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Home > Crème de La Crème
Crème de la Crème
FICÇÕES,
CRÔNICAS E EXPERIMENTALISMOS LITERÁRIOS
Crônicas e Ensaios
Carta da URCC
Caro amigo Augusto Sales, hoje importantíssimo editor do Paralelos, que publicou em livro o único conto literário de minha vida: Neste dia 20 de janeiro, Dia de São Sebastião do Rio de Janeiro, sei que muitos lá de fora vão...
por Gustavo de Almeida
Dos usos e abandonos da literatura
A maioria dos escritores acaba não sendo lembrada, isto é fato. Seja porque sua obra acaba tendo pouco a ver com as questões que a sociedade apresenta no nebuloso futuro, obviamente posterior à obra, seja porque o texto é de...
por Antônio Dutra
Uma coleção de clichês...
Uma coleção de clichês assola e mancha a imagem do carioca. Alguns deles são os de que o carioca não trabalha, passa o dia na praia e não pode ver uma esquina ou um botequim sem parar para conversar com...
por Ruy Castro
Cenas de um velório
Ronald Chevalier, Roniquito. Não me ocorre nenhuma figura do Rio na década de 7o que tenha sido personagem de tantas histórias quanta o Roniquito. Era, por assim dizer, uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hide carioca, em versão atualizada...
por Joaquim Vaz de Carmo
Um Rio que não era Rio
“As páginas aqui reunidas, singelas crônicas do passado, são simples achegas, recordando aspectos das atividades quotidianas, do crescimento da Cidade, da vida da gente que a povoou e formou, de costumes e aparências que o tempo modificou e extinguiu. São...
por Vivaldo Coaracy
Carioca da gema
Carioca, carioca da gema seria aquele que sabe rir de si mesmo. Também por isso, aparenta ser o mais desinibido e alegre dos brasileiros. Que, sabendo rir de si e de um tudo, é homem capaz de se sentar ao...
por João Antonio
Cortázar: Fragmentos de uma biografia
Trechos da Biografia, por Cassiano Viana e Susan Blum. Exclusivo para Paralelos. Certa madrugada, Carol despertou e Julio não estava na cama. O encontrou desmaiado no chão, um mar de sangue, os olhos fechados, a barba vermelha. Em poucos minutos,...
por Susan Blum e Cassiano Viana
Uma breve leitura de Bix Beiderbecke
Se o caro leitor dessas cronópias linhas ainda não leu o conto inacabado de Cortázar, por favor, procure-o imediatamente. Finalmente traduzido, por Cassiano Viana, e lido no Odeon (Cinelândia - Rio de Janeiro) em 12 de julho de 2006,...
por Susan Blum
Nomadismo por necessidade
- O senhor vai levar esta arca? Olho para a cômoda no canto da sala, uma espécie de étager de madeira escura que não combina com o piso claro do apartamento novo. A pergunta da mudança ecoa na minha cabeça...
por Augusto Sales
Como se fosse o primeiro encontro
“Sueño con la novela y es un sueño recurrente y me la entregan fresquita, recién salida de la imprenta, y yo tomo el libro, mi libro, y lo hojeo y lo leo por partes y lo encuentro clarísimo, coherente, inteligente,...
por Cassiano Viana
As unhas vermelhas de papai
A morte sempre esteve perto. Com foice e capa preta, sentada no sofá. Acostumei-me a ela. Muito nova, perdi avós maternos, tios. Aos 13 começou a varredura do núcleo familiar e lá se foi vovó Tanica e um cara que...
por Mônica Oliveira
A falta que ele (já) nos faz
A falta que ele (já) nos faz / A(s) marca(s) / O encontro (não) marcado Eu poderia começar essa crônica de várias maneiras. A falta de certeza de qual seria o melhor começo me fez utilizar o clichê de começar...
por Rafael Rodrigues
Da interrupção, um caminho novo
O que ia fazer ali na hora do recreio, ninguém entendia muito bem. Nem os amigos mais próximos, nem as namoradinhas. Muito menos a freira que tomava conta da biblioteca. No início, o garoto era acanhado. Depois, ganhou intimidade com...
por João Paulo Cuenca
Sobretudo, um livro sobre o amor
“Fernando Sabino, meu amigo, as rosas estão frias E estremeceram nas hastes como uma voz de eternidade” ~ Hélio Pellegrino, em carta-poema, 4 de maio de 1945 Não era meu cronista preferido (pronto, falei!). A verdade é que, entre os...
por Marcelo Moutinho
O homem que morreu menino
Acontece assim: chegado de viagem, você se esforça para ficar a par do que aconteceu nas últimas semanas, e ao invés de descobrir se o dólar subiu o desceu, a colocação do Flamengo no campeonato ou quem venceu as eleições,
descobre que Fernando Sabino morreu. E se sente, estranhamente, mais só.
por Rafael Lima
O sentimento nomeado
Dois tipos de livros influenciam um jovem escritor. O primeiro é o que afeta a sua literatura, o jeito de escrever, o modo como pensar o texto, as facetas da narração. Este caso, que me desculpem os colegas que lêem...
por Flávio Izhaki
Sonho
Segunda-feira, Outubro 11, 2004 SONHO sobrevivente geracao nao se orgulhava menino 81 amigos natacao livros viaduto ligia rancor rancor filho leitura sabia rancor cancer hotel catete aos 12 anos diabo uisque romance paulo dixieland distraido lara cartas fabiana eletronica bem-te-vi...
por Cecilia Giannetti
Um encontro inesperado
Não poderiam ter percurso de vida mais dispare, antagônicos e não teriam nada além da fatídica data a uni-los, se não fosse o escriba aqui querer dizer algo sobre o indizível. Mas, por estranho que seja, ainda não é possível ver o desaparecimento de ambos como uma coisa una, dissociada da outra. Dá-se, então, um inesperado encontro - mesmo que para uns e outros isto se configure heresia.
por Jaime Gonçalves Filho
Parati over
Claudinei Vieira, nosso correspondente na terra da garoa, escreve um texto epistolar para ver se consegue se livrar de sua ressaca literária pós-Flip.
por Claudinei Vieira
Foi bom Parati?
Especial; Cardoso, Flávio Izhaki, Tony Monti, Gustavo de Almeida, Antônio Dutra, Alessandro Garcia, Claudinei Vieira e Marcelo Benvenutti comentam suas diferentes visões de Parati. Parados em frente da Praça da Matriz escolhemos dentre os populares que ali passavam nove transeuntes...
por Augusto Sales
Das Bichices de Sempre
Sabia que em Paraty as estrelas estariam brilhando. Logo no primeiro dia, insone e perdido em meio às pedras que me lembram o calçamento podre de certas praias gaúchas, estes feitos com 300 anos de atraso, encontro Paul Auster distribuindo...
por Marcelo Benvenutti
O ogro de Paraty
Eu e meu amigo Pingüim descemos a serra de São Paulo até Paraty na madrugada de quarta para quinta, dia 8 de julho. Antes que o professor da oficina Veredas da Literatura, me lembro daquela novela da Globo, Vereda Tropical,...
por Marcelo Benvenutti
Um papo e dois sapatos
Cena I Na noite do dia 6 de julho, conversei com uma jovem escritora na saída de um encontro literário na Casa de Cultura Laura Alvim. No primeiro momento nos desculpamos sem jeito pelo movimento dos pés, que insistiam em...
por Solange Rebuzzi
FLIP EXPERIÊNÇA, uma narrativa com PROPOSTA GONZO
Quando a coisa ENGROSSA, só os GROSSO agüentam Saiba que os POSTS seguintes (até O FATÍDICO FIM) foram escritos de maneira a não seguirem SEQÜÊNCIA nem aparentarem PARENTESCO entre si, apesar de, somados nesta ou em QUALQUER ordem, contarem a...
por Cardoso
Trocadilhos não, por favor
Paraty é a cidade-pavê. Explica-se: há mais ou menos 36 anos (minha idade) que não consigo me sentar à mesa do almoço para saborear o delicioso pavê de amendoim (ou de chocolate) sem que um engraçadinho qualquer pergunte "É pavê...
por Gustavo de Almeida
Parati
E chegar no meio da semana e descobrir um bando de homens dormindo no seu quarto, provisoriamente seu, um lendo, dois dormindo e um outro com polegar em riste como dizendo “legal cara” e não querer fazer muito barulho e...
por Antônio Dutra
Eu não fui à FLIP
Foi botar o pé no Rio e as perguntas começaram. E aí, como foi a FLIP? Viu sicrano, viu beltrano? Fez isso, fez aquilo? E não, não, não, não. Talvez tenha sido um aviso quando me atrasei para a palestra...
por Flávio Izhaki
Recuerdos de noites semi-bêbadas em Parati (ou simplesmente Parati paramim)
Em verdade, a primeira coisa que pergunto à moça da pousada Casa do Rio, quando chego em Parati é: “O Augusto já chegou?”. Este é o primeiro questionamento, porque antes sou eu que respondo à pergunta da mesma moça: “Você...
por Alessandro Garcia
Gritos, cerveja, urubu, beija-flor e outras literaturas
Em festa literária no Brasil, só tem escritor. Dos três mil leitores brasileiros, todos escritores, metade esteve em Paraty. Junto com os fãs do Chico Buarque e do Caetano Veloso. Histerias evitando-se às cotoveladas na mesa redonda do Chico. Gritos....
por Tony Monti
13 fotos e algumas letras sobre Paraty
O efeito FLIP passou já na manhã seguinte à chegada - terça-feira de obras, engarrafamentos e realidades. O tempo voltou a correr, o espaço remodelou-se, Paraty se foi. Mas, em algum lugar misterioso, a Tenda dos Autores continua armada,...
