nossa assaz
sina
vulto
palavra,
não estou sozinha.
essa minha clausura
admite companhia
: poesia que me povoa;
verso que apavora;
fantasma, que é Pessoa.
polígono
quantos lados tem o nosso caso?
quantos ângulos?
retos, agudos, obtusos?
que figura é essa que formamos,
onde cabem inúmeros
triângulos absurdos?
fúria & fleuma
às vezes sou gelo
para ver se facilito
que engulas [num só trago]
o amargo que destilo
não tenha receio
baby
e beba...
minha loucura
descerá mais fácil
com essas duas pedras
[gélidas]
que te fitam
isso
beba mais
baby
[sem torcer o nariz]
esse ar de dura
irá sumindo aos poucos
nessa dose dupla
de mea-culpa
:
não sei se coca
ou cicuta
se xarope
ou morte
on the rocks
meu amor
as horas
(suicidas)
it's too late:
minha poesia late
e mostra os dentes
rosna
avança
parte
para o ataque
vira e mexe
me acomete
esse uivo de liberdade:
meu lado lobo
virgínia wo(o)lf
Valéria Tarelho é advogada e poeta, com algumas publicações em antologias (prosa e poesia) e no Livro da Tribo 2004 e 2005. É colaboradora no portal valedoparaiba.com, seção de poesia.
POEMA ESTATÍSTICO
Tem uma esquina prenha de um latido.
Trechos de pássaros que permanecem
nos muros que ficam. E vice-versa.
Um e-mail anotado às pressas no canhoto do tintureiro.
A cirrose portátil. A síndrome do pânico.
O enroladinho de presunto e queijo.
Tem a Mulher mais Linda da Cidade.
Groupies de cabelo rosa. Poodles
da solidariedade. Alguém chorando lágrimas
de tubaína. Penélopes Charmosas.
Dick Vigaristas. Um cara que já sai desviando
do cinema del arte, evitando ser atingido
por alguma conversa perdida.
Tem a mulher da vídeo-locadora
que não conhece o filme que estou procurando.
Um amigo que diz que escreve só para colocar epígrafes.
Taxistas infláveis. Manicures em chamas.
Um casal que desce a rua na banguela
prolongando a gasolina daquilo tudo
que um dia fora. Eu ando apaixonado
pela mulher da vídeo-locadora.
Lendo revistas na sala de espera
do consultório dentário. Tem uma
que venta. E um que desiste.
De arranhar os vidros do aquário.
in "Orfanato Portátil", 2003
ESPANTALHO DESCARADO
ando assim
tipo um erro flácido ambulante
sem êxito, hesitante
disco riscado
fora de catálogo
no pó do instante
ando assim oco, uma crosta
vodu cansado que com a sorte
nem mais dialoga – diamante
ando assim sem linguagem
sem faro, espantalho fora de foco
ando assim
mais opaco que olímpico
esquivo, íntimo, insípido
um mastodonte pensando
desamparado
aspirando a paralelepípedo
ando assim meio buster keaton
um tanto de lágrima hasteando o riso
ando assim raso
indiferente
me divertindo um bocado
eu ando mijando no poste
porque o banheiro
está sempre lotado
in "Orfanato Portátil", 2003
BUQUÊ DE PRESSÁGIOS
De tudo, talvez, permaneça
o que significa. O que
não interessa. De tudo,
quem sabe, fique aquilo
que passa. Um gerânio
de aflição. Um gosto
de obturação na boca.
Você de cabelo molhado
saindo do banho.
Uma piada. Um provérbio.
Um buquê de presságios.
Sons de gotas na torneira da pia.
Tranqueiras líricas
na velha caixa de sapato.
De tudo, talvez, restem
bêbadas anotações
no guardanapo.
E aquela música linda
que nunca toca no rádio.
in "Orfanato Portátil", 2003
SNUFF POEM
A verdade é uma bala alojada na cabeça,
Uma bigorna de desenho animado,
A esfirra que sobra quando a lanchonete fecha,
Ilíadas clandestinas que a febre percorre
até virar suor, Um poema,
Uma antena em estado de coma,
As caretas que os guitarristas fazem quando estão solando,
Onde há flores debochadas,
Cacos de vidro num fliperama,
Entre a pane e o significado,
Latejando como se numa fanfarra,
Como se num glossário alucinado.