por Mariana Newlands
Fantástico, os olhos de bóxer
Discordavam sobre coisas pequenas. Mas nunca tinham brigado de verdade. Até que um dia... Um dia (era domingo) ele ligou a televisão para ver um programa de debate esportivo e ela disse que queria ver o Fantástico. Ele olhou para ela, meio confuso.
por Luís Fernando Verissimo
A chatice do desejo
[do Carapuceiro] Macho | 20-ago Todo "tampa-de-crush" sabe disso: toda ninfeta é antes de tudo uma chata. Junta a ignorância pernóstica da adolescência com a crença em poderes ridículos de sedução. Toda ninfeta é antes de tudo uma chata. Por...
por Xico Sá
Impressões Despretensiosas de um Gaúcho Desgarrado - Parte I
Salvador - Porto Alegre. Um percurso com morte, sexo, black music e carne de sol com o tempo nublado. Benvenutti on the road renderia um filme tosco. Há até fragmentos de vídeos imprestáveis, mas de concreto só a trilogia de crônicas, cujo primeiro trecho é agora publicado.
por Marcelo Benvenutti
Mundo Animal
“Finalmente um lagarto solitário foi encontrado.” Encarou a câmara bem de frente, sua boca esboçava um sorriso de satisfação. Segundos depois, deixou o local e sumiu na mata com velocidade espantosa, o que assustou a equipe da televisão.
por Tony Monti
A poesia no meio da rua, no meio do mar
Notas sobre ritualidade e estética na cultura afro-brasileira O presente texto tem a intenção de assinalar alguns aspectos relativos à elaboração textual que juntamente com o canto, a dança e as representações dramáticas exemplificam um tipo de realização estética inserida...
por Edimilson de Almeida Pereira
PIPI
O pedreiro me contou que estava mudando de profissão. - Vai trabalhar com o quê? - perguntei-lhe. - Vou fundar uma igreja. - Como assim? - Igreja está dando mais dinheiro que pedreiro. Viva o pragmatismo! Preciso aproveitar a onda...
por Luís Giffoni
A poética de vários gumes de Claudia Roquette-Pinto e Elisa Biagini
Abordar a poesia escrita por mulheres assume, ainda hoje, uma certa carga ideológica, pois, se é verdade que historicamente a mulher conseguiu, pouco a pouco – principalmente a partir da segunda metade do século XX – emergir das águas nas...
por Prisca Agustoni
A memória de uma música brega
Andava por Santa Tereza, um pequeno arraial incrustado na capital. Lá, vê-se hábitos antigos, mas também novos costumes. Tem seu lado provinciano e alguns lampejos de cosmopolitismo, como a cidade. Sempre foi assim, desde Drummond, Nava, Renault, dos Anjos que,...
por Pablo Pires
Remédios antigos para males antigos e modernos
Prefiro fofocas, meu amor, à pátria A saúde do brasileiro vai muito bem, obrigado. Os ricos pagam para morrer cheios de tubos. Os pobres morrem como Deus é servido. Mas meu assunto não é a saúde de hoje, e sim...
por Sebastião Nunes
O óbvio ululante e eu
« Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo...
por Márvio dos Anjos
La Denser & Sampa S/A
(La Denser & Company) Verão/2004 Sou escritora e a cidade é meu campo de ação, minha via crucis, meu altar de sacrifícios, e – por mais paradoxal que pareça – ela é meu refúgio e meu esconderijo, minha entidade mais...
por Márcia Denser
O mesmo vento
Uma frente fria trouxe o frio que nosso inverno paulistano deste ano ainda não tinha experimentado. Mesmo assim, encorajados pelos raios de sol que atravessavam as frestas da janela do quarto aquecido, resolvemos ir ao parque engrossar o caldo da...
por Eduardo Carvalho
A verdadeira ‘revolução’ modernista se deu há exatos 80 anos — em 1924
A heterogenética cidade modernista “Há uma história da literatura que se projeta na cidade de São Paulo; e há uma história da cidade de São Paulo que se projeta na literatura” — sentencia Antonio Candido. A cidade de São...
por Mauro Rosso
O Natus Nobilis de Natal
Tenho um amigo que é médico. Trabalha de manhã num posto do SUS, na Cinelândia, e à tarde vai para o consultório em Copacabana, onde cobra uns R$200 pela consulta de meia hora. A sala do posto médico é um cômodo pequeno. Com aperto cabem duas cadeiras, uma mesa com tampo de fórmica e um armário enferrujado, com cadeado, onde (...)
por Miguel Conde
Que espécie de argumento é uma bunda?
Todas as causas que são defendidas por pessoas peladas em parques são erradas. Nenhuma causa certa é defendida por pessoas peladas em parques. Ninguém fica pelado pelo capitalismo, note. Ninguém fica pelado para protestar contra as cotas raciais. Que espécie...
por Alexandre Soares Silva
Verão Literário
Olha aí a novidade. É só um real. Quem vai? Essas são frases mais clássicas do verão carioca. Debaixo do calor saudita das praias, milhares de ambulantes fazem da areia local de comércio. Sob as barracas, consumidores ávidos por...
por Crib Tanaka
Ficções e Fricções
Esquecimento
Lima levantou-se as quinze para as dez. Foi ao banho. Voltou. Na mesa da cozinha procurou o jornal por entre uma chusma de papéis. Revirou daqui, olhou de lá, espremeu os olhos, mas só o encontrou minutos depois, junto ao...
por Luciano Silva
Inspiração
O nariz humano é capaz de detectar até dez mil odores diferentes. As células do cérebro, uma vez destruídas, jamais se recuperam; o tecido capilar que recobre a narina, ao contrário, se regenera em caso de perda, o que garante...
por Barbara Lima
Cenas cariocas
Cena I – Ipanema Vinha só de sunga e chinelo. Desde que se aposentou, fez das manhãs ensolaradas na praia, rotina. Caminhava relaxado depois das partidas de vôlei com os amigos. As poucas centenas de metros da orla até sua...
por Tiago Velasco
Pode subir
Saí da rodoviária e peguei um circular para cruzar o centro e chegar ao Jardim Botânico. Tinha uma única missão na capital fluminense: entrevistar o maior documentarista brasileiro. Nada em mãos, nenhum encontro agendado ou intermédio de conhecidos. Sabia apenas...
por Fernando Masini
o campari de domingo (só ele é assim)
paulette tinha tomado uma decisão firme. quase nunca fazia isso. não gostava de não poder voltar atrás. preferia ter um leque amplo de opções sobrepostas umas às outras, para que pudesse manter um vir-a-ser inesgotável, uma eterna imanência. mas havia...
por Poliana Paiva
Uma Rua para Dois
Eu me chamo São Salvador. Este nome remete a lugares em Portugal, a um bairro em Belo Horizonte e a uma ilha das Bahamas. Diante disso, o que importa mesmo é que tenho idéias, penso e até formulo opiniões sobre...
por Elis Galvão
Yafa (ou a circuncisão tardia de meu tio)
Vencidos os 21 degraus da escada-caracol que leva ao terraço da casa, encontro o que resta da minha família dentro da piscina pré-moldada de fibra de vidro. Mãe, tias e tios – todos nus. Sei desde criança: quando o verão...
por Cecilia Giannetti
Quando mesmo?
O corpo cansado, como quem estivera amarrado em infinitos feixes ou correias ligadas a pesos, invisíveis aos demais passageiros. O torpor ou fadiga fruto não do levantamento de peso, antes causado pelo abrir e sair de portas, o sol transplantado...
por Antônio Dutra
Eu nunca fecharei a porta da geladeira com o pé em Brasília
“...Sessenta e quatro dias sem vê-la. Abri a lista telefônica, A,B, C, cantinas, centros de línguas, cirurgiões- dentistas, companhias aéreas - e o Santo Cristo há muito não ia pra casa, e a Saudade começou a apertar, eu vou embora,...
por André Giusti
Pequeno Burguês
Graças a Deus que eu não sou um pequeno burguês. Obrigado senhor, por me botar no mundo, bem no alto do morro. Nasci incolor e cheirando a samba, a bala perdida, a pó. Hoje, se tenho um diploma e um...
por Cláudio Portella
O cheiro que antecipava o homem
Antes de falar, fedia. Apareceu de alguma dobra no tempo, despertou de uma vala imunda falando como se o dom da palavra lhe tivesse sido apenas momentaneamente devolvido. - É romance? - eu lia Isaac Bashevis Singer, como faço todos...
por Flávio Izhaki
Rosa Noturna
Teresa tinha um pênis de vinte e dois centímetros, contados na régua. o atributo lhe rendia fama nos arredores da praça Paris, onde trabalhava de terça a domingo, das onze as cinco, quarenta reais por uma gozada, sem beijo na...
por Marcelo Moutinho
Meu raio verde
Tradução: Cassiano Viana Porque O raio verde, novela pouco lida de meu mestre e xará, me contou aos nove anos que se olhássemos o pôr-do-sol em um horizonte marinho, se o céu é diáfano e se no último momento não...
por Julio Cortázar
Bix Beiderbecke
O fragmento de conto abaixo, inacabado por Julio Cortázar, inédito em português, ganha tradução de Cassiano Viana, que prepara uma biografia deste grande escritor argentino Sou panamenha e há tempos vivo com Bix. Escrevo e passo para a linha seguinte:...
por Julio Cortázar
O violinista
É com grande honra que o Paralelos apresenta a seus leitores um conto inédito do escritor Menalton Braff. Clique aqui para ler também a resenha do mais novo livro do escritor, "A coleira no pescoço", no blog Paralelos A porta...
por Menalton Braff
2666
Tordesilhas, a série, organizada por Marcelo Barbão, apresenta aos leitores de Paralelos autores latino-americanos em versão bilíngüe Leia a versão traduzida para português por Marcelo Barbão La primera vez que Jean-Claude Pelletier leyó a Benno von Archimboldi fue en la...
por Roberto Bolaño
2666
Tordesilhas, a série, organizada por Marcelo Barbão, apresenta aos leitores de Paralelos autores latino-americanos em versão bilíngüe Leia a versão original em espanhol deste conto A primeira vez que Jean-Claude Pelletier leu Benno von Archimboldi foi no Natal de 1980,...
por Roberto Bolaño
Crônica de uma tarde bêbada
Tenho feito caminhadas pelos arredores da Cruz Vermelha, esmiuçando antigos casarios, sobrados coloniais, a rica e decadente arquitetura do centro da cidade. Uma energia misteriosa no ar cujo significado tento decifrar. Não consigo. Saio de casa à tarde, por volta...
por Miguel do Rosário
69 facadas
O Waldir era um cara chato. Não um chato pequeno que nos faz lembrar um final de semana chuvoso. Nem um chato médio, tipo “dor de dente na hora do casamento”, mas sim um chato de enormes proporções, tipo “sofrer...
por Julio Cesar Corrêa
S.A.C.