Morder o pássaro do pensamento
sem apaziguar seu vôo.
Como um carro que não consegue desviar
do cachorro atropelado.
inédito
VELHAS VARIAÇÕES SOBRE A PRODUÇÃO CONTEMPORÂNEA
Agora mesmo algum maluco
deve estar postando qualquer treco
genial na internet,
alguém deve estar pensando
em como melhorar aquele
texto enquanto lota o especial
de vinagrete, perseguindo
obstinadamente um acorde
voltando da padaria.
Agora mesmo alguém
pode estar pensando
que guardamos só pra gente
o lado ruim das coisas lindas -
assim, trancafiado a sete chaves
de carinho - alguém
pode estar sentindo
tudo ao mesmo tempo
sozinho, assim brutalmente
sentimental, feito coubesse
toda a dignidade humana
num abraço tímido.
Agora mesmo alguém deve estar limpando
cuidadosamente o cd com a camisa,
pulando a ponta do pão pullman,
sentindo o baque da privada gelada,
perguntando quanto tá o metro
daquela corda de nylon, trepando
no carro, empurrando o filho
no balanço com uma mão
e na outra equilibrando
a lata e o cigarro, agora mesmo
alguém deve estar voltando,
alguém deve estar indo,
alguém deve estar gritando feito um louco
pra um outro alguém
que não deve estar ouvindo.
Agora mesmo alguém pode estar
encontrando sem querer o que há muito
já nem era procurado, alguém no quinto sono
deve estar virando pro outro lado,
alguém, agora mesmo, no café da manhã
deve estar pensando em outras coisas
enquanto a vista displicentemente lê
os ingredientes do Toddy.
inédito em livro, publicado em sites de literatura
Marcelo Montenegro (São Caetano do Sul, 1971) é autor de Orfanato Portátil (Atrito Art Editorial, 2003). É membro do grupo de teatro Cemitério de Automóveis, onde opera luz e sonoplastia, de vez em quando comete uns vídeos com seus comparsas de Bedrock e vira e mexe faz uns frilas de editor e roteirista pra produtoras mais sérias e bem sucedidas.
?
tens aquela estranha mania
de comeres fígado pela manhã?
as vísceras da língua?
o mecanismo ideográfico
da palavra, sua ampulheta natural, tens?
o verso, sendo amor e púrpura,
solidez do fogo
(a tempestade amortece os passos
peremptórios na lama)?
vives náufrago (como acordam todos
de olhos cheios)?
Entendas
Nada te resta
a não ser um beijo como souvenir
ou poema: esta estalactite.
in “Flor à margem”, 1999
s/título
...embora lhes arrancassem da
sombra, casualmente se elegem;
logo seus rostos, solenemente
contra os mesmos sinais
ao sono que os acalenta: olhar
agudo, disfarçando bocas internas
como em cristais, abjeto
ao próprio ser; caso o contrário aconteça
e neles se restituam, prenhes de razão,
rosas pontiagulhas, através do qual sombra
e corpo se confundem, adquirindo
a nudez necessária para fugirmos em silêncio.
in “Primeiro de abril”, 2004
s/ título
1.Bem, que o desejo
não escape
à fúria desse espelho:
2.advém de parte alguma
como deus
decanta a memória,
condiz
à última sentença:
3.quando podemos
morrer?
4.Não parece lógico
se bem que a matéria
torne
arbítrio e santo
um lupanar
5.imediatamente novas
(as rosas)
cultivo no escuro.
in “Primeiro de abril”, 2004
s/ título
Retinas cedo
à contraluz,
o dia, infenso
negro em sol,
raia sem deitar
as lembranças
o luar crescendo nos
móveis, o lamaçal
da cama;
pontífice,
encerremos; ainda
doses de canalha,
silente a rigor,
às costas, outro
poderia ser teu:
a tentativa do azar,
que vence.
in “Primeiro de abril”, 2004
(...)