Se fosse possível chorar por meio de uma carta, o apelo que esta contém seria ainda mais sincero. Mas vocês não parecem medir o prejuízo que uma acusação como essas pode causar a uma reputação em fase de construção ainda....
por Leandro Salgueirinho
a mesóclise e o gerúndio
mariângela e Jacinto moram juntos há um ano. ela é pesquisadora de conteúdos midiáticos. ele, operador de telemarketing. ela adora uma mesóclise. ele não vive sem um gerúndio. - amor, eu posso estar preparando um chá de camomila pra você...
por Poliana Paiva
Saudades
Era uma vez, duas, três, quatro, até que ele não agüentou mais e deixou o lar. Doce lar por aqueles dias, hoje lembranças. Nunca fiz por mal, o gato caça o rato, e eu, bem, seguindo instintos, feito uma qualquer,...
por André Salviano
Três palavras
Deveria ter dito eu te amo. Conseguiu apenas está ficando tarde e preciso acordar cedo amanhã, tchau. Foi para casa maldizendo-se por todo o caminho. Entrou, tomou banho, jantou, deitou. Pensou. Em como se declarar. Deveria existir uma maneira simples...
por Rafael Rodrigues
A fisionomia de Carmem *
Há coisas que não se escrevem somente com letras marcadas à mão no papel ou na tela do computador. Escrever que retorno àqueles dias não é tudo. Dizer que ali se iniciou um jogo amoroso, mais rico que o aprendido...
por Urariano Mota
Éden
Embarcaram no ônibus e após pagar as passagens, o homem seguiu a mulher até o banco. Ali se postaram lado a lado, impassíveis e sérios, contidos na marcha do veículo. A mulher, posta a salvo na janela, conservava os olhos...
por Herbert Farias
Sair para ver o sol
O relógio me dizia 2:30 da manhã quando eu disse “vou sair para ver o sol”. Não que eu gostasse do sol, mas já fazia algum tempo que eu não o visitava, tirei a carteira do bolso, coloquei sobre a...
por Henrique Rodrigues
Alice 1977-1999
Engraçado pensar que eu bebia e fumava maconha com meus amigos na noite de 7 de janeiro de 77, quando Alice nasceu. Respirava pela primeira vez enquanto eu ria compulsivamente, tentando escapar da mesmice dos dias de colégio. Ria para...
por Dawn
O primo Adê Alves
Como sempre, o primo se encontrava muito bem, cabelo e barba recém-aparados, figurino da última moda, enfim, a aparência cem por cento. “E todo mundo de lá?”, perguntei, curioso. “Todos vão bem, graças a Deus...” E nos transmitia as recomendações...
por A. Zarfeg
A morte do escritor
Por que este constante desejo de suicídio? Este fantasma que me assombra noite e dia?... Este demônio que atormenta meu espírito, clamando pelo fim... Ai, de repente, o desejo de escrever... De por este tormento no papel... De registrar essa...
por Edweine Loureiro
Cinco
Tordesilhas, a série, organizada por Marcelo Barbão, apresenta aos leitores de Paralelos autores latino-americanos em versão bilíngüe Leia a versão traduzida para português por Marcelo Barbão I El viaje, promesa de la travesía, para él no prometía nada. En la...
por Sergio Chejfec
Cinco
Tordesilhas, a série, organizada por Marcelo Barbão, apresenta aos leitores de Paralelos autores latino-americanos em versão bilíngüe Leia a versão original em espanhol deste conto I A viagem, promessa da travessia, para ele não prometia nada. Na primeira folha de...
por Sergio Chejfec
Gustavo na janela
As costas de Alejandra balançavam em uma noite iluminada que estava a ponto de terminar em um abraço e na casinha. As piadas de mal gosto e o riso estrepitoso a meio recostar sobre o muro das escadas, abriam o...
por Leo Felipe Campos
Gustavo desde la ventana
La espalda de Alejandra balanceaba una noche iluminada que estaba a punto de terminar en un abrazo y a la casita. Los chistes de mal gusto y la risa estrepitosa a medio recostar sobre el muro de las escaleras, flanqueaban...
por Leo Felipe Campos
Chiclete
O que aconteceu entre a gente foi muito bom, Sue. Lindo como uma bola de chiclete que cresce sem parar. Foi lindo como uma manhã com sabor de tutti frutti. Você sabe, minha linda: suas bochechas se acendiam com festa...
por Carlos Oriel Wynter Melo
O foguete
José Perez Reyes O soldado caiu ferido com os ossos fraturados por uma metralhadora a poucos metros de uma vala. Entre sombras, preso pela dor, com a quietude de uma árvore derrubada a machadadas. Boca para cima, não sentia suas...
por José Pérez Reyes
Zona de derrubada
Élmer Mendoza Ia matar a mulher. Estava de pé no meio da estrada, paralisada e eu com o Topaz a 80 velocidade máxima 120. Não se movia. Atrás a tarde era um punhal sem morto. Nennhuma dúvida de que era...
por Élmer Mendoza
Bolívar e Moreno
Martín Kohan Com Bisconti, eu tinha combinado isso: se o Gitano virasse em Bolívar, era dele; se seguisse por Moreno, era meu. Isto demonstra perfeitamente que não houve nenhum improviso: o doutor Meneses ficou com muito ódio, por isso disse...
por Martín Kohan
Correndo para o fogo
Luis Humberto Crosthwaite Poderíamos nos encontrar depois de muitos anos. Poderíamos não acreditar. Poderíamos nos abraçar. Poderia convidá-la para conversar. Poderia ser em um café, você me diz. Poderia pedir moca e me sugerir um capuccino. Poderia aceitar e pedir,...
por Luis Humberto Crosthwaite
Dillinger nunca teve uma oportunidade
Efraim Medina Reyes Interior – noite Música do Sex Pistols Me chamam de Rep – diminutivo de réptil – desde sempre. Meço seis pés e peso oitenta quitlos, tenho olhos negros e fundos como buracos de escopeta a ponto de...
por Efraim Medina Reyes
Calafrio
Mónica Bustos A todos aqueles que sofrem por amor à arte em algum lugar desconhecido e desconhecedor. Amalito Luna é o trecho bombardeado entre a Cidade do Senhor Ninguém e o Complexo Urbano do Todo-Podersos. Amalito Luna é o recorrido...
por Monica Bustos
Chicle
Carlos Oriel Wynter Melo Lo nuestro fue hermoso, Sue. Bello como un globo de chicle que crece sin parar. Fue lindo como una mañana con sabor a tuti fruti. Lo sabes, preciosa: tus mejillas se encendían de fiesta y “chewing...
por Carlos Oriel Wynter Melo
La bengala
José Pérez Reyes Herido por esquirlas de metralla, el soldado cayó a pocos metros de una zanja. Entre sombras, a semejanza de un árbol derribado a hachazos, no sentía las piernas. Ignoraba cuán grande era la herida. Sólo un temblor...
por José Pérez Reyes
Zona de derrumbes
Élmer Mendoza Iba a matar a la mujer. Estaba de pie en medio de la carretera, paralizada, y yo con el Topaz a 80 velocidad máxima 120. No sé movía. Atrás la tarde era un puñal sin muerto. Ni duda...
por Élmer Mendoza
Bolívar y Moreno
Martin Kohan Con Biscoti habíamos quedado en eso: si el Gitano doblaba por Bolívar, era suyo; si seguía por Moreno, era mío. Esto demuestra perfectamente que no hubo ningua improvisación: el doctor Meneses fue presa del odio, por eso nos...
por Martín Kohan
Corriendo hacia el fuego
Luis Humberto Crosthwaite Podríamos encontrarnos después de muchos años. Podríamos no creerlo. Podríamos abrazarnos. Podría invitarte a conversar. Podría ser en un café, me dices. Podrías pedir moca y sugerirme un capuchino. Podría hacerte caso y pedir, además, un pan...
por Luis Humberto Crosthwaite
Dillinger jamás tuvo una oportunidad
Efraim Medina Reyes INTERIOR- NOCHE Música de The Sex Pistols Me llaman Rep -diminutivo de reptil – desde que recuerdo. Mido seis pies y peso ochenta kilos, tengo ojos negros y hundidos como agujeros de escopeta a punto de disparar,...
por Efraim Medina Reyes
Repelús
Mónica Bustos A todos aquellos que sufren por amor al arte en algún rincón desconocido y desconocedor. Amalito Luna es el trecho maltrecho entre la Ciudad de Don Nadie y el Complejo Urbano de Todopoderoso. Amalito Luna es el recorrido...