Aqui, da sala dos professores
contemplo o pátio da escola
e se não há pátio
é porque por esses olhos contemplo
uma outra semente, um sentido
a responsabilidade não sei de quem
se é minha ou não
não sei dizer
mas é à míngua desse tempo
dessa rota de colisão e cura
desse estado máximo de santa
e não tem cura
claro que meus olhos enxergam
pouco
a filosofia resiste
claro que teu sexo enxerga
muito
estreou nos meus
mas porque dizer de tudo isso
contar tantas e secretas histórias
pois não é devido
mas sim
pelo que devemos
dizer e contar
a fim de purgar
toda água e todo ódio
das cumplicidades extras
este sol pela manhã.
inédito, fev. 2004
s/ título
O cenário convulso da vida
pouco antes da derrota
se ninguém acreditou.
Fique calmo. Os deuses penam
por ti. Uma gota de ilusão
– que seja – seria melhor.
Se no crânio de um bode
escutas o vento que sopra
e ainda persistes de pé.
Mas não. Sou todo ouvidos,
sem saber qual dos olhos
trairá dizendo a verdade.
inédito, set 2003
André Luiz Pinto nasceu no Rio de Janeiro, 1975. Bacharel em Enfermagem pela Uni-Rio e em Filosofia pela UERJ. É professor de filosofia e mestrando nesta mesma disciplina desde 2005. É autor dos seguintes livros: Flor à margem (1999), Isto (2003), edições independentes e Primeiro de abril (2004), pela editora Hedra, São Paulo.
xxxxxxxxxxxxx
fórmica sobre aglomerado
cismas de não estar
ou uma estação ter ido
a outra sala
há sobretudo um azul
por fora das horas
que fisga meu desejo de mãos
xxxxxxxxxxxxx
IMPROVISO EM CONTAGEM
latas travestindo
matéria plástica
a velha fórmica
cercando a roupa de baixo
das coisas
do
gesto entupindo o tempo
arreando nos móveis
a crosta de remorsos
incabíveis à este verão e a esta cidade.
foi necessário
anteceder às mãos
para saber sem fim
a cisterna
fria
em que mergulham
os amores
que dobram a esquina
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
AGENDA CHEIA
o dia preso a data
o tempo água turva
para curvas e dribles
ainda não penetra o
esquecimento, menos
nas roupas novas dos
sábados que andei.
Hoje é terça, o coração
é neutro e falso como
muro, não crescerá nas
garrafas para quem bebe
o calendário tirando gosto
com pedrinhas congeladas.
Arranco as vésperas do corpo.
Calma, não haverá demências
além de ordinária ressaca
no expediente: os ombros
suportarão e sexta será finados.
Xxxxxxxx
SAFARI
cores que desmaiam
em mim e fogem
couros pendurados no espaço
olhos que vão
às fraturas da parede
extraindo a patente
única permanente
do seu esqueleto
de tempo
um bafo se enfia
na proximidade
sinto
pelagem e presa
junto ao relógio
espero a fome da fera
xxxxxxxxxxxxxxxx
VICINAL
o quanto corro
é a existência do carro
enquanto aquilo
que é tempo desmancha-se
refazendo-se em mim
animal conversível
dentro do vento
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
NOTURNO
é sábado e fora
da minha boca
a tua boca
habita o mundo
é sábado lá fora
foram pisar
o mundo pretendido
por dentro da noite
firma-lo no corpo
aponto passagens
na estrutura de fumaça
acerca da língua
fenda de teus lábios
moldura e porta
lados do espasmo
a forjar a neutrlidade
da taramela
que reúne as madeiras
e tranca o grito em casa
xxxxxxxxxxxxxxxxxxx
e debaixo do dia,
haverá bocas de carne?
qual luz incendeia
a mão dela?
debaixo do dia
chão e desequilíbrio
vivem dentro do sono
em moléstias ideais
ou ausência de joelho
colo batom olhos?