por Monica Bustos
O mundo era um lugar maravilhoso
Tordesilhas, a série, organizada por Marcelo Barbão, apresenta aos leitores de Paralelos autores latino-americanos em versão bilíngüe Leia a versão original em espanhol deste conto As paredes da casa são de adobe, uma mistura de água e terra cozida no...
por Pía Bouzas
El mundo era un lugar maravilloso
Tordesilhas, a série, organizada por Marcelo Barbão, apresenta aos leitores de Paralelos autores latino-americanos em versão bilíngüe Leia a versão em português, traduzida por Marcelo Barbão Las paredes de casa son de adobe, una mezcla de agua y tierra cocida...
por Pía Bouzas
7:30h
Oi, querido. Não sei se estarei por aqui quando acordar, por isso escrevo. Preciso lhe falar sobre as migalhas, as migalhas de pão que deixa sempre na mesa, depois que parte lentamente o café-da-manhã em pedaços iguais. Nunca lhe disse...
por Crib Tanaka
Lugares Encantados
O verão trazia férias, viagens, abraços sem prazo de validade. Tempo de pescar e deixar a língua roxa de tanto comer jabuticaba no pé. As horas eram adivinhadas pelos cheiros da casa: broa de milho recém-saída do forno invadindo quartos,...
por Sabine Marins
C:\Meus Documentos\paralelos3.doc
DIÁLOGO POSSÍVEL, PORÉM INVENTADO: - A Ronize me convidou pra participar de uma edição do Paralelos. - Legal. - Só tem um detalhe: texto confessional. - Vai escrever sobre o quê? - Queria escrever uma história de amor. -...
por Rosana Caiado
Carta ao amigo Fred
Dor delícia, sorte azar, guerra paz, doce azedo... Sem filosofia barata ou kardecismo de segunda, a cada dia creio mais que a vida se equilibra um jogo de compensações e quase nada acontece casualmente. As provações, os enormes entraves, assim...
por Marcelo Moutinho
Serviço de empurrar pedra
É mentira que as histórias que eu sei da minha mãe me foram contadas pelo fantasma do meu pai, é mentira que eu quebrei a janela por vontade de conhecer o som de vidro quando se parte, é mentira que...
por Manoel Carlos Karam
Carta aberta para um amigo além-mar
Caro Chico, li o e-mail que você me mandou mas não tive tempo de respondê-lo antes. Fico feliz em saber que tudo vai bem por aí: os estudos, o trabalho e a mulher. Manda beijo pra Ana. Tenho saudades de...
por João Paulo Cuenca
Grafologia do Gozo
Por trinta segundos fui a pessoa mais feliz do mundo. Um intervalo da realidade, o tempo de recobrar os sentidos e vê-lo sair. Dizem que o cigarro prolonga as sensações e ajuda a mente a guardar detalhes. Mentira. Todo o...
por Eric Novello
Love me or leave me
Quando você bateu a porta e saiu, Chet Baker ainda cantava She Was Too Good to Me. Com você, eu quis. O silencioso fluxo amoroso. Pra você, eu quis dizer as palavras mais belas do mundo, dizer que sou sua,...
por Antônia Pellegrino
Palimpsestos* de amor
Coloca-se etiqueta de preço em tudo, inclusive no amor. Não queria pagar por apenas ser simpático. Cobra-se cordialmente? Há quanto tempo? As dúvidas que tenho diluem-se quando a vejo, mas amontoam-se de volta em caquinhos quando ela se vai. Deixa...
por Ana Beatriz Guerra
Era uma vez um verão
O meu encontro com Marieta durou três meses. Nada era maior do que nós. Quando me esforço para trazer a lembrança daquele tempo, a memória me trai, revelando um sono demorado. Ela transbordava. Ímpetos, urgências, seus passatempos favoritos. Lembro do...
por Fernanda Gentil
Du biest mein
Numa tarde de pombas no céu, sobre o solo arenoso da praça General Osório, uma moça de cabelos ruivos e olhos pequenos tira uma nota amassada do bolso de trás de sua bermuda verde musgo e entrega-a na mão do...
por Jorge Jameson
Na chapa quente
ajoelha aí, corno velho filho da puta, tava colocando o pente na pistola e falando essas merdas pra mim, o crioulo, eu de joelhos cara a cara com ele, e aí o outro, um moleque sarará com esse cabelo bléque,...
por Aldemar Norek
Rio acima
Este ruído das nascentes ao longo dos meus dias. Correm em volta de mim, através dos prados ensoalhados, depois mais perto de mim ainda e em breve terei este ruído dentro de mim, esta nascente no coração e este ruído...
por Jacinto Paz
Formação de quadrilha
1. FORMAÇÃO DE QUADRILHA o feio sem nenhum destaque. obnubilado pela própria falta de características aprazíveis. tinha um bom coração, corrompido pela insignificância. um comportamento inquestionável, corroído pela fome. nenhum parente, nenhum amante, nenhuma possibilidade de prostituição. nenhuma saída à...
por Chico de Paula
O agressor
O edifício ficava na Rua dos Inconfidentes e era ocupado por grandes empresas. Até aquele momento, tudo parecia conspirar a meu favor: havia conseguido o emprego de vigia, sem problemas, não haviam reparado naquele meu, digamos, defeito. E era um...
por J.J.S. Xavier
Eram dois homens correndo
eram dois, dois homens correndo pela rua. dois homens correndo pela rua. eles vinham e passavam por entre os carros, esbarravam nas pessoas, derrubavam pedestres, nunca olhavam para trás. eu vi e eram dois homens. e eles subiram a...
por André Amparo
Verdade de bolso
Ele escondeu a verdade dentro do bolso. E pôs nos olhos o olhar mais apaixonado, como quem coloca lentes de contato verdes. E levou lírios. E disse coisas. E as palavras pareciam novas. Ele sabia que a mulher o amava...
por Sandra Penna
O último a sair apague a luz
- Sou o segundo da fila e estou vendendo o meu lugar. Foi a primeira coisa que ouvi. Já estava há algum tempo na fila. Escolhendo entre o frio da madrugada e as coceiras na bunda, assentada sobre uma calçada...
por Álvaro Andrade Garcia
Eu & eles
The file may be corrupt, in use, or of a type not recognized. O fim espetacular da história do salto do sapo na sopa do príncipe assim desde o princípio admirado no espelho d’água ocasionalmente Punição? Sim, não? Quem são...
por Marcus Nascimento
Inconfidências
- Vai, meu filho, diz a seu pai que não posso viver sem ele. Que tomo calmantes, que continuo apenas do meu lado da cama, que não deixo você dormir comigo para não amassar o pedaço de lençol dele, que...
por Christiane Tassis
A História de São Miguel
Era no meio da floresta, mata fechada, lugar difícil de chegar. A estrada tinha que ser descoberta o tempo todo. O carro vinha. Bravo. Duas rodas na encosta estreita e alta, duas rodas no areião. Estávamos chegando em Panela, cento...
por Altino Filho
Para um roxo dia de sol de fevereiro
Para Jussara Este vazio de amor todos os dias: a cabeça pesada ao meio-dia, a boca amarga, um cheiro de sono e solidão nos cabelos, uma xícara de café bem forte espantando os arcanos da madrugada, e muitos cigarros, as...
por Caio Fernando Abreu
Prelúdio para um conto inédito de Caio Fernando Abreu
A jornalista Jussara Silva escreve um interessante prelúdio para introduzir os leitores a este inédito, guardado durante anos, de Caio Fernando Abreu, um amigo, uma saudade. Caco: Em setembro de 1971, a Zero Hora estava preparando o lançamento de sua...
por Jussara Silva
Boas perguntas
O livro Cabeça de Porco, do antropólogo Luiz Eduardo Soares, do compositor MV Bill e do empresário Celso Athayde lançado em diversas capitais brasileiras, é personagem de diversas discussões – nem tanto pelo texto de Luiz Eduardo, que apesar de...
por Gustavo de Almeida
Intro: Modo de Usar
Os escritores presentes nesta edição foram desafiados a escrever minicontos em no máximo 300 toques. Imagine que dificuldade se falar de lugares, amores, memórias e sentimentos outros em tão poucos caracteres. Como fui provocado a escrever esta introdução nas mesmas...
por Augusto Sales
De violentís
O NOME DA MOÇA Gabriel Ramalho De todas as palavras que conhecia, era o nome da moça a mais impronunciável. Era a ele como um signo proibido, como se a ele não fosse possível dizer-lhe o nome: apenas admirá-la no...
por Vários Autores
Procto
s/t Marcelo "Muta" Ramos Ele não goza de boa saúde: tem impotência sexual. RECORDE Mão Branca O pai perguntou: - O que você será quando crescer? - Proctologista! O tempo passou e o desejo se realizou. O filho atendia celebridades....
por Vários Autores
Pelas pontas
FESTA DE ANIVERSÁRIO Ronize Aline O último brigadeiro. Joãozinho acompanha a bandeja ao longe. As pernas curtas não cobrem a distância. O desejo maior que os bracinhos a balançarem frenéticos. O grito desesperado “é meu” abafado quando longos dedos de...
por Vários Autores
Jogos
PASTANDO COM PANDORA Paulo Toledo Digo que parto, mas parto nuncas. Reparo, neste pasto árido (ver pó dura), um rebanho de lágrimas desgarradas. Rumino-te, na esperança de ordenar, nas tetas do passado, deleites já há muito regurgitados entre as quatro...
por Vários Autores
Des/re/in lações
CACOS E MOSCAS Fatima Fernandes Que mentira você quer agora? Ninguém tirou a mesa e as moscas vieram para ficar. É sempre agosto no seu aniversário. Quando vem sem avisar, não há boas vindas ou despedidas. Você vem, come um...