Adriano Menezes (osdiasdeabril@yahoo.com), de São Vicente de Minas, mora em Belo Horizonte. Tem alternado as carreiras de ferroviário e metalúrgico. Poeta e contista. Adriano tem trabalhos divulgados em diversas revistas literárias. Publicou, em parceria com Mário Alex Rosa, o livro Dois Corpos. Em 2004, lançou o livro Os Dias pela Scriptum Livros (scriptum@scriptum.com.br). Prepara a terra para seu primeiro livro de contos
À VISTA
outra isca para o olhar era a via sem ilhas só de vagas linhas até a margem e mais nada. atrás da mesma risca a outra vaga o mar que havia e nada precisa ali naufraga. e a nau a traz mais arisca do que a prévia (o ia-e-vinha que até ali entorpecia vira atrito de correntes sem caminho). assim ia a nau atrás da trilha sem cismar que a travessia seria mais um risco do que nada. e quem fica aquém-mar por afinar a vista ou adiar a fala só silencia às linhas tantas que a nau traga. maré alta ora vazia. e assim a margem assimila muda toda a via a maré a linha as vagas uma a uma.
RUÍDO
Conchas dispersas
pelo mar de muros
ecoam outro outono
O raso das antenas
capta em parábola
a mensagem elíptica
Empoçada no côncavo
a mesma luz rasteira varre-ruas
infiltra-frestas agora transmite
Fora do ar
a tela alterna faixas
crespas ondas tecem
o marulho teledifuso
Coados fatos, feitos e ditos
a concha colada ao ouvido
escoa um silêncio rarefeito
Incide ou-
tonal emite
um sol sem zênite
S.O.S
No arquipélago
extraviados
de um único naufrágio
sem telégrafo
nem correio-garrafa
dispersos sobre areias
sem pregas nem arabescos
ou quaisquer outros códigos
Convergiam
só pelo visto
Longe ele fitava o fundo
de onde uma água antes
ora nuvem chovera muito
distante e aqui
repentino o relâmpago
fez pulsar noturno
o que o dia ofuscou
Insulavam-se
intermirantes
RECINTO
Enquadrado
no esconderijo,
até dissipar-se
a penúltima pisada.
Com faro raso,
rastreia
a menor
ruptura.
Só susto, filtra vultos
por debaixo da porta:
veda trincos e fisgas,
empareda-se.
Ali,
na surdina,
murado,
sob uma
paralisia
fóssil.
Contra o sol
incide de cima
um som invisto:
na pauta
de fios elétricos,
a andorinha arisca
pontua, semibreve,
o azul laminado.
DIANTE DA ESFINGE
De uma voz
tão audível
nada turva
lapida em matéria
líquida a travessia
Remetente
de senhas
(palavras-passe)
antecipa
a cada estreito
o que ainda
indesvendável
Com tato
ela o expede
ao passageiro
em feitio exato
portátil
E por longo
enquanto
vedado
na valise
o enigma
cristalino
Latente
até a água
fender a pedra
SIMONE HOMEM DE MELLO
Simone Homem de Mello (São Paulo, 1969), poeta, tradutora e libretista. Ópera: Orpheus Kristall (composição de Manfred Stahnke, Munique 2002). Tradução: A Perda das Imagens, Peter Handke (São Paulo: Estação Liberdade 2005). Seu livro de poemas Périplos será publicado pelo Ateliê Editorial em 2005. Vive em Berlim.
Uma seleção de poemas de Simone Homem de Mello por Claudio Daniel
À VISTA
outra isca para o olhar era a via sem ilhas só de vagas linhas até a margem e mais nada. atrás da mesma risca a outra vaga o mar que havia e nada precisa ali naufraga. e a nau a traz mais arisca do que a prévia (o ia-e-vinha que até ali entorpecia vira atrito de correntes sem caminho). assim ia a nau atrás da trilha sem cismar que a travessia seria mais um risco do que nada. e quem fica aquém-mar por afinar a vista ou adiar a fala só silencia às linhas tantas que a nau traga. maré alta ora vazia. e assim a margem assimila muda toda a via a maré a linha as vagas uma a uma.