por Vários Autores
Pedaços e corpos
CESSÃO Denis Pedroso Nos últimos dias eu acordava com uma dor em meus ombros. Percebi que eles estavam saindo do lugar, um pouco a cada manhã. Hoje, acordei e eles tinham caído de mim. Pude ver quando meu corpo se...
por Vários Autores
A dita
s/t André Calazans O homem vaga sem lembranças. Sonhava ? Aborda um estranho, que tenta consolá-lo: “No início é assim, até você entender que não há volta.” Neste instante, desperta. Na escuridão, mal consegue se mexer. Apalpa o bolso e...
por Vários Autores
A Olaia
É uma árvore que eu vejo daqui, da janela do quarto. A avó costumava vê-la, sentada na varanda. Ao fim da tarde, é uma árvore melancólica, segura à terra e ao tempo: anos como folhas a nascerem viçosas e a...
por José Luiz Peixoto
Alguém para correr comigo
* Fragmento * Um cão galopa pelas ruas, e atrás dele corre um rapaz. Uma longa corda une os dois e se embaraça nas pernas das pessoas, que ficam passando de um lado a outro, e se irritam e xingam;...
por David Grossman
Eu sei mas não devia
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma...
por Marina Colassanti
Dez anos
Clarice Lispector - Amanhã faço dez anos. Vou aproveitar bem este meu último dia de nove anos. Pausa, tristeza. - Mamãe, minha alma não tem dez anos. - Quanto tem? - Acho que só uns oito. - Não faz mal,...
por Clarice Lispector
A mulher do taxidermista
Era uma vez uma mulher muito feliz que vivia em sua casa de jardineiras floridas e cortinas de renda. Ela morava em sua casa de jardineiras floridas e cortinas de renda com seu marido, o taxidermista. Eles formavam um par,...
por Bernadette Lyra
Parábolas mágicas
Arcano / O Louco Não conseguia enxergar contornos, apenas distinguia massas de cores, e as somava rapidamente, tentando tirar alguma impressão dos rastros. Como se o centro de comando do corpo fosse nas pernas, ele apenas obedecia ao impulso de...
por Herbert Pablo
Pietra (3 por 4)
Pietra (3 por 4) Como a aranha, sabe o ofício da trama. O artesanato da espera. A elegância do passo — e o sabor da carne do macho no desfecho da foda. Odeia o bandoneón de Piazzola, o cante jondo,...
por Nilo Oliveira
Dicionário Lúdico Brasileiro
André Gonçalves Dicionário Lúdico Brasileiro Sexo: 1. marca de sapatinhos de lã azuis ou cor-de-rosa; 2. aquilo naquilo, naquela ou naqueloutro; 3. espécie de polvo que comumente habita lençóis ou tapetes e pode ter entre 8 e 960 tentáculos; 4....
por André Gonçalves
Escorpião
Bailarinas no salão do palácio. Jóias do Nilo pelos pulsos, pentes de marfim, espelhos de prata. Atena tinha braços cortados num ponteado, uma lâmina afiada rasgou fino e fundo. Ela se feriu pra vestir a armadura de Aquiles, roubada de...
por Andréa del Fuego
História natural
Andréia Delmaschio Achava dificuldades em perceber o óbvio: cobras cegas são notívagas; o orangotango é profundamente solitário; ratos de laboratório vivem em média dois anos; macacos também preferem o isolamento. Até que um dia hospedou no quarto de cima um...
por Andrea Delmaschio
Inimputável
Rodrigo HDL Acabou. Já sabíamos. Mas você me convidou e eu fui. Limitado aos entornos do seu pau eu fodi você. Ou amei você. Indeciso se foder e amar ainda podiam ser sinônimos. Eu fiz sexo com você e você...
por Rodrigo HDL
Será amor?
Tiago Zanoli I Pegou uma faca, sentou-se diante do espelho em seu quarto e ficou a passar suavemente a lâmina sobre o pulso esquerdo. Não se cortava, apenas tocava-se levemente com a lâmina, acariciando a fina pele – pequenas cócegas...
por Tiago Zanoli
Teia
Tatiana Carlotti O corpo na rachadura do espelho. Espelho no teto, motel barato, descascado nas bordas. Ao seu lado, ele ronca. Ronco de urso saciado. Ela, aranha, cabelos espalhados, pernas e braços. O gosto bom na boca e a preguiça...
por Tatiana Carlotti
Trabalho sujo
Janaína Assis Arrancaram-lhe alguns órgãos. Primeiro seu par de olhos azulejo fundo de piscina vazia que você quase mergulhou de cabeça, sem olhar. Pouparam sua pele. Aquela que te deu o calor que você precisou nas noites mais frias de...
por Janaina Assis
A cabra-cega dos corações miseráveis
Carlos Calenti O fone nos ouvidos, segurava-se no cigarro com todas as forças. Devagar tragava a fumaça tão len-ta-men-te que aos poucos até esquecia de tremer, encostado no banco, a cabeça para cima, via a copa da árvore balançar e...
por Carlos Calenti
Cointreau
Wladimir Cazé No centro da cidade amortecido de ócio e frio, de ruas assombradas e zonas de acesso restrito, de gente que parece de plástico, de artesanato ocupando o asfalto, uma menina-moça-mulher se entrega em sacrifício a um cara, um...
por Wladimir Cazé
Luana
Fransueldes de Abreu Luana era assim, meio lua. Certa vez, enfiando a mão na minha calça em pleno estacionamento de um shopping, ela disse, eu te amo. Senti algo trincando em mim, olhei em torno e disse, cuidado, alguém pode...
por Fransueldes Abreu
Premeditações passionais
Ana Beatriz Guerra - A morte deve ser mais doce do que isso. Depois de proferir tais palavras, não teve pena de desperdiçar todo o cartucho de balas no peito dele. Premeditado, premeditadíssimo. Assistiu ao sangue escorrendo, desenhando poças no...
por Ana Beatriz Guerra
Lovecall
- Alô? - Sim. - É do atendimento corações solitários? - Sim, senhor. - Eu desejo uma guria. Tipo baixa, 20 anos, mignon. - Seu endereço? - Meu endereço é Senador Pontes, 415 ap. 1002 - Estamos providenciando. O senhor...
por Mariel F. dos Reis
Boa índole
Uma única vez minha mãe pediu dinheiro na rua. Entalada de vergonha, comigo pela mão, eu que não tinha nem dez anos, foi para o meio da calçada em frente a um desses prédios modernos de escritórios, que naquela época...
por André Giusti
Pervertidos: Aquilo que foi longe demais
[Isso é apenas um ensaio estranho] Das entranhas daquele macho Lilibetha extraiu um asco. Leva aos lábios delgados o cigarro aceso, preso entre os dedos, que era coisa de não se entender. Também o que é inteligível nesta vida se...
por Yuri Bandeira
Sonhos
Sonhava. Acordou. Levanta e pega a xícara deixada ao lado, na cabeceira, para levar à cozinha, ainda com imagens do pesadelo que acabara de ter. Ao tocar o pires que amparava a xícara de chá, percebe os restos rasgados de...
por Tania Barros
Trânsito
Acordei igual a todo dia, cansado. Ao chegar no banheiro, a claridade do sol de verão denunciava o adiantado da hora. Deixei para escovar os dentes embaixo do chuveiro, alternando: assim ora a boca fechada com escova e creme dental,...
por Álvaro Spíndola Jr.
Marlene
Zero a zero 1 Começa Juventus e São Paulo para você que está ligado na Globo: Antes do jogo começar, ele já me aporrinhava. – Marlene, cadê a cerveja que eu coloquei no congelador? Tirei a cerveja para acomodar o...
por Érica Montenegro
As hárpias têm sede
TELEOFOBIA Não tem remédio: sofro de teleofobia. Procurei nos dicionários, aprendi os rudimentos do grego clássico para poder exercer com legitimidade este pânico que me afoga desde que fui criado. Não seria tanatofobia?, dirá você. Nanananinha, isto está muito além...
por Nelson Moraes
Tragédia IV
I ‘Vamos colocar da seguinte maneira: odeio sangue, mas nem por isso evito derramá-lo. O sangue dos outros, diga-se de passagem’. A Carmem vivia a falar essas coisas, assustando as pessoas, mas não tinha coragem de matar nem um mosquito....
por Edson Fukuda
A queda
Matilde atirou-se pela janela sem se despedir. Deixou apenas marcas de pé na parede, a ingrata. Um tipo de atitude impulsiva bem característico dela, que costumava transitar do amor ao ódio com a mesma facilidade com que se alterna de...
por Marcelo Bortoloti
Que se foda o homem do Gol a ar 86
Não há apologia à vigarice. O que aconteceu foi o seguinte. Eu estava sentado com a máquina de escrever nas pernas. A cerveja na mão. A fumaça do cigarro saindo do cinzeiro. Deliberadamente falso e feliz por um tropel de...
por Jefferson Alves de Lima
Deslizantes
(aos que descem) ... o novelo, o caracol, a minhoca e o piolho de cobra. entrei naquele carro recém-chegado. entrei no bar. entrei na onda. e desci pela escada-curta onde uma só pessoa cabia (descendo ou subindo). ao mesmo tempo...
por Tamara Costa
Omnia Vanitas
Como disse Ivã, assim que atingir os meus trinta anos, quebrarei a taça. Mas e os brotos tenros, os túmulos queridos, o céu azul, a mulher amada? Como viverás, qual será teu amor por eles? Exclamou Aliócha. Ora bolas! Vaidade!...
por Rodrigo Novaes
Jane
Num sábado à noite ela liga em minha casa. Eu estava no banho. -- Você não vai ligar pra essa maluca! Não sei porque minha mãe me deu o recado se não quisesse que eu ligasse pra ela. Era sábado...