RUÍDO
Conchas dispersas
pelo mar de muros
ecoam outro outono
O raso das antenas
capta em parábola
a mensagem elíptica
Empoçada no côncavo
a mesma luz rasteira varre-ruas
infiltra-frestas agora transmite
Fora do ar
a tela alterna faixas
crespas ondas tecem
o marulho teledifuso
Coados fatos, feitos e ditos
a concha colada ao ouvido
escoa um silêncio rarefeito
Incide ou-
tonal emite
um sol sem zênite
S.O.S
No arquipélago
extraviados
de um único naufrágio
sem telégrafo
nem correio-garrafa
dispersos sobre areias
sem pregas nem arabescos
ou quaisquer outros códigos
Convergiam
só pelo visto
Longe ele fitava o fundo
de onde uma água antes
ora nuvem chovera muito
distante e aqui
repentino o relâmpago
fez pulsar noturno
o que o dia ofuscou
Insulavam-se
intermirantes
RECINTO
Enquadrado
no esconderijo,
até dissipar-se
a penúltima pisada.
Com faro raso,
rastreia
a menor
ruptura.
Só susto, filtra vultos
por debaixo da porta:
veda trincos e fisgas,
empareda-se.
Ali,
na surdina,
murado,
sob uma
paralisia
fóssil.
Contra o sol
incide de cima
um som invisto:
na pauta
de fios elétricos,
a andorinha arisca
pontua, semibreve,
o azul laminado.
DIANTE DA ESFINGE
De uma voz
tão audível
nada turva
lapida em matéria
líquida a travessia
Remetente
de senhas
(palavras-passe)
antecipa
a cada estreito
o que ainda
indesvendável
Com tato
ela o expede
ao passageiro
em feitio exato
portátil
E por longo
enquanto
vedado
na valise
o enigma
cristalino
Latente
até a água
fender a pedra
Simone Homem de Mello (São Paulo, 1969), poeta, tradutora e libretista. Ópera: Orpheus Kristall (composição de Manfred Stahnke, Munique 2002). Tradução: A Perda das Imagens, Peter Handke (São Paulo: Estação Liberdade 2005). Seu livro de poemas Périplos será publicado pelo Ateliê Editorial em 2005. Vive em Berlim.
DE IGUALDADES E DIFERENÇAS
"Quer ser meu amigo?", perguntou
o gurizinho, estranho,
gripado, limpando o ranho
do outro lado do muro
"Mas você é meu vizinho...!", falou
você deste lado,
olhar já desconfiado
"...E também tem ranho duro!"
Mas, que tanto preconceito
com o pobre vizinho gripado!
Tá certo, é meio engraçado...
Mas quem não tem algo de estranho?
Se o pobre menino fanho
pediu para ser seu amigo
Esforço, que há contigo?
O guri é até educado
Pois estando tão gripado
limpou com o braço o ranho
E, higiênico, passou no lado
(depois ele vai tomar banho!)
E apesar dele ser fanho
Parece não conformado
Em viver no mundo só
Pois, de maneira inocente
perguntou logo, de frente
Quase chegando a dar dó:
"Quer ser meu amigo?...
... Posso sair contigo?"
E na garganta, deu nó?
Então, não há nada a temer
Afinal, mais um amigo...
Quem tem algo a perder?
O ARRASTAR DAS HORAS
E este tempo que não passa!,
logo quando estamos com pressa
o relógio nos prega peças
e o ponteiro não quer caminhar
"Mas ainda são três horas!"
e sorridente, o ponteiro se arrasta
de forma lerda e tão lentamente
"E ainda falta pra ir-se embora!"
e lá está o segundeiro, contente,
se transformando em minuteiro,
pois, tão lento é o seu passo,
que quando três segundos se passam ,
parece que demoram meses
e ficamos, eternamento, no dia
primeiro de março.
"Mas, ai, e aquele encontro das nove!,
quando ainda são cinco horas
o relógio não se move...
Já tomei banho, troquei de roupa,
botei perfume, voltei p'ro quarto,
olhei no espelho, escovei os dentes,
e lá está ele, como uma lesma,
sempre na mesma,
e tão lentamente
que dói nos nervos
e dá um frio na barriga da gente!"