por Thiago Capanema
Summertime soy loco por ti, america autocrítica
summertime , crespusculando nossos olhos como, com sax e cores, vermelhos d´Ella, cantando gemendo assoprando poesia nos nossos ouvidos, lívidos, saturninos de nada que pairavam nos tons bons da voz vadiando vazio gostoso presente lindamente terminável na tarde no vento...
por Leonardo Barbosa Rossato
Marcelo Moutinho em 300 toques
Paralelos separa para o leitor quatro contos em 300 toques que fazem parte do livro a ser lançado em outubro deste ano Perspectiva Hoje já não é tão bela aquela flor que descobri no jardim, suspensa como um instante. Nada...
por Marcelo Moutinho
Fricções e pequenas obsessões cotidianas
Das fricções e pequenas obsessões cotidianas Potência por Caco Belmonte Chegou mais cedo e viu o carro do marido estacionado na garagem. Procurou dentro de casa, não encontrou ninguém. Ouviu barulho lá fora, no quartinho da empregada. Escutou tudo atrás...
por Vários Autores
Linhas de memória, tempo e sonhos
Das linhas de memória, do tempo e do sonho Breve pensamento por Débora Monnerat Palavras surgem na mente. Pensamento, sentimento e ação. Todos se comunicam, sem percerber a real dimensão deste ato. Idéias vagas, com direção certa percorrem as vielas...
por Vários Autores
Sangue, suor e lágrimas
Do sangue, suor e lágrimas (Sem título) por Tony Monti Golpe único e preciso. Nenhuma chance de fuga. Animal morto, esmagou a cabeça com duas marretadas adicionais. Um globo ocular rolou silencioso no soalho. Lamentou não ter destruído a cabeça...
por Vários Autores
Quatro mulheres virtuosas
Conheça quatro bons partidos literários: Isabella Rodrigues, Marcele Fernandes, Maria Alice Mansur e Renata Magdaleno. Diferentes na temática, geografia e estilo, elas se completam formando um interessante painel feminino.
por Augusto Sales
Rosas
Rosas rosas Aflição. Ela nunca tinha visto ninguém embrulhar rosas daquele jeito claustrofóbico. Rosas de verdade, rosas rosas. As amarelas lhe lembravam hospitais - além de ganharem um ar patriótico patético com os caules e as folhas verdes. As vermelhas...
por Marcele Fernandes
Uma história de contas vermelhas
Ela usava o cabelo em coque e acho que isso era norma do lugar, porque um dia resolvi olhar para as outras garçonetes e vi que todas tinham o mesmo penteado. Mas nela, uns fios de cabelo se rebelavam. Não...
por Renata Magdaleno
Auto-punição
Tinha esse estranho hábito de se punir comendo os dedos. Era tal a avidez com que devorava as pelinhas incômodas, como sugava, com prazer, o sangue que jorrava, numa dentada mais arriscada. Sentinela implacável de si mesma, não se permitia...
por Maria Alice Mansur
Padaria
- Deixa ver o que tem aí. Inocência não tinha nada que inventar de ir comprar tubaína na padaria logo numa hora daquelas. As mãos tremeram com o pedido, ao mesmo tempo em que seguraram a bolsa -Tem o que...
por Izabela Domingues
Ao homem que não me quis (inédito)
Uma vez eu me casei. Rui foi meu único e ótimo marido. Ele era um homem muito bonito que nunca me traiu. Casamos ambos virgens e católicos. Reclamava um pouco dos colarinhos encardidos e do vinco torto nas suas calças,...
por Ivana Arruda Leite
Receita para comer o homem amado
Pegue o homem que te maltrata, estenda-o sobre a tábua de bife e comece a sová-lo pelas costas. Depois pique bem picadinho e jogue na gordura quente. Acrescente os olhos e a cebola. Mexa devagar até tudo ficar dourado. A...
por Ivana Arruda Leite
Raquel Hannerman (inédito)
Raquel cumprimentou o porteiro do prédio e saiu a pé como faz todo dia, nesse mesmo horário. Num vestido elegante e discreto, a senhora de cabelos brancos foi em direção à padaria. A melhor do bairro. Lá chegando, encostou-se no...
por Ivana Arruda Leite
A caixa vazia
A verdade é que, afogados neste aquário, Ofélia e eu andamos de um lado pro outro há vinte anos à espera da morte. Bibelôs, panelas, artigos de limpeza, calcinha pendurada no Box, e modess sujo ao lado da privada. O...
por Ivana Arruda Leite
Estela Dalva
Eis aí toda a verdade. Talvez ela diminua seu sofrimento. Talvez aumente. Mal terminei de escrever a primeira frase e o relógio da parede, quieto e morto há muitos anos, estatelou-se no chão. Interpretei como um aviso. Nunca tive coragem...
por Ivana Arruda Leite
A criatura do ventre nu
... Flávio Guimarães acordou no dia seguinte às quatro horas da tarde. Depois de um banho tépido e perfumado, vestiu o seu quimono de seda, fez uma ligeira refeição regada a água mineral, acendeu o cachimbo e pôs-se, então, a...
por Benjamim Costallat
O clube dos minuciosos
Oito de janeiro, daqui a exato um mês será terça-feira de carnaval. “Tu ainda tem aquela fantasia?”, ela perguntou amistosa anteontem quando nos encontramos por acaso no açougue do Mercado Público e, no instante em que sentiu meu bafo de...
por Paulo Scott
Uma bobagem como essa
Arranjou um caso na semana do carnaval. (Recorreu a duas ou três palavras. Nenhuma parecia salvá-lo do silêncio daquela figura sentada à sua frente. O silêncio com sua comunicação se encarregava em transmitir seus impulsos através dos gestos da mulher,...
por Mariel F. dos Reis
Sexta-feira de cinzas
“Seria essa alegria uma farpa?” ~ Mara Coradello Entre os velhos gordos travestidos com os vestidos das próprias mulheres, o palhaço errante com a lata de cerveja na mão, a moça que beijava o rapaz de modo tão sôfrego quanto...
por Marcelo Moutinho
Os poderes de Grayskull
- Você tá gostando, amor? - O quê? Fala mais alto! Essa merda de música tá me deixando surdo! - Perguntei se você tá curtindo a festa! - Curtindo? Eu odeio carnaval! Acho que já engoli meio quilo de...
por Fransueldes Abreu
Dois dedos de prosa
Costumo optar pelas ruas verdes da cidade. Trazem boas lembranças, impressão de tranqüilidade e falso ar de segurança para quem dirige estressado e atrasado no trânsito do Rio. Está certo! Fevereiro ninguém se estressa. Todos sabem que janeiro é mês...
por Eric Novello
Alegria geral
Lembre-se de Cunhantã. É uma cidade Não Lembre-se de Cunhantã. É um povoado, uma vila, um conjunto merrequento de barracas reunidas quase que por acaso em um mesmo espaço físico, localizada no mais profundo do interior da Amazônia, longe da...
por Claudinei Vieira
Máscara Negra
Bandeira branca, amor; não posso mais. Pela saudade que me invade eu peço paz. Paz, paz, paz é o que peço. Nada além, não adianta forçar... Não é assim que eu gosto de gostar das coisas. A idéia de que...
por Beatriz Brenner
Domingo de Carnaval
A recomendação que trazia consigo não lhe caíra como um encargo. Ao contrário; parecia o anúncio de um patamar de uma glória que até aquele momento lhe seguia modesta. Exagerava, exagerava por certo. Contribuía para jornais, criticava peças, fazia algumas...
por Antônio Dutra
Surdo
Escrevi um bilhete pro Cícero pedindo que ele viesse o mais rápido possível. Falei pro Décio: só entrega na mão dele, pra ninguém mais. Acordei com uma dor de barriga danada, passei a noite na privada. Até pra escrever o...
por Ivana Arruda Leite
Carnaval
Você escolhe a fantasia para o carnaval. Pode ser a camiseta do bloco. Pode ser alguma coisa com um brilho de avenida. Pode ser só o ânimo da rua. Pode ser o eco do salão. Pode ser inclusive o seu...
por Adriana Lisboa
Crônica antiga ou Nos passos daquele animalzinho
Nem a chama do Espírito Santo, nem a chuva dos trópicos que também vem do céu: dizem que um punhado descolorido de confetes foi tudo que caiu sobre a cabeça do meu avô paterno, assim que ele desembarcou (bem moço...
por Antonio Fernando Borges
Um aprendizado inútil
Num dia no início de fevereiro, Jerônimo Matias entrou no restaurante onde almoçava diariamente desde que conseguira o emprego de revisor numa editora de títulos jurídicos, dois anos atrás, para dizer a um dos garçons, de quem havia há pouco...
por Miguel Conde
Carnavalha
“Ô jardineira por que estás tão triste /o que foi que aconteceu?”. Uma enorme massa disforme se revolvia no pequeno sofá-cama. Sábado de carnaval, dez da manhã. E aquele ectoplasma (coincidência ou não, a tv estava ligada justamente no desenho...
por Cláudio Portella
A máscara
Todo cuidado é pouco com essa máscara, viu, Vi? Não, sua boba, empresto com prazer porque você sabe que é a minha neta preferida, e além disso tem outras coisas, sinto um arrepio só de imaginar que a minha máscara...
por Sergio Rodrigues
Louco por Carnaval
Abri uma porta e uma mulher desconhecida me beijava. Na anterior, era um animal enorme que se atracava em mim numa luta, beijo, curra, quem sabe? Na próxima porta eu era uma mulher, um tanto feia, vá lá, mas muito...
por Micheliny Verunschk
Ainda era carnaval
Quase todas as tardes de verão escondia-se ali, no armário, abandonado naquela casa vazia, e não contava a ninguém. A treva acolhia com satisfação o sorriso refestelado de quem, nas sombras, procura um amigo. Aquele espaço não queria dividir, tão...
por Marcelo Alves
A filha de Bakhtin
Erínia descia a Rua do Meio acompanhada por um séqüito de figuras deslocadas. Pensavam encontrar em Ouro Preto o ambiente idílico com que sonhavam para o descanso do turbilhão paulistano. Em vão. Os amigos cariocas propositadamente indicaram a cidade mineira...
por Henrique Rodrigues
Quero lhe dizer um dia
Quero lhe dizer um dia Tudo o que um dia eu não falei ~ Nando Carneiro/Geraldo Carneiro Bem que ela podia ter me dito. Eu tentei. Ele não ia ouvir mesmo. Não foi culpa minha. Acontece. Não foi bem isto...
por Maria Alzira Brum Lemos
Entenda
Danilo Portella exercita uma construção de prosa concreta em mini-conto para quem tem fôlego de mergulhador.
por Danilo Portela
Neste exato momento
Neste exato momento, há um outro mundo. Paralelo e análogo, outro mundo avesso deste. Desenho: Na idéia de Deus, há eu e há você. Na idéia de Deus, há tudo o que há no mundo, e o que houve antes,...
por Andre Laurentino
Um negro, uma branca – terceira parte
A cigarra toca há quase três minutos. Oito vezes o polegar intercalou sobre a minuteria, esgoelando a mola do botão até a luz do corredor voltar. Helena teima. A porta do apartamento ao lado abre, sai uma senhora de chambre...
por Paulo Scott
(In)Versões
“O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias.”(João Ubaldo Ribeiro) Olinto tem 93 anos. Cabelos brancos, nariz adunco, olhos de um azul desbotado, bochechas vermelhas e cabeça tão baixa que quase chega a formar um...
por Ana Claudia Calomeni
Reflexo e outras pequenas histórias
REFLEXO Galinhou o quanto pôde, solteiro, casado. Eu, à espreita. Mijou fora do penico, levou um chute da mulher, foi descartado. Eu, à espreita. Continuou na galinhagem, mal olhava para mim, e quando olhava não me via. Pensei em rodar...
por Ana Flores
Álcool & Nicotina
Mário e Marion namoraram dois anos antes de se casar. Moravam em Niterói, trabalhavam no Rio. Ele no Museu da Imagem e do Som, ela no Histórico Nacional. As afinidades começaram aí, pelos museus. Depois descobriram outras, dormir de bruços,...
por André Giusti
Eletrocardiograma urbano
Bom caminhar pelo centro em feriado, como a escultura o pedestre, é do Weissmann? no Largo da Carioca, corroída, em ferro, toda vez a mesma sensação, corroído, e o mesmo mover de pernas. Ela imóvel e meu movimento de pernas,...
por Antônio Dutra
Sobre memória
I Acordei desmemoriado de meu próprio corpo. Os olhos, entreabertos como a porta do quarto. Por mais que os fechasse, impossível recordar o próprio rosto. Sem a certeza de haver braços e pernas, preferi não correr riscos: permaneci deitado, imóvel....
por Erly Vieira Jr.
Première
Na época em que o Cassino da Urca ainda era cassino e a Tv Tupi ainda nem tinha ouvido falar nesse invento revolucionário, Décio já era um admirador das telas grandes. Adquiriu o hábito com o pai, português que saiu...
por Fred Leal
Silvia 20 horas Domingo
Chove-se e frita-se agora no subúrbio. O sol salienta, um cheiro forte de areia chuviscada agrava o abafamento que sinto com o calor, e a água que estala a telha que nem pedra desce pelo cano da calha pra inundar...
por Bruna Beber
Editando um post
Quando amanheci, no meio da madrugada, ela havia me plantado um jardim. Recomendou um passeio “para que você possa se acostumar à falta”. Talvez fosse da luz que falava. Segurei a mão branca, pequena e fria – a contragosto. Mas...
por Barbara Soalheiro
Toda a cidade sob mim
Toda a cidade sob mim. Fecho os olhos, abro os braços e me inclino para frente. Um centímetro para o fim. Me deixo cair. Vôo no sentido contrario do que todos tanto desejam sinto, o ar batendo em meu...
por Paulo F.
A derradeira flor
A luminosidade intensa do sol estala contra a janela, se expande e arrebata os móveis, os lustres e as paredes da sala. O calor se propaga a passos vagarosos, em uma maré de sufocamento. As persianas são diques frágeis, inúteis...
por Rodrigo Gurgel
Final de tarde, Praça do Correio
Para Charles B. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Sônia considerou as razões pelas quais tudo dava errado e concluiu que eram todas. Era assim. Vida besta desde o nascimento. Cota comum de pais recalcados, ignorantes e opressores, namorados...
por Claudinei Vieira
O carro
Era muito difícil saber há quanto tempo eu vivia ali naquele carro. Eram anos e dava para perceber pelas pernas já quase sem movimento. Eu passava dias e semanas e meses sentado no carro. Dirigindo pela cidade, sem destino. Não,...
por Marcelo Barbão
Abraço no espelho
O gato mirando seu reflexo na caixa d’água, querendo se alcançar ainda que se mate, partindo inteiro para esse Outro que o chama. Sem poder de resistência, cedendo à doce maldição dos livres, aí está o velho gato que atende...
por Yara Maria Camillo
Numa noite paulistana
Em uma noite fria, de garoa leve, que apenas deixa úmido o agasalho de lã que ela vestia. E ela sorria apertando de leve os braços, uns contra os outros, buscando se aquecer contra o frio ventinho da noite. A...
por Emanuel Campos
Jabaquara-Tucuruvi
— Você não tem cara de mulher casada. — Não? Tenho de quê? — Tem cara de quem, se por acaso aparecer um aí, se tiver vontade, deixa rolar. — Você fala isso porque brinco assim com o Darlei? Vou...
por Andréa del Fuego
Anéis de fumaça
Sete e trinta da noite. Elis e Tom, meia luz e o riscar do fósforo na caixinha. Cada cigarro tem um sabor diferente, João sempre dizia. Eu fumo um por dia, no mesmo horário, sentada na minha janela (eu moro...
por Tatiana Carlotti
Duzentos e dezessete
O último do Marinelli é ótimo. Estreou na sexta, vou ao cinema no domingo, hoje. Domingo é dia de cinema. É por isso que não tem lugar para estacionar o carro perto da Augusta. Marinelli não passa em shopping. Para...
por Tony Monti
Decomposição
Segunda-feira de manhã. Gretchen Samsa estava em seu carro, plena Marginal Pinheiros, percorrendo os quinze quilômetros que separam sua casa do emprego. Seus olhos estavam inchados. O corpo, dor. E a mente concentrada no tempo que corria rápido e no...
por Fabíola Moura
Corpus Civita
Para ler no metrô. Ou ao som de Marina Lima. A mão que dá sinal para o ônibus. Vê a mão do cobrador. E o pênis do mendigo no canto. Que não olha nos seus olhos. Olhos que miram a...
por Lidiane Soares Rodrigues
Chapa de paradeiro incerto
O curso do rio Tietê foi retificado nas primeiras décadas do século XX. Depois, construíram vias expressas em suas várzeas, antes alagadiças. Atualmente, mais de cinqüenta anos após a intervenção, as margens estão sendo concretadas em encostas de cimento e...
por Bruno Zeni
Amanhã vai ser outro dia
1 Mais uma noite de chuva. A terceira só nesta semana. O movimento anda fraco. Amanhã desce a menstruação. Dias sem trabalhar. O Maguila vai falar um monte na minha orelha. Faz tempo que não me bate. Ameacei ir na...
por Fransueldes Abreu
A bondade de tudo que é puro na vida - Índigo
Uóxintom, o pedreiro do prédio, tocou a campainha. Abri a porta. - Eu preciso ver o seu banheiro. Ele deu três descargas e abriu o chuveiro. Fechou o chuveiro e abriu a pia. Falou que voltava em cinco minutos. Eu...
por Indigo
No fim
E ele chegou bem quietinho. Ia ficar lá sem piar nada se eu não fosse incomodar o escritor. Olhava para as nuvens como quem está curioso. E muito inconformado. Também pudera: ele havia chegado há pouco tempo e tudo aquilo...
por Delfin
O encontro marcado
- Escuta - disse-lhe de súbito o homem, fechando o livro: - Você pode ser que vá para frente, eu não fui. Fique sabendo de uma coisa: eu sou um caso perdido, espero que você não comenta o erro que...
por Fernando Sabino
A casa torta tortinha
Certa vez, uma menina queria fazer o desenho de uma linda casinha. Fez as paredes com linhas retinhas, o chão, o telhado e parou um pouco. Foi beber água na cozinha e, quando voltou, assustou-se. As paredes da casa estavam tortinhas.
por Lenise Resende
Jão com medo
Jão tinha muitos medos, tantos medos que tinha uma coleção deles. Uns grandes outros pequenos, uns escuros, outros claros, uns azuis, outros cinza. Tinha tantos que tinha medo de ter medo.
por Zander Catta Preta
Miopia
Pôs a mão em cima dos olhos, querendo tapar os sentimentos. Medo, angústia. Fim. Há noites, acordava sobressaltado, ofegante. Olhava em volta e tudo parecia cenário de filme, onde nada oferecia medo. Tinha um quarto desses que todo menino de seis anos sonha em ter.
por Crib Tanaka
Para ler o Príncipe
Paralelos publica o resultado da promoção "O Pequeno Príncipe" A Paralelos e a Agir anunciam os leitores premiados com um exemplar comemorativo de "O Pequeno Príncipe", de Antoine Saint-Exupéry. São eles, Dani Sigaud, Danilo Portela e Mariel Reis. Para ganhar...
por Augusto Sales
Edgar em busca do A/Z
1 Encontro Com As Bestas Edgar continua sua caminhada para lugar algum. Turista sem passagem de volta num mundo de analfabetos, logo ele que adora ler. Ele possui num saco poucas letras que podem ajudá-lo, pois as taizinhas são animadas,...
por Dani Sigaud
O lindo pé de manga rosa
Na rua havia um pé enorme de manga. A minha imaginação tomada por pés de feijão e gigantes, o latido do cachorro do quintal do vizinho, valente contra os invasores que profanariam o lindo pé de manga rosa, carregadinha, carregadinha....
por Mariel F. dos Reis
Eu queria...