TEMORES E COISAS DA GENTE
E os medos são mesmo assim,
esta coisa diferente
e, na barriga da gente
aquele friozinho ruim...
Enquanto nós vamos pensando:
"Só acontece comigo, sim!"
Este medo, esta tonteira
Nas pernas, a tremedeira
Se por um acaso se aproxima
Aquela linda menina
Que atende por Yasmim...
E Yasmim, sorri, faceira,
Enquanto aquele olhar meio enviesado ela lança
"Mas esta menina, Yasmim, de onde tira tanta
segurança?"
"Só falta querer me convidar para um número de dança..."
Mas então, chega a hora da prova
E dá aquele branco geral
"Já nem sei quanto é três mais cinco...
Quem será Pedro Álvares Cabral?"
Com a respiração ofegante, o suor brotando da testa
Consulta o tempo restante
E a prova já vai terminar
Vê os amigos exultantes, saindo, fazendo festa,
E aprontando caçoadas:
"Que prova mais fácil, que grande palhaçada...!
Nem um jumento consegue errar!"
Mas lá está você,
Atordoado,
Não pode nem olhar pro lado
Que a professora é capaz de enxergar
"Não tem jeito, vai mesmo assim!
Deixo tudo em branco, não vou nem chutar!"
Quando então, surge a chance, certeira,
Reluzente, num brilho sem fim,
Coladinha na sua carteira
É seu anjo, Yasmim!
E ela sopra, tão discreta e segura
A resposta da questão um e da número dois
Que você, entre tonto e sabido, pergunta:
"Nós podemos sair depois?"
Yasmim se faz desentendida,
Lhe ajudando a terminar a questão
E você não quer mais nada da vida:
"Posso te dar meu coração?"
Que estranho que são estes medos!,
Você pensa que são mesmo assim
E são muito diferentes
É só questão de controlar aquele
Friozinho que parece não ter fim e insiste
Em morar dentro da
pança da gente...
Para poder ter segurança
E então se dar bem em tudo
Pois, mesmo sendo criança
Você pode mudar o mundo!
OS NÚMEROS, COMO SÃO?
E, de repente, então sozinho
Você lembra com carinho,
Do primeiro número que existe
Recorda que um é um
Não anda com mais nenhum
E parece meio triste...
Por ser assim solitário
Sendo número primário
Importa o que vem depois?
Claro, ainda tem o dois
Que é união de um com um...
E o um se somando assim
Vai gerando, por fim,
Outros números de fato
Pois depois que vem o três,
Juntando mais um, outra vez
É certo que vem o quatro...
Mas os números, que engraçado!
Parecem ter personalidade...
Lembram gente de verdade
O um é aquele magrinho...
E o dois? Um gordo baixinho?
O três é meio mal encarado...
O quatro é um tiozinho humorado!
Mas não vamos esquecer o resto
Pois ainda não está terminado.
Somando o um com quatro
Eis que temos o cinco
E mais um, gerou o seis
Se pararmos para pensar
E os números analisar
Parecem gente outra vez!
O cinco é bem vaidoso,
Acho que por ser número do meio
E o seis, todo temeroso,
Parece estar sempre com receio...
Receio de que o sete,
Chegue todo exibido
E chame aquele seu amigo que vem logo
Depois...
Pois sete mais um é oito
E o oito é meio encorpado
Talvez seja o motivo
Para deixar o seis preocupado.
Mas o seis é bem esperto
De uma maneira que comove
Pois sabe que se plantar bananeira
Vira o número nove!
E o nove, este sim tem motivo
Para sair convencido
Pois chamando o nosso amigo
Do começo da história
Eis que reaparece o número um
Que somando com o nove,
Forma, por fim o dez
Que do alto da montanha
Com seu jeito respeitoso
Nem parece que entre os outros
Ele é o número que ganha!