Júlia, você é uma menina muito legal e muito bonita. Você quer casar comigo quando crescer? Responda sim ou não. Aí eu desenhei dois quadradinhos, um com o sim e o outro com o não, desenhei também uma árvore e um menino de cabelo preto segurando na mão de uma menina de cabelo louro, desenhei dois corações vermelhos que eu sei que ela gosta porque ela desenha muitos corações no caderno dela, aí eu dobrei o papel igual uma carta, escrevi Para Júlia e entreguei a ela na hora do recreio.
por Danilo Portela
Melquíades não tem nada a ver com a história
--- Capítulo 1 --- "NO COMEÇO ERA O INÍCIO" Era uma vez uma floresta encantada... - Peraí, peraí!, interrompente Ênio Eugênio, a primeiro pessoa a aparecer nessa história. - “Opa, hohoho”, continua ele. - “Pára tudo. Floresta encantada? Onde você...
por Nando Pereira e Duda D. Ramos
Ali Alice
O GATO No ato o gato salta. Num átimo atina outro mortal, sete mortais. Cai ótimo. Eriça pêlos E pousa. Lorde, o gato ajeita o casaco, lisamente lambe-alisa a sobrepeliz e passa na maciota... ou salta no assento: almofadado enrolado...
por Jules Rimet
Os sapatos
Numa noite de luar, num depósito de lixo, um gato vagabundo farejava, à procura de algum resto. Subiu numa montanha de sacos e suas unhas afiadas rasgaram um deles. Nada havia ali que pudesse alimentá-lo e logo o gato se afastou, continuando a procura.
por Pedro Bandeira
O toco de lápis
Lá, num fundo de gaveta, dois lápis estavam juntos. Um era novo, bonito, com ponta muito bem feita. Mas o outro – coitadinho! – era triste de se ver. Sua ponta era rombuda, dele só restava um toco, de tanto...
por Pedro Bandeira
Espicha daqui, espicha de lá
Ricardo não gosta de ser chamado de Ricardo. Prefere Rico, “que é nome de garoto da minha idade”, diz ele. Também não gosta de brócolis, de domingos com chuva e sem praia e de irmã menor mexendo na sua coleção do Dragonball.
por Ronize Aline
Os Papaloucos
O primeiro a aparecer na praça foi Giroflex. Baixinho, barrigudo e de cabelos roxos arrepiados no alto da cabeça, Giroflex é o que se poderia chamar de equilibrista do grupo. Assim que chegou em Aconchego empilhou algumas cadeiras, mesas, armários e escadas que estavam na praça central e pôs-se a subir.
por Ronize Aline
O Sol não dorme para sempre
Era uma vez um menino que adorava brincar... brincar com as palavras! “O bolo que o lobo como está igual uma bola”, dizia o menino e depois repetia em forma de círculo. E ia fazendo um caracol com giz no meio do chão da sala, e a mãe quando via gritava: - Apaga, Menino, o chão está encerado!
por Lúcia Fidalgo
Menina - Menino
ai, eu quero comer mais daquele chocolate, tão bom, tão gostoso, minha boca fica doce, faz nham, nham, nham, meleca minha mão, mas eu não ligo, só minha mãe que fica falando vai lavar a mão, menina, mão suja é feio, mas eu consigo desenhar na parede com minha mão toda suja de chocolate, fica tão lindo, só ela que não acha bonito, eu desenhei meu cachorrinho lá na parede de fora, todo marrom, cheio de pelos, ele estava correndo e fazendo au-au-au
por Eliana Pougy
Chapeuzinho Vermelho no século XXI
Era uma vez uma menina chamada Chapeuzinho Vermelho. Ganhou este apelido porque tinha uma predileção por chapéus e capas desta cor. Assim, fosse inverno ou verão, estaria sempre fashion. Num dia de chuva torrencial, a mãe de Chapeuzinho acordou atrasadíssima para o trabalho e, pendurada no celular, arrancou a menina da cama.
por Ana Beatriz Guerra
A insustentável leveza do elefante
Atenção, muita atenção! Eu agora vou falar! Esta é mais uma história de arrepiar. É sobre um elefante, muito gordo, por sinal, que queria emagrecer para se sentir o tal. Então o elefante, que se chamava Blotão, começou a procurar alguma solução.
por Delfin
Expedição do Infante
O menino acorda e sai de casa pela janela. Ainda é madrugada, quatro horas. Muitas estrelas no céu, menino observa. De longe, parecem todas prateadas, mas, subindo no banco do jardim e observando melhor, tonalidades divergem: esverdeadas, encarnadas, amarelas e azuis.
por Paulo Bullar
A roupa da Mariana
Caraca, eu sou louca, cara! Marquei de ir ao cinema com outro cara! Putz! Como é que eu ia imaginar que um dia eu ia ter um amante?! Caraca! E se o Pedro descobrir? Também, quem mandou ele não querer me ver hoje?
por Ana Letícia Leal
Nota Zero
Escrever não vai adiantar nada, droga! Mas tenho que desabafar! Eu não devia estar perdendo tempo com baixo-astral. Amanhã, tenho prova de história - sobre Revolução Francesa-, mas não consigo me concentrar. Com o objetivo de estudar, não fui à praia (hoje é domingo).
por Ana Letícia Leal
Aurora contra o básico
Era o primeiro dia de aula. Aurora e seus pais desceram ao ponto onde a van passaria. Logo a condução chegou e subiu um frio no estômago de Aurora. O pai lhe deu um beijo. Quando a porta do carro...
por Antônia Pellegrino
Para o meu filho de oito anos
(Guia de auto-ajuda para crianças românticas) Meu filho Pode parecer meio maluco Escrever isso tudo Bem antes de te conhecer --- É que você logo vai encontrar uma menina E se sentir como quando chega na sala E tem presente...
por João Paulo Cuenca
Lyman Lewis na Terra dos Reinos
Lyman sempre quis entrar naquela casa estranha, amarela, desbotada, de compridas janelas brancas e uma pequena torre que se elevava um pouco acima do telhado de pedras azul-cinza. Entretanto era um desejo que pensava levar tempo para alcançar. Isto, porque o portão era muito alto e estava sempre fechado com um cadeado.
por Tiago de Melo Andrade
Casacas grenais
Foi ali em volta da Praça Garibaldi, num domingo de 1975, quando o Inter ganhou o Campeonato Brasileiro. As pessoas saíram à rua. As crianças gritavam, com suas bandeirinhas destroncando no ar, requebrando entre pulos. Havia aqueles nove ou dez inseparáveis: a turma da Lobo da Costa.
por Paulo Scott
Meus ossos de estimação
Nunca tive um bicho de estimação. Pelo menos, assim, bicho tradicional, normal etc. e tal. Se todo mundo teve cachorro e teve gato. Eu não. Nenhum rato, nenhum peixe no aquário. Nenhuma tartaruga. Meus bichos eram bichos mortos.
Que saudade! Explico: bichos só ossos. Explico: nasci no alto sertão de Pernambuco. Minha diversão era pedra e perna de passarinho. Verdade.
por Marcelino Freire
O lobo é mau?
A história dos três porquinhos é aquela onde o lobo fica louco para devorar os três porquinhos. Primeiro, o lobo soprou a casa do suíno flautista e, como a casa do porco era de palha, porque o porco era meio preguiçoso e preferia tocar flauta do que fazer uma casa de tijolos, a residência do flautista desabou.
por André Sant'Anna
Alfredo e o Super-Menino-de-Rabo
Alfredo tinha nome de vô. Do seu vô, pai da mãe. Ele não gostava de ter nome-de-vô. Queria ter nome-de-todo-mundo, se chamar Lucas, ou Pedro. Alfredo ainda não sabia que ser um todo-mundo às vezes não é nada legal. Só sabia que não gostava de ser Alfredo e gostava de super heróis. De todos.
por Bárbara Axt
O sexo oposto
Se você tem bochechas, elas vão apertá-las, com suas longas unhas vermelhas. Vão pegar suas bochechas e espremê-las enquanto dizem que você cresceu, ou que já é um homenzinho. Eu me pergunto; o que é um homenzinho? Eu é que não quero nunca ser um homenzinho. Quando eu virar homem, vou ser homem e pronto.
por Indigo
Por um fio
Para o mosquito também a noite é longa, longa e só. ~Kobayashi Issa (1763-1827) As vozes vieram da superfície, distantes, muito além do círculo. Milagre, sonho, já não sabia. Domingo gelado, céu limpo qual alma de virgem. Sete dias por...
por Ariela Boaventura
Devidamente honrados
Tudo o que se pensa ou é afeto ou aversão. ~ Robert Musil A cozinha era uma área completamente devastada por uma explosão nuclear de diminutas proporções: pratos de um vidro translúcido espalhados por toda pia, restos de pizza misturados...
por Yuri Bandeira
Vagas para rapazes
O HOTEL Chegado ao Rio de Janeiro sem referências, e levando no bolso apenas alguns tostões, fui conduzido pelo acaso a me hospedar num hotel de nome Vagas Para Rapazes, no bairro da Glória. Estabelecimento não muito confortável, mas que...
por Marcelo Bortoloti
Just like honey | | | |