Noite-gênese, estroboscópica,
relâmpagos parindo escândalos,
de combustíveis águas veio;
noite aracnídea,
espessa escura asquerosa,
produz a cinza embalagem
polinizada ardência
pelo sexo roxo e rosa
vindo áspero no ar;
noite-alvará, indolente incêndio,
ferrão cerrado a respeito em torno,
sem compromisso com nada;
noite-asfalto, tecido esfiapado
por uma motosserra incandescente;
noite-galpão, sobre cujo revestimento
corrosivo interno uterino
fraturas e fendas
industriam falências
no antro da entropia;
boca-fosforescência,
noite afoita, de hábito oca;
noite da beleza poluída;
noite coronária;
noite-escorpiã-viúva-negra,
que peçonha tu cultivas escarlate?
*
WLADIMIR CAZÉ
Copacabana é azul;
Ipanema, verde;
do Arpoador ao Leme,
do posto 6 ao posto 1,
uma ampla avenida atlântica
da areia se ergue ante-oceânica,
barreira contra as águas levantada,
cidade-balneário de prédios na selva,
simbiontes de morro e mar,
manhattanizados bairro e praia,
provida em inglês por alto-falantes,
tráfego aéreo contínuo,
eterno loop de ondas
e edifício multi-humano
sobre o calçadão preto e branco;
do extremo de Duque Caxias
à oposta Ponta da Igreja,
nome de santa peruana,
trazida aonde fica hoje o Forte,
se alastra pela área em torno,
toda ela "princesinha",
majestosa e mendicante,
paralela à "Nossa Senhora",
transversal a ancestrais,
turistas e travestis,
ao modo de samba-enredo.
*
WLADIMIR CAZÉ
AQUI
Meu corpo é o divã
à esquerda deste espelho
quantas roupas
espalhadas no soalho
e a vontade de poder
que por toda parte se vê
aqui não tem mar tem céu
e ficamos claustrófobos
panos de chão irrisórios
do cosmo
ELEFANTE
O ar de tua carne, ar escuro
anoitece pedra e vento.
Corre o enorme dentro de teu corpo
o ar externo
de céus atropelados. O firmamento,
incêndio de pilastras,
não está fora, rui por dentro.
Reverbera no escudo o brilho baço
do túrgido aríete
com que distância e tempo enfureces.
Teu pisar macio, dançarino,
enobrece os ventres frios,
femininos.
A tua volta tudo canta.
Tudo desconhece.
(in Elefante, 2000)
NEGAÇA
Duas coisas que nunca quis
roubar matar
matar até que não
nunca não quis
NESTE AÇOUGUE
quero ser carne de Segunda
BEM-TE-VI
Viste ou não viste
eu é que não agüento mais
(in O corpo fora, 1988)
ÁGUA DO AMOR
Água do amor
que meus olhos não provaram
água louca de um louco amor
que meus lábios secaram
água louca louca água do amor
SENTADO
Dois embrulhos cautelosos
Duas suaves eructações
à sombra do abajur de duas lâmpadas
Os dois amores voaram pela janela
Eu fico aqui nesta poltrona
duas vezes sentado
(in Lago, montanha, 1981)
O RISO AMARELO DO MEDO
Brandindo um espadim
do melhor aço de Toledo
ele irrompeu pela Academia
Cabeças rolam por toda parte
é preciso defender o pão de nosso filhos
respeitar a autoridade
O atualíssimo evangelho dos discursos
diz que um deus nos fez desiguais
ORDENHA
Os dedos flácidos
acompanham trôpegos
o embate da testa
Ordenham esta idéia
e mais aquela outra
espremem bem a teta
Longe o telefone
acorda um latido –
o bastante afinal
para que a córnea escorra
sobre a fronha
(in Passatempo, 1974)
CENA DE OBRA
Sob um céu de rapina operários
trabalham.
Um deles, um negro, o serviço acabado,
lava-se nas águas de um esgoto.
RUA
O sol crestou os olhos de meu irmão
Meu irmão nada vê e voltado sobre si
rói os seus ossos
A alma de meu irmão
não lhe traz sombra
não lhe traz água
Meu irmão não tem alma
Não temos alma
(in Sol dos cegos, 1968)
[Os poemas acima fazem parte de Poemas (1968-2000), poesia reunida de Francisco Alvim, publicada pela Cosac & Naify.]
não há qualquer possibilidade
a mais remota
qualquer possibilidade rota
retorno
porta
as águas se farão nuvens
nuvens se farão mares
e não há a menor possibilidade de que mudem os ares: amo-te
à minha moda torta
intensa
cética
como quem vê o vau e supõe tormentas
como quem se afoga de forma lenta
um suicida fiel
à vida
um vento que bate
à porta
José Carlos Aragão
A Lena Jesus Ponte, com carinho
Toda ruga em minha testa
_ de uam extremidade à outra _
por ser única é uma só
Uma só expressão de velho
Do já-velho inda não-velho.
Maldita essa ruga
Inscrita, hipócrita,
Inaugura o tempo
De idade mais dura,
No centro da testa
Ela, trilha percorrida
Una, sem perplexidades
Diz, falecendo e loquaz,
Como quem brota pra dentro
“Poeta,
desfaça a métrica dialética dos versos...
dê livre acesso à vida de essência e estética lúdicas.”
Você, ponte ígnea do poema
Fez picadas fez atalhos
_ donde fluíram redondilhas
as menores, lágrimas
porém, as maiores, dádivas _
para um poeta ma(d)uro
desaguar, livremente
*Este poema é parte integrante do livro Gerúndio, publicado pela editora 7Letras.
III
(amanheci)
Vestes? Que queres vestir
em dia de luto
ainda que nada tenha morrido.
- Meus vestidos estão
puídos
ou estarei enlouquecendo
como nos dias jovens de cólicas quentes
e cama dolorida?
O batom de hoje foi sangue ontem
e correu entre minhas coxas
com gosto grave
não havia remédio
eu me olhava em outras
nada reconhecia
e não pensava nada
(nem tanto, afinal a velha recolhe nas gavetas da cômoda
as folhas das cartas encardidas).
SOLANGE REBUZZI
NASCEU NO RIO DE JANEIRO EM 1951. PUBLICOU CONTORNOS (1991), CANTO DE SOMBRAS (1997), PÓ DE BORBOLETA (2002) E VESTES E VESTÍGIOS (2002).
há um resíduo de futuro
no vento
fotograma antecipado
montagem de fragmentos
induzindo à cena
como aquela árvore
se curvando
complacente
aos invisíveis pesos
como o mormaço
predizendo chuva
repito
há um canto anterior
a qualquer canto
uma réstia
um eco primeiro
como um som
que ressoa
por dentro
de cada palavra
como todo gesto se desenha
e apaga então novamente
há o revés
o diáfano, o termo
beleza posta e perdida
o desencadeamento
assim como a sede
do vapor
por uma forma
assim como tudo
retorna
à imaginação
por trás da cortina
da memória
SÉRGIO COHN
NASCEU EM SÃO PAULO EM 1974, E ATUALMENTE MORA NO RIO DE JANEIRO. PUBLICOU LÁBIOS DOS AFOGADOS (1999) E HORIZONTE DE EVENTOS (2002).
Derrogo o poema sem janela,
Este, o soturno que ora escrevo
(Poema onde a dor vem em relevo)
Derrogo-o, poema-só-dor,
Pois não pode ser que se proceda
Como um construtor
Que como tal há de criar matéria nova
E no entanto edifica sua cova.
Derrogo, portanto, o poema
Sem janela, que na dor só dor almeja
(Incapaz de perceber: felicidade),
Deixo vir a brisa que acena
Insinuando que a realidade
Há que ser bela, ainda que não seja.
PEDRO AMARAL
NASCEU NO RIO DE JANEIRO EM 1974. PUBLICOU VÍVIDO (1995) E BREVE ENCONTRO (2001).
Ça marche
A Antonio Cicero
Rousseau (Rêveries IV):
Sa marche, plus rapide que celle de mes idées, me forçant presque toujours de parler avant de penser
Não, sua presença
nua, não se dava ainda
nesta incerta sintaxe úmida
de corda e sopro, sua voz
contamina apenas o excesso
do que, de dentro de quem, pelo telefone,
destina-se a apagar tão logo postos
os respectivos ganchos,
a eletricidade suspensa
pelos fios da malha em que a tarde
consome o próprio éter – não,
nem no poema